![]() |
| John Atkinson Grimshaw |
30 setembro 2026
parágrafo [PEQUENAS GLÓRIAS, de Mary Oliver]
23 setembro 2026
Mario Levrero - vazio e luminoso
O Discurso Vazio ("El Discurso Vacío"), trad. Antônio Xerxenesky, ed. Companhia das Letras, 2025, (original de 1996).
O Romance Luminoso ("La Novela Luminosa"), trad. Antônio Xerxenesky, ed. Companhia das Letras, 2018, (original de 2005).
![]() |
| Jess Allen |
"Apenas não devo continuar adiando a questão de enfrentar e transcender a angústia difusa e chegar ao ócio; é tudo assim tão simples. Tão simples e tão doloroso. Amigo leitor: não pense em entrelaçar sua vida com a literatura. Ou melhor, sim; você sofrerá, mas dará algo de si mesmo, que definitivamente é a única coisa que importa." (O Romance Luminoso, pág. 78)
Li O Discurso Vazio alguns meses atrás, depois de ter conhecido (e adorado) O Romance Luminoso em 2024, e não havia deixado por aqui nenhuma nota sobre o cativante carisma da prosa de Mario Levrero (1940-2004), cujo personagem de si próprio, buscando um equilíbrio entre a iluminação e a paranoia (frequentemente parecendo um integrante da família Glass, do Salinger), soa patético, cômico, neurótico, honesto, vulnerável, ridículo, encantador.
Ambos são escritos na forma de diários do próprio Levrero, registrando desde simples observações cotidianas até momentos de indizível mistério existencial, através de "impiedosa, radical e hilariante introspecção", como bem definiu Ignacio Echevarría (em Conversas com Mario Levrero, de Pablo Silva Olazábal).
Bem mais sucinto, O Discurso Vazio é como um prelúdio ao caudaloso e póstumo O Romance Luminoso; este, à medida que se desenvolve, vai ficando mais e mais ambíguo quanto aos limites entre sonhos, memórias, relatos, ficções, delírios. Na busca pelo espírito em meio às nulidades da vida besta, aparece de tudo: epifania, telepatia, hipnose, parapsicologia, mística, sonho profético, magia, fenômeno paranormal, coincidência, superstição, daemon, dimensão ignorada - como também a acuidade tranquila do olhar lúcido e reflexivo.
Essas coisas luminosas todas, aconteceram mesmo ou são elementos ficcionais?, é o que inevitavelmente pergunta-se o leitor. Não importa, na verdade; no que decidimos acreditar, já que não se sai da cama pela manhã sem alguma crença? E por que acreditamos nisso e não naquilo? E como podemos crer em algo, sabendo que somos movidos a desejos, e, portanto, a ilusões?
Levrero nos deixa com obras ostensivamente incompletas, imperfeitas, incertas - forma-se uma imagem da vida moderna nesse mecanismo de permanente construção-desconstrução-reconstrução de sentidos e narrativas. Um quebra-cabeça sem fim, só precariamente resolvido, mas que não deixa de restituir algum encanto lúdico e existencial - ler e escrever, sobretudo, surgem como finalidades da vida, e não como meios, e o poder introspectivo da sua solidão firma-se contra a tirania da vida conduzida por coletividades, por tecnocratas, pelas massas, pela publicidade, por slogans, por banalidades em série, pelos que não sabem que nada sabem e colocam em movimento as engrenagens de destruição da poesia sutil e libertária vivida na solitude.
Só me resta reconhecer que, dos nove prosadores uruguaios que lembro ter lido (ou nove e meio, se contarmos o doble-chapa Aldyr Garcia Schlee), quatro são da minha alta estima: Morosoli, Onetti, Benedetti e Levrero - um quarteto de cordas que habilmente concilia silêncios, scherzos e passagens iluminadas.
![]() |
| Fernando Pessina |
Pequenas amostras da adorável casmurrice e introspectiva sensibilidade da persona de Levrero:
"A internet sairá definitivamente da esfera da cultura onde nasceu, e será controlada por comerciantes e estadistas. Mas, mesmo assim, a própria estrutura do computador, a inteligência da humanidade que o criou, isso continuará sempre vigente. Sempre será um mundo para desentranhar, com o qual dialogar, porque é necessariamente regido pela lógica. Sem lógica, a máquina não funciona. Embora aquele que a opere não seja lógico. Um fã de futebol babão já pode apertar uns botões e obter resultados. Logo poderá obter muito mais, com menor desgaste intelectual. Porém, talvez continuem restando indivíduos solitários que preferem dialogar com as entranhas de um sistema operacional na noite de Natal, indiferentes aos fogos de artifício e às bebedeiras. Claro que essa solidão me machuca um pouco; as coisas poderiam ser diferentes. Claro que submerjo no mundo da máquina para não sentir essa dor que, mais do que dor, é nostalgia, ou uma espécie de nostalgia, como a dos tangos, que não se refere obrigatoriamente a um fato concreto, a uma história vivida. Nostalgia do que podia ter sido uma raça, ou um país. Ah, as pessoas..." (O Romance Luminoso, pág. 309-310)
[No trecho acima, escrito em dezembro de 2000, diria que o autor foi profético quanto aos rumos da internet; mais do que isso, em pressentir que o espaço a ser ocupado pela inteligência artificial equivale ao da estupidez natural - e aproveito para lembrar que este blog finca o pé na esfera da cultura e segue navegando como se numa garrafa lançada a um nostálgico mar.]
