[nada esperar, desprender-se de tudo, levar a opacidade ao limite: tornar-se transparente]
"Você vagueia pelas ruas, noite, dia. Entra nos cinemas de bairro onde paira o cheiro insistente dos desinfetantes, come sanduíches nos balcões, fritas em cartuchos de papel, atravessa as feiras populares, joga bilhar eletrônico, vai aos museus, aos mercados, às estações, às bibliotecas de leitura pública, olha as vitrinas dos antiquários da Rua Jacob, dos vidreiros da Rua Paradis, dos comerciantes de móveis do subúrbio de Saint-Antoine.
"Ao longo das horas, dos dias, das semanas, das estações, você se desprende de tudo, desliga-se de tudo. Descobre, às vezes, quase com uma espécie de embriaguez, que você é livre, que nada lhe pesa, nada lhe agrada nem desagrada. Encontra-se, nesta vida, sem usura e sem outro estremecimento além dos instantes suspensos provocados pelas cartas ou certos ruídos, certos espetáculos que você concede a si mesmo, uma felicidade quase perfeita, fascinante, às vezes cheia de emoções novas. Você experimenta um repouso total, é constantemente poupado, protegido. Vive numa bem-aventurada digressão, num vazio cheio de promessas e do qual você nada espera. Você é invisível, límpido, transparente. Você não existe mais: a sucessão das horas, dos dias, a mudança de estações, o escoamento do tempo, você sobrevive, sem alegria e sem tristeza, sem futuro e sem passado, assim, simplesmente, evidentemente, como uma gota d'água que pinga na torneira de um patamar, como seis pés de meia de molho numa bacia de matéria plástica rosa, como uma mosca ou como uma ostra, como uma vaca, como um caracol, como uma criança ou como um velho, como um rato."
UM HOMEM QUE DORME, de Georges Perec, trad. Dalva Laredo Diniz, ed. Nova Fronteira, 1988, pág. 60-61.
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| Egon Schiele |

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