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02 junho 2012

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RELAÇÕES DIAGONAIS



Depois que Camila me comparou com o pai dela – debaixo do toldo verde do nosso restaurante favorito, ela limpando o canto da boca com a unha de um dedo esmaltado de verde (ou era a luz esverdeada do toldo que deu essa impressão?), sendo que ela nunca fazia esse gesto, nunca ela foi assim de uma delicadeza tão sutil e ardilosa, muitas vezes eu vi os seus guardanapos repletos de manchas de batom, amarrotados sobre a mesa, eu acho que aquele gesto incomum dela antecipou que aquele almoço não ia terminar bem – depois que ela me disse que eu estava apegado demais em coisas que deviam ficar no passado e que isso estava me recalcando e me deixando agressivo, exatamente como o pai dela era, eu nunca mais consegui olhar para uma mulher que eu desejasse sem levar em consideração que certamente não valia a pena começar algo cujo final já estava estampado em caracteres tristes e sombrios nas suas caras.

Clara, por exemplo, cumpre integralmente os requisitos da promessa de felicidade que sua beleza deslumbrante espalha pelo ar, mas não é difícil prever que um relacionamento com ela vá terminar ali adiante, de forma melancólica ou bélica, e que isso é tanto mais provável quanto maior for o esforço de cada um para que isso não aconteça. É o que a experiência tem me ensinado, é o que eu comecei a perceber assim que saí de baixo daquele toldo verde, me sentindo ressentido, barrigudo e intolerante como o pai de Camila.

Depois que o sujeito acumula uma certa carga de derrotas, acontece o surpreendente espetáculo da parábola do homem que não tem nada a perder. Percebe-se que nada vale a pena, e portanto tudo está disponível de forma imediata e inconsequente. A partir de então, qualquer vida que passe diante do sujeito parece ser mais interessante do que a sua própria, e não demora para que ele fique novamente enredado nas malhas das misérias e dos triunfos da existência sobre a Terra. E aí começa tudo de novo, como se nunca tivéssemos aprendido nada. Cometem-se os mesmo erros, e alimentam-se as mesmas expectativas. Põe-se tudo a perder, novamente.



Conheci Clara na Marcha das Vadias. Todo aquele bando de mulheres, umas pintadas, outras seminuas, fazendo uma barulheira dos diabos, e eu só queria tomar meu chimarrão em paz na praça. Ela veio e sentou-se ao meu lado no banco pra ajeitar a sandália que estava escapando do pé. Viu que eu usava uma camiseta com a estampa da Amy Winehouse e puxou assunto, com o corpo curvado, ainda debruçada sobre a sandália. Lamentou a morte da Amy, mas disse que muito maior havia sido a perda de Mercedes Sosa, e emendou alguma coisa sobre a força dos povos latino-americanos e mais alguma coisa que eu não lembro bem, sobre opressão e resistência. Me pareceu que era lésbica, mas não pude deixar de desejar ardentemente colocar todos os meus dez, não!, meus vinte dedos e mais alguma coisa naquela carne latina e politizada. Depois que ela afastou o cabelo do rosto eu pude perceber que, a despeito de todos os prognósticos contrários, era possível que eu ficasse apaixonado por aquela criatura de olhar tão vívido.

Ela liga a TV e senta toda estirada no sofá com aquele livro que fala do tal sujeito pós-freudiano, lê uns trechos em voz alta pra mim e fica me provocando com as questões que o autor coloca, de fundamental importância para o curso de graduação dela, e também, conforme ela me explica, para a compreensão do mundo atual. Às vezes eu presto mais atenção na TV.

- A novidade na condição do sujeito pós-freudiano é que ele não tá mais pautado pelos grandes valores da autoridade, entende? Os grandes vetores verticais de autoridade foram substituídos pelas relações horizontais.

- Para Dona Jucélia, a atividade de criação de borboletas em cativeiro não é apenas uma fonte de renda, mas uma terapia.

- Estamos assistindo ao final da situação orientada em torno da autoridade paterna, sabe como é, que pautou os indivíduos até aqui. Não se trata mais de decifrar os recalques, entende, mas de cifrar a sua individualidade. Assumir o seu próprio caos, como um poeta de si mesmo, libertado pela rede de relações horizontais, livre para o gozo.

- Desde que eu passei a ter um borboletário em casa eu me sinto muito melhor, acabou a depressão, acabou com meu nervoso. Quando tem algo pra cuidar assim, com dedicação e atenção, o dia fica preenchido e não se tem nem tempo de pensar em bobagem, né?

As duas sorriem ao mesmo tempo. Clara e Dona Jucélia. Me dá uma vontade de dizer pra elas que eu me sinto uma diagonal em pleno cruzamento. Levanto pra ir até a geladeira pensando que talvez ninguém ainda tenha pensado em manter relações diagonais. Abrindo a garrafa, ainda consigo ouvir a voz da Clara, mas a TV não. Já não sei se ela está lendo o livro ou simplesmente despejando sobre mim tudo o que passa pela sua cabeça.

- Ao contrário do que se pensa – continua Clara lá da sala – as pessoas atualmente não estão assim tão desorientadas, tão perdidas, tão entregues ao acaso, como querem fazer crer essas religiões todas e os discursos conservadores e os diagnósticos psiquiatrizantes.

