16 março 2026

"NA PRAIA", o adágio de Ian McEwan

Jim Holland

Terça-feira de Carnaval: queria uma ficção daquelas para se ler num único dia. A escolha foi "Na praia", do Ian McEwan (On Chesil Beach, trad. Bernardo Carvalho, ed. Companhia das Letras, 2007). Ao terminar a leitura, sentia um júbilo tranquilo e raro, e aqui vai uma tentativa de entender o porquê.

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No dia anterior, tinha ouvido pela enésima vez o adágio do Concerto para piano em sol maior, do Ravel, com a consagrada interpretação da Martha Argerich, porém com uma intensidade que não costuma acontecer frequentemente diante de uma peça já muito conhecida; pêlos arrepiados, sentimento de completude, vibração com a existência, toda aquela maravilha que a música é capaz (aliás, Carrère também tem algo a dizer sobre epifanias com a pianista argentina). Esse concerto (o vídeo abaixo é de outra gravação, mas vou deixar como referência), cujos allegro inicial e presto final são agitadamente jazzísticos, tem no centro um adagio belíssimo, sonhador, melancólico e lírico. Ainda assim, seu tema principal não demora a se esgotar, até porque não varia essencialmente com relação à tradição clássica e romântica. Lá pela metade do adágio, após um curto diálogo com as madeiras (flauta, oboé e clarinete) e mais uma repetição do tema cadenciado, o piano parece argumentar que não encontra uma saída, o que é expressado por escalas que parecem indiferentes à orquestra (13m08s no vídeo) - e é a partir daí que o impasse é dissolvido pelo surgimento de um sopro (oboé) inspirador de novos rumos (14m25s), com quem o piano inicia um diálogo sublime e encantador; ainda que mantenha seu ar de deambulação, o teclado passa a soar mais cristalino no contraste com o timbre amadeirado do oboé, como se vibrasse com esse encontro de temas paralelos mas distintos, eventualmente repousando juntos em acordo. É o grande momento do concerto, seu êxtase maior, sua clarividência mais deslumbrante.

Prestar atenção na evolução dos temas - repetição, transformação, retomada, contraste, criação de expectativa e sua confirmação ou suspensão ou frustração etc - é o bê-á-bá da audição de música clássica (ou erudita, ou de concerto, ou como se queira chamar), mas um leigo como eu nem sempre acompanha essa "narrativa" com a devida desenvoltura, por isso tanta comoção quando ela de fato faz pleno sentido, mostrando por que a música é essa coisa maior do que tudo.

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Quando apanhei o "Na praia" no dia seguinte, não fazia ideia de que tinha a música como um dos seus temas; eu procurava apenas por uma ficção ideal para ler num único dia. A novela centra-se na noite de núpcias de Edward e Florence, na costa sul da Inglaterra (praia de Chesil), em 1962, portanto num momento histórico que ainda não tinha assumido totalmente os efeitos da revolução dos costumes que estaria a pleno na segunda metade da década, como escreve McEwan já na primeira frase: "Eram jovens, educados e ambos virgens nessa noite, sua noite de núpcias, e viviam num tempo em que conversar sobre as dificuldades sexuais era completamente impossível". Florence é violinista, líder de um quarteto de cordas, enquanto seu noivo é entusiasta do blues e do rock'n'roll, além de ter uma origem social e econômica menos privilegiada. A música não ocupa grandes porções da narrativa, que foca nos pensamentos hesitantes e nas dúvidas interiores de ambos diante do evento fascinante e misterioso que se aproxima, ou seja, da sua primeira noite de intimidade sexual. A trama às vezes recua até 1961, entremeando o tempo presente com episódios do desenvolvimento do namoro, e próximo ao final avança até décadas posteriores para mostrar a situação dos personagens diante das consequências daquela noite.

