segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

10 filmes de 2016

Eis minha seleção de filmes de 2016, com larga vantagem para os três primeiros colocados:

1º) A Academia das Musas (José Luis Guerín)
Praticamente um experimento narrativo que retoma o vigor das tradições mito-poéticas e filosóficas da Europa mediterrânea.


2º) A Luz Entre Oceanos (Derek Cianfrance)
Um melodrama cuja força se encontra, mais do que nas emoções que desperta, no uso de ricas metáforas de cunho religioso. A crítica progressista, entorpecida e insensível neste aspecto, limitou-se a reconhecer as deslumbrantes paisagens à la Turner e Caspar David Friedrich.


3º) 45 Anos (Andrew Haigh)
Ok, o filme é do final de 2015, mas caiu em 2016 para mim. Sóbrio, intimista, sem soluções fáceis. Se é verdade que o final de A Luz Entre Oceanos pode ser considerado uma concessão para as lágrimas açucaradas do grande público, aqui restam as lágrimas amargas de desilusão de Charlotte Rampling, num contraste desconcertante com a doçura romântica de “Smoke Gets In Your Eyes”.


4º) O Vale do Amor (Guillaume Nicloux)
O sentido do filme se revela em paralelo com o sentido da sua trilha sonora – a assombrosa composição “The Unanswered Question”, de Charles Ives –, sondando o mistério da existência a partir do trompete que rompe a placidez das cordas ao introduzir a questão do inefável, seguido pelos demais sopros, progressivamente dissonantes, mal articulando tentativas de respostas, que se tornam cada vez mais incoerentes até que parecem perder completamente o sentido.


5º) Sully (Clint Eastwood)
Numa narrativa impecável, Eastwood parece apontar que, se o Sniper Americano foi o último herói de guerra, Sully é o herói possível em tempos de crise de consciência e de perseguição àqueles que não seguem as cartilhas pré-determinadas.


6º) Cavaleiro de Copas (Terrence Malick)
Como explicar que o mais recente filme de um dos maiores diretores vivos, com um elenco que inclui Christian Bale, Cate Blanchett e Natalie Portman, não seja lançado nos cinemas do Brasil (apenas em meios como o Netflix)? Como bem observou Martim Vasques da Cunha, as narrativas de Malick estão em progressivo processo de implosão, acompanhando o colapso espiritual da modernidade. Se é verdade que isso dificulta a apreciação por parte do grande público – e, novamente, da crítica progressista –, também é verdade que estamos sendo privados de acompanhar no ambiente apropriado das salas de cinema uma das abordagens mais lúcidas e originais do cinema contemporâneo e uma reflexão essencial sobre a condição humana.


7º) Táxi Teerã (Jafar Panahi)
A narrativa apresenta uma proposta experimental semelhante a de A Academia das Musas, mas aqui formando um painel social de Teerã a partir das tribulações cotidianas de seus habitantes. Nos seus melhores momentos, revela um frescor e uma espontaneidade que estimulam nossa capacidade universal de empatia, reforçando, assim, um dos tantos potenciais do cinema – e das narrativas, de modo geral.


8º) Depois da Tempestade (Hirokazu Koreeda)
Algumas das virtudes dos filmes de Koreeda são também fontes de suas fraquezas. Afinal, a contrapartida de abordagens sutis, delicadas, minimalistas, quase desprovidas de páthos, é a de um certo distanciamento entre os personagens e o coração do espectador. Será tão somente o reflexo do distanciamento entre as culturas do ocidente e do extremo-oriente? Seja como for, neste filme o diretor encontrou melhor equilíbrio entre a doçura e a aridez, entre a impassibilidade e a angústia.


9º) Nossa irmã mais nova (Hirokazu Koreeda)
Koreeda, de novo. Se este filme não é tão bem equilibrado quanto o Depois da Tempestade, o encanto que emana das quatro protagonistas é de uma preciosidade rara. Ainda assim, o resultado é, novamente, uma obra um tanto inofensiva, no sentido de não atingir as camadas mais profundas de nossa sensibilidade.