Ainda na cozinha, por um instante minha consciência é chamada a observar a cor esverdeada do vidro da garrafa; de súbito, o verde insinua-se pela parte de trás dos meus olhos, invade meu cérebro, percorrendo minha espinha e me deixando abandonado às minhas próprias reminiscências. Quase uma epifania, vejo o verde do toldo, o verde das unhas, o verde da garrafa, vejo tudo esverdeado e pressinto o fantasma daquele gesto de limpar o canto da boca com a unha. Sinto a angustiante certeza de que está tudo para acabar, muito em breve, agora mesmo.

- É só pensar nesses jovens que se expressam com tanta intensidade através de esportes radicais, de música eletrônica, de grafismos incríveis. No passado, na geração dos nossos pais, por exemplo, a inconformidade da juventude era agressiva, botar fogo em prédio, quebrar o pau com a polícia, destruir qualquer coisa. Concentravam seus esforços de revolta contra o controle, enquanto o sujeito pós-freudiano centra-se no autocontrole.

Talvez Camila tivesse razão. É possível que eu nunca tenha superado a morte trágica dos meus sonhos. Apanho a garrafa e volto pra sala, decidido a finalmente dizer o que estava entalado há meses:

- Escuta, sabe o que eu acho? Sabe o que eu realmente penso? – ela ergue os olhos do livro e me ouve – Pra mim Mercedes Sosa é igual à Amy Winehouse. Ou Billie Holiday, ou quem sabe Janis, ou Elis. Não vejo diferença essencial. São artistas fantásticas, insuperáveis, que nos levam o mais longe possível com sua música. Não preciso entender o que elas cantam, não preciso me preocupar se uma é ativista social, a outra uma junkie, ou maníaco-depressiva, ou suicida. Parem de sempre associar Mercedes Sosa com ativismo latino-americano, como se ela precisasse disso para se justificar! Basta sua voz e sua arte, não preciso de nota de rodapé pra valorizar uma artista desse calibre! Graças a la vida, sei viver a arte de Mercedes Sosa com a mesma entrega e a mesma energia com que vivo Amy Winehouse! Será que os tais povos latino-americanos podem se permitir ao menos essa alegria?! Hein?!

Talvez eu tenha finalmente aprendido alguma coisa, com todos aqueles cacos verdes espalhados pelo chão, como borboletas mortas, e os soluços de choro da Clara. Eu apenas começo a me conhecer, recém vão desabrochando minhas facetas, principio a me fascinar com as minhas metamorfoses, descobrindo que meu poder de ser eu mesmo é múltiplo e fantástico – quando então sou forçado a perceber que é preciso sufocar pelo menos uma das minhas facetas a fim de realizar qualquer coisa duradoura. Tenho de admitir, resignado, que é necessário restringir a mim mesmo para não ficar completamente entregue àquela espécie de tentação desnorteadora que me leva à deriva pelos dias e noites. Fico pensando no que é que a Dona Jucélia vai fazer da vida quando se cansar das borboletas.

Espanha, 1998 - Harry Gruyaert

31 maio 2012

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ÉDIPO 2.1


Me olhou muito profundamente nos olhos, como se por fim tivesse compreendido toda a verdade, e me deu ainda um conselho:

"Carpe diem".

Foi a última coisa que me disse meu pai.




(Carpe diem, o senhor vivia me dizendo. Mas não, pai, o dia não está mais dividido em 24 horas, e sim em 86.400 segundos. O senhor quer que eu aproveite o quê, exatamente? São 86.400 minúsculos e imprestáveis cacos, 86.400 fragmentos do que foi o século XX.  O que é demais nunca é o bastante, isso está mais que provado. Baseado não tem mais graça. Cocaína não deixa mais doidão não, pelo contrário, serve pra acalmar um pouco.)

Fui intimado a comparecer na delegacia para prestar depoimento. As circunstâncias da morte não estavam muito claras e aparentemente eles esperavam que eu pudesse elucidar os pontos nebulosos.

(Pai, o senhor precisava ver isto: descobri os escombros da reputação da nossa família; vasculhei o mapa genético do nosso nome, do nosso sangue: está em ruínas o senso de trabalho que moveu nossa linhagem até aqui, o sentido de civilização, progresso, futuro e o projeto pessoal ligado ao avanço da sociedade. Oitenta e seis mil e quatrocentos segundos, isso é muito ou muito pouco? Pai, qual era o maior número com que o teu pai convivia? Os 10.000 quilômetros entre o Brasil e a Alemanha que o pai dele atravessou? Os 6 milhões de mortos nos campos de concentração? (hábeis negociantes, não terão superfaturado esse número?) É duro confessar isso, mas eu morro 86.400 vezes por dia. E eu espero que o senhor não me leve a mal, mas eu acho a mortandade de animais silvestres nas estradas mais triste que o holocausto judeu (não me importo com a mortandade de peixes nos nossos rios podres; peixe dá em massa, morrem milhões mas têm muitos outros milhões vivos). Tem muita gente nesse mundo, pai, gente demais, não dá pra todo mundo sair carpe diem por aí.)

