[Publicado originalmente em 05/08/2025 em blog desativado]
"Solenoid", publicado originalmente em 2015, trad. Fernando Klabin (direto do romeno), ed. Mundaréu, 2024.
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| Zdzisław Beksiński |
“Feito de devaneio, de aroma e de sombra” – foram essas as palavras que me conduziram ao longo de toda a leitura, apresentadas na epígrafe como parte da citação de um poema de Tudor Arghezi, e que melhor simbolizam o livro.
Palavras-chave (doentiamente) recorrentes:
Cor de café – absolutamente qualquer coisa, ou mesmo não-coisa, tem ou pode ter cor de café no universo de Solenoide;
Sarcopta – o ser vivo com quem o narrador mais se identifica;
Crânio – ossos de modo geral, e também o cérebro, entre outros órgãos e partes do corpo; mas o crânio tem uma proeminência tão grande que chega a ser usado como sinônimo de mente.
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| Lucian Freud |
Solenoide é aparentado a livros e autores que são expressamente citados – O Antigo Testamento, os Evangelhos, Dostoiévski, Kafka, Borges, entre vários outros -, como também a alguns que não lembro de serem citados (Poe, Baudelaire, A Náusea), mas penso que o seu irmão dileto seja Abadon, o exterminador, do Ernesto Sabato (o argentino é citado de passagem em um momento), com seu questionamento sobre a arte do romance e sobre o destino do autor de ficção, e com suas tremendas visões apocalípticas e oníricas em paralelo ao realismo urbano – no caso de Solenoide, na decadente Bucareste soviética, “a mais melancólica cidade do mundo, invadida pelas mariposas das paredes, carcomida pelos fortes ácidos do tempo e da nostalgia”.
Na introspecção profundamente solitária que beira um desespero amargo, por um lado, como também no estranhamento diante de uma realidade indecifrável, por outro, lembra vários dos melhores autores contemporâneos. Tematicamente, faz par com Benjamín Labatut (que não incluo no time dos melhores), na exploração da fronteira entre ciência, loucura, ficção, imaginação, teorias físicas e matemáticas – embora eu considere Cartarescu superior em estilo e em imaginação. No trato do narrador com a forma do diário, com as anotações dos sonhos e com os caminhos místicos que o seduzem, ecoa O Romance Luminoso, do Mario Levrero, embora a atmosfera seja completamente distinta.
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| Da série de “Cárceres” de Giovanni Battista Piranesi, referenciada no livro. |
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| Zdzisław Beksiński |
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| Stefan Bleekrode |
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| Wayne Daniels |
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| capa |









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