O estilo da prosa de McEwan se faz presente em sua plena elegância e fluidez, e isso basta para que a narrativa nos cative. O drama dos personagens, por outro lado, soa um tanto quanto banal, mesmo assumindo-se a distância histórica, e é difícil evitar certo enfado diante das suas perspectivas burguesas, bastante limitadas e quase desprovidas de mistérios existenciais e dos seus abismos (senão quanto à perda da virgindade). Mas, ao fim e ao cabo da leitura, o sentimento é de uma alquimia espiritual rara, e isso acontece por causa da música, menos por sua presença nas melhores cenas da narrativa, e mais pela própria estrutura de tipo musical que vai aos poucos se revelando como base do subtexto, muito semelhante àquela que tanto me entusiasmou e comoveu no adágio do Ravel. Ainda que a oposição entre, de um lado, a avidez de Edward, e, de outro, a rigidez de Florence, não seja sutil quanto a ilustrar o contraste entre o espírito jovial e rockeiro daquele e a postura introspectiva e resguardada desta, o que é realmente admirável e inspirador na construção da narrativa é o modo como os dois personagens se assemelham a dois temas musicais. "Na praia", assim como o referido adágio, também soa com beleza e, do mesmo modo, parece se esgotar rapidamente, criando um impasse. E se a peça musical ganha novo fôlego a partir do diálogo entre o piano e o oboé, da mesma maneira a novela de McEwan cria paralelismos entre os personagens que sustentam um subtexto formal encantador.

Embora em alguns poucos momentos as metáforas musicais sejam explícitas, como numa discussão entre o casal que soa como "o segundo violino respondendo ao primeiro, uma defesa retórica provocada pela brusquidez, pela precisão do ataque dele", em outros trechos se destaca a manipulação de expectativas comum às formas narrativas tanto musicais quanto literárias - "sofrera um tormento passivo, desejando-a até doer, (...) não havia necessidade de tamanhas contorções, tamanhas agonias restritivas. Ele tinha sido paciente, (...) e pensou tudo de novo, desbastando as arestas ásperas e as passagens difíceis, as pontes de ligação que se erguiam acima de suas próprias dúvidas, assim foi aperfeiçoando seu argumento e, enquanto o fazia, sentiu a ira avolumar-se de novo. Esta chegava ao ápice".

Bernard Fleetwood-Walker

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Durante o namoro, o único momento de verdadeiro entusiasmo de Edward com a música clássica (e, em última análise, com Florence) é ao ouvir as primeiras notas da Sinfonia Haffner, de Mozart, quando "o salto da oitava na abertura apossou-se dele com uma clareza desafiadora (...), ele levantou o punho e gritou que a amava", mas que não se sustenta por muito tempo à medida que a música se desenvolve - e a mesma sofreguidão que se esgota na abertura será o emblema do momento mais esperado da noite de núpcias. Por outro lado, Florence reage de modo perfunctório aos discos de rock que tanto estimulam seu namorado (nesta passagem o autor comete um pequeno anacronismo, que mais adiante eu explico), e sente-se incomodada com a percussão, que lhe soa exagerada, mostrando-se muito resistente a deixar-se levar pelo ritmo mais desprendido e sensual.

Entre os dois polos, no entanto, surge uma cena de entendimento que, assim como no adágio de Ravel, ilumina todo o potencial amoroso da relação entre os dois temas/personagens; é quando Edward se faz presente num ensaio do quarteto liderado pelo violino de Florence, no qual sente-se aborrecido com "a agitação afetada e a mesmice de tudo", até que, diante das diversas interrupções e comentários entre os músicos para ajustes e aperfeiçoamentos, chega um ponto em que "a repetição começou a revelar a Edward uma melodia suave e discernível e vários enredos de passagem entre os músicos, ataques e saltos desafiadores que ele acabava procurando na vez seguinte". Considero este o momento mais expressivo (e verdadeiramente erótico, imbuído de Eros) da novela de McEwan, por simultaneamente aprofundar a capacidade de compreensão entre os amantes e incutir no leitor um estado de espírito musical, que se revela como o aspecto mais significativo da obra, a ponto de amar e ouvir música se tornarem análogos - e, consequentemente, também o próprio ato de ler (com a mesma dedicação profunda), já que é o texto de McEwan que une todos esses elementos e que atrai o leitor/ouvinte para que participe da construção de alguma ordem e das consequentes expectativas. É dessa atenção mediada que nascem os mais surpreendentes prazeres estéticos, inclusive a felicidade de compreender a coerência estrutural, para além da apreciação da prosa, da empatia com os personagens, da identificação pessoal com os dramas e do interesse pela história - quiçá seja a melhor forma de fazer convergir e consumar tudo isso.