10) Café Society (Woody Allen)
Alguém já disse que gostaria de, após deixar esta vida, reencarnar neste filme. É compreensível, considerando a dignidade e o charme dos personagens – principalmente a adorável mistura de astúcia e decência encarnada em Kristen Stewart. O romantismo desiludido deixa, ao final, um travo meio amargo que salva o filme de se tornar perfunctório.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Dá o que pensar

As palavras de Nietzsche são de 1888, mas o exercício da liberdade interior é atemporal. Saberemos nos responsabilizar por "tarefas demoradas"?

"Nossas instituições não prestam mais: acerca disso somos unânimes. Mas isso não se deve a elas, e sim a nós. Depois que perdemos todos os instintos dos quais brotam instituições, perdemos as próprias instituições porque nós não prestamos mais para elas. O democratismo sempre foi a forma decadente da força organizadora [...] Para que existam instituições, é preciso existir uma espécie de vontade, instinto, imperativo, que seja antiliberal até a maldade: a vontade de tradição, de autoridade, de responsabilidade por séculos, de solidariedade entre séries de gerações para frente e para trás in infinitum. Caso exista essa vontade, se funda algo como o imperium Romanum [...] O Ocidente inteiro não possui mais aqueles instintos dos quais brotam instituições, dos quais brota futuro: talvez nada desagrade tanto ao seu 'espírito moderno'. Vive-se para hoje, vive-se muito depressa – vive-se de modo muito irresponsável: precisamente isso é chamado de 'liberdade'. Aquilo que faz das instituições o que elas são é desprezado, odiado, repudiado: basta ouvirem a palavra 'autoridade' e as pessoas acreditam estar na iminência de uma nova escravidão. [...] Um testemunho é o casamento moderno. É algo evidente que o casamento moderno perdeu toda a racionalidade: o que não constitui uma objeção ao casamento, mas à modernidade. A racionalidade do casamento - ela se encontrava na responsabilidade jurídica exclusiva do marido: assim o casamento tinha um centro de gravidade, enquanto hoje ele manqueja das duas pernas. A racionalidade do casamento - ela se encontrava na sua indissolubilidade por princípio: assim ele tinha uma voz que se sabia fazer escutar frente ao acaso do sentimento, da paixão e do instante. Ela se encontrava igualmente na responsabilidade das famílias pela escolha dos noivos. Com a crescente indulgência em favor do casamento por amor, foi eliminada terminantemente a base do casamento, aquilo que faz dele uma instituição. Em hipótese alguma se funda uma instituição sobre uma idiossincrasia, não se funda o casamento, conforme já foi dito, sobre o 'amor' - ele é fundado sobre o impulso sexual, sobre o impulso de posse (mulher e filho como posse), sobre o impulso de domínio, que organiza duradouramente a menor das formações de domínio, a família, que precisa de filhos e de herdeiros para conservar também fisiologicamente uma medida alcançada de poder, influência e riqueza, para preparar tarefas demoradas, para preparar a solidariedade de instintos entre os séculos. O casamento como instituição já compreende em si a afirmação da maior, da mais duradoura forma de organização: se a própria sociedade como um todo não pode se responsabilizar por si mesma até as mais remotas gerações, o casamento perde qualquer sentido. - O casamento moderno perdeu o seu sentido - logo, ele é abolido."

[Crepúsculo dos Ídolos, p. 111-113, ed. L&PM, trad. Renato Zwick]

"Lady Agnew" - Sargent, 1893

sábado, 5 de março de 2016

A propósito

O embate entre vacas profanas e vacas sagradas está emporcalhando tudo. Com Nietzsche, porémpodemos almejar uma moral que não seja de rebanho:

