Publicados originalmente entre 1895 e 1903, ed. Todavia, trad. Rubens Figueiredo, 2023 e 2025.
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| Gennady Yadiganov |
Nesses dois volumes estão reunidos os contos e as novelas dos últimos anos de vida do autor (que hoje completaria 166 anos), marcados sobretudo pela melancolia do desengano - personagens que, tão logo realizam seus desejos e planos, descobrem-se insatisfeitos e dão-se conta de que querem mesmo é o contrário do que têm. A realidade nunca se mostra conforme o esperado - eis, talvez, a suma da obra de Tchékhov, muito embora fique sempre aberta a possibilidade de que tais frustrações reflitam mais a incapacidade dos personagens de reconhecerem-se realizados e alegrarem-se com isso, do que propriamente a complexidade e imprevisibilidade da realidade.
"No entanto, só o diabo vai saber por que sinto sempre um desgosto, sempre essa falta de alguma coisa, e por que sempre me vem aquela impressão de que estou deitado em um vale no Daguestão, sonhando com um baile. Em suma, a gente nunca está satisfeito com o que tem." (pág. 111 de Os Mujiques)
Expectativas que nunca são realizadas - no trabalho, no amor, na família, na ordem social, na abolição da servidão, na dinâmica dos desejos entre campo e cidade; desilusão é a palavra de ordem - e, com ela, a consciência de que é preciso acreditar em algo para viver, mas nada se mostra consistentemente verdadeiro, genuíno, digno das mais profundas aspirações, e é preciso reinventar ou redescobrir o sentido a cada nova decepção. Como diria Schopenhauer (falecido no ano em que Tchékhov nasceu): "a vida via de regra nada mais é do que uma série de esperanças mal-sucedidas, tentativas fracassadas e enganos reconhecidos tardiamente" (§172a "Parerga e Paralipomena").
1
“À noite, depois da corrida, quando eles se deitavam para dormir, um acordeão caro começava a tocar no pátio da casa dos Jovens e, se havia luar, aquelas notas despertavam na alma alegria e comoção e, então, Ukléievo já não parecia mais ser um buraco.” (pág. 214, Últimos Contos)
“À noite, os monges cantaram de forma harmoniosa (…) Talvez, no outro mundo, na outra vida, recordemos o passado remoto, nossa vida aqui na terra, com esse mesmo sentimento. Quem sabe? O reverendíssimo estava sentado no altar, num lugar escuro. Lágrimas corriam em seu rosto. Ele pensava que havia alcançado tudo que uma pessoa na sua condição podia obter, ele tinha fé, porém, mesmo assim, nem tudo estava claro, algo ainda faltava, ele não queria morrer; continuava com a impressão de que não tinha o mais importante, algo com que sonhara vagamente em outros tempos e, agora, ainda o perturbava a mesma esperança no futuro que ele sentira na infância, na academia e no exterior. § ‘Como estão cantando bem hoje!’, pensou, enquanto ouvia o canto, atentamente. ‘Que beleza!’ ” (pág. 281-282, Os Mujiques)
1) Em dois contos diferentes (e há outros), a mesma situação: a música invade, revela, ilude, inspira, comove, sugere, desilude, consola, empolga, profana, eleva, embriaga, espiritualiza. Adoro quando a maior das artes leva as outras de arrasto. Neste instante mesmo me atrapalho tentando escrever enquanto toca música – e não importa se é Mahler ou Bidê ou Balde, um acordeão ou um coral sacro – tudo se altera diante da música. Não custa voltarmos ao velho Schopenhauer, para quem "o efeito da música é tão mais poderoso e incisivo do que o das outras artes; pois essas somente se referem à sombra, aquela porém à essência" (§52 "O Mundo como Vontade e Representação"). "Em Schopenhauer, pela primeira vez na história da filosofia, a música ocupa o primeiro lugar entre todas as artes. (...) constituindo um meio capaz de propor a libertação do homem", conforme a Introdução do respectivo livro da coleção "Os Pensadores".
