25 abril 2012

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PRINCIPALMENTE NADA


Tire a ilusão de um homem e ele é um tolo morto de tédio, e abaixo da frase uma imagem em que Fanny, Alexander e a mãe estão deitados numa cama, cada um deles em um plano, gradativamente mais desfocados.
Valentina tem umas montagens com imagens e frases que ela usa no seu perfil do facebook, são em geral cafonas e banais, mas às vezes ela acerta, às vezes ela mexe mesmo comigo, com as minhas emoções e lembranças. Não sei se é por causa disso, mas de uns tempos pra cá tenho tido um sonho recorrente, pode-se dizer que é um pesadelo, talvez:  Valentina me observa através de um falso espelho.


Tem uma estranha sentada ao meu lado no ônibus, quero dizer uma desconhecida, com quem evidentemente eu não posso conversar, primeiro porque não há nada a ser dito e segundo porque qualquer coisa que eu dissesse provavelmente deixaria uma má impressão, do tipo que cara chato, ou que conversinha besta, ou mesmo que cara que se acha o tal - e isso se eu chegasse a me fazer compreender, superando a péssima dicção e a gagueira salivante que inevitavelmente se apossam da minha boca quando pretendo iniciar uma conversa, especialmente com estranhos - e então eu passaria a vê-la nas manhãs seguintes sorrateiramente evitando o banco ao meu lado, fingindo não ver que ei! há um lugar vago bem aqui do meu lado, tu não precisa ficar aí de pé nesse corredor atulhado, correndo o risco de ter a bunda assediada por uma mão indiscreta (de um operário, certamente), eu tenho superior completo e bons modos, mas talvez o assédio seja preferível a ter de suportar minha presença incomodamente lateral e tristemente esforçada por parecer simpática.

Alice ou Sara, porque ela tem cara de Alice ou Sara, provavelmente permanecerá sendo eternamente uma estranha para mim, apesar de estar neste ônibus todas as manhãs de todos os dias da semana. (Alice ou Sara ainda vai ao colégio, usa uniforme azul e uma mochila, enquanto eu me dirijo ao meu trabalho com a barba feita). Não há nada a ser dito (mas no plano-sequência 1 eu digo: oi, esse rímel fica muito bem nos teus olhões). Isso me faz lembrar da Valentina, quando a gente conversou pra valer pela primeira vez. Ela estava no fundo da sala de aula, durante o intervalo, lendo e rindo. Dom Quixote, então existe alguém que lê Dom Quixote, esse alguém é uma jovem com grandes olhos delineados por um fio negro, e parece que só eu estou percebendo que tremenda promessa de felicidade está bem ali ao alcance! (No plano-sequência 2 eu digo: sabia que quando tu prende o cabelo assim a manhã parece mais leve?) Ela me diz que Dom Quixote não é a coisa mais engraçada que ela já leu. Narra uma história meio maluca que diz ser um conto que leu na internet, em que um sujeito tenta copular (ela usou essa palavra) com a famosa estátua dinamarquesa da Pequena Sereia, dando origem a um novo complexo sexual, a tara por estátuas e monumentos. Tendo seu intento frustrado em função da ação de terceiros, em represália o maníaco decepa a cabeça de bronze da sereia, provocando comoção da comunidade internacional, caça às bruxas da perversão do mundo, vindo ao sol do conhecimento público inúmeras condutas fetichistas, taras, obsessões, como um sujeito milionário que tem uma coleção de estátuas femininas (Vênus de Milo, Santa Maria, Estátua da Liberdade, etc) com orifícios nas mãos e bocas e genitais, adaptados para perversões (ela repetia muito essa palavra) sexuais, o que não deixava de ser um avanço com relação às bonecas infláveis, que são mulheres sem personalidade. (No plano-sequência 3 eu ponho minha mão sobre a dela, com muito cuidado mas bastante decidido). Conta muito hoje em dia a personalidade da mulher, diz o tarado à reportagem após ser preso, e a Sereia Pervertida se torna um grande sucesso de vendas no mercado erótico masculino, provocando estrepitosa reação feminina: estátuas gregas com ereções! monumentais ereções! basta daqueles pingulins mirrados, isso sim é pau duro, não amolece nunca! diz uma mulher à reportagem, de qualquer forma o sêmen há muito deixou de ser fundamental, completa ela. (E tem outro plano-sequência em que passo a mão por dentro da cintura do uniforme azul dela, sem me preocupar se as pessoas no ônibus estão observando). Finalmente a humanidade alcança o estágio do sexo público, as praças se tornando locais privilegiados para todo o tipo de práticas fetichistas com estátuas, monumentos, bustos e até obeliscos! Isso era a coisa mais engraçada que ela já lera, e na época eu concordei.