Enquanto o escrivão tomava meu depoimento, eu observava através do vidro divisório uma televisão ligada na sala ao fundo. Sem som, a imagem da Challenger decolando e explodindo parecia ainda mais absurda. Ao lado, um homem calvo  gesticulava ao telefone, num aparente jogo de mímica sem sentido. Depois, Chernobyl em colapso, os guardas passando detectores de radiação nas pessoas, nos cães, nas malas. Parecia que, por algum motivo, a TV estava fazendo uma retrospectiva do ano em que nasci. Tirei os olhos da televisão para responder à última pergunta: não, eu não tinha conhecimento de nenhum motivo para que matassem meu pai.

(Mas eu não quero parecer pessimista, não. Vamos olhar pra frente: daqui a 86.400 anos nada disso vai ter o menor sentido – tudo isso aqui vai parecer tão absurdo e anacrônico quanto o teu carpe diem de hoje, pai. Mas até lá, o que resta a mim? O que foi que herdei do esforço de todos os nossos antepassados? Oitenta e seis mil e quatrocentos segundos por dia para aproveitar a riqueza acumulada, as infinitas potencialidades da possibilidade de comprar comida, serviços e prazer. Comida, serviços e prazer. Comida, serviços e prazer. Comida, serviços e prazer, oitenta e seis mil e quatrocentas vezes por dia. Trocaria tudo isso pela convicção de que pelo menos sou digno de viver, de estar vivo de verdade. Eles vivem bem sem mim, pai, a sociedade não precisa de mim, eles vão arranjar meios de me sobrepujar ou mesmo de me eliminar.)

Senti que estavam prestes a abandonar de vez a hipótese de homicídio e colocar tudo na conta da doença. Imaginei o corpo do meu pai estendido no necrotério e lembrei daquela música que me criei ouvindo. Por que a violência é tão fascinante? E nossas vidas tão normais? Eu menti quando eles me perguntaram quais haviam sido as suas últimas palavras: disse que ele havia pedido para que eu cuidasse da minha mãe.

(“Aproveite cada segundo” diz o chavão da sabedoria transmitido pelo comercial da televisão. Oitenta e seis mil e quatrocentos orgasmos por dia, aposto que o senhor não chegou a tanto numa vida inteira! É um jogo, pai, é um jogo e a regra é: “intensificar os desejos até o insuportável tornando ao mesmo tempo sua realização cada vez mais inacessível” (conforme as palavras do novo profeta). Ninguém mais é inocente, já nascemos todos culpados, corrompidos – e que fique claro, pai, isso não tem nada a ver com o pecado original, com a expulsão do paraíso ou qualquer dessas mistificações alegóricas ultrapassadas. Meu avô não dizia que a gente colhe o que planta? Será que o velho não tinha sequer noção da confusão que reinaria sobre as gerações seguintes? Que sementes são essas que tenho nas mãos?, eu gostaria de perguntar ao meu avô. Quem pode saber que sementes estão sendo jogadas? Primeiro acabou a certeza do meu avô, e agora acabou também o teu otimismo, não é, pai? Eu fico pensando: que desejos insuportáveis vocês tiveram em suas vidas, se é que os tiveram? Provavelmente não, provavelmente meu avô quase não tinha desejos, provavelmente tu, meu pai, teve desejos que eram perfeitamente suportáveis; provavelmente ambos realizaram seus desejos. Mas não é mais assim. Agora somos todos criminosos, inclusive as vítimas. É o fim da inocência. Não surpreende que estejamos todos atrás de grades; é muito justo, pensando bem.)

Entendo-o perfeitamente. Acho que eu faria o mesmo na sua situação. De que vale uma vida mortificada não pelo medo do fim, mas pelo medo de continuar vivendo? Acordar com a permanente angústia de lutar contra um tumor invisível, até que findem os dias e as noites, cada vez mais pálidos? Eu o entendo, sim. Mas também gostaria que alguém me entendesse. Não é fácil para um filho realizar um desejo tão decisivo e irreversível quanto esse. Eu tinha de fazer aquilo, não por dever moral, mas simplesmente porque há muito tempo meu pai não manifestava qualquer desejo, e quando este surgiu, penoso e amadurecido, me pareceu natural que fosse realizado. Pensando bem, sempre existem em nós mesmos coisas que devem morrer, coisas que devemos matar.