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A analogia entre amar e ouvir música pode soar banal diante de toda a tradição da música popular e, sobretudo, do rock, principalmente quando se opõe o seu caráter percussivo (energia, frenesi) ao formalismo da música clássica (temas, arquitetura), contudo McEwan torna as coisas mais ambíguas e sutis ao colocar em relação as limitações e libertações sugeridas pela interação entre os perfis opostos. A frustrada noite de núpcias ilustra como pode ser fácil contagiar-se pela energia da música pop-rock, pelos mesmos motivos que a fazem esgotar-se rapidamente, assim como o muito mais vasto, duradouro e profundo campo de forças psíquicas mobilizado pela música clássica pode trair um espírito demasiadamente rígido e renitente, ainda que sensível.

Muitos anos depois, entretanto, os destinos separados de Edward e Florence indicam maior empatia do autor/narrador com ela - "tocou, se é que posso dizer assim, como uma mulher apaixonada, não apenas por Mozart, ou pela música, mas pela própria vida", nas palavras de um crítico musical que a ouve -, enquanto Edward reflete melancolicamente sobre "o que fizera de si? Deixou-se levar, semi-adormecido, desatento, sem ambições, leviano, infantil, acomodado". Quiçá seja este contraste no destino dos personagens que melhor reflete as dimensões musicais: aquele momento no adágio de Ravel em que o piano parece não encontrar uma saída, até ser apanhado pelo tema de outro instrumento, criando uma nova camada musical tão ou mais brilhante, que por sua vez volta a compor outro tema mais abrangente - grosso modo, não é na ausência (ou simplificação) desses encontros e desencontros que o rock e a música popular geralmente se esgotam? Suas faixas não costumam terminar antes mesmo de reconhecerem-se diante de um impasse? Se a música pop parece sempre saber para onde ir, muito em função do seu abrangente processo de industrialização, resta reconhecer o valor estético de uma tradição musical em que o ouvinte pode se perder - e se reencontrar.

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Em mais de uma oportunidade - inclusive na sua palestra em 2016 no evento Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre -, McEwan comentou com bom humor algumas correções que recebeu de leitores ao longo da sua carreira, sobre pequenos lapsos factuais ou materiais que lhe passaram despercebidos (como a configuração das estrelas no hemisfério norte em determinada época do ano, ou a troca de marchas num modelo de automóvel que é automático). Imagino que alguém já terá apontado para o erro cronológico à página 100, em que a narrativa está em 1961, quando do início do namoro dos protagonistas; Edward apresenta a Florence discos de rock, incluindo versões de Chuck Berry gravadas pelos Beatles e pelos Rolling Stones - gravações que, de fato, só ocorreriam em 1963. Apesar de McEwan ser ouvinte interessado de variados tipos de música, inclusive rock, é possível que o pequeno anacronismo fale mais sobre seu grande entusiasmo pela música clássica, que marca presença em várias das suas ficções e que dificilmente seria alvo de equívoco semelhante. Em 2008, ano seguinte à publicação de "Na praia", o britânico inclusive escreveu o libreto de uma ópera do seu compatriota Michael Berkeley, aprofundando sua ligação com a música de concerto, o que evidencia ainda mais o contexto musical desse período da vida do escritor.

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Penso em romances e novelas (para ficar apenas em narrativas longas) de outros autores que têm a música como um elemento que ultrapassa o enredo, de algum modo jogando com aspectos mais estruturais da narrativa - música clássica, em todos os casos: o delirante Valsa Negra (2003), de Patrícia Melo; o exasperante O Náufrago (1983), de Thomas Bernhard, de notória influência na ficção mais recente de Luiz Antonio de Assis Brasil, Leopold (2023), cuja sintaxe sugere contiguidade entre o processo musical (seja como ouvinte ou como compositor) e o pensamento (monólogo interior), inclusive no modo como o narrador-protagonista (pai de Mozart) procura conscientemente controlar e organizar seus pensamentos e sentimentos, possibilitando reflexões comuns às narrativas musical e literária sobre controle do tempo, lógica, harmonia, dissonância, compreensão; a novela de Assis Brasil, embora encontre uma solução final interessante numa personagem secundária, não alcança o mesmo poder penetrante que a ficção de Bernhard, em que por vezes até nos esquecemos de quem está narrando/pensando, sugados que somos pelo abismo da consciência. Penso também nos clássicos que (ainda) não li, como Doutor Fausto (Thomas Mann) e Contraponto (Aldous Huxley), embora eu duvide que qualquer obra literária possa ter uma relação tão rica e significativa com a música quanto a que Proust desenvolveu ao longo dos volumes de Em busca do tempo perdido, em que ela se constitui como a grande chave existencial do narrador-protagonista.