"Cristão e anarquista. – Quando o anarquista, na condição de porta-voz das camadas declinantes da sociedade, exige "direito", "justiça" e "direitos iguais" com uma bela indignação, apenas se encontra sob a pressão de sua incultura, que não consegue compreender por que realmente ele sofre – do que é pobre, de vida... Ele é dominado por um impulso causal: alguém deve ser culpado por ele estar mal... Só a "bela indignação" já lhe faz bem, vociferar é um prazer para todos os pobres-diabos – isso dá uma pequena embriaguez de poder. Já basta a queixa, o queixar-se, para dar à vida um encanto pelo qual se suporta vivê-la: há uma dose sutil de vingança em toda queixa; a pessoa censura aqueles que são diferentes, como se isso fosse uma injustiça, um privilégio ilícito, por uma situação ruim, às vezes até por sua ruindade. "Se sou canaille, também deverias sê-lo": é com base nessa lógica que se faz revolução. – O queixar-se não vale nada em caso algum: ele provém da fraqueza. Atribuir sua situação ruim a outros ou a si mesmo – a primeira atitude é própria do socialista, a última, do cristão, por exemplo – não faz qualquer verdadeira diferença. O que há em comum, digamos o que há de indigno nisso, é que alguém deva ser culpado por sofrermos – em resumo, que o sofredor prescreva para seu sofrimento o mel da vingança. Os objetos dessa necessidade de vingança, enquanto uma necessidade de prazer, são motivos de ocasião: o sofredor encontra motivos para arrefecer sua pequena vingança em toda parte – se for cristão, repito, ele os encontrará em si... O cristão e o anarquista – ambos são décadents. – Mas também quando o cristão condena, calunia e emporcalha o mundo, ele o faz a partir do mesmo instinto que o trabalhador socialista condena, calunia e emporcalha a sociedade: mesmo o "Juízo Final" ainda é o doce consolo da vingança – a revolução, tal como o trabalhador socialista também a espera, só que imaginada para um futuro mais distante... O próprio "além" – para que um além, se ele não fosse um meio de emporcalhar o aquém?..." 


[Crepúsculo dos Ídolos, p. 102-103, ed. L&PM, trad. Renato Zwick]



foto de Hannah Starkey

domingo, 3 de janeiro de 2016

Breves comentários sobre algumas leituras de ficção

Franny e Zooey (J.D. Salinger)
Salinger invoca Buda, Jesus, o Tao, Chuang-Tzu, a Nuvem do Desconhecimento; mas não deixa de invocar também o consumo em massa, a televisão, as celebridades, a indústria da comunicação, toda a apaixonante banalidade e burburinho do mundo. O gênio de Salinger é capaz de equacionar as grandes questões do espírito humano com as trivialidades da vida mais comezinha - e tudo isso por meio de uma prosa solta, humorada, sagaz, com grande desenvoltura. Permita-se ler, sem esperar nada em troca. Descubra quem é a Senhora Gorda.



O jogo das contas de vidro (Hermann Hesse)
Magistral utopia que dá forma ao sempiterno desejo de integração do indivíduo no Todo, da união mística com o Uno, de atingir o centro Absoluto de toda a variedade e diversidade da cultura humana, conciliando as tradições espirituais do Ocidente e do Oriente. A música, aqui, é a mais sublime das experiências - e Bach soa quase como redentor da humanidade.



O idiota (F. Dostoiévski)
Se a compreensão é uma espécie de milagre, alguém que tão engenhosamente põe em funcionamento o mecanismo da compreensão só pode ser um grande Criador. Foi muito difícil largar "O idiota", porque me afeiçoei aos personagens - e o afeto é fruto da compreensão que se aloja diretamente no peito. Eis de que forma a literatura é um cuidado da alma, uma epifania humanista, um sopro de esperança. Em Dostoiévski, a compreensão se dá pela aceitação de impulsos muito pouco razoáveis, mas plenamente humanos. "O idiota" é também um ensaio sobre a beleza - embora a palavra final seja a da loucura.