![]() |
| Sarker Helal Uddin |
"Noto que todas as psicoterapias, todos os meus esforços de adaptação, este viver na Terra, minha aparência decente ou mais ou menos normal dos últimos anos, é só um verniz ou uma forma de simulação, que se desvanece como por encanto quando mal começo a escrever, a pensar, a tentar me resgatar de minhas depressões, a enfrentar a ideia da morte que a necessidade de me operar gerou - quando busco os recursos da vida e da esperança, encontro-me com essas coisas, sempre essas queridas coisas.
"Sim, eu sei; até o bom Jung pensava que a participation mystique implica uma forma de percepção regressiva, correspondente ao período anterior da formação de um 'eu' na criança. Mas este 'eu' não estará hipertrofiado em nós, não terá crescido às custas de uma formação psíquica que seria a fonte de saúde da humanidade? Dito em outras palavras: há alguém, por Deus, que esteja satisfeito com isso que chamam de 'realidade'? Há algum imbecil que pense que o mundo é habitável? Sim, sim, eu sei; há sim, há sim, há sim. Enfim." (O Romance Luminoso, pág. 596)
![]() |
| Karin Jurick |
"Quero escrever e publicar. Tenho necessidade de ver meu nome, meu verdadeiro nome e não o que me deram, em letras de fôrma. Mais que isso, muito mais, quero entrar em contato comigo mesmo, com o maravilhoso ser que me habita e é capaz, entre muitos outros prodígios, de fabular histórias ou historietas interessantes. Essa é a questão. Essa é a chave. Recuperar o contato com o ser íntimo, com o ser que participa de algum modo secreto da faísca divina que percorre infatigavelmente o Universo e o anima, sustenta-o, confere-lhe realidade sob seu aspecto de casca vazia. (...)
Que fim levou minha alma? Por onde será que anda? Um tempo atrás, eu dizia a Alicia que me sentia mal porque há muito tempo não me conecto com a eternidade. Isso quer dizer que percebo as coisas de modo superficial, que não tenho vivências, que estou afastado do Ser Interior; muito afastado, e sem ter a menor noção dos caminhos possíveis para me aproximar. Não importa o que se está vivendo quando uma pessoa está apartada de Si Mesma; tudo fica igualmente sem peso, tudo transcorre sem deixar nenhuma marca memorável." (O Discurso Vazio, pág. 35-36)


13 setembro 2026
Além das terras conhecidas: "AS PLANÍCIES", de Gerald Murnane
"The Plains", trad. Caetano Galindo, ed. Todavia, 2024 (original de 1982).
![]() |
| Andrew Wyeth |
"Porque para todos quantos, privados de senso artístico, isto é, de submissão à realidade, (...) a literatura reduz-se ao mero jogo do espírito, destinado a ir de futuro gradualmente desaparecendo. Alguns queriam fazer do romance uma espécie de desfile cinematográfico das coisas. Concepção absurda. Nada se afasta mais daquilo que de fato percebemos do que a visão cinematográfica." (O Tempo Redescoberto, de Marcel Proust, trad. Lúcia Miguel Pereira)
O australiano Gerald Murnane não precisou de mais do que umas cem páginas para criar uma obra densa, instigante, existencial, infinita, em que equilibra uma prosa fluida e clássica com uma sondagem misteriosa, sutil e obscura sobre a vida interior do narrador e protagonista anônimo, e, por extensão, sobre o lugar verdadeiramente artístico habitado pelo homem.
"Há vinte anos, quando cheguei às planícies, fiquei de olhos bem abertos. Estava à procura de algo naquela paisagem que apontasse para algum sentido complexo por trás das aparências". É com essas palavras - manifestando um processo de fruição estética que define inclusive o ato da leitura - que inicia-se a narrativa do cineasta em busca de inspiração e de condições para realizar um filme vagamente intuído; quase nada irá ocorrer ao longo da jornada que rememora, afora as descrições do que vê e as reflexões que elabora.
Se a construção textual de Murnane é sempre límpida e elegante, a atmosfera do universo que cria nunca é imediatamente assimilável e compreensível - são recorrentes os contrastes entre as zonas sombreadas e os clarões do sol que ofusca as paisagens, como se aqueles segundos necessários para a vista acostumar-se à brusca transição de luminosidade ilustrasse o processo interior que afeta o leitor.
Praticamente inexistem diálogos e não constam referências que permitam situar a narrativa numa época definida, o que dilui as menções à Austrália numa ambientação fantasmática, interiorana e interiorizada, fora do tempo e permeável a dimensões incógnitas.