(Pai, escuta essa: ontem quando eu voltava do trabalho, passando ali nos fundos daquele colégio, vi três meninas no pátio, não podiam ter mais de doze anos de idade; uma delas, a que usava minissaia e meia-arrastão, subiu naquela mesa de concreto, ficou ali de pé, enquanto as outras ficaram sentadas em volta dela, espiando por baixo da saia e estimulando-a com gritinhos; elas me viram e começaram a cantar repetidos refrãos em coro, gritando, desvairadas, me chamando de gostoso, a de minissaia rebolando. Carpe diem, pai, essas meninas já sabem como fazer, carpe diem. E ainda dizem por aí que a nossa geração é apática? Só porque desistimos de ter filhos? Porque desistimos de envelhecer? Juventude&beleza iLtda. Carpe diem, oitenta e seis mil e quatrocentas vezes por dia. Ainda não desistimos do sexo, pai; ainda não, mas é uma questão de tempo, de cansaço, de desistir do jogo, entende? Tô ficando atoladinha, tô ficando atoladinha, tô ficando atoladinha, oitenta e seis mil e quatrocentas vezes repete-se o refrão. E não me venha com Freud, pai, ele era apenas um intelectual com medo de dizer (assim, com todas as letras) que o prazer sexual é o único objetivo real da existência humana. O mesmo vale para Lennon, para Gandhi, até para Einstein; todos vocês viviam num dia de 24 horas (e todos vocês tinham medo de dizer o que todo mundo sabe). Nenhum de vocês teve de contar até 86.400 para não agir precipitadamente. Nenhum de vocês viu aquela menina de minissaia. Vocês não conhecem o novo refrão. Tô atolado, pai, atolado num mar de comida, serviços e prazer. Assumo a herança. Recuso a culpa. Desconsidero o holocausto. Se querem me eliminar, terão de me pegar. Não vai ser assim tão fácil. Estou vivo, de verdade. Carpe diem pro senhor também.)

Cego por lágrimas, forcei um derradeiro olhar para a mancha escura e liquefeita em que havia se transformado o caixão, antes que a terra por fim o cobrisse. “Seja feita a tua vontade”, pensei comigo, enquanto tomava a decisão de nunca contar a verdade a ninguém.


Índia, 2012: festividade hindu - by Kevin Frayer

10 maio 2012

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DE VOLTA AO AGORA



Porque hoje é sábado, Camila está no meu carro, com as pernas compridonas esticadas sobre o painel, onde se vê o sinal de FODA-SE ligado, piscando ansiosamente. Não sei se por causa desse veranico de maio, se por causa da potência do motor, ou simplesmente porque hoje é sábado, ela abre as pernas, cada vez mais, desnudas sob o vestido curto, num convite cheio de promessas de verão, de verões sem fim – convite que não me cabe aceitar no momento, faz parte do jogo esse esticar a ação para um ponto futuro, que é exatamente o que ela faz agora com suas pernas estendidas até o para-brisa.

 - Isso não é uma manhã, é uma pequena glória oferecida aos homens – ela diz, com aquele tom de quem recita uma frase entre aspas. Seus tornozelos frescos parecem caroços de fruta madura sobre o painel. Este é um daqueles momentos raros em que capto a plena existência assombrosa da liberdade; por isso mesmo, não digo nada. As unhas do pé pintadas de azul anil. Amy baixinho no rádio. Trepidação. O acelerador vibrando sob meu pé. Faço um inacreditável esforço para não me perder por rotas que não conheço. Me concentro em manter o controle sobre o carro.

Talvez eu estivesse amando-a ali, enquanto voávamos a mais de 100 através do ar aquecido de maio. Amando a vida, amando tudo o que é vivo. Perfeito demais.

- Eu não acredito nisso! – diz Clarissa metendo a cabeça entre os bancos da frente e esfregando os olhos sonolentos. Todo esse tempo sem olhar pelo retrovisor, já tinha me esquecido dela ali no banco de trás. – Por que vocês não me acordaram antes? – ela quer saber.

- Tu parecia estar sonhando, profundamente – digo. – Sonho bom?

- Vai, conta pra gente as novidades do mundo dos sonhos, o que anda acontecendo por lá? – pergunta Camila, ainda com as pernas sobre o painel, mas não tão abertas.

- Escuta, vocês tão me escondendo alguma coisa, hein? – Clarissa tem um tom ríspido.

- Quem tá escondendo alguma coisa aqui é tu – responde Camila –, por que não conta com o que sonhou?

- Olha, eu sei ver na cara de vocês quando tão aprontando alguma. Qual é, hein? QUAL É?!! – Clarissa grita. – Pra onde a gente tá indo?

- A gente tá indo até onde dá pra chegar – digo. – Já reparou que beleza de manhã?

- Onde a gente tá? – ela olha para todos os lados, confusa. – Olha, não era isso que a gente tinha combinado ontem à noite. Eu quero entender o que tá acontecendo aqui!

Isso ia acabar acontecendo mesmo, mais cedo ou mais tarde. Não adianta procurar, Clarissa, o futuro sumiu da nossa paisagem. Já chegamos ao nosso destino. Há um bom tempo esperávamos por isso, em segredo, sem o confessar. Troco um olhar com Camila. Um olhar – suspenso no espaço entre os nossos bancos –, um olhar apenas e ela já sabe o que tem que fazer. Em seguida olho pelo retrovisor, encaro Clarissa. Lamento que a liberdade vá tão longe, tão longe a ponto de chegar onde não devia, tão longe a ponto de chegarmos a perdê-la.

Camila aumenta o volume do rádio, com o sorriso mais perturbador que um homem já viu, um sorriso antiquíssimo que deve ter sido a causa de toda a ventura de Adão.