Judas (Amós Oz)
O que vai se revelando é a dor remoída no íntimo de cada personagem. A experiência da dor, da perda, do fracasso, da derrota, que cada um carrega consigo e que não poder ser compartilhada com ninguém. Desde a dor lancinante de Jesus na cruz, até os horrores das guerras na Palestina, passando pela figura-chave de Judas desesperado e desiludido, somos estimulados a refletir sobre o inevitável fracasso que faz parte da condição humana. Apesar de tudo, não é um romance pesado. Ocorre apenas que o autor não faz concessões à ideia de que o mundo tem conserto.

Às avessas (Joris-Karl Huysmans)
Este foi o livro que envenenou a alma de Dorian (de "O retrato de Dorian Gray", Oscar Wilde). Trata-se de uma obra fascinante, mas difícil de se gostar. A neurose afetada de Des Esseintes é contaminante. Por mais atroz que isto seja, como deixar de louvar um romance que aniquila a normalidade com tamanha propriedade, com tamanha personalidade, com uma imposição de espírito tão recalcitrante? Não há muitos Dostoiévskis por aí capazes de algo assim. E não há muitos Houellebecqs capazes de se apropriar do seu legado em plena era do politicamente correto.


A Sonata a Kreutzer (L. Tolstói)
O tom exaltado do monólogo, pleno de uma lucidez implacável com auto-ilusões e de uma franqueza radical com a moral humana, remete ao homem do Subsolo de Dostoiévski, bem como aos protagonistas de Houellebecq - para François (de "Submissão"), uma saia curta pode mudar tudo na vida de um homem; para Pózdnichev, o narrador da obra em foco, o que considera-se como amor não passa de uma malha justa no corpo de uma mulher. A principal limitação desta novela é o fato de que quase não há contraponto ao monólogo. De qualquer forma, a discussão que propõe sobre temas como a moral, o amor, o sexo, o prazer, a felicidade, o ego, a beleza, a verdade - e até a música! - é arrebatadora na sua capacidade de relativização e no seu ceticismo com relação à condição humana.

domingo, 11 de outubro de 2015

JE SUIS FRANÇOIS - Resenha crítica de "Submissão" (Michel Houellebecq)


Estamos em Paris, acompanhando a vida um tanto enfastiada de François, professor universitário de literatura que dedicou grande parte da sua produção acadêmica à obra de Joris-Karl Huysmans (1848-1907), a quem considera “um companheiro, um amigo fiel”. De fato, François usufrui da literatura como o contato mais íntimo e profundo com outro ser humano. Se sua devoção à leitura não lhe livra do peso do tédio, ao menos lhe proporciona um sofisticado e intenso universo interior, como bem sabe aquele cujos melhores amigos estão muito vivos em volumes de páginas impressas, ainda que mortos na realidade flagrante e imediata.

Seja como for, a realidade última da condição humana parece ser a mesma com relação aos protagonistas das obras anteriores de Houellebecq: a solidão – agravada, no caso de François, diante da frustração da experiência docente e de relacionamentos amorosos de afetividade muito volátil, que geralmente acabam porque as companheiras haviam “encontrado alguém” – locução contemporânea que trai a negação da responsabilidade, alimentada por um precário fatalismo romântico. Nota-se que daí para a inviabilidade daquilo que se considera família, há apenas um passo – cobrindo, ainda, a amargura e o rancor decorrentes, ampliadas pelo envelhecimento e degradação do corpo. Sob o efeito do cansaço e do desânimo – provocados pelo desejo de evitar qualquer desilusão e decepção – já não é possível sentir-se em condições de manter uma relação amorosa. A lucidez do diagnóstico vem acompanhada de uma importante constatação de François, cuja franqueza é isenta de ironia: uma saia curta pode facilmente mudar a situação, tirando mesmo o mais prostrado homem da inércia. “Para o homem”, reflete François sobre o gênero masculino, “o amor nada mais é que o reconhecimento pelo prazer dado”. Não é tão difícil concordar quanto é admitir que uma felação caprichada pode justificar a vida de um homem. Entretanto, as relações sexuais ocasionais também acabam em desilusão, sinalizando aquele mesmo cansaço e a consequente decadência. Sim, estamos navegando em águas niilistas, mas veremos que isso não esgota o assunto, pois há algo no horizonte; na verdade, esta advertência vale para todos os romances de Houellebecq.