E agora, tendo Alice ou Sara ao meu lado e refletindo sobre uma possível sequência à nossa história que nunca começou, relembro aqueles meses curtos e intensos ao lado de Valentina. Penso na entropia avassaladora da nossa relação, que não mais de quatro meses depois daquela divertida narração no fundo da sala levou-nos a uma monumental indiferença um para com o outro. Éramos atraídos por uma força termodinâmica que só poderia mesmo levar à desagregação, e talvez a estátua da sereia decapitada fosse o símbolo da nossa condição. Na verdade a depredação daquela magnífica sereia anunciava o início de uma era, de uma nova e angustiante era do mundo - ainda que jamais acontecesse tal depredação, que estivesse tudo dentro das nossas cabeças perdidas. Há algo de podre no reino das nossas fantasias.



Faz muito que não vejo Valentina, me limito a bisbilhotar em segredo no seu facebook e a sonhar com a sua inexplicável presença invisível por trás dos espelhos.

Música preferida: Yesterday.

Sobre mim: de uns tempos pra cá se tornou impossível sentir-me tranquila, em paz, confortavelmente instalada em mim mesma, leve – vocês sabem, sem tristeza nem culpa, mas também sem explosões doidas de alegria, arroubos de ousadia, agitações dissipadoras, enfim, parece que desaprendi, parece que me foi tirada, na verdade, a capacidade de não ficar submetida ora a um extremo, ora a outro. A vida parece estar sempre exigindo, impondo: o maldito céu ou a porra do inferno; o prazer ou o fracasso; a necessidade quase física da vitória ou o mergulho negro no abismo. Droga, não sou só eu, vocês sabem, droga, isso é assim mesmo.

Ok Valentina, acho que entendo. Yesterday faz parecer que não precisava ser assim, não é? faz parecer que não era assim, e então será que desde 1965 tornaram-se impossíveis as yesterdays e todos tivemos de nos contentar com ruídos ou silêncio, com o mais intenso dos prazeres (superando em muito o que sequer sonharam as gerações passadas) ou com a dor mais irremediável, e nunca mais soaram as notas tão despojadamente harmoniosas e tão despretensiosamente belas de Yesterday entre nós, como soavam antes? O que foi que aconteceu nesse meio tempo? Onde foi parar aquela calma contente? Por que a angústia tomou conta de tudo, inclusive do prazer, inclusive da alegria? Hoje explode-se de amor e de ódio, de romance, de vingança, mas a neutralidade sublime de Yesterday se perdeu, não é? Mas nossos pais e mães não estão mais conosco, Valentina, nós crescemos e ficamos sós, nós crescemos e não temos certeza se realmente aprendemos alguma coisa, vamos crescendo e os clichês se tornando profecias, vamos envelhecendo e ficando progressivamente mais desfocados, não é isso? (Quem é que vai te salvar, me pergunta Valentina através do espelho, em qual deles tu quer acreditar pra não entregar os pontos de uma vez? Beatles? Bergman? Dom Quixote?)



É melhor assim, Alice ou Sara, melhor que ninguém tome iniciativa, que nossa história não tenha sequência, que tu continue sendo essa aparição iluminada da manhã, essa pequena sereia dinamarquesa de uniforme e mochila e cabelo preso de um jeito diferente nos dias que tu decidir que assim deve ser, até porque, Alice ou Sara, eu não quero que percamos a cabeça, não quero te ver desbotando a cada exigência minha, não quero ver desvanecer o mistério diário da tua presença. Continue assim, apenas continue assim.

