31 agosto 2011

Mergulhos

Eu tenho lembranças assombrosas de um ancestral antiquíssimo, que resolveu se arrastar para fora da água e enfrentar todo o peso da tirana lei da gravidade.



Subitamente seus instintos ficaram sem valor. A partir de então deveria andar com os pés e carregar a si mesmo, quando antes era levado pela água: havia um terrível peso sobre ele.



Para as funções mais simples sentia-se canhestro, nesse novo mundo não mais possuía os seus velhos guias, nem os impulsos reguladores e inconscientemente certeiros - estava reduzido, o infeliz, a pensar, inferir, calcular, combinar causas e efeitos.


Creio que jamais houve na terra um tal sentimento de desgraça, um mal-estar tão plúmbeo - e além disso os velhos instintos não cessaram repentinamente de fazer suas exigências!



Mas era difícil, raramente possível, lhes dar satisfação: no essencial tiveram de buscar gratificações novas e, digamos, subterrâneas.

 
 Toda vez que nasce um homem, expulso do útero, essa maldição revive.
 
 
E o irresistível canto das sereias é o lamento antiquíssimo daquelas a quem um dia abandonamos.



 Estúpido, esse nosso ancestral.
 

Trechos em itálico extraídos de "A Genealogia da Moral", de Nietzsche, trad. Paulo César de Souza, Cia das Letras, 2009, pág. 67

26 agosto 2011

Retratos

Thelonious Monk

coruja Tyto Alba
 
TUNISIA - a member of the French Camel Corps, the Meharists, 1943 - by Robert Capa


distúrbios na Grécia, 2008

um trabalhador - por João Castilho

sapo - por Angi Nelson

Reflection (self portrait), Lucien Freud, 1985


20 agosto 2011

Melancolia

ilustração de Victo Ngai

Lars Von Trier está cansado, coitado. Eu o entendo, mas não acho que isso baste para dar origem a um bom filme. Ele está doente, o homem doente do homem - aquilo a que Nietzsche identificou no cristianismo, no socratismo, no romantismo, no niilismo, no anseio pelo nada; Trier é o profeta dos desacreditados, com auxílio de publicidade polêmica.

Sobre Melancolia a única coisa que tenho a dizer é que prefiro Sinais do Shyamalan. Neste o clima de tensão mantinha uma angústia que construía sentidos ao longo da trama, culminando no caráter epifânico das coincidências, dos sinais. Em Melancolia a nauseante angústia não recompensa o espectador, apenas exorciza os demônios internos do diretor (que, dizem, teria escrito o filme sob forte depressão); a tensão pretensamente se resolve numa perspectiva niilista pra lá de enjoada. Não me impressiona a plasticidade das cenas (prefiro Jurassic Park), nem a crueza da câmera fremente (prefiro Bruxa de Blair), nem as referências artísticas; Melancolia é o filme que reuniu os personagens mais mesquinhos e insossos da história do cinema (uau!), com destaque para o sonambulismo lexotânico da heróina (belos seios, isso é verdade!). É para assistir de olhos fechados, curtindo o magnífico prelúdio de Tristão e Isolda em som surround - mas até o ponto em que a repetição ad nauseam permitir.

Serviço de utilidade pública para quem está em Porto Alegre: vá à Casa de Cultura Mário Quintana, mas não para ver Melancolia, e sim Em Paris (em cartaz na mostra que homenageia a capital francesa). Embora no filme de Christophe Honoré o argumento não tenha muita importância, trata-se justamente de uma depressão do personagem. Em certo momento há um diálogo em que se define exatamente o conceito de melancolia, como uma tristeza antiga, quiçá de tempos remotos, que submete o seu signo indelével desde o nosso nascimento, se constituindo em parte integrante do nosso ser. Melancolia que alguns recebem com um sorriso. Outros, como Lars Von Trier, com a impotência (aliás, parêntesis: a mim pareceu muito boa a idéia de celebrar o fim com a 9ª do Beethoven e uma taça de vinho no terraço).




Já estão por demais prolongadas as órbitas de alguns grandes astros do cinema, como Lars Von Trier, Woody Allen, Coppola, entre outros. Aguardemos o novo aparecimento de Paul Thomas Anderson, Darren Aronofsky e Christophe Honoré no horizonte.

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Dizem que melancolia é o estado mórbido da depressão, do ponto de vista psicanalítico. Eu prefiro pensar naquela tristeza antiga que nos submete sem explicação, mas com doçura. Aí está Mercedes Sosa para me dar razão:


Oh Melancolia

Mercedes Sosa

Composição: Silvio Rodríguez
 
Hoy viene a mi la damisela soledad
con pamela impertinentes y botón
de amapola de oleaje de sus vuelos,
hoy la voluble señorita es amistad
y acaricia finamente el corazón
con su más delgado pétalo de hielo.

Por eso hoy, gentilmente te convido a pasear
por el patio hasta el florido pabellón
de aquel árbol que plantaron los abuelos,
hoy el ensueño es como el musgo en el brocal
dibujando los abismos de mi amor
melancólico, sutil, plaido cielo.

Viene a mí avanzada, viene tan despacio,
viene con una danza leve del espacio
cedo, me hago lacio y ya vuelo ave, se mece la nave
lenta como el tul en la brisa, suave niña del azul . . .

Oh melancolia, novia silenciosa
intima pareja del ayer,
oh melancolia, amante dichosa
siempre me arrebata tu placer,
oh melancolia, señora del tiempo,
beso que retorna como el mar,
oh melancolia, rosa del aliento
dime quien me puede amar.

