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| Bernie Fuchs |
Silêncio e Música, acima de tudo. As duas grandes forças que constroem sentido para a vida.
Epifanias de silêncio, epifanias de música.
Há algum tempo penso em fazer uma lista de filmes que contêm epifanias musicais ou momentos decisivos com a música diegética, impressionado com a frequência com que isso ocorre - e com a facilidade com que acabamos nos esquecendo desse aspecto. Além do mais, fico feliz quando vejo as outras artes se rendendo ao poder da música.
Na semana que passou, por exemplo: fui ao cinema assistir o fraquíssimo "A Graça". Sorrentino costuma lançar mão de magníficas trilhas sonoras; dessa vez foi mais econômico - ainda assim, o desfecho do filme culmina no protagonista ouvindo uma composição do seu filho no notebook, sorrindo profundamente de satisfação com a música (acho que é o único momento em que ele sorri em todo o filme), como uma libertação, em estado de graça, uma verdadeira epifania com a música diegética. A cena não me parece muito bem sucedida e não salva o filme, mas surge com uma força insuspeita, já que nada sugeria que a música diegética fosse marcar o grande momento do angustiado personagem interpretado por Toni Servillo.
Não é só no cinema. Nessa mesma semana li "Aspectos do romance", o clássico estudo de E.M. Forster. Adorei quando ele reconheceu a participação fundamental da música na obra-prima de Proust (coincidentemente escrevi sobre isso na semana anterior, comentando "Na praia", do McEwan). Mas não esperava que, depois de discorrer sobre os elementos que constituem a feitura do romance, Forster fosse terminar o livro se rendendo ao poder da música:
"É provável que a ficção encontre na música seu paralelo mais próximo. (...) A música, embora não empregue seres humanos, embora seja governada por complicadas leis, ainda assim oferece, na sua expressão final, um tipo de beleza que a ficção poderia atingir da sua própria maneira. Expansão: esta é a ideia a que o romancista deve apegar-se. Não ao acabamento: não arrematar, mas abrir. Quando a sinfonia termina, sentimos que as notas e melodias que a compõem foram libertas, encontraram, no ritmo do todo, sua liberdade individual. Não poderia o romance ser assim?" (trad. Maria Helena Martins, ed. Globo, 1969, pág. 132.)
Dificilmente alguém vai lembrar de "A Graça" como um filme que culmina numa epifania de libertação musical, assim como nunca vi uma indicação do clássico de Forster que lembrasse da sua decisiva analogia com a música. E assim esse assunto me persegue, sem planejar, por sincronicidades, como agora, logo depois de escrever sobre uma ficção enfatizando seu aspecto musical.
Não deixa de ser uma forma de felicidade - para ser fortalecida no silêncio, a fonte de onde tudo isso brota.
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| Michael Carson |
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Alguns filmes que anotei na minha lista (lembrando que tratam-se apenas de cenas com músicas diegéticas, ou seja, ouvidas pelos personagens, e que obviamente seria ocioso incluir musicais) - tenho que puxar pela memória para lembrar das cenas, pois anotei apenas os títulos:
- vários dirigidos por John Ford (já repararam em como seus filmes costumam ter belíssimas cenas de música diegética? Por exemplo: "No tempo das diligências", "Rio Grande", "O sol brilha na imensidão");
- "Onde começa o inferno (Rio Bravo)", dir. Howard Hawks (a salvação existencial do personagem de Dean Martin vem ao ouvir o som do degüello chegando do saloon vizinho à delegacia);
- "Folhas de outono", dir. Aki Kaurismäki (semelhante ao anterior da lista, o protagonista toma rumo existencial no momento em que ouve as gurias do Maustetytöt tocando no bar);
- "Morangos Silvestres", dir. Ingmar Bergman (os jovens cantando e tocando violão alcançam finalmente o coração empedernido do professor Borg);
- "De olhos bem fechados", dir. Stanley Kubrick (o que seria da cerimônia erótica, onírica e macabra sem sua música sublime?);
- "O silêncio dos inocentes", dir. Jonathan Demme (como esquecer do Dr. Hannibal Lecter inspirando-se em Bach para sua performance sangrenta?);
- "Hannah e suas irmãs", dir. Woody Allen (talvez não seja uma cena tão decisiva, mas é notável o ímpeto amoroso que resulta num beijo roubado ao som de, novamente, Bach);
- "Pulp Fiction" e "Jackie Brown", dir. Quentin Tarantino (o primeiro pela icônica dança ao som de Chuck Berry, o segundo por Bobby Womack no som do carro embalando a magnífica cena final, que talvez tenha influenciado o próximo da lista);
- "Dias perfeitos", dir. Wim Wenders (num filme que soa como homenagem à música pop-rock, a epifania vem no desfecho, ao som de Nina Simone);
- "Shame", dir. Steve McQueen (o coração do filme está na cena em que a personagem de Carey Mulligan interpreta uma versão melancólica de "New York, New York" diante do irmão);
- "O fim da viagem, o começo de tudo", dir. Kiyoshi Kurosawa (a protagonista é atraída pelo som de um ensaio da ópera La Bohème (Puccini), que surge como uma verdadeira epifania que determina o rumo da personagem);
Alguns títulos anotados, mas cujas cenas já me escapam da memória, teria de revê-los para me certificar: "Verão violento" (Valerio Zurlini), "Desencanto" (David Lean), "Husbands" (John Cassavetes), "American Graffiti" (George Lucas), "Setembro" (Woody Allen), entre outros.
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| Frank Morrison |



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