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| Stanislav Alexandrovich Miroshnikov |
2
"A travessa era toda margeada por jardins e, junto às cercas, cresciam tílias que, agora, sob o luar, lançavam uma sombra larga, de tal modo que, de um dos lados da travessa, as cercas e os portões afundavam de todo na escuridão; de lá vinham sussurros de mulheres, risos abafados e, baixinho, alguém tocava balalaica. O ar cheirava e tília e feno. O sussurro de pessoas invisíveis e aquele aroma instigavam Láptiev. De súbito, veio a vontade apaixonada de abraçar sua companheira, cobrir de beijos seu rosto, suas mãos, seus ombros, soluçar, cair a seus pés, revelar que ele já a esperava desde muito tempo. Dela vinha um leve cheiro de incenso, quase imperceptível, e aquilo trouxe à memória de Láptiev o tempo em que ele também acreditava em Deus, ia às missas de vésperas e sonhava muito com um amor puro e poético. E, como a moça a seu lado não o amava, ele agora achava que a possibilidade daquela paixão com que sonhara tempos antes estava para sempre perdida." (pág. 14-15, Os Mujiques)
2) O quão feliz é Láptiev, sem o perceber (perceberá, mais adiante no conto, quando for tarde demais). Pensa no infortúnio do que não tem, e não nota que dificilmente pode-se estar mais feliz do que assim, andando no escuro, sentindo o cheiro das árvores e a presença suave e misteriosa de pessoas invisíveis (e da música, de novo), desejando abraçar o mundo ainda que sabendo que o gesto é incompatível com a realidade. Uma das duras verdades da vida é que percebemos tarde demais que já tínhamos mais do que o que nos faltava.
3
"Para que Iúlia Serguéievna não se aborrecesse em sua companhia, era necessário falar." (pág. 17, Os Mujiques)
3) Uma definição simples e direta da infelicidade - um espelho invertido do trecho anterior (do mesmo conto), no qual tudo fala, menos a necessidade de falar.
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| Germashev Mikhail Markianovich |
4
"Já estou começando a esquecer a casa com mezanino e só de vez em quando, nos momentos em que leio ou pinto, de repente, do nada, me vem a lembrança da luz verde na janela, do som dos meus passos dispersando pelo campo, na noite em que voltei para casa apaixonado, esfregando as mãos por causa do frio. E, mais raramente ainda, nos momentos em que a solidão me aflige e eu me sinto triste, me vem uma recordação muito vaga e, pouco a pouco, por algum motivo, começo a ter a impressão de que também estão se lembrando de mim, de que alguém está à minha espera e de que vamos nos encontrar..." (pág. 267, Os Mujiques)
4) O tom desse parágrafo - o penúltimo do conto Uma casa com mezanino -, com a presença evocativa da luz verde avistada à distância, não parece ter inspirado Fitzgerald para O Grande Gatsby?
5
"E enquanto caminhava sem direção, decidiu que, depois de casar, iria cuidar dos trabalhos de casa, tratar os doentes, dar aula para as crianças, faria tudo o que fazem as outras mulheres de seu meio; e aquela constante insatisfação consigo e com os outros, aquela série de erros grosseiros, que se acumulam à nossa frente como uma montanha quando voltamos o olhar para o passado, ela iria considerar como sua vida verdadeira, a vida destinada a ela, e não iria esperar nada melhor... Pois não existe algo melhor! A natureza linda, os sonhos, a música dizem uma coisa, e a realidade da vida, outra. Pelo visto, a felicidade e a verdade só existem em algum lugar fora da vida... É preciso viver, é preciso fundir-se com essa estepe exuberante, infinita e indiferente como a eternidade, com suas flores, seus túmulos em forma de outeiro e sua vastidão, e aí tudo ficará bem..." (pág. 452, Os Mujiques)
5) Sempre o casamento por tédio. Sempre as ilusões. Sempre a dignidade da consciência em conflito com os limites da experiência. Sempre a desilusão com a inteligência e com a arte, que não fazem a vida melhor (nem mesmo a música!). Sempre a expectativa dos outros em conflito com o que realmente se quer. E que dificuldade de se ter expectativas equilibradas, ajustadas com a realidade, sem sentir-se definhar por causa disso! Aos espíritos mais fracos, só resta mesmo a vodca ou uma religiosidade exaltada; aos mais resistentes, porém, guardam-se prodígios inigualáveis, dignos de um Tolstói, de um Dostoiévski, de um Tchékhov.
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| Arkhip Kuindzhi |