We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to black


E então coloca no último volume, ensurdecedor, um inferno sensacional explodindo em nossas cabeças, e começamos a gritar, a gritar com nossas gargantas violentas, berrando desvairados, furor nos pulmões inchados de tanto amor, de tanto desejo, de tanto prazer, somos cães cantando, num potente uivo de liberdade, FODA-SE, FODA-SE, FODA-SE, piscando cada vez mais rápido no painel – viver é a única felicidade possível, deve estar tentando dizer Camila agora, recitando mais uma das frases que decora, mas não se ouve nada além da nossa gritaria desesperada. Parece que tudo vai arrebentar.

A trepidação aumenta. Camila tem os cabelos voando livres em todas as direções; como numa câmera lenta, é possível distinguir cada fio negro um do outro, as coisas ficam todas belas e trágicas, revelam-se detalhes que nunca eram visíveis. Que tremenda boa ação teriam feito os homens aos deuses para serem presenteados com esse sopro doce como um beijo, que nos envolve nesse amanhecer de sábado? Avançamos, num ritmo distorcido, perdidos no tempo, numa câmera lenta muito acelerada.

Daqui a pouco os vidros vão estourar. O carro vai desaparecer numa nuvem de fumaça. A liberdade vai se reduzir a um pó cintilante. Nós seremos ausências eufóricas, ecoando nas estradas. Amy estará conosco. O sábado vai terminar. Perfeito demais.



25 abril 2012

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PRINCIPALMENTE NADA


Tire a ilusão de um homem e ele é um tolo morto de tédio, e abaixo da frase uma imagem em que Fanny, Alexander e a mãe estão deitados numa cama, cada um deles em um plano, gradativamente mais desfocados.
Valentina tem umas montagens com imagens e frases que ela usa no seu perfil do facebook, são em geral cafonas e banais, mas às vezes ela acerta, às vezes ela mexe mesmo comigo, com as minhas emoções e lembranças. Não sei se é por causa disso, mas de uns tempos pra cá tenho tido um sonho recorrente, pode-se dizer que é um pesadelo, talvez:  Valentina me observa através de um falso espelho.


Tem uma estranha sentada ao meu lado no ônibus, quero dizer uma desconhecida, com quem evidentemente eu não posso conversar, primeiro porque não há nada a ser dito e segundo porque qualquer coisa que eu dissesse provavelmente deixaria uma má impressão, do tipo que cara chato, ou que conversinha besta, ou mesmo que cara que se acha o tal - e isso se eu chegasse a me fazer compreender, superando a péssima dicção e a gagueira salivante que inevitavelmente se apossam da minha boca quando pretendo iniciar uma conversa, especialmente com estranhos - e então eu passaria a vê-la nas manhãs seguintes sorrateiramente evitando o banco ao meu lado, fingindo não ver que ei! há um lugar vago bem aqui do meu lado, tu não precisa ficar aí de pé nesse corredor atulhado, correndo o risco de ter a bunda assediada por uma mão indiscreta (de um operário, certamente), eu tenho superior completo e bons modos, mas talvez o assédio seja preferível a ter de suportar minha presença incomodamente lateral e tristemente esforçada por parecer simpática.

Alice ou Sara, porque ela tem cara de Alice ou Sara, provavelmente permanecerá sendo eternamente uma estranha para mim, apesar de estar neste ônibus todas as manhãs de todos os dias da semana. (Alice ou Sara ainda vai ao colégio, usa uniforme azul e uma mochila, enquanto eu me dirijo ao meu trabalho com a barba feita). Não há nada a ser dito (mas no plano-sequência 1 eu digo: oi, esse rímel fica muito bem nos teus olhões). Isso me faz lembrar da Valentina, quando a gente conversou pra valer pela primeira vez. Ela estava no fundo da sala de aula, durante o intervalo, lendo e rindo. Dom Quixote, então existe alguém que lê Dom Quixote, esse alguém é uma jovem com grandes olhos delineados por um fio negro, e parece que só eu estou percebendo que tremenda promessa de felicidade está bem ali ao alcance! (No plano-sequência 2 eu digo: sabia que quando tu prende o cabelo assim a manhã parece mais leve?) Ela me diz que Dom Quixote não é a coisa mais engraçada que ela já leu. Narra uma história meio maluca que diz ser um conto que leu na internet, em que um sujeito tenta copular (ela usou essa palavra) com a famosa estátua dinamarquesa da Pequena Sereia, dando origem a um novo complexo sexual, a tara por estátuas e monumentos. Tendo seu intento frustrado em função da ação de terceiros, em represália o maníaco decepa a cabeça de bronze da sereia, provocando comoção da comunidade internacional, caça às bruxas da perversão do mundo, vindo ao sol do conhecimento público inúmeras condutas fetichistas, taras, obsessões, como um sujeito milionário que tem uma coleção de estátuas femininas (Vênus de Milo, Santa Maria, Estátua da Liberdade, etc) com orifícios nas mãos e bocas e genitais, adaptados para perversões (ela repetia muito essa palavra) sexuais, o que não deixava de ser um avanço com relação às bonecas infláveis, que são mulheres sem personalidade. (No plano-sequência 3 eu ponho minha mão sobre a dela, com muito cuidado mas bastante decidido). Conta muito hoje em dia a personalidade da mulher, diz o tarado à reportagem após ser preso, e a Sereia Pervertida se torna um grande sucesso de vendas no mercado erótico masculino, provocando estrepitosa reação feminina: estátuas gregas com ereções! monumentais ereções! basta daqueles pingulins mirrados, isso sim é pau duro, não amolece nunca! diz uma mulher à reportagem, de qualquer forma o sêmen há muito deixou de ser fundamental, completa ela. (E tem outro plano-sequência em que passo a mão por dentro da cintura do uniforme azul dela, sem me preocupar se as pessoas no ônibus estão observando). Finalmente a humanidade alcança o estágio do sexo público, as praças se tornando locais privilegiados para todo o tipo de práticas fetichistas com estátuas, monumentos, bustos e até obeliscos! Isso era a coisa mais engraçada que ela já lera, e na época eu concordei.