Sandrine Revel retratando Glenn Gould, icônico pianista personagem de O Náufrago.

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Se o rito da perda da virgindade consolida a entrada no mundo adulto, podemos dizer que essa passagem consiste fundamentalmente em tentar compreender o rock, no caso de Florence, ou a música clássica, no caso de Edward. "Amor e paciência - se pelo menos ele tivesse conhecido ambos ao mesmo tempo", lemos no último parágrafo de "Na praia". Rock e música clássica - se pelo menos eles tivessem compreendido ambos ao mesmo tempo, pensa o leitor. Para além das perspectivas limitadas dos personagens, do conservadorismo dos costumes e da frustração dos sonhos malogrados, a obra de McEwan sugere que aprender a ouvir o Outro equivale a dedicar-se a ouvir música - e este talvez seja o ato mais profundamente erótico de amor e paciência.

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Proust, para a coda: "(...) eu pensava comigo se a música não era o exemplo único do que poderia ter sido - se não tivesse havido a invenção da linguagem, a formação das palavras, a análise das ideias - a comunicação das almas. É ela como uma possibilidade que não teve prosseguimento; os homens enveredaram por outros caminhos, o da linguagem falada e escrita. (...) E a frase final do andante parecia-me tão sublime que eu lamentava que Albertina não soubesse, e se tivesse sabido, não compreendesse a honra que era para ela estar associada a essa coisa tão grande que nos reunia (...), aquela frase, que me oferecia com voz tão amorável uma felicidade que realmente valeria a pena obter, foi talvez - invisível criatura cuja linguagem eu não conhecia mas compreendia tão bem - a única Desconhecida que jamais me tenha sido dado encontrar." (A Prisioneira, trad. Manuel Bandeira e Lourdes Sousa de Alencar)

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https://www.youtube.com/watch?v=rViAdtH6tkg

Capa da obscura gravação que ouço há anos, com direito a erro na tonalidade ("sol menor"). Conforme o site pianistdiscography.com, o concerto foi realizado na Suíça, em 1959. Vale mencionar que, dez anos depois, a solista e o regente desta gravação, Charles Dutoit, casariam-se. A propósito, McEwan dedicou o "Na praia" à sua esposa, Annalena - e acho que esses dois fatos reforçam a conclusão do meu ensaio.


capa da edição

24 fevereiro 2026

Um "detalhe" que passa despercebido em "Valor Sentimental"

Revendo o filme do Joachim Trier (no cinema, como tem que ser) encontrei a solução para uma dúvida colocada pela cena final: se a casa da família era tão importante para o diretor Gustav Borg (Stellan Skarsgård) como cenário e local de realização das filmagens, por quê, afinal de contas, o filme está sendo realizado num estúdio? É com a imagem aberta mostrando o estúdio que o filme termina, frustrando uma expectativa que estava colocada desde as cenas iniciais, que praticamente introduzem a casa como o personagem central da obra. Como se explica esse ciclo que não se completa?