Na época de grande e intensa produção intelectual, François sentia-se justificado. Mas aquilo bastava mesmo para justificar uma vida? “E a troco de que uma vida precisa ser justificada?”, indaga-se François – sinalizando para a sua relação conflituosa com seu próprio niilismo. No que se refere ao seu ícone de referência, depois do seu apogeu com Às avessas Huysmans escapou do impasse percorrendo uma trajetória de conversão católica. François, após o apogeu da sua relação amorosa com a ex-aluna Myriam, vê-se incapaz de amar, incapaz de crer, confrontando-se com o tédio, “à espera da morte” – como constata passivamente, sem drama.

É neste momento que se ergue com toda a força o contexto político das eleições presidenciais de 2022 na França, com a ascensão da Fraternidade Muçulmana, ao mesmo tempo em que estouram confrontos nas ruas, com vítimas fatais, embora com pouca repercussão na mídia. A resignação geral dos franceses é confrontada com a energia de um radicalismo que pretende se impor a partir da destruição – qualquer semelhança com o ISIS, o autoproclamado Estado Islâmico, não será gratuita, como atestam os bem conhecidos incidentes trágicos no dia do lançamento de Submissão. Mas o verdadeiro projeto civilizatório é outro, e se articula através das vias democráticas, principalmente a partir da formação de amplas frentes político-partidárias. Para compreender este processo, é preciso observar que parece haver, entre os europeus, um anseio generalizado por algo que valha a submissão, mas não há nada que o mereça – podemos reconhecer aí os efeitos da decadência generalizada de valores caros ao Ocidente, como a crise de representatividade, a morte de Deus, a erosão familiar, a inconstância do afeto, a desmoralização das instituições – o que é capitalizado a favor do Islã, através de seus princípios, costumes e normas, como casamento por interesse, famílias numerosas e solidárias, divindade exuberante, compromisso moral, engajamento comunitário, entre outros. O contato com o islamismo, no coração da Europa em crise, acentua o impasse, na medida em que os muçulmanos se mostram bem menos vulneráveis à crise de sentido. Nesse contexto, o cultivo de uma religiosidade torna-se inclusive uma “vantagem seletiva”, no sentido de que entre as comunidades monoteístas as taxas de natalidade são maiores, especialmente entre os muçulmanos, em virtude, principalmente, de fatores de matrizes patriarcais – como restrições ao hedonismo, ao individualismo e à liberação feminina.

Uma guerra civil ganha curso. Mas a violência é insustentável, ainda mais diante do sucesso das manobras democráticas, que levam a Fraternidade Muçulmana a vencer as eleições. A partir de um processo de dissolução da oposição esquerda/direita numa ampla frente republicana, implementam-se reformas sociais e econômicas que parecem revigorar a fragilizada autoestima europeia, enquanto a cultura islâmica passa a prosperar no centro do Ocidente, desenvolvendo a tendência de assimilar os Estados-Nações europeus num grande conjunto federal.

Em viagem ao interior da França, a fim de escapar dos traumas provocados pelas mudanças a partir da capital, François se depara com vilarejos e igrejas medievais que reconstroem a história da cristandade, inclusive em suas disputas com o Islã. Em paralelo, corre a recuperação da trajetória de Huysmans, que, em determinado momento da vida, voltou-se à Igreja Católica, tanto pelo fascínio estético, quanto pela fuga das pequenas amolações da vida ordinária, até ser cativado propriamente pelo fervor espiritual. François parece ser atraído para o mesmo caminho – possivelmente, mais pela procura de um modo de manter sob controle seus apetites e desejos, além da busca pela segurança ontológica (pela submissão) – num movimento que se direciona também à reconstituição de uma cristandade europeia, embora agora haja a necessidade de um acordo e de uma aliança com o Islã. No contexto que então se articula, sinaliza-se para o caráter do Islã como o de um “novo humanismo”, reunificador, proclamando sincero respeito pelas três grandes religiões abraâmicas. O verdadeiro alvo a ser combatido a partir da nova configuração sócio-política será o secularismo, a laicidade e o materialismo ateu. Apenas um passo separa o católico de tornar-se muçulmano, como demonstram as conversões dos colegas de François, seduzidos não tanto pelos aspectos espirituais, quanto pelas vantagens materiais concedidas pela coalizão liderada pelos muçulmanos. Resta a questão da fé: onde ela entra? É mesmo necessária? O retorno do religioso pode ser uma tendência que prescinda da fé, fundamentando-se em vantagens culturais?