Hoy viene a mi la damisela soledad
con pamela impertinentes y botón
de amapola de oleaje de sus vuelos,
hoy la voluble señorita es amistad
y acaricia finamente el corazón
con su más delgado pétalo de hielo.

Por eso hoy, oh melancolia, señora del tiempo,
beso que retorna como el mar,
oh melancolia, rosa del aliento
dime quien me puede amar.


07 agosto 2011

Mundos

O fotógrafo James Mollison tem um livro chamado "Where children sleep", retratando dezenas de crianças ao redor do mundo, a partir dos quartos onde elas vivem. Algumas estão aí abaixo:

Prena, 14, empregada doméstica, mora na casa onde trabalha, Katmandu, Nepal

Nantio, 15, Quênia

Tzvika, 9, Jerusalém, Israel

Jaime, 9, Nova York, EUA

Dong, 9, Yunnan, China

Ahkohxet, 8, Amazônia, Brasil

Anônimo, 4, romeno, vive na periferia de Roma, Itália

Jasmine, 4, Kentucky, EUA

Rhiannon, 14, Darvel, Escócia

Thais, 11, Cidade de Deus, Rio de Janeiro, Brasil

Joey, 11, gosta de caçar, Kentucky, EUA

Indira, 7, trabalha numa pedreira, Katmandu, Nepal


Ryuta, 10, campeão de sumô, Tóquio, Japão

06 agosto 2011

Mundos

Amostras do ensaio fotográfico "A look at the Himalayan territory of Kashmir":








Amostras do trabalho do fotógrafo David Goldman - "Visual dispatches from the Helmand and Kunar provinces" - região do Afeganistão ocupada por tropas norte-americanas:





São sempre impressionantes as imagens do blog fotográfico The Frame.



04 agosto 2011

Silêncios



Há um silêncio de antes de abrir-se um telegrama urgente

há um silêncio de um primeiro olhar de desejo

há um silêncio trêmulo de teias ao apanhar uma mosca

e

o silêncio de uma lápide que ninguém .



Miles Davies - foto de Guy Le Querrec


"A vaca e o hipogrifo", de Mario Quintana, L&PM, 4ª ed, 1983, pág. 70

30 julho 2011

Liberdade poética

foto de Nathalie Bardou

Se vivo, Mario Quintana estaria completando 105 anos hoje. Mas ele está liberto, rindo com seus sapatos.


Libertação

A morte é a libertação total:
a morte é quando a gente pode, afinal,
estar deitado de sapatos...

"A vaca e o hipogrifo", de Mario Quintana, L&PM, 4ª ed, 1983, pág. 34

29 julho 2011

Épater le réalité ou Tem dias que o quarto parece maior que a torre



A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.
[...]
Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes ouço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

trecho dos Poemas Inconjuntos de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)




Ora, por favor, deixem que por um instante estas palavras sejam minhas:

A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é, e é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra e quanto isso me basta.

Ano passado, num arroubo de sincera cafonice obriguei-me a colocar aqueles versos na epígrafe do meu trabalho de conclusão de curso. Foram de Nietzsche e Pessoa as últimas palavras que encontrei para expressar o alegre ressaibo de desesperança deixado pelos anos de pesados fardos do conhecimento. O sentido já se havia subordinado, já se havia compromissado com a clareza, com a retidão, com a necessidade, com a lógica, com a causalidade, com a finalidade. O sentido já não tinha mais espaço para perder-se, e portanto eu já não me encontrava - salvo nos lugares onde esperava-se que eu estivesse.

O homem moderno começa a pressentir os limites daquele prazer socrático de conhecer. (Nietzsche em A Origem da Tragédia)


E aqui já me vejo completamente perdido. Já não sei o que queria dizer no início desta postagem, e já não sei o que é que tantas frases fazem aqui. Melhor assim.


As cenas são de "O enigma de Kaspar Hauser" (dir. Werner Herzog, 1974)

23 julho 2011

Dance, dance, senão estamos perdidos

Já faz um tempo que eu me ponho a imaginar-me o dono da festa. Aquilo que aparece nos filmes, um grande apartamento ou casa, uma aparelhagem de som potente, algumas luzes e a oferta de drogas franqueada a todos. Queria ser o anfitrião do paraíso de música - paraíso de música pop é inferno mergulhado em todo tipo de droga. Ia ter Stones, claro, ia ter Creedence, Tim Maia, Doors, Joy Division, Smiths, Raul, James Brown; poderia ter algumas coisas mais recentes, Franz Ferdinand, Air, Strokes, Mia, Chemical Brothers, entre tantas outras.

Mas uma não poderia faltar de jeito nenhum.



21 julho 2011

Don't forget me ;) ou Todo dia no meu ônibus vai uma colegial sueca




Da doçura para a malícia em 2 segundos. E é apenas uma adolescente desprezível, apenas um animal na sua plenitude. Praticamente um antílope de vestido.

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a adolescente

Vai andando e vai crescendo. É toda esganifrada: a voz, os gestos, as pernas... Antílopes! vejo antílopes quando ela passa! Pois deixa, passando, um friso de antílopes, de bambus ao vento, de luas andantes, mutáveis, crescentes...

"Na volta da esquina", de Mario Quintana, ed. Globo, 1979

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A cena é de Lolita (dir. Stanley Kubrick, 1962)