 

TUDO PODE ACONTECER NA VIDA, em grandes letras garrafais brancas sobre fundo preto (oh! mais uma das cafonices que acalentam a alma feminina?), mas logo abaixo em letras muito pequenas: Principalmente nada.

Às vezes Valentina acerta mesmo.

(No plano-sequencia final eu digo: prometo nunca morrer, Valentina - e Alice ou Sara deve pensar que sou um tolo.)



olhares - por Claudio L. Bender


23 março 2012

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UMA VERDADE INCONVENIENTE


A filha do meu advogado interrompeu nossa conversa pra dizer que o urso polar na verdade não é branco, ele é pardo como um urso qualquer, mas o reflexo do sol no gelo faz com que seu pelo pareça branco a nossos olhos, sabia pai? Um pouco aborrecido com a intromissão olhei para o meu advogado, mas ele parecia simplesmente ignorar a vozinha insistente da filha. Vem cá Fonseca, tu não acha que ela tá olhando televisão demais, perguntei, que tipo de criança usa a palavra pardo em seu vocabulário, pensei comigo, sem coragem de admitir que crianças hiperativas me deixam em pânico, e pensando que talvez o mundo realmente acabe quando finalmente todos os jovens forem hiperativos. Ele pousou o copo sobre a mesa e disse que esse tipo de coisa ela aprende na internet. A internet é um tédio só, na minha opinião, e seria bom que a gurizada arranjasse coisa melhor pra fazer; mas eu não disse isso, me limitei a lançar um olhar esfaimado para a garçonete, tentando imaginar qual a idade dela e se ela acessaria a internet, talvez tivesse um caso virtual. O urso polar pode farejar uma foca a trinta e dois quilômetros de distância, sabia pai?

É impressionante a força do instinto de sobrevivência, e a capacidade de adaptação que a vida encontra.

Está completando três semanas desde o dia em que bisbilhotei o lixo da minha vizinha. Foi num impulso, difícil explicar, saí do elevador e me deparei com aquela sacola cheia de lixo na soleira da porta dela. Peguei em silêncio e entrei logo na minha porta, estimulado por uma ânsia incompreensível e sorrateira. Agora eu percebo, era apenas uma forma lúdica e segura de perversão. Nem tão segura, na verdade.

Lixo seco. A única coisa interessante que encontrei foi um batom, um toco de batom vermelho. Girei a base, cheirei, aroma adocicado, passei na boca, tava excitado mesmo, passei nas bochechas, na testa, difícil explicar. Minha vizinha é solteira, tem um corpo esguio e pernas longas, deve ter pouco mais do que metade da minha idade. Bis, Doritos, Heineken, Activia. Eu esperava uma embalagem de Ritalina, mas só tinha de clareador dental e sabonete líquido. Nenhuma pista sobre a vida sexual, afetiva ou profissional dela. O que ela fazia nessa vida, além de ouvir Amy Winehouse no último volume, fumar os seus baseadinhos fedorentos e sair no sábado à noite batendo a porta com estrondo? O que ela estaria fazendo nesse exato momento para não ser consumida pelo tédio, em casa?

Eu volto a explicar pro Fonseca que não sei mentir direito, que eles vão perceber meus sinais de nervosismo, que é melhor ele pensar em outra estratégia, talvez seja melhor dizer a verdade. A filha dele já desistiu de atrair nossa atenção e agora fala sozinha, trepada na cadeira, passando o dedo na parede como se fizesse desenhos imaginários. Ele me diz que todos os fatos podem ser explicados, basta encontrar uma sequencia lógica coerente, e usa a evolução dos ursos polares como exemplo. Cara de pau, será que ele tá falando sério? Será que ele não percebe que a filha hiperativa dele vai virar uma acadêmica bem sucedida na carreira mas cheia de compulsões destrutivas? Ele não percebe que a falta de imaginação vai acabar nos derrotando, a todos nós?