A grande referência do novo bloco transnacional que passa a se formar é o Império Romano, deslocando o centro de gravidade da Europa para o sul, em torno do Mediterrâneo – com a perspectiva, ainda, do apoio das petromonarquias do Golfo. Há um ambicioso projeto de civilização, que parece confrontar as seguintes questões: é possível civilização sem religião? Uma civilização materialista é sustentável, em longo prazo? Quais as bases necessárias para isso, considerando a crise de valores ocidentais e o combalido humanismo secular?

François percebe que a Pátria e a República parecem não bastar; surge a necessidade de algo maior e mais forte, de ordem superior. Considerando o que a história mostra do passado e o que reserva para o futuro, a Pátria e a República podem ser episódios passageiros; a própria cristandade, por mais desgastada que possa estar, possui duração muito maior e dimensões muito mais grandiosas. O leitor poderá identificar o mesmo impasse refletido nas crises da União Europeia, como a que acontece na Grécia, em que o desejo de fortalecer as nações a partir da formação de um bloco comum sucumbe diante de diferenças culturais e de dissonâncias políticas, entre outros fatores. É preciso enfrentar o fato de que um projeto de uma grande civilização é também um projeto de uma grande ficção – no sentido de uma “realidade imaginada” (como desenvolvido por Harari em Sapiens: uma breve história de humanidade), ou seja, da capacidade humana de criar abstrações compartilhadas de grande eficácia social. Haverá disposição de enfrentar este desafio? Os secularistas e ateístas, com sua obsessão pela verdade científica, estarão dispostos a assumir tais premissas?

A ideia de que “o auge da felicidade humana reside na submissão mais absoluta”, expressada num diálogo de Submissão, é tão contrária ao espírito ocidental, que se opõe inclusive à própria literatura, de modo geral, e ao romance, em particular, visto que este tem por base o conflito do indivíduo com um agente externo (o destino, o Estado, a sociedade, etc); nesta perspectiva, a literatura romântica ocidental não deixa de ser uma história da infelicidade. Como contraponto, um interlocutor de François introduz A história de O, famoso romance erótico francês, de cunho sadomasoquista, que justificaria a relação entre submissão e pleno gozo da condição humana. Diante desta perspectiva, o romance de Houellebecq não deixa de ser uma glosa irônica sobre a tradição do romance; mais do que um anti-herói, François é um sabotador do espírito inquieto ocidental, um modelo de resignação diante das crises da modernidade e dos seus projetos políticos salvacionistas. No leque de valores humanos cunhados ao longo da literatura europeia – o que inclui o solipsismo contemplativo de Des Esseintes (o decadente protagonista de Às avessas) – o flerte de François com o islamismo tem o poder de açular a sensibilidade ocidental por vias insólitas. Basta considerar, por exemplo, a questão do adultério – tema canônico da literatura – sob a perspectiva de um homem de meia-idade, nada atraente, diante da possibilidade real e concreta de ter duas (ou mais) esposas – como uma bela e formosa jovem de quinze anos, e uma zelosa mulher madura, com preciosos dotes culinários e domésticos, por exemplo.

