Lançados nos cinemas de Porto Alegre em 2025, em ordem de preferência.
1º) Dreams (Drømmer, dir. Dag Johan Haugerud)
[visto e revisto na Casa de Cultura Mario Quintana]
Gostei da trilogia inteira do diretor norueguês (que inclui Sex e Love), mas apenas com Dreams fiquei realmente entusiasmado e deslumbrado. O despertar erótico provocado na jovem protagonista a partir da interação entre a leitura de um romance e a presença da bela professora; os vários pontos de vista divergentes que tornam as discussões complexas e sem soluções fáceis; os dilemas envolvendo a escrita, a leitura e a publicação; uma cena tão simples e tão marcante quanto a das folhas em botão se abrindo na água do chá (que de fato me remeteu para o olhar de Kieślowski, cuja trilogia inspirou Haugerud, como vim a saber posteriormente); o uso da ótima trilha sonora original de Anna Berg e Peder Kjellsby; o jogo com a ficção, com as realidades alternativas, com o artifício da narrativa, com a porta que é fechada na cara do espectador, deixando-nos do lado de fora e sem qualquer certeza sobre tudo o que se segue a partir daí.

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2º) Valor Sentimental (Affeksjonsverdi, dir. Joachim Trier)
[visto na Casa de Cultura Mario Quintana]
Flagrei a mim mesmo extremamente decepcionado e comovido com a cena em que a atriz interpretada por Elle Fanning comunica o diretor de que não quer continuar realizando o filme, e que portanto provavelmente não haverá filme. Por que tanta decepção de minha parte, se eu nem simpatizava com o personagem do diretor? Ou eu não queria admitir que simpatizava? Ou minha simpatia é intermediada pelo sentimento do fracasso? Ou eu nem sei definir minha própria simpatia? Não sei - e nem importa, na verdade. Valor Sentimental não é sobre a vida - e sim sobre a vida por trás da vida, sobre a forma que a realidade assume a partir de certa mediação. Todo filme, toda arte, é sobre a vida por trás da vida, nunca sobre a vida mesma, embora a gente acabe esquecendo disso frequentemente (inclusive os seus realizadores). Quando um filme retoma essa percepção com tanta propriedade, sensibilidade, inteligência, ritmo, iluminação - e uma boa dose daquele pathos escandinavo que imprime algo de gélido nos olhos claros da vida - o resultado é brilhante como o alcançado aqui por Trier, conterrâneo de Haugerud. Surpreendente que os dois primeiros postos desta lista sejam ocupados por noruegueses, ambos demonstrando excelência no cultivo dessa vida por trás da vida, que se manifesta propriamente através da arte da ficção.

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3º) Lumière: A Aventura Continua (Lumière: L'aventure Continue, dir. Thierry Frémaux)
[visto na Casa de Cultura Mario Quintana]
O fato de ser uma continuação (de Lumière: A Aventura Começa) pode dar a impressão de ser um filme oportunista, mas não é o caso. Nova coleção de ótimos registros ancestrais da arte cinematográfica costurados por comentários instigantes, que nos restituem plenamente aquilo que temos de mais significativo (e de mais sujeito à banalização): a nossa capacidade de olhar, de observar, de prestar atenção.

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4º) O que a natureza te conta (Geu jayeoni nege mworago han, dir. Hong Sang-soo)
5º) As aventuras de uma francesa na Coréia (Yeohaengjaui Pilyo, dir. Hong Sang-soo)
[vistos na Casa de Cultura Mario Quintana]
Figura carimbada nas minhas listas anuais, Sang-soo marca presença em dobro. Segue me fascinando o modo como concilia trivialidade e mistério existencial, seja nos diálogos, nas situações, nas imagens, na montagem. Talvez a deliberada utilização de foco ligeiramente ruim em O que a natureza te conta seja idiossincrática demais, mas a gente acaba aceitando e até desfrutando dessa imperfeição com um charme meio retrô, meio rebelde.


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6º) Levados pelas marés (Feng liu yi dai, dir. Jia Zhang-ke)
[visto na Casa de Cultura Mario Quintana]
O filme parece flutuar e reverberar na água, como um fluxo melancólico de memórias e de impressões deixadas incompletas. A aura é de decadência, mas o seu olhar vence o tempo e a busca por sentido. É bom que o espectador conheça a obra prévia do diretor e compreenda que se faz uso de um apanhado de "sobras" de filmes anteriores, cobrindo um largo período de tempo. Mas a verdade é que o olhar por trás de cada imagem é tão autêntico que basta para marcar o filme na memória como uma espécie de música, de estado de espírito, de saudade.

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7º) Parthenope (idem, dir. Paolo Sorrentino)
[visto no GNC Moinhos]
Por mais limitado que seja o talento de Sorrentino como cineasta e por mais irritantes que sejam seus cacoetes publicitários, é contagiante a sua capacidade de transmitir o seu entusiasmo, sua paixão, sua devoção mística e existencial à arte e à beleza, nas suas mais variadas formas e manifestações, desde as ancestrais raízes mito-poéticas europeias até a presença inebriante de uma humana com atributos de deusa como Celeste Dalla Porta, passando pela música, pelas artes plásticas, pelas referências literárias, etc.

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P.S. 1: A verdade é que o grande filme do ano foi Paris, Texas (dir. Wim Wenders, 1984), gloriosamente relançado em versão restaurada, visto e revisto em sessões lotadas na Casa de Cultura Mario Quintana;
P.S. 2: Saúdo a Cinemateca Capitólio por homenagear Lô Borges com a exibição do muito bom documentário Lô Borges - Toda Essa Água (dir. Rodrigo de Oliveira, 2023), e deixo também aqui minha lembrança afetiva ao seu apaixonante legado musical.