29 janeiro 2026

Notas de leitura – “ÚLTIMOS CONTOS” e “OS MUJIQUES”, de Tchékhov

Publicados originalmente entre 1895 e 1903, ed. Todavia, trad. Rubens Figueiredo, 2023 e 2025.

Gennady Yadiganov

Nesses dois volumes estão reunidos os contos e as novelas dos últimos anos de vida do autor (que hoje completaria 166 anos), marcados sobretudo pela melancolia do desengano - personagens que, tão logo realizam seus desejos e planos, descobrem-se insatisfeitos e dão-se conta de que querem mesmo é o contrário do que têm. A realidade nunca se mostra conforme o esperado - eis, talvez, a suma da obra de Tchékhov, muito embora fique sempre aberta a possibilidade de que tais frustrações reflitam mais a incapacidade dos personagens de reconhecerem-se realizados e alegrarem-se com isso, do que propriamente a complexidade e imprevisibilidade da realidade.

"No entanto, só o diabo vai saber por que sinto sempre um desgosto, sempre essa falta de alguma coisa, e por que sempre me vem aquela impressão de que estou deitado em um vale no Daguestão, sonhando com um baile. Em suma, a gente nunca está satisfeito com o que tem." (pág. 111 de Os Mujiques)

Expectativas que nunca são realizadas - no trabalho, no amor, na família, na ordem social, na abolição da servidão, na dinâmica dos desejos entre campo e cidade; desilusão é a palavra de ordem - e, com ela, a consciência de que é preciso acreditar em algo para viver, mas nada se mostra consistentemente verdadeiro, genuíno, digno das mais profundas aspirações, e é preciso reinventar ou redescobrir o sentido a cada nova decepção. Como diria Schopenhauer (falecido no ano em que Tchékhov nasceu): "a vida via de regra nada mais é do que uma série de esperanças mal-sucedidas, tentativas fracassadas e enganos reconhecidos tardiamente" (§172a "Parerga e Paralipomena").

Oxalá a editora Todavia continue retrocedendo até termos a obra completa dos contos e novelas do aniversariante do dia.



1

“À noite, depois da corrida, quando eles se deitavam para dormir, um acordeão caro começava a tocar no pátio da casa dos Jovens e, se havia luar, aquelas notas despertavam na alma alegria e comoção e, então, Ukléievo já não parecia mais ser um buraco.” (pág. 214, Últimos Contos)

“À noite, os monges cantaram de forma harmoniosa (…) Talvez, no outro mundo, na outra vida, recordemos o passado remoto, nossa vida aqui na terra, com esse mesmo sentimento. Quem sabe? O reverendíssimo estava sentado no altar, num lugar escuro. Lágrimas corriam em seu rosto. Ele pensava que havia alcançado tudo que uma pessoa na sua condição podia obter, ele tinha fé, porém, mesmo assim, nem tudo estava claro, algo ainda faltava, ele não queria morrer; continuava com a impressão de que não tinha o mais importante, algo com que sonhara vagamente em outros tempos e, agora, ainda o perturbava a mesma esperança no futuro que ele sentira na infância, na academia e no exterior. § ‘Como estão cantando bem hoje!’, pensou, enquanto ouvia o canto, atentamente. ‘Que beleza!’ ” (pág. 281-282, Os Mujiques)

1) Em dois contos diferentes (e há outros), a mesma situação: a música invade, revela, ilude, inspira, comove, sugere, desilude, consola, empolga, profana, eleva, embriaga, espiritualiza. Adoro quando a maior das artes leva as outras de arrasto. Neste instante mesmo me atrapalho tentando escrever enquanto toca música – e não importa se é Mahler ou Bidê ou Balde, um acordeão ou um coral sacro – tudo se altera diante da música. Não custa voltarmos ao velho Schopenhauer, para quem "o efeito da música é tão mais poderoso e incisivo do que o das outras artes; pois essas somente se referem à sombra, aquela porém à essência" (§52 "O Mundo como Vontade e Representação"). "Em Schopenhauer, pela primeira vez na história da filosofia, a música ocupa o primeiro lugar entre todas as artes. (...) constituindo um meio capaz de propor a libertação do homem", conforme a Introdução do respectivo livro da coleção "Os Pensadores".