E agora, tendo Alice ou Sara ao meu lado e refletindo sobre uma possível sequência à nossa história que nunca começou, relembro aqueles meses curtos e intensos ao lado de Valentina. Penso na entropia avassaladora da nossa relação, que não mais de quatro meses depois daquela divertida narração no fundo da sala levou-nos a uma monumental indiferença um para com o outro. Éramos atraídos por uma força termodinâmica que só poderia mesmo levar à desagregação, e talvez a estátua da sereia decapitada fosse o símbolo da nossa condição. Na verdade a depredação daquela magnífica sereia anunciava o início de uma era, de uma nova e angustiante era do mundo - ainda que jamais acontecesse tal depredação, que estivesse tudo dentro das nossas cabeças perdidas. Há algo de podre no reino das nossas fantasias.



Faz muito que não vejo Valentina, me limito a bisbilhotar em segredo no seu facebook e a sonhar com a sua inexplicável presença invisível por trás dos espelhos.

Música preferida: Yesterday.

Sobre mim: de uns tempos pra cá se tornou impossível sentir-me tranquila, em paz, confortavelmente instalada em mim mesma, leve – vocês sabem, sem tristeza nem culpa, mas também sem explosões doidas de alegria, arroubos de ousadia, agitações dissipadoras, enfim, parece que desaprendi, parece que me foi tirada, na verdade, a capacidade de não ficar submetida ora a um extremo, ora a outro. A vida parece estar sempre exigindo, impondo: o maldito céu ou a porra do inferno; o prazer ou o fracasso; a necessidade quase física da vitória ou o mergulho negro no abismo. Droga, não sou só eu, vocês sabem, droga, isso é assim mesmo.

Ok Valentina, acho que entendo. Yesterday faz parecer que não precisava ser assim, não é? faz parecer que não era assim, e então será que desde 1965 tornaram-se impossíveis as yesterdays e todos tivemos de nos contentar com ruídos ou silêncio, com o mais intenso dos prazeres (superando em muito o que sequer sonharam as gerações passadas) ou com a dor mais irremediável, e nunca mais soaram as notas tão despojadamente harmoniosas e tão despretensiosamente belas de Yesterday entre nós, como soavam antes? O que foi que aconteceu nesse meio tempo? Onde foi parar aquela calma contente? Por que a angústia tomou conta de tudo, inclusive do prazer, inclusive da alegria? Hoje explode-se de amor e de ódio, de romance, de vingança, mas a neutralidade sublime de Yesterday se perdeu, não é? Mas nossos pais e mães não estão mais conosco, Valentina, nós crescemos e ficamos sós, nós crescemos e não temos certeza se realmente aprendemos alguma coisa, vamos crescendo e os clichês se tornando profecias, vamos envelhecendo e ficando progressivamente mais desfocados, não é isso? (Quem é que vai te salvar, me pergunta Valentina através do espelho, em qual deles tu quer acreditar pra não entregar os pontos de uma vez? Beatles? Bergman? Dom Quixote?)



É melhor assim, Alice ou Sara, melhor que ninguém tome iniciativa, que nossa história não tenha sequência, que tu continue sendo essa aparição iluminada da manhã, essa pequena sereia dinamarquesa de uniforme e mochila e cabelo preso de um jeito diferente nos dias que tu decidir que assim deve ser, até porque, Alice ou Sara, eu não quero que percamos a cabeça, não quero te ver desbotando a cada exigência minha, não quero ver desvanecer o mistério diário da tua presença. Continue assim, apenas continue assim.

 

TUDO PODE ACONTECER NA VIDA, em grandes letras garrafais brancas sobre fundo preto (oh! mais uma das cafonices que acalentam a alma feminina?), mas logo abaixo em letras muito pequenas: Principalmente nada.

Às vezes Valentina acerta mesmo.