Alguém bateu na minha porta quando eu acabava de verificar o último item da sacola. Escondi tudo rapidamente embaixo da mesa e abri. Era ela. Lembro bem da expressão confusa no seu rosto. Ela deu uma vacilada, depois os olhos brilharam, isso é batom na tua cara?

É impressionante como o nosso instinto de sobrevivência fraqueja às vezes, contrariando toda teoria. Talvez a história da humanidade não seja mais do que a crônica da inadaptação, do crescente constrangimento ao longo do tempo, do processo gradual de sair da caverna sem realmente abandonar o útero.

Eu não sei mentir direito, fiquei nervoso, ela só queria saber se eu podia emprestar o controle remoto do portão da garagem, nem se lembrava do lixo, mas contei a verdade, confessei envergonhado, confiando na compreensão dela, afinal era só um lixo.

Faz três semanas que ela deu queixa na delegacia, danos morais ou invasão de privacidade ou coisa assim, fui intimado, contatei meu advogado, etc.

Eu sinto que, apesar de tudo, devo dizer a verdade, mas, por artimanhas da vida, não sei ao certo qual é a verdade. Ursos polares, aquecimento global, evolução biológica, justiça.  A sistemática insistência dos cientistas e acadêmicos em afirmar que a ciência opera com provas e não com crenças é, evidentemente, uma prova de que essa é a crença deles.

A filha do Fonseca me dá uma última olhada, zombeteira, quando eles se levantam para ir embora. A garçonete vem recolher os copos, passa o pano na mesa, o senhor deseja mais alguma coisa? Sim, eu desejo, desejo muito, desejo de verdade, desejo a tua boca cheia de batom vermelho, a tua boca aberta e quente; mas eu não disse isso, embora fosse verdade. Escrevi no guardanapo uma frase do Fonseca que deixei à mostra sobre a mesa, esperando por uma reação dela: "O que importa não é a realidade, é a verdade, e a verdade é aquilo em que se acredita".


Difícil explicar, difícil acreditar na explicação. Todas elas - a filha do Fonseca, a minha vizinha, a garçonete, todas - me olham com essa cara de quem sabe a resposta, e eu respondo com o olhar de quem já desistiu do jogo, de quem não separa o lixo, de quem não tem perfil nas redes sociais.

Talvez a raça humana termine por pura falta de imaginação.

Já imaginou?

O diretor de cinema Abbas Kiarostami procurando a verdade nos arredores de Teerã

10 março 2012

ESQUECER OS MORTOS

Acho que minha filha devia adotar outro estilo, parar de usar sempre All Star. Não é um tênis feio, mas fico incomodado quando noto algo em comum entre colegiais, anarquistas, empresários, intelectuais, ripongos, metidos, bundões, lésbicas, playboys, baderneiros, saudosistas e desocupados – do Eike Batista ao Lobão, todo mundo usa All Star. Essa união de forças tão díspares em torno de um interesse comum é que faz com que eu me sinta ameaçado. Prevejo exércitos inteiros perfilados, alinhados a partir daquele bico emborrachado branco.

- Talvez tu devesse ser menos resistente à moda – me disse a mãe da minha filha. Já minha namorada teve uma postura diferente, disse que eu sempre arranjava um motivo para implicar com minha filha e que eu dava importância demais a coisas sem importância. Não sei se ela se referia à minha filha ou ao All Star.

