27 junho 2026

Indicações IV

Afifa Aleiby

1) "Reading at Random with Virginia Woolf", ensaio de Frances Lindemann para The Paris Review:


"Mrs. Ramsay’s triumph, and Virginia Woolf’s ideal, is communication without need of language. This would seem, on the face of things, to be precisely the opposite of reading or writing; and yet the moment of silent communion is enabled only by the long scene of reading that precedes it, just as reading is a precursor to that moment of recognition, that state of mind in which one can shut the book, having absorbed its voice as though it were one’s own. The reader-writer relationship models this possibility of shared consciousness."

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2) "Why I learned to love Islamic mysticism - Henry Corbin uncovers the roots of secular malaise", artigo de Rob Doyle para Unherd:


"The beating heart of Corbin’s work is what he called the mundus imaginalis, or imaginal world. The former is Corbin’s direct translation of the Arabic term found recurrently across centuries of Sufi thought: the Alam al-Mithal (the world of images). So, Corbin did not invent this notion, but unearthed and reanimated it for a Western mind which had long lost sight of it. The mundus imaginalis is an ontologically real zone of 'metaphysical images' that exists in between the senses and the intellect, between pure matter and pure spirit."

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3) "Does reading do us any good?", ensaio de Flora Champy para Aeon:


"Today, people seem to turn much more willingly to therapists, experts or influencers to make sense of their lives. Yet I would argue that now may be a good moment for reconsidering the role of literature as the key to personal freedom – precisely because it is no longer the most common or most prestigious medium for interpreting experience."

17 junho 2026

parágrafo

[como usar uma tecnologia nova, o filme, como metáfora existencial (a edição original é de 1906)]:

"Pois era sempre como se uma imagem acabasse de se esgueirar rapidamente sobre a misteriosa superfície, e jamais ele conseguia apanhá-la no momento de sua passagem. Por isso, sentia uma inquietação constante, como num filme, quando, ao lado da ilusão do conjunto, não se consegue abandonar a vaga certeza de que, por trás da imagem que se recebe, passam centenas de imagens diferentes. Não sabia, no entanto, onde encontrar, dentro de si, essa força ilusória — força que, em sua mais diminuta fração, era sempre insuficientemente ilusória. Apenas adivinhava obscuramente que ela se ligava àquela enigmática qualidade de sua alma, de ser atingida também pelas coisas inanimadas, pelos meros objetos, como se fossem centenas de olhos silenciosos e interrogativos." (pág. 123-124)

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[como antecipar os anseios modernistas que seriam plenamente desenvolvidos nas décadas seguintes]:

"A morte é apenas uma consequência da nossa maneira de viver. Vivemos de um pensamento a outro, de uma sensação a outra. Pois nossos pensamentos e sensações não correm tranquilos como um rio; eles nos 'ocorrem', na verdade caem dentro de nós como pedras. Se vocês se observarem atentamente, perceberão que a alma não é algo que troca de cor em gradações paulatinas, mas que os pensamentos saltam dela como algarismos para fora de um buraco negro. Agora vocês têm um pensamento ou uma sensação, e quase ao mesmo tempo aparece um outro diferente, como se espocasse do nada. Se prestarem atenção, podem até sentir, entre dois pensamentos, um instante em que tudo é absoluta escuridão. Esse instante, uma vez apreendido, é para nós o mesmo que a morte." (pág. 165-166)

O JOVEM TÖRLESS, de Robert Musil, trad. Lya Luft, ed. Nova Fronteira, 1996 (ed. original 1906).

Chin H Shin

11 junho 2026

parágrafo

[como aventurar-se através da insensibilidade]

"Mas, ao mesmo tempo, sentia uma espécie de euforia por essa repentina incapacidade de me emocionar, uma emotividade excessiva de segundo grau que não alterava de jeito nenhum a insensibilidade de primeiro grau. Essa euforia, se é que era disso que se tratava, ficava bem longe de meu corpo e, portanto, era compatível com minha anedonia; era como se eu estivesse imerso num banho quente fora de mim mesmo. Sentia algo parecido com um surto de potência, a potência de sentir o mundo como se estivesse em uma estufa, e essa distância, junto com minha reduzida necessidade ou capacidade de dormir, encheu-me de uma espécie de energia vampiresca, com a única diferença de que eu mesmo era a presa. Conseguia ler e escrever por horas a fio com uma concentração quase total, mal percebendo quando anoitecia, e de madrugada vagueava por Madri, passando em frente ao apartamento de Isabel ou à galeria de Teresa só para demonstrar a mim mesmo que conseguia fazê-lo sem um pingo de aflição. Muitas vezes observava a alvorada da colunata do Retiro ou de um dos bancos do Paseo del Prado ou pegava o metrô até uma parada que não conhecia e de lá observava o sol nascendo e depois voltava para casa, dormia por algumas horas, acordava e tomava comprimidos brancos, haxixe, café e, com uma energia sobrenatural, retomava minhas aventuras no mundo da insensibilidade. Tinha um pouco de medo, a razão não sabia dizer; talvez de perder a cabeça e me jogar debaixo de um ônibus ou de invadir o apartamento de Isabel e rasgar o caderno do irmão dela ou, ainda, de jogar uma lixeira contra a vitrine da galeria ou então de fazer um escândalo, incapaz de me controlar àquela distância. Mas também, pela primeira vez, me senti escritor de verdade, como se a vida real estivesse nas páginas, e tive de comprar na Casa del Libro um monte de cadernos pautados para reunir todos os meus poemas e minhas notas. Dizia a mim mesmo que meus novos poemas seriam tão lindos e importantes que, quando Teresa os traduzisse e imprimisse e quando eu desse uma cópia a Isabel, ambas entenderiam que se encontravam diante de um poeta que era capaz, sozinho, de organizar os descartes do real, transformando-os numa música que o transcendia." 

ESTAÇÃO ATOCHA, de Ben Lerner, trad. Gianluca Giurlando, ed. Rádio Londres/TAG, 2019, pág. 125-126.

Robin F. Williams