A grande lição do Islã seria a aceitação da submissão? A felicidade na submissão? Inconformidade, indocilidade, criticismo, revolta – seriam frutos de desejos e anseios infantilizados do Ocidente, em oposição à maturidade da submissão? É bem conhecida a tese de que a felicidade requer ilusões; de que não é possível ser feliz sendo lúcido e conhecendo a verdade – drama geralmente vivenciado por indivíduos cultos e intelectuais, como François, para os quais Hamlet não deixa de ser um arquétipo. À parte o problema de definir no que consiste a felicidade, a atitude de submissão surge como vetor de aceitação de uma grande ilusão (ou ficção), que serve como âncora para estabilizar o indivíduo em algo pelo que valha a pena viver, ou seja, em uma referência de felicidade.

O que permanece incomodando e espicaçando o leitor de Submissão é a resignação passiva de François – que se oferece como um incômodo reflexo do que restaria de um indivíduo que fosse incapaz de se engajar nas mais arraigadas ilusões ocidentais. Não se trata de niilismo, nem de cinismo, mas de uma postura que reconhece, para além da crise da herança cultural das Luzes, a limitação da própria condição humana, na sua luta inglória por conciliar o que há de divino e o que há de animal no humano.

Sozinho diante da Virgem Negra de Rocamadour (escultura medieval de Maria com o menino Jesus), François sente sua prezada individualidade começar a se esvair – efeito que joga luz tanto sobre as esperanças reprimidas do personagem, quanto sobre a possibilidade de uma restauração da cristandade. A busca por uma religiosidade mística é um caminho radicalmente solitário, que equivale ao mergulho na psique mais profunda do indivíduo, mas que termina por conduzi-lo a noções que desembocam na percepção da Unidade de tudo. François vacila diante do apelo do mistério, num silencioso esforço por conciliar esperança e ceticismo.

De acordo com Myriam, François é um homem de uma “honestidade anormal”, que lhe impede de assumir os compromissos sociais corriqueiros e lhe empresta um ar de alheamento e desinteresse. A crítica literária costuma definir os personagens de Houellebecq como cínicos, mas a definição de Myriam parece mais adequada. Sabemos que François não é completamente honesto – nem sempre diz o que pensa – mas é suficientemente lúcido e independente para não encontrar uma solução confortável para a sua angústia. De modo semelhante, o filósofo francês Blaise Pascal (1623-1662) foi definido como “brutalmente honesto consigo mesmo” (Karen Armstrong em Uma história de Deus), assumindo uma trajetória filosófica constantemente atravessada pela incerteza quanto aos limites da razão e da existência de Deus, em plena era do Iluminismo. As luzes sombrias e paradoxais de Pascal ajudam a revelar a obscuridade da personalidade de François e sua dificuldade em ser compreendido. Curiosamente, dentre os Pensamentos de Pascal encontra-se um intitulado Submissão (nº 268):

“É preciso saber duvidar quando necessário, afirmar quando necessário, submeter-se quando necessário. Quem assim não faz não entende a força da razão. Há os que pecam contra esses três princípios, ou afirmando tudo como demonstrativo, por falta de conhecimentos em demonstrações; ou duvidando de tudo, por não saberem quando é preciso submeter-se; ou submetendo-se a tudo, por ignorarem quando é preciso julgar”.

Se confrontarmos François com a reflexão de Pascal, poderemos identificar uma postura que procura compreender a “força da razão”, diante de pessoas religiosas mas sem fé (afirmando tudo como demonstrativo), como é o caso de grande parte dos devotos; ou de ateístas militantes (que duvidam de tudo), incapazes de perceber o caráter metafísico da verdade científica; ou de fanáticos (que não julgam sua submissão), recusando-se a uma abertura filosófica à dúvida. François sinaliza para a afirmação do pensamento pascaliano, que reconhece na consciência de seus limites e fraquezas a única verdadeira grandeza do homem.