Ontem eu quase conversei sobre isso com a minha filha, quando fui buscá-la da aula de inglês. Eu queria mesmo ver a reação dela, o quão imatura, o quão feminina, o quão insegura seria. O que me fez desistir do assunto foi uma lembrança da minha juventude que me assaltou enquanto eu a aguardava na calçada. Na verdade foi o cheiro que exalava a casa abandonada que fica bem ao lado do prédio do cursinho de inglês. Era um odor de coisa velha, que me fez desencostar das grades e torcer o meu corpo em direção à casa, para observá-la. Os capins entre as lajotas do pátio, os detritos pelo chão, o lixo na soleira da porta, as manchas de umidade, as frestas apodrecidas, tudo aquilo desprendia um aroma de velharia inútil, de derrota, de impotência, de final sem glória. Era o mesmo cheiro que tinham os objetos do meu tio, quando ele morreu, décadas atrás, e a casa ficou vazia e fechada até que fôssemos lá recolher os espólios aos quais os vivos têm direito; depois de alguns dias completamente inativa, a casa mais parecia um grande sepulcro repleto de objetos mortos. Fiquei horas inteiras sozinho no quarto dele, mexendo nas gavetas. Eu até hoje não sei ao certo do que meu tio vivia, mas ele gostava muito de pintar, desenhar, ilustrar – tinha coleções inteiras de pincéis, lápis de cor, giz de cera, tintas, folhas de papel, grafites, canetas, gabaritos, réguas e todo um microuniverso de objetos que, apesar de decadentes e opacos, agradavam meus dedos e olhos.

Foi só ontem, esperando minha filha diante daquela casa abandonada, que percebi que aquilo tudo tinha um cheiro, e que este cheiro estava impregnado em mim. Eu o levava comigo no meu corpo toda manhã, quando dirigia até o trabalho; eu tinha dormido com ele todos esses anos – ele resistira aos inúmeros banhos, suores, perfumes e secreções que cobriram meu corpo desde aquela longínqua tarde. Talvez minha ex-mulher tivesse feito algum comentário comigo sobre isso, tentado me alertar, me despertar, e provavelmente eu não a tenha compreendido bem.

(A minha filha nem desconfia, mas eu usava All Star em meados dos anos oitenta, quando tinha a idade dela). Na saída da aula de inglês reparei que muitos dos jovens vinham rindo alto, alguns poucos calados, mas todos usavam All Star. E eu não posso negar que as colegas da minha filha ficavam interessantes de All Star, eu me sentia atraído por aqueles bicos rijos de uma brancura juvenil. Tive vontade de passar a mão, lamber, esfregar o rosto naquelas superfícies lisas e limpas. Enquanto dirigia, imaginei uma daquelas loirinhas chutando minha cara, quebrando meu nariz a pontapés com o bico do All Star, e depois enxugando o sangue até que voltasse a brilhar imaculada a alvura emborrachada. Não é difícil manter-se limpo quando se é jovem – pelo menos suficientemente jovem para não sentir o próprio cheiro.

Liguei o rádio do carro pra me distrair. O noticiário local comentava com uma ênfase polêmica o caso de um menor que teria matado a própria mãe, com uma faca, após uma discussão. O jovem estaria sob influência do crack, e isso parecia suficiente para explicar tudo, para levar a termo todos os argumentos. É provável que ele usasse All Star, pensei, mas o noticiário não dava nenhuma informação sobre isso. Olhei pra minha filha, mas ela já tinha enfiado os seus headphones nas orelhas, devia estar escutando alguma dessas bandas novas que surgem na internet e não tocam nas rádios. - O que é que tu tá ouvindo aí? - perguntei gesticulando à frente dos olhos dela. - Que banda tu tá escutando? - repeti depois que ela afastou um dos fones da orelha.

Não sei onde foram parar todos aqueles materiais de desenho. Com o tempo a gente esquece os mortos – e passa a dar valor a coisas sem importância.


Senegal, 2011 - by Finbarr O'Reilly

01 março 2012

INDIOSSINCRASIA

allegro ma non
antropo

i_nativo
civil_lesado

triste entrópico
natureza morta

Colonia del Sacramento, Uruguai - foto de Dan Brazil

20 fevereiro 2012

PERNAS DE LOUÇA

                                           "Eu vejo as pernas de louça da moça que passa
                                                   e não posso pegar" (Chico Buarque)
                                                              
passam brancas
brilhantes, louçãs
porcelanas intactas
frias e castas

de mármore
de marfim
de mar gelado
um frescor assim

pernas, pra que te quero
senão pra fazer correr em mim
esse desejo sem fim?


Summer Evening (1947) - Edward Hopper

10 fevereiro 2012

URBANO, DEMASIADO URBANO

Não é tão sólida minha solidão:
não resisto às curvas
da tua arquitetura.

