17 junho 2026

parágrafo

[como usar uma tecnologia nova, o filme, como metáfora existencial (a edição original é de 1906)]:

"Pois era sempre como se uma imagem acabasse de se esgueirar rapidamente sobre a misteriosa superfície, e jamais ele conseguia apanhá-la no momento de sua passagem. Por isso, sentia uma inquietação constante, como num filme, quando, ao lado da ilusão do conjunto, não se consegue abandonar a vaga certeza de que, por trás da imagem que se recebe, passam centenas de imagens diferentes. Não sabia, no entanto, onde encontrar, dentro de si, essa força ilusória — força que, em sua mais diminuta fração, era sempre insuficientemente ilusória. Apenas adivinhava obscuramente que ela se ligava àquela enigmática qualidade de sua alma, de ser atingida também pelas coisas inanimadas, pelos meros objetos, como se fossem centenas de olhos silenciosos e interrogativos." (pág. 123-124)

* * *

[como antecipar os anseios modernistas que seriam plenamente desenvolvidos nas décadas seguintes]:

"A morte é apenas uma consequência da nossa maneira de viver. Vivemos de um pensamento a outro, de uma sensação a outra. Pois nossos pensamentos e sensações não correm tranquilos como um rio; eles nos 'ocorrem', na verdade caem dentro de nós como pedras. Se vocês se observarem atentamente, perceberão que a alma não é algo que troca de cor em gradações paulatinas, mas que os pensamentos saltam dela como algarismos para fora de um buraco negro. Agora vocês têm um pensamento ou uma sensação, e quase ao mesmo tempo aparece um outro diferente, como se espocasse do nada. Se prestarem atenção, podem até sentir, entre dois pensamentos, um instante em que tudo é absoluta escuridão. Esse instante, uma vez apreendido, é para nós o mesmo que a morte." (pág. 165-166)

O JOVEM TÖRLESS, de Robert Musil, trad. Lya Luft, ed. Nova Fronteira, 1996 (ed. original 1906).

Chin H Shin

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