"The Plains", trad. Caetano Galindo, ed. Todavia, 2024 (original de 1982).
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| Andrew Wyeth |
"Porque para todos quantos, privados de senso artístico, isto é, de submissão à realidade, (...) a literatura reduz-se ao mero jogo do espírito, destinado a ir de futuro gradualmente desaparecendo. Alguns queriam fazer do romance uma espécie de desfile cinematográfico das coisas. Concepção absurda. Nada se afasta mais daquilo que de fato percebemos do que a visão cinematográfica." (O Tempo Redescoberto, de Marcel Proust, trad. Lúcia Miguel Pereira)
O australiano Gerald Murnane não precisou de mais do que umas cem páginas para criar uma obra densa, instigante, existencial, infinita, em que equilibra uma prosa fluida e clássica com uma sondagem misteriosa, sutil e obscura sobre a vida interior do narrador e protagonista anônimo, e, por extensão, sobre o lugar verdadeiramente artístico habitado pelo homem.
"Há vinte anos, quando cheguei às planícies, fiquei de olhos bem abertos. Estava à procura de algo naquela paisagem que apontasse para algum sentido complexo por trás das aparências". É com essas palavras - manifestando um processo de fruição estética que define inclusive o ato da leitura - que inicia-se a narrativa do cineasta em busca de inspiração e de condições para realizar um filme vagamente intuído; quase nada irá ocorrer ao longo da jornada que rememora, afora as descrições do que vê e as reflexões que elabora.
Se a construção textual de Murnane é sempre límpida e elegante, a atmosfera do universo que cria nunca é imediatamente assimilável e compreensível - são recorrentes os contrastes entre as zonas sombreadas e os clarões do sol que ofusca as paisagens, como se aqueles segundos necessários para a vista acostumar-se à brusca transição de luminosidade ilustrasse o processo interior que afeta o leitor.
Praticamente inexistem diálogos e não constam referências que permitam situar a narrativa numa época definida, o que dilui as menções à Austrália numa ambientação fantasmática, interiorana e interiorizada, fora do tempo e permeável a dimensões incógnitas.
Há trechos que parecem francamente borgeanos, incluindo toda uma parte situada numa biblioteca que assume ares de microcosmo, além de flertes com noções proustianas de tempo e de arte, e sugestões de dimensões envoltas por enigmáticas dinâmicas de encanto-desencanto, como em A invenção de Morel (Bioy Casares), O deserto dos tártaros (Dino Buzzati) e Stalker (menciono o filme de Tarkovsky já que não conheço o livro que lhe deu origem); O Castelo, de Kafka, talvez seja a inspiração mais ampla e profunda para As Planícies - todos tributários, em maior ou menor grau, das paisagens espirituais desbravadas por Dante n'A Divina Comédia. Dentre os autores contemporâneos, Cormac McCarthy e Mircea Cărtărescu (de Solenoide, lançado no Brasil também em 2024) compartilham certas características semelhantes e qualidades superlativas.
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| Félix Vallotton |
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"Era uma decisão minha me colocar diante dos espectadores nas minhas primeiras revelações tendo atrás de mim apenas uma tela em branco e um projetor vazio que apontava na minha direção de um canto da sala parcialmente escurecido e ficar falando durante dezesseis horas de paisagens que só eu podia interpretar. Pensava então que um ou dois dos meus ouvintes, quando as cortinas fossem outra vez abertas para revelar uma terra mergulhada numa tarde cujo princípio nenhum deles tinha testemunhado, pudesse ver na planície que se estendia à sua frente um lugar que sempre quis explorar."
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| Edward Hopper |
O universo que Murnane nos oferece é simultaneamente tão estranho quanto familiar, como nos sonhos, como nas salas de cinema, como em certas harmonias musicais, como nos planos intersticiais em que a vida, por breves e eternos momentos, se ilumina com a matéria espiritual da ficção e da realidade.
Se na frase de abertura os "olhos bem abertos" perscrutam adiante, na frase final o olhar volta-se para a escuridão interior do narrador, como se o fracasso do almejado filme indicasse que o destino do olhar é ser espelhado pelas trevas interiores. O filme pode ser malfadado ou impossível, mas a metáfora da leitura se completa e se consuma com o fabuloso livro que temos diante dos olhos (e que chega com muito atraso ao Brasil, que segue sem nenhuma outra obra traduzida do autor), repositório de contrastantes letras negras sobre vastas planícies de páginas brancas.
Será absurdo pensar que, afinal, são as planícies que nos imaginam e nos escrevem e nos vivem?, que somos nós, sombras que se movem numa tela em branco, os venturosos e angustiados coadjuvantes de uma história cujo sentido nunca será conhecido?
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| Andrew Wyeth |
INÍCIOS SIMILARES DE JORNADAS ENIGMÁTICAS
[Os primeiros parágrafos de As Planícies]:
"Há vinte anos, quando cheguei às planícies, fiquei de olhos bem abertos. Estava à procura de algo naquela paisagem que apontasse para algum sentido complexo por trás das aparências.
Meu trajeto até as planícies não foi tão duro quanto minhas descrições posteriores dele. E nem sei dizer se em algum momento eu soube ter deixado a Austrália. Mas recordo com clareza uma sequência de dias em que a terra plana à minha volta parecia cada vez mais um lugar que só eu podia interpretar.
As planícies que atravessei naqueles dias não eram infinitamente iguais. Às vezes meu olhar passava por um grande vale raso com umas árvores e umas reses espalhadas e talvez um riacho estreito no meio. Às vezes, no fim de um terreno totalmente desolado, a estrada subia o que era sem sombra de dúvida um morro antes de eu enxergar à frente o que era apenas mais uma planície, lisa e nua e impressionante.
No vilarejo de bom tamanho a que cheguei certa tarde, percebi um jeito de falar e um estilo de roupas que me convenceram de que não precisava ir mais longe."
* * *
[Os primeiros parágrafos de O Castelo, de Franz Kafka, na tradução de Modesto Carone]:
"Era tarde da noite quando K. chegou. A aldeia jazia na neve profunda. Da encosta não se via nada, névoa e escuridão a cercavam, nem mesmo o clarão mais fraco indicava o grande castelo. K. permaneceu longo tempo sobre a ponte de madeira que levava da estrada à aldeia e ergueu o olhar para o aparente vazio.
Depois caminhou à procura de um lugar para passar a noite; no albergue as pessoas ainda estavam acordadas, o dono não tinha quarto para alugar mas, extremamente surpreso e perturbado com o hóspede retardatário, propôs deixá-lo dormir sobre um saco de palha na sala e K. concordou. Alguns camponeses ainda estavam sentados tomando cerveja mas ele não queria conversar com ninguém, pegou pessoalmente o saco de palha no sótão e deitou-se perto da estufa. Estava quente ali, os camponeses quietos, ele os examinou ainda um pouco com os olhos cansados e em seguida adormeceu."
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| René Magritte |
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| capa da edição |






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