Isfahan, Irã, 2011 - foto de Daniel Santini, do blog Outras Vias

08 fevereiro 2012

PRAIA VAZIA

Bem-aventurado é o crepúsculo
que apaga velas cheias de sol
lentamente, sem soprar.

Bem-aventurado é o crepúsculo
que rompe o céu cheio de sangue
devagar, sem machucar.

Bem-aventurado é o crepúsculo
que devolve o pescador cheio de sal
ao seu lar, doce lar.

Bem-aventurado é o crepúsculo
que deixa a praia cheia de silêncio
pra dormir com o barulho do mar.

Bem-aventurado sejas, crepúsculo
tão cheio de doce melancolia
por aportar minha solidão
na praia vazia.

Desconheço o autor desta imagem, mas aí estão as velas apagadas, o céu de sangue, a doce solidão...

Dedico este meu poema às quatorze pessoas que vão para a beira da praia naquele horário em que todos estão olhando o Jornal Nacional e a novela das nove. O horário em que acendem-se as luzes das casas, em que as famílias sentam-se à mesa. Vagar na beira da praia neste horário é uma experiência de vida, quase indesejável de tão real, quase insuportável de tão solitária. Deve ser algo do tipo o que sente o alpinista quando chega ao topo: amplidão total, uma estranha euforia, todos estão em algum lugar fazendo algo, menos eu que estou aqui, diante do vazio pleno de vida, defrontado com essas coisas todas que parecem exigir uma resposta, mas com as quais só se pode conviver sem fazer perguntas. Experiências de solidão como essa são a única maneira que conheço de ter um mínimo vislumbre dos segredos que o mar, o céu e o vento escondem. Tristezalegria.

27 janeiro 2012

Meu pseudo-protesto na minha pseudo-praça Tahrir

Deus, Marx e Amy Winehouse: três mortes que me marcaram. Três mortos que vêm me assombrar de vez em quando. Os três querem me salvar, cada qual a seu modo. Mas eu nasci nos anos 80 e herdei do tempo o cinismo e a impotência - além do Plano Collor. Sofro de amnésia social: a impossibilidade de acreditar em qualquer coisa externa a mim que dure mais do que 15 minutos. Participo desse reality-show de american-way-of-life made-in-Paraguay e remanufaturado na China. É mais barato e mais saudável desperdiçar - desperdiçar água, energia, tempo, dinheiro, oportunidades, sonhos - do que depender de Valium, Lexotan, ácido, coca, fé ou fraternidade. Nenhum terapeuta vai ter coragem de me dizer que a primeira vez é sempre a última chance. Nenhuma enciclopédia virtual vai me fazer entender o porquê de toda essa matéria escura espalhada pelo universo, exigindo uma explicação. Nenhum software livre vai reverter minha condenação à liberdade. Nenhuma rede social vai entender meu protesto.

Geórgia, 2011 - foto de Irakli Gedenidze

20 janeiro 2012

Ela tem olhar de foca


É fácil perceber que estes mamíferos, de sangue quente e olhar tão familiar, tomaram a decisão bastante ousada, em tempos remotos, de voltar para a água - nossa origem elementar. Penso em fazer o mesmo.


Estas aqui apareceram perdidas esta semana no litoral holandês, supostamente afetadas por fortes tempestades. Ou talvez estejam tomando a angustiante decisão de voltar para terra, por motivos que desconhecemos. É a vida, eternamente insatisfeita.

Quero voltar para a água.

