domingo, 31 de dezembro de 2017

10 filmes de 2017

Podem não ser os dez melhores filmes do ano, mas são os que chegaram mais perto do meu coração. [Aviso de antemão que não assisti alguns filmes que, desconfio, me seriam de muito agrado, principalmente “Z – A Cidade Perdida” e “Além das Palavras”]. Vamos à lista, em ordem de preferência:

1º) La La Land (Demian Chazelle)
Adorável abordagem sobre o páthos romântico. O poder dos temas musicais ao piano de evocar a grandeza e a miséria do amor de Mia e Sebastian é encantador e desesperador, a um só tempo. Casablanca revisitado – este me parece o paralelo mais fecundo, e não com os musicais.

2º) Manchester à beira-mar (Kenneth Lonergan)
A maior força do filme está no seu protagonista, Lee, que transmite uma espécie de dignidade baseada numa experiência trágica de vida. Como um náufrago em terra firme, se defronta com o fato de que não basta agir como se tudo dependesse de uma fé otimista na bondade natural humana. Lee vislumbra o abismo de ter a consciência de que nem tudo depende da nossa vontade.

3º) Paterson (Jim Jarmusch)
Novamente, um personagem raro e precioso. Paterson cultiva sua liberdade interior sem se deixar oprimir pela aparente banalidade da vida cotidiana. Inspiradora jornada sobre como sentir-se em casa no universo. Escrevi mais sobre o filme neste ensaio aqui.

4º) De canção em canção (Terrence Malick)
De canção em canção, alimenta-se o som e a fúria a fim de ludibriar o tédio e o vazio. Poderemos viver uma vida verdadeira deste modo? Não é esta uma morte em vida? Será possível renascer, de algum modo? Malick segue pintando seu monumental afresco no teto de sua catedral cinematográfica – representando, filme após filme, o drama espiritual do nosso tempo e da nossa condição.

5º) Até o último homem (Mel Gibson)
Não apenas o personagem é extraordinário, mas a ambientação do campo de batalha é digna de um inferno dantesco. Neste inferno, porém, Desmond Doss entrará sem abandonar toda a esperança, o que levará sua fé e caridade ao limite.

6º) Silêncio (Martin Scorsese)
Se a questão é a fé levada ao limite, Scorsese e Shusaku Endo (o autor do romance) dão a palavra final – ou, melhor dizendo, o silêncio final. Creio que o mais interessante é pensar na importância fundamental de Kichijiro – o traidor, o fraco, o errante, o demasiado humano – dentro dos contextos religiosos do budismo e do cristianismo. Somos mais Kichijiro do que gostaríamos de admitir; e, no entanto, nesta queda se manifesta uma verdade elementar da condição humana.

7º) Frantz (François Ozon)
Em cada cena há algo a ser descoberto, em cada sequência há uma revelação, o desvendar de pequenos segredos que dão ao filme o seu tom intimista – embora o estilo seja seco, sóbrio, contido, com toques de mistério e estranhamento que beiram o surreal, mas sem perder o controle. Talvez tenha faltado apenas uma grande cena para que pudesse ser uma obra-prima.

 8º) Jackie (Pablo Larraín)
Irregular, deixa de ser um mero psico-drama a partir da segunda metade, quando entra na narrativa o personagem do padre; a partir daí, o filme transcende o ego da protagonista, e a discussão relativista sobre “o que é a verdade”, disputada com o jornalista, ganha uma grandeza verdadeiramente madura (tão bem encarnada por John Hurt, que faleceu em seguida). Verdade que está para além dos fatos (portanto para além da compreensão do jornalista); para além da psicologia (portanto para além dos limites da protagonista); para além daquele que, após questionar “o que é a verdade?”, e, não sabendo reconhecê-la, disse “lavo as minhas mãos” – ou seja, para além do poder político (o ambiente que cerca Jackie). Verdade que devemos buscar quando estamos sozinhos, no escuro, e nada parece fazer sentido.

9º) Na praia à noite sozinha (Hong Sang-soo)
O amargor e a melancolia por não encontrar o Amor. Nos momentos de ébria franqueza, a protagonista exige, irascível, que os outros manifestem um amor perfeito; teme uma morte inglória, de uma vida que acaba sem descobri-lo. O uso reiterado do belíssimo Quinteto de Cordas de Schubert dá o tom, entre a melancolia e a consolação, com uma sutil sugestão de que o amor ausente apenas não se mostra, mas está aí.

10º) Os Cowboys (Thomas Bidegain)
Estreia de Bidegain como diretor, tendo a ousadia de abordar alguns aspectos “politicamente incorretos” do islamismo radical. Mas o que toca o coração e o faz entrar nesta lista é, acima de tudo, a aguardada cena final – talvez a melhor do ano – construída inteiramente por olhares e silêncios, dando ao filme um desfecho muito marcante e significativo.


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