(No plano-sequencia final eu digo: prometo nunca morrer, Valentina - e Alice ou Sara deve pensar que sou um tolo.)



olhares - por Claudio L. Bender


23 março 2012

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UMA VERDADE INCONVENIENTE


A filha do meu advogado interrompeu nossa conversa pra dizer que o urso polar na verdade não é branco, ele é pardo como um urso qualquer, mas o reflexo do sol no gelo faz com que seu pelo pareça branco a nossos olhos, sabia pai? Um pouco aborrecido com a intromissão olhei para o meu advogado, mas ele parecia simplesmente ignorar a vozinha insistente da filha. Vem cá Fonseca, tu não acha que ela tá olhando televisão demais, perguntei, que tipo de criança usa a palavra pardo em seu vocabulário, pensei comigo, sem coragem de admitir que crianças hiperativas me deixam em pânico, e pensando que talvez o mundo realmente acabe quando finalmente todos os jovens forem hiperativos. Ele pousou o copo sobre a mesa e disse que esse tipo de coisa ela aprende na internet. A internet é um tédio só, na minha opinião, e seria bom que a gurizada arranjasse coisa melhor pra fazer; mas eu não disse isso, me limitei a lançar um olhar esfaimado para a garçonete, tentando imaginar qual a idade dela e se ela acessaria a internet, talvez tivesse um caso virtual. O urso polar pode farejar uma foca a trinta e dois quilômetros de distância, sabia pai?

É impressionante a força do instinto de sobrevivência, e a capacidade de adaptação que a vida encontra.

Está completando três semanas desde o dia em que bisbilhotei o lixo da minha vizinha. Foi num impulso, difícil explicar, saí do elevador e me deparei com aquela sacola cheia de lixo na soleira da porta dela. Peguei em silêncio e entrei logo na minha porta, estimulado por uma ânsia incompreensível e sorrateira. Agora eu percebo, era apenas uma forma lúdica e segura de perversão. Nem tão segura, na verdade.

Lixo seco. A única coisa interessante que encontrei foi um batom, um toco de batom vermelho. Girei a base, cheirei, aroma adocicado, passei na boca, tava excitado mesmo, passei nas bochechas, na testa, difícil explicar. Minha vizinha é solteira, tem um corpo esguio e pernas longas, deve ter pouco mais do que metade da minha idade. Bis, Doritos, Heineken, Activia. Eu esperava uma embalagem de Ritalina, mas só tinha de clareador dental e sabonete líquido. Nenhuma pista sobre a vida sexual, afetiva ou profissional dela. O que ela fazia nessa vida, além de ouvir Amy Winehouse no último volume, fumar os seus baseadinhos fedorentos e sair no sábado à noite batendo a porta com estrondo? O que ela estaria fazendo nesse exato momento para não ser consumida pelo tédio, em casa?

Eu volto a explicar pro Fonseca que não sei mentir direito, que eles vão perceber meus sinais de nervosismo, que é melhor ele pensar em outra estratégia, talvez seja melhor dizer a verdade. A filha dele já desistiu de atrair nossa atenção e agora fala sozinha, trepada na cadeira, passando o dedo na parede como se fizesse desenhos imaginários. Ele me diz que todos os fatos podem ser explicados, basta encontrar uma sequencia lógica coerente, e usa a evolução dos ursos polares como exemplo. Cara de pau, será que ele tá falando sério? Será que ele não percebe que a filha hiperativa dele vai virar uma acadêmica bem sucedida na carreira mas cheia de compulsões destrutivas? Ele não percebe que a falta de imaginação vai acabar nos derrotando, a todos nós?

Alguém bateu na minha porta quando eu acabava de verificar o último item da sacola. Escondi tudo rapidamente embaixo da mesa e abri. Era ela. Lembro bem da expressão confusa no seu rosto. Ela deu uma vacilada, depois os olhos brilharam, isso é batom na tua cara?

É impressionante como o nosso instinto de sobrevivência fraqueja às vezes, contrariando toda teoria. Talvez a história da humanidade não seja mais do que a crônica da inadaptação, do crescente constrangimento ao longo do tempo, do processo gradual de sair da caverna sem realmente abandonar o útero.

Eu não sei mentir direito, fiquei nervoso, ela só queria saber se eu podia emprestar o controle remoto do portão da garagem, nem se lembrava do lixo, mas contei a verdade, confessei envergonhado, confiando na compreensão dela, afinal era só um lixo.

Faz três semanas que ela deu queixa na delegacia, danos morais ou invasão de privacidade ou coisa assim, fui intimado, contatei meu advogado, etc.

Eu sinto que, apesar de tudo, devo dizer a verdade, mas, por artimanhas da vida, não sei ao certo qual é a verdade. Ursos polares, aquecimento global, evolução biológica, justiça.  A sistemática insistência dos cientistas e acadêmicos em afirmar que a ciência opera com provas e não com crenças é, evidentemente, uma prova de que essa é a crença deles.

A filha do Fonseca me dá uma última olhada, zombeteira, quando eles se levantam para ir embora. A garçonete vem recolher os copos, passa o pano na mesa, o senhor deseja mais alguma coisa? Sim, eu desejo, desejo muito, desejo de verdade, desejo a tua boca cheia de batom vermelho, a tua boca aberta e quente; mas eu não disse isso, embora fosse verdade. Escrevi no guardanapo uma frase do Fonseca que deixei à mostra sobre a mesa, esperando por uma reação dela: "O que importa não é a realidade, é a verdade, e a verdade é aquilo em que se acredita".


Difícil explicar, difícil acreditar na explicação. Todas elas - a filha do Fonseca, a minha vizinha, a garçonete, todas - me olham com essa cara de quem sabe a resposta, e eu respondo com o olhar de quem já desistiu do jogo, de quem não separa o lixo, de quem não tem perfil nas redes sociais.