05 janeiro 2012

A Estrela dos Magos

Berlim - by Elliot Erwitt

Simpatizo com os Reis Magos. O tempo recorta nas minhas lembranças da infância três figuras esbeltas, longilíneas e misteriosas. Encurtam distâncias insuperáveis. Têm a generosidade aberta e receptiva de quem preza a dignidade entre os homens. Parecem mesmo não saber exatamente o que fazem, mas fazem mesmo assim, com a devoção e a discrição características da mais genuína elegância. De aspecto reservado, até distantes. Parecem comovidos, no entanto sem envolvimento sentimental. Estão envoltos naquela neblina feérica dos personagens que não dão explicações nem sentidos, apenas existem e representam. Estão lá, gravados em cores crepusculares e douradas, no oriente da minha imaginação.
Agora eles voltam, e talvez não sejam mais os mesmos de outrora – eu mesmo já não sou o mesmo. Mas eles voltam, porque estão dizendo por aí que é Dia de Reis. E eu, que agora sou esse que já deixou tanta lembrança pra trás, percebo que meu laço de simpatia com os reis está reforçado por outros quinhentos. Em especial, reforçado por um artigo: A Estrela dos Magos, do eminente escritor e cientista britânico Arthur Clarke, em que se especula sobre possíveis explicações naturais para o fenômeno celeste que poderia ter verdadeiramente guiado os antigos magos até Belém. Começa por descartar a hipótese de que pudesse ser Vênus a estrela fulgurante no céu do Oriente. Depois passa aos argumentos que desabonam a teoria do astrônomo Kepler (séculos XVI-XVII) da conjunção de Júpiter com Saturno. Passa, então, ao exame de possibilidades mais espetaculares, no sentido de que exploram mais vastamente os fenômenos astronômicos: “Muito bem, então: podemos nós descobrir algum fenômeno astrológico suficientemente assustador para causar surpresa ao homem já completamente familiarizado com os movimentos das estrelas e dos planetas e que possa ajustar-se ao relato bíblico?”. 
O incrível brilho celeste pode ter sido obra de um cometa. Não parece muito animador, mas Clarke adverte para o fato de que o século XX foi pobre em cometas realmente espetaculares, o que poderia justificar nosso ceticismo com relação às testemunhas mais antigas deste fenômeno. Mas Clarke ainda busca hipótese mais “terrificante”, até chegar ao que chama de evento natural mais espetacular já descoberto: a explosão de uma estrela. “Verdadeiras bombas atômicas celestiais”, estas estrelas são chamadas de “novas”, e podem explodir de forma tão intensa que o seu brilho aumenta em até cem mil vezes dentro de poucas horas – de uma noite a outra, podem passar de invisíveis a dominantes do céu.
Mas ainda não estamos satisfeitos. As novas não são incomuns, embora geralmente ocorram tão longe que só podem ser observadas por telescópio. Precisamos de algo mais dramático e original, afinal nossos amigos magos não percorreriam tamanha distância se não estivessem profundamente comovidos e deslumbrados com o que acontecia no céu. “Duas ou três vezes em cada mil anos, porém, acontece algo que torna uma nova algo tão simples e irrelevante como um vagalume ao entardecer. Quando uma estrela se torna uma supernova, o seu brilho aumenta não cem mil vezes mas bilhões de vezes, no decurso de poucas horas. A última vez que tal acontecimento foi presenciado por olhos humanos foi em 1604 D.C. Houve uma outra supernova em 1572 D.C., tão brilhante que se tornou visível em pleno dia. E os astrônomos chineses mencionam uma em 1054 D.C.”
O brilho dessa supernova ainda deve estar percorrendo os abismos do espaço, quem sabe deslumbrando outros mundos e iluminando outras boas novas? (Aliás, a língua inglesa de Clarke impossibilitou-o de desfrutar do trocadilho latino: nova / supernova / boa nova – o que torna a sua hipótese ainda mais saborosa).

Hoje há um ar de noite antiga, ela está amena e silenciosa, embora eu possa sentir uma vibração que percorre os subterrâneos e manda sinais secretos e cintilantes para os céus. Nós é que deixamos de observar os céus, perdendo com isso, também, alguma parte da nossa nobreza de pequenos grandes homens. Já não se enxergam estrelas, já não há guias brilhantes – mas há sempre o nascimento de uma criança em nós, entre nós, depois de nós. E enquanto houver isso, deverão continuar existindo as figuras dignas e generosas que o tempo perpetua.

O artigo de Arthur Clarke se encontra em “O Terceiro Planeta”, ed. Hemus, 1972, trad. Attílio Cancian, pág. 46-55