Há trechos que parecem francamente borgeanos, incluindo toda uma parte situada numa biblioteca que assume ares de microcosmo, além de flertes com noções proustianas de tempo e de arte, e sugestões de dimensões envoltas por enigmáticas dinâmicas de encanto-desencanto, como em A invenção de Morel (Bioy Casares), O deserto dos tártaros (Dino Buzzati) e Stalker (menciono o filme de Tarkovsky já que não conheço o livro que lhe deu origem); O Castelo, de Kafka, talvez seja a inspiração mais ampla e profunda para As Planícies - todos tributários, em maior ou menor grau, das paisagens espirituais desbravadas por Dante n'A Divina Comédia. Dentre os autores contemporâneos, Cormac McCarthy e Mircea Cărtărescu (de Solenoide, lançado no Brasil também em 2024) compartilham certas características semelhantes e qualidades superlativas.
![]() |
| Félix Vallotton |
* * *
"Era uma decisão minha me colocar diante dos espectadores nas minhas primeiras revelações tendo atrás de mim apenas uma tela em branco e um projetor vazio que apontava na minha direção de um canto da sala parcialmente escurecido e ficar falando durante dezesseis horas de paisagens que só eu podia interpretar. Pensava então que um ou dois dos meus ouvintes, quando as cortinas fossem outra vez abertas para revelar uma terra mergulhada numa tarde cujo princípio nenhum deles tinha testemunhado, pudesse ver na planície que se estendia à sua frente um lugar que sempre quis explorar."
* * *
![]() |
| Edward Hopper |
O universo que Murnane nos oferece é simultaneamente tão estranho quanto familiar, como nos sonhos, como nas salas de cinema, como em certas harmonias musicais, como nos planos intersticiais em que a vida, por breves e eternos momentos, se ilumina com a matéria espiritual da ficção e da realidade.
Se na frase de abertura os "olhos bem abertos" perscrutam adiante, na frase final o olhar volta-se para a escuridão interior do narrador, como se o fracasso do almejado filme indicasse que o destino do olhar é ser espelhado pelas trevas interiores. O filme pode ser malfadado ou impossível, mas a metáfora da leitura se completa e se consuma com o fabuloso livro que temos diante dos olhos (e que chega com muito atraso ao Brasil, que segue sem nenhuma outra obra traduzida do autor), repositório de contrastantes letras negras sobre vastas planícies de páginas brancas.
Será absurdo pensar que, afinal, são as planícies que nos imaginam e nos escrevem e nos vivem?, que somos nós, sombras que se movem numa tela em branco, os venturosos e angustiados coadjuvantes de uma história cujo sentido nunca será conhecido?
![]() |
| Andrew Wyeth |
INÍCIOS SIMILARES DE JORNADAS ENIGMÁTICAS
[Os primeiros parágrafos de As Planícies]:
"Há vinte anos, quando cheguei às planícies, fiquei de olhos bem abertos. Estava à procura de algo naquela paisagem que apontasse para algum sentido complexo por trás das aparências.
Meu trajeto até as planícies não foi tão duro quanto minhas descrições posteriores dele. E nem sei dizer se em algum momento eu soube ter deixado a Austrália. Mas recordo com clareza uma sequência de dias em que a terra plana à minha volta parecia cada vez mais um lugar que só eu podia interpretar.
As planícies que atravessei naqueles dias não eram infinitamente iguais. Às vezes meu olhar passava por um grande vale raso com umas árvores e umas reses espalhadas e talvez um riacho estreito no meio. Às vezes, no fim de um terreno totalmente desolado, a estrada subia o que era sem sombra de dúvida um morro antes de eu enxergar à frente o que era apenas mais uma planície, lisa e nua e impressionante.
No vilarejo de bom tamanho a que cheguei certa tarde, percebi um jeito de falar e um estilo de roupas que me convenceram de que não precisava ir mais longe."
* * *
[Os primeiros parágrafos de O Castelo, de Franz Kafka, na tradução de Modesto Carone]:
"Era tarde da noite quando K. chegou. A aldeia jazia na neve profunda. Da encosta não se via nada, névoa e escuridão a cercavam, nem mesmo o clarão mais fraco indicava o grande castelo. K. permaneceu longo tempo sobre a ponte de madeira que levava da estrada à aldeia e ergueu o olhar para o aparente vazio.
Depois caminhou à procura de um lugar para passar a noite; no albergue as pessoas ainda estavam acordadas, o dono não tinha quarto para alugar mas, extremamente surpreso e perturbado com o hóspede retardatário, propôs deixá-lo dormir sobre um saco de palha na sala e K. concordou. Alguns camponeses ainda estavam sentados tomando cerveja mas ele não queria conversar com ninguém, pegou pessoalmente o saco de palha no sótão e deitou-se perto da estufa. Estava quente ali, os camponeses quietos, ele os examinou ainda um pouco com os olhos cansados e em seguida adormeceu."
![]() |
| René Magritte |
![]() |
| capa da edição |