Stanislav Alexandrovich Miroshnikov

2

"A travessa era toda margeada por jardins e, junto às cercas, cresciam tílias que, agora, sob o luar, lançavam uma sombra larga, de tal modo que, de um dos lados da travessa, as cercas e os portões afundavam de todo na escuridão; de lá vinham sussurros de mulheres, risos abafados e, baixinho, alguém tocava balalaica. O ar cheirava e tília e feno. O sussurro de pessoas invisíveis e aquele aroma instigavam Láptiev. De súbito, veio a vontade apaixonada de abraçar sua companheira, cobrir de beijos seu rosto, suas mãos, seus ombros, soluçar, cair a seus pés, revelar que ele já a esperava desde muito tempo. Dela vinha um leve cheiro de incenso, quase imperceptível, e aquilo trouxe à memória de Láptiev o tempo em que ele também acreditava em Deus, ia às missas de vésperas e sonhava muito com um amor puro e poético. E, como a moça a seu lado não o amava, ele agora achava que a possibilidade daquela paixão com que sonhara tempos antes estava para sempre perdida." (pág. 14-15, Os Mujiques)

2) O quão feliz é Láptiev, sem o perceber (perceberá, mais adiante no conto, quando for tarde demais). Pensa no infortúnio do que não tem, e não nota que dificilmente pode-se estar mais feliz do que assim, andando no escuro, sentindo o cheiro das árvores e a presença suave e misteriosa de pessoas invisíveis (e da música, de novo), desejando abraçar o mundo ainda que sabendo que o gesto é incompatível com a realidade. Uma das duras verdades da vida é que percebemos tarde demais que já tínhamos mais do que o que nos faltava.

3

"Para que Iúlia Serguéievna não se aborrecesse em sua companhia, era necessário falar." (pág. 17, Os Mujiques)

3) Uma definição simples e direta da infelicidade - um espelho invertido do trecho anterior (do mesmo conto), no qual tudo fala, menos a necessidade de falar.

Germashev Mikhail Markianovich

4

"Já estou começando a esquecer a casa com mezanino e só de vez em quando, nos momentos em que leio ou pinto, de repente, do nada, me vem a lembrança da luz verde na janela, do som dos meus passos dispersando pelo campo, na noite em que voltei para casa apaixonado, esfregando as mãos por causa do frio. E, mais raramente ainda, nos momentos em que a solidão me aflige e eu me sinto triste, me vem uma recordação muito vaga e, pouco a pouco, por algum motivo, começo a ter a impressão de que também estão se lembrando de mim, de que alguém está à minha espera e de que vamos nos encontrar..." (pág. 267, Os Mujiques)

4) O tom desse parágrafo - o penúltimo do conto Uma casa com mezanino -, com a presença evocativa da luz verde avistada à distância, não parece ter inspirado Fitzgerald para O Grande Gatsby?

5

"E enquanto caminhava sem direção, decidiu que, depois de casar, iria cuidar dos trabalhos de casa, tratar os doentes, dar aula para as crianças, faria tudo o que fazem as outras mulheres de seu meio; e aquela constante insatisfação consigo e com os outros, aquela série de erros grosseiros, que se acumulam à nossa frente como uma montanha quando voltamos o olhar para o passado, ela iria considerar como sua vida verdadeira, a vida destinada a ela, e não iria esperar nada melhor... Pois não existe algo melhor! A natureza linda, os sonhos, a música dizem uma coisa, e a realidade da vida, outra. Pelo visto, a felicidade e a verdade só existem em algum lugar fora da vida... É preciso viver, é preciso fundir-se com essa estepe exuberante, infinita e indiferente como a eternidade, com suas flores, seus túmulos em forma de outeiro e sua vastidão, e aí tudo ficará bem..." (pág. 452, Os Mujiques)

5) Sempre o casamento por tédio. Sempre as ilusões. Sempre a dignidade da consciência em conflito com os limites da experiência. Sempre a desilusão com a inteligência e com a arte, que não fazem a vida melhor (nem mesmo a música!). Sempre a expectativa dos outros em conflito com o que realmente se quer. E que dificuldade de se ter expectativas equilibradas, ajustadas com a realidade, sem sentir-se definhar por causa disso! Aos espíritos mais fracos, só resta mesmo a vodca ou uma religiosidade exaltada; aos mais resistentes, porém, guardam-se prodígios inigualáveis, dignos de um Tolstói, de um Dostoiévski, de um Tchékhov.

Arkhip Kuindzhi

10 janeiro 2026

Meus filmes preferidos de 2025

Lançados nos cinemas de Porto Alegre em 2025, em ordem de preferência.


1º) Dreams (Drømmer, dir. Dag Johan Haugerud)

[visto e revisto na Casa de Cultura Mario Quintana]

Gostei da trilogia inteira do diretor norueguês (que inclui Sex e Love), mas apenas com Dreams fiquei realmente entusiasmado e deslumbrado. O despertar erótico provocado na jovem protagonista a partir da interação entre a leitura de um romance e a presença da bela professora; os vários pontos de vista divergentes que tornam as discussões complexas e sem soluções fáceis; os dilemas envolvendo a escrita, a leitura e a publicação; uma cena tão simples e tão marcante quanto a das folhas em botão se abrindo na água do chá (que de fato me remeteu para o olhar de Kieślowski, cuja trilogia inspirou Haugerud, como vim a saber posteriormente); o uso da ótima trilha sonora original de Anna Berg e Peder Kjellsby; o jogo com a ficção, com as realidades alternativas, com o artifício da narrativa, com a porta que é fechada na cara do espectador, deixando-nos do lado de fora e sem qualquer certeza sobre tudo o que se segue a partir daí.