O detalhe que tinha passado despercebido na primeira vez, e que começa a responder essa questão, está sentado ao lado do diretor na cena final, quando ele diz "Corta!" - é o seu velho amigo e fotógrafo dos seus filmes anteriores (Lars Väringer), que nesse momento sorri e dá uns tapinhas de contentamento e de reconhecimento no seu parceiro. Essa presença ao lado do diretor, além de dar continuidade a uma cena que parecia isolada e sem consequências - me refiro ao encontro entre os dois na casa do fotógrafo, onde fica evidente que o diretor vai descartá-lo diante da sua precária condição física - responde ao enigma; pois, naquela cena, o fotógrafo diz expressamente que vai filmar usando uma dolly (câmera acoplada a um carrinho sobre trilhos, que é o que efetivamente vemos no estúdio), ou seja, uma estrutura pesada e espaçosa que não é compatível com a filmagem no interior de uma casa, o que obviamente seria uma forma de contornar as suas limitações físicas, mas que estaria em franca oposição aos planos de Gustav. 

Portanto, a presença dos dois velhos parceiros lado a lado na cena final, mais do que reforçar o talvez exagerado happy ending (confesso que o desfecho me parece uma concessão ao público sentimentalista norte-americano), em que até o alquebrado amigo é incluído com sucesso nos planos de Gustav, coloca em evidência o movimento de afetuosa redenção do diretor, que prefere resgatar seu velho parceiro do ocaso do que concretizar a vocação da casa familiar como centro para onde tudo converge. Me parece uma escolha importantíssima do roteiro de Trier (em parceria com Eskil Vogt), mas que tende a passar batida. E penso, ainda, que mais do que uma redenção de Gustav, essa conclusão reforça outro aspecto temático do filme: a velhice, o fim da vida que se aproxima, o ato final, a sua solidão intrínseca (que está posta de forma contundente especialmente no que não é dito na cena do encontro entre o diretor e o fotógrafo, naquela formidável troca de olhares desolados). Não por acaso, desde o primeiro visionamento eu já pensava em Rei Lear e suas três filhas, que aqui seriam duas, mas formando um trio com o acréscimo de Rachel (Elle Fanning). E tudo isso dá pano pra muitas outras reflexões, como sói acontecer com ótimos filmes.

15 fevereiro 2026

parágrafo

[como se alegrar com a escrita de ficção e estranhar a realidade]

"Os dias bons, os dias gordos, página sobre página; dias prósperos, alguma coisa a dizer, a história de Vera Rivken, e as páginas se multiplicavam e eu estava feliz. Dias fabulosos, o aluguel pago, ainda cinquenta dólares na minha conta, nada pra fazer o dia todo e a noite toda a não ser escrever e pensar em escrever: ah, os dias doces, ver tudo crescer, me preocupar comigo mesmo, meu livro, muitas palavras, talvez importantes, talvez além do tempo, mas minhas, de qualquer maneira, o indomável Arturo Bandini, indo fundo em seu primeiro romance.

"Assim uma tarde chega, e que fazer com ela, minha alma fria depois do banho de palavras, meus pés firmes no chão, e que fazem os outros, as outras pessoas do mundo?"

"PERGUNTE AO PÓ", de John Fante, trad. Paulo Leminski, ed. Brasiliense, 1987, pág. 130.

Rein Tammik

08 fevereiro 2026

As minhas leituras (e releituras) preferidas em 2025

Oito leituras e quatro releituras que mais me encantaram, confrontaram, fascinaram, desafiaram, que mais me aumentaram e me diminuíram, que mais me salvaram e me desencaminharam em 2025 (sem ordem de preferência):

Alariko

A TRÉGUA, de Mario Benedetti

(trad. Joana Angelica D'Avila Melo, ed. Coleção Folha de São Paulo - Literatura Ibero-Americana)

Minhas notas de leitura atestam o quanto fui conquistado por essa singela novela em forma de diário, meu primeiro contato com a obra do autor uruguaio. Guardo com muito carinho a recordação das leituras no Parque da Redenção; não são muitos os livros que se mostram aptos a mim para uma proveitosa leitura em público, e aqui talvez haja uma conexão com o aspecto de observação urbana do protagonista e de vizinhança entre Montevidéu e Porto Alegre.


SOLENOIDE, de Mircea Cărtărescu

(trad. Fernando Klabin, ed. Mundaréu)

Um romance cósmico e visionário, que insufla uma misteriosa inspiração, de sombria danação e luminosa levitação. Onírico e existencial, não é por acaso que me tenha provocado várias sincronicidades durante a leitura. Registrei aqui minhas breves impressões sobre esse fascinante romance contemporâneo romeno.


