"The Crossing", original publicado em 1994, trad. José Antonio Arantes, ed. Alfaguara, 2023.
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| Cesare Maggi |
A Travessia é o 4º romance de McCarthy que leio (depois de Todos os belos cavalos, Meridiano de Sangue e O Passageiro), mas o primeiro que me absorve completamente, desde as primeiras linhas, inclusive me provocando verdadeira comoção ao longo da narrativa, o que é surpreendente em se tratando de um estilo tão seco e elíptico, quase desprovido de exposições psicológicas e evitando as causalidades diretas, que devem ser buscadas pela participação ativa do leitor, à medida que a história avança. McCarthy confia na inteligência e no coração do leitor.
A primeira das quatro partes em que se divide a narrativa é minha preferida, e se bastaria como uma novela completa. Narra a paciente perseguição a uma loba que ameaça o gado da família. Quando finalmente é capturada numa armadilha, o jovem protagonista, Billy Parham, desobedece a ordem paterna e, em vez de dar cabo da criatura, foge de casa conduzindo-a além da fronteira, até as montanhas mexicanas, o que se mostra uma tarefa hercúlea, seja pela dificuldade imposta pelo animal selvagem, pela paisagem inóspita ou pelo que fazem aqueles outros animais supostamente civilizados do gênero homo. O modo como Billy, encurralado pelas circunstâncias, procura salvar a dignidade da loba, é das coisas mais compassivas e emocionantes que já li nesta minha vidinha segura e previsível.
Não bastasse isso, a situação é espelhada na parte final do romance, numa nova peripécia para dar destino a restos mortais. E, no centro dessa história, um Billy abandonado pelo irmão menor sem qualquer explicação, outro momento em que nosso chão parece sumir, tragado pela escuridão implacável daquelas sendas misteriosas que povoam o universo cruel de McCarthy, "insondável abismo de solidão no âmago do mundo".
Como de costume, o autor introduz personagens com ares bíblicos em seus monólogos proféticos. Penso que sejam o que há de mais cansativo no romance, pois geralmente se estendem além da conta e carregam demais nas tintas metafísicas, às vezes soando um tanto inverossímeis. Por outro lado, as descrições das paisagens são sempre estimulantes, mesmo diante da mesmice de dias e dias cavalgando ao longo de descampados.
A cena final também me comoveu muito, dessa vez um espelhamento entre a loba da parte inicial com um cão abandonado, velho e deformado, arrematando de modo nada triunfante a trajetória que se iniciara com o fascínio pelo vigor e mistério do espírito-animal livre. Quando finalmente Billy entende que aquele cão miserável é a sua verdadeira alma-irmã, ou o que restou dela, já é tarde demais.
Da loba ao cão velho. Do corpo da loba ao corpo do irmão. Do dever familiar desobedecido ao abandono pelo que restou da família. Da liberdade da estrada à busca por algum resquício de pertencimento e de lar. São vários e marcantes os espelhamentos e trajetos percorridos nest'A Travessia.
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| Gino Covili |
Os blurbs remetem a Faulkner, Twain, Melville, e com toda razão - mas incluo nessa linhagem do romance norte-americano também a comparação com On the road. Apesar de a fama mais ligeira destacar apenas o sexo, as drogas, o jazz e a estrada, o clássico de Kerouac é também uma busca metafísica - sobretudo pela figura de um ausente Pai -, além de ter em comum com A Travessia as sucessivas jornadas de ida e volta (carros e asfalto no lugar de cavalos e trilhas), desbravando paisagens naturais e espirituais, tendo o México como destino mítico, possuído por uma presença marginal de uma voz ancestral, telúrica, indígena, que é entreouvida em momentos de clarividência. Impossível não lembrar, também, de Butcher's Crossing, de John Williams, que antecede em mais de três décadas à trilogia da fronteira de McCarthy.
Se, por um lado, o consagrado estilo do autor, a um só tempo denso e elusivo, faz justas exigências ao leitor, por outro lado, os mais impacientes poderão cansar diante da verbosidade das recorrentes descrições de gestos banais dos personagens; mas a verdade é que cada pequena ação se justifica como uma pulsação de vida e de liberdade num universo constantemente ameaçado e assombrado pela violência, pelo desconhecido, pela contingência, pela irracionalidade - são frequentes as descrições que sublinham o ato de olhar para trás, ou de evitar fazê-lo, assim como as alusões nas falas dos personagens ao que não é sabido ou não é possível saber. O leitor paciente aprende, ao longo do romance, a valorizar cada gesto como modo de se relacionar com o tempo, com a paisagem, com a mortalidade, com a limitação humana, com a necessidade de fazer escolhas, com a centelha inexplicável da vida. Não é sempre que uma ficção contemporânea oferece ao leitor tamanha experiência. A Travessia é tudo isso: romance de formação, western, romance de estrada, thriller de vingança, prosa poética, romance clássico - um tremendo triunfo de Cormac McCarthy.
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| Hamid Savkuev |
Um exemplo do quão poética pode ser a prosa de McCarthy, já na segunda página (e que revela o fascínio de Billy pelos lobos selvagens que observa, sem que isso seja dito em nenhum momento):
"Estavam correndo pela planície perseguindo os antílopes e os antílopes se moviam na neve como fantasmas e faziam círculos e rodopiavam e a poeira seca subia envolvendo-os sob a luz fria da lua e a respiração deles fumegava palidamente no frio como se ardessem com algum fogo interior e os lobos serpeavam e volteavam e saltavam com um silêncio tal que pareciam pertencer a um outro mundo inteiramente diferente. Desceram pelo vale e fizeram a volta e avançaram para longe na planície até se tornarem figuras ínfimas naquela brancura opaca e em seguida desaparecerem."

Jackson Lee Nesbitt
E um exemplo de diálogo, quando, no meio da madrugada, o irmão menor de Billy o flagra contemplando a noite; ao contrário do que pode parecer, está tudo expressado aí: o fascínio de Billy pelo abscôndito noturno, a distância entre os irmãos, a lonjura dos sonhos, o vazio insondável, o intervalo enigmático entre o sujeito e o mundo, e mais um monte de coisas:
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| Andrew Wyeth |
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| Thomas Hart Benton |
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| Bernie Fuchs |
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| Albert Bierstadt |
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| capa da edição |








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