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2º) Valor Sentimental (Affeksjonsverdi, dir. Joachim Trier)

[visto na Casa de Cultura Mario Quintana]

Flagrei a mim mesmo extremamente decepcionado e comovido com a cena em que a atriz interpretada por Elle Fanning comunica o diretor de que não quer continuar realizando o filme, e que portanto provavelmente não haverá filme. Por que tanta decepção de minha parte, se eu nem simpatizava com o personagem do diretor? Ou eu não queria admitir que simpatizava? Ou minha simpatia é intermediada pelo sentimento do fracasso? Ou eu nem sei definir minha própria simpatia? Não sei - e nem importa, na verdade. Valor Sentimental não é sobre a vida - e sim sobre a vida por trás da vida, sobre a forma que a realidade assume a partir de certa mediação. Todo filme, toda arte, é sobre a vida por trás da vida, nunca sobre a vida mesma, embora a gente acabe esquecendo disso frequentemente (inclusive os seus realizadores). Quando um filme retoma essa percepção com tanta propriedade, sensibilidade, inteligência, ritmo, iluminação - e uma boa dose daquele pathos escandinavo que imprime algo de gélido nos olhos claros da vida - o resultado é brilhante como o alcançado aqui por Trier, conterrâneo de Haugerud. Surpreendente que os dois primeiros postos desta lista sejam ocupados por noruegueses, ambos demonstrando excelência no cultivo dessa vida por trás da vida, que se manifesta propriamente através da arte da ficção.

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3º) Lumière: A Aventura Continua (Lumière: L'aventure Continue, dir. Thierry Frémaux)

[visto na Casa de Cultura Mario Quintana]

O fato de ser uma continuação (de Lumière: A Aventura Começa) pode dar a impressão de ser um filme oportunista, mas não é o caso. Nova coleção de ótimos registros ancestrais da arte cinematográfica costurados por comentários instigantes, que nos restituem plenamente aquilo que temos de mais significativo (e de mais sujeito à banalização): a nossa capacidade de olhar, de observar, de prestar atenção.

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4º) O que a natureza te conta (Geu jayeoni nege mworago han, dir. Hong Sang-soo)

5º) As aventuras de uma francesa na Coréia (Yeohaengjaui Pilyo, dir. Hong Sang-soo)

[vistos na Casa de Cultura Mario Quintana]

Figura carimbada nas minhas listas anuais, Sang-soo marca presença em dobro. Segue me fascinando o modo como concilia trivialidade e mistério existencial, seja nos diálogos, nas situações, nas imagens, na montagem. Talvez a deliberada utilização de foco ligeiramente ruim em O que a natureza te conta seja idiossincrática demais, mas a gente acaba aceitando e até desfrutando dessa imperfeição com um charme meio retrô, meio rebelde.


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6º) Levados pelas marés (Feng liu yi dai, dir. Jia Zhang-ke)

[visto na Casa de Cultura Mario Quintana]

O filme parece flutuar e reverberar na água, como um fluxo melancólico de memórias e de impressões deixadas incompletas. A aura é de decadência, mas o seu olhar vence o tempo e a busca por sentido. É bom que o espectador conheça a obra prévia do diretor e compreenda que se faz uso de um apanhado de "sobras" de filmes anteriores, cobrindo um largo período de tempo. Mas a verdade é que o olhar por trás de cada imagem é tão autêntico que basta para marcar o filme na memória como uma espécie de música, de estado de espírito, de saudade.

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7º) Parthenope (idem, dir. Paolo Sorrentino)

[visto no GNC Moinhos]

Por mais limitado que seja o talento de Sorrentino como cineasta e por mais irritantes que sejam seus cacoetes publicitários, é contagiante a sua capacidade de transmitir o seu entusiasmo, sua paixão, sua devoção mística e existencial à arte e à beleza, nas suas mais variadas formas e manifestações, desde as ancestrais raízes mito-poéticas europeias até a presença inebriante de uma humana com atributos de deusa como Celeste Dalla Porta, passando pela música, pelas artes plásticas, pelas referências literárias, etc. 

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P.S. 1: A verdade é que o grande filme do ano foi Paris, Texas (dir. Wim Wenders, 1984), gloriosamente relançado em versão restaurada, visto e revisto em sessões lotadas na Casa de Cultura Mario Quintana;

P.S. 2: Saúdo a Cinemateca Capitólio por homenagear Lô Borges com a exibição do muito bom documentário Lô Borges - Toda Essa Água (dir. Rodrigo de Oliveira, 2023), e deixo também aqui minha lembrança afetiva ao seu apaixonante legado musical.