OS MUJIQUES, de Anton Tchékhov

(trad. Rubens Figueiredo, ed. Todavia)

É o segundo volume dos contos e novelas da fase final da obra do meu contista favorito, excelente serviço prestado pela editora Todavia. É com sua consagrada sutileza que o autor narra reflexões terrivelmente francas dos personagens, e também as pequenas e preciosas alegrias que, entretanto, não resistem ao curso inevitável das desilusões. Aqui algumas notas de leitura.


A LONGA VIAGEM DE PRAZER, de Juan José Morosoli

(trad. Sergio Faraco, ed. Mercado Aberto / Metrópole / IEL)

Outro uruguaio na lista, bem menos lembrado do que Benedetti. O universo interiorano gaucho ganha, na prosa econômica dos contos de Morosoli, surpreendente força calada, cativante humor ingênuo e ternura sob camadas de aridez.


O CORAÇÃO PRONTO PARA O ROUBO, de Manuel António Pina

(ed. 34)

O que pode ser melhor do que descobrir um poeta contemporâneo (1943-2012) que fala contigo na tua língua nativa e no mesmo idioma da tua alma? 

Teoria das cordas

Não era isso que eu queria dizer, /

queria dizer que na alma /

(tu é que falaste da alma), /

no fundo da alma e no fundo /

da ideia de alma, há talvez /

alguma vibrante música física /

que só a Matemática ouve, /

a mesma música simétrica que dançam /

o quarto, o silêncio /

a memória, a minha voz acordada, /

a tua mão que deixou tombar o livro /

sobre a cama, o teu sonho, a coisa sonhada; /

e que o sentido que tudo isto possa ter /

é ser assim e não diferentemente, /

um vazio no vazio, vagamente ciente /

de si, não haver resposta /

nem segredo.


TESTEMUNHO TRANSIENTE, de Juliano Garcia Pessanha

(ed. Cosac Naify)

Não é menor a satisfação de descobrir um ensaísta contemporâneo na tua língua nativa, que ousa levar tua alma aos limites onde se encontram (e se perdem) o estudo filosófico, o aforismo, a ficção, a biografia, o poema em prosa, a confidência - um esforço corajosamente autêntico de estranhamento, desassossego e visão poética. O volume (fora de catálogo) reúne quatro livros do autor, publicados entre 1999 e 2009: Sabedoria do nunca, Ignorância do sempre, Certeza do agora Instabilidade perpétua.


A LITERATURA E OS DEUSES, de Roberto Calasso

(trad. Jônatas Batista Neto, ed. Companhia das Letras)

Parte de um ponto, chega em outro, atravessa e se detém e parte novamente, e o leitor vai junto, mais interessado na qualidade da prosa em si do que no produto final das reflexões - eis um livro magnificamente ensaístico, inspirado, culto, apaixonado pela arte literária e seduzido pelos seus mistérios. Fiz algumas notas de leitura.


O ÚLTIMO LEITOR, de Ricardo Piglia

(trad. Heloisa Jahn, ed. Companhia das Letras)

É da mesma categoria que o livro do Calasso - menos erudito e refinado, talvez, contudo mais claro e eloquente. O que importa é que é movido pelo mesmo fascínio que tanto absorve a nós, leitores que habitam esse "espaço entre o imaginário e o real, [que] desmonta a clássica oposição binária entre ilusão e realidade. Não existe nada simultaneamente mais real e mais ilusório do que o ato de ler."


MELHORES RELEITURAS:

Caspar David Friedrich

O PROCESSO, de Franz Kafka

(trad. Modesto Carone, ed. Companhia das Letras)

Motivado por uma situação pessoal que guarda alguma semelhança com a situação de Josef K., retornei a esse clássico depois de muitos anos. A verdade é que não é necessária qualquer justificativa para voltar a uma narrativa tão poderosamente estranha, tão misteriosamente familiar, tão consoladoramente desesperançada.


O COMPLEXO DE PORTNOY, de Philip Roth

(trad. Cezar Tozzi, ed. Círculo do Livro)

Depois de anos, confirmei que trata-se de uma das narrativas mais hilárias e provocativas que conheço