Ampliando a reflexão, ainda mais apropriado é o Pensamento nº 245: “Há três meios de crer: a razão, o costume, a inspiração”. Crer pela razão é já um fardo que o Ocidente mal consegue carregar; não é por acaso que tantos procuram espiritualidades alternativas, e que o pensamento cartesiano se mostre insuficiente e limitado; crer pelo costume é prática cada vez mais dilacerada pelas dinâmicas sociais contemporâneas, a cada nova geração, por motivos de amplo conhecimento; resta a inspiração – não foi a inspiração que arrastou Huysmans à fé, através da estética católica? Não é a inspiração que sugere o caráter transcendente da arte, da música, da pintura, da poesia, da escultura? Não é este o apelo fundamental que atravessa François, opondo a força mística de uma imagem sagrada ao pragmatismo das adesões em massa às religiões? O próprio Pascal, assediado pelo costume (a família e o meio social) e pela razão (a célebre “aposta” e os argumentos científicos), não se reconcilia com a fé somente a partir da inspiração?

Se Submissão for a história de um homem em busca da inspiração – embora ele seja de uma “honestidade anormal” – é pertinente resgatar ainda outro pensamento de Pascal (nº 257):

“Há apenas três espécies de pessoas: umas servem a Deus, tendo-o encontrado; outras aplicam-se em buscá-lo, não o tendo achado; outras, enfim, vivem sem o procurar e sem o ter encontrado. As primeiras são sensatas e felizes, as últimas, loucas e desgraçadas, as do meio infelizes e sensatas”.

Hamlet, Pascal, Des Esseintes, François: quem admitirá ser infeliz e sensato? Que ilusões serão admitidas para que se acredite na possibilidade da felicidade? Não há conclusões fáceis em Submissão – sintomaticamente, no último capítulo o tempo verbal muda para futuro do pretérito. Se Houellebecq provoca as questões, resta ao leitor posicionar-se, diante de uma perspectiva de futuro que torna mais agudas e complexas as relações entre individualidade, solidão, amor, verdade e felicidade. E o leitor, o que busca em Submissão? Encontra o que busca? Submete-se ao que encontra?

Se Pascal foi o primeiro homem moderno – por questionar a existência de Deus de um modo radical, como afirma Armstrong – François pode ser o último, o germe de uma ocidentalidade que terá de se refazer diante das crises, fundamentando-se em convicções quando tudo parecem ser ilusões; querendo acreditar, mas sendo incapaz de crer. O século XXI poderá ser o primeiro em que a maior parte da humanidade confronte-se com este impasse existencial.


por Lucas Petry Bender

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Pequenas porções de ilusão


Três retratos de jovens renascentistas, por Domenico Ghirlandaio, século XV.






A inscrição em latim na segunda imagem significa algo como "se a arte pudesse retratar o caráter e a alma, mais bela pintura não haveria na Terra".

A beleza - atributo físico, moral e espiritual - permanece sendo um dos grandes enigmas filosóficos da humanidade. 

A arte tenta decifrá-lo, ou ao menos traduzi-lo. Stendhal escreveu que "a beleza é a promessa de felicidade".

Pequenas porções de ilusão?

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Sharon Van Etten, cantora e compositora

Ouvindo a voz e o violão de Sharon Van Etten tenho a impressão de que ela está arriscando tudo, inclusive a própria vida, tamanha é a franqueza com que ela oferece a sua música. Com uma personalidade vocal invulgar - geralmente transitando entre lamentos ásperos e doces ambiguidades - e um ataque tantalizante às cordas do violão, parece restar a ela um último resquício de inocência, que oscila diante do abismo, entre a repulsa e a atração. 



Esta instabilidade, contudo, está ancorada num ruído de fundo enigmático - uma espécie de sugestão de baixo-contínuo, no qual presume-se crueza, desolação, suplícios da alma, ilusões perdidas; mas, acima de tudo, um desejo hesitante de compreensão. Há ternura, mas sempre mantendo preservado o lado escuro da sua lua. O sombrio mistério de Van Etten evoca as harmonias de Low e de Elliott Smith, através de canções que chegam a um acordo inclusive entre o folk e o shoegaze.



Num meio artístico em que, de um lado, o excesso de artificialismos inviabiliza a busca pelo sentido, e, de outro, o sentido está previamente decretado por consenso, Van Etten é como uma pedra no leito de um riacho - busca a verdade, mas não a encontra.