Talvez a raça humana termine por pura falta de imaginação.

Já imaginou?

O diretor de cinema Abbas Kiarostami procurando a verdade nos arredores de Teerã

10 março 2012

ESQUECER OS MORTOS

Acho que minha filha devia adotar outro estilo, parar de usar sempre All Star. Não é um tênis feio, mas fico incomodado quando noto algo em comum entre colegiais, anarquistas, empresários, intelectuais, ripongos, metidos, bundões, lésbicas, playboys, baderneiros, saudosistas e desocupados – do Eike Batista ao Lobão, todo mundo usa All Star. Essa união de forças tão díspares em torno de um interesse comum é que faz com que eu me sinta ameaçado. Prevejo exércitos inteiros perfilados, alinhados a partir daquele bico emborrachado branco.

- Talvez tu devesse ser menos resistente à moda – me disse a mãe da minha filha. Já minha namorada teve uma postura diferente, disse que eu sempre arranjava um motivo para implicar com minha filha e que eu dava importância demais a coisas sem importância. Não sei se ela se referia à minha filha ou ao All Star.

Ontem eu quase conversei sobre isso com a minha filha, quando fui buscá-la da aula de inglês. Eu queria mesmo ver a reação dela, o quão imatura, o quão feminina, o quão insegura seria. O que me fez desistir do assunto foi uma lembrança da minha juventude que me assaltou enquanto eu a aguardava na calçada. Na verdade foi o cheiro que exalava a casa abandonada que fica bem ao lado do prédio do cursinho de inglês. Era um odor de coisa velha, que me fez desencostar das grades e torcer o meu corpo em direção à casa, para observá-la. Os capins entre as lajotas do pátio, os detritos pelo chão, o lixo na soleira da porta, as manchas de umidade, as frestas apodrecidas, tudo aquilo desprendia um aroma de velharia inútil, de derrota, de impotência, de final sem glória. Era o mesmo cheiro que tinham os objetos do meu tio, quando ele morreu, décadas atrás, e a casa ficou vazia e fechada até que fôssemos lá recolher os espólios aos quais os vivos têm direito; depois de alguns dias completamente inativa, a casa mais parecia um grande sepulcro repleto de objetos mortos. Fiquei horas inteiras sozinho no quarto dele, mexendo nas gavetas. Eu até hoje não sei ao certo do que meu tio vivia, mas ele gostava muito de pintar, desenhar, ilustrar – tinha coleções inteiras de pincéis, lápis de cor, giz de cera, tintas, folhas de papel, grafites, canetas, gabaritos, réguas e todo um microuniverso de objetos que, apesar de decadentes e opacos, agradavam meus dedos e olhos.

Foi só ontem, esperando minha filha diante daquela casa abandonada, que percebi que aquilo tudo tinha um cheiro, e que este cheiro estava impregnado em mim. Eu o levava comigo no meu corpo toda manhã, quando dirigia até o trabalho; eu tinha dormido com ele todos esses anos – ele resistira aos inúmeros banhos, suores, perfumes e secreções que cobriram meu corpo desde aquela longínqua tarde. Talvez minha ex-mulher tivesse feito algum comentário comigo sobre isso, tentado me alertar, me despertar, e provavelmente eu não a tenha compreendido bem.

(A minha filha nem desconfia, mas eu usava All Star em meados dos anos oitenta, quando tinha a idade dela). Na saída da aula de inglês reparei que muitos dos jovens vinham rindo alto, alguns poucos calados, mas todos usavam All Star. E eu não posso negar que as colegas da minha filha ficavam interessantes de All Star, eu me sentia atraído por aqueles bicos rijos de uma brancura juvenil. Tive vontade de passar a mão, lamber, esfregar o rosto naquelas superfícies lisas e limpas. Enquanto dirigia, imaginei uma daquelas loirinhas chutando minha cara, quebrando meu nariz a pontapés com o bico do All Star, e depois enxugando o sangue até que voltasse a brilhar imaculada a alvura emborrachada. Não é difícil manter-se limpo quando se é jovem – pelo menos suficientemente jovem para não sentir o próprio cheiro.

Liguei o rádio do carro pra me distrair. O noticiário local comentava com uma ênfase polêmica o caso de um menor que teria matado a própria mãe, com uma faca, após uma discussão. O jovem estaria sob influência do crack, e isso parecia suficiente para explicar tudo, para levar a termo todos os argumentos. É provável que ele usasse All Star, pensei, mas o noticiário não dava nenhuma informação sobre isso. Olhei pra minha filha, mas ela já tinha enfiado os seus headphones nas orelhas, devia estar escutando alguma dessas bandas novas que surgem na internet e não tocam nas rádios. - O que é que tu tá ouvindo aí? - perguntei gesticulando à frente dos olhos dela. - Que banda tu tá escutando? - repeti depois que ela afastou um dos fones da orelha.

Não sei onde foram parar todos aqueles materiais de desenho. Com o tempo a gente esquece os mortos – e passa a dar valor a coisas sem importância.


Senegal, 2011 - by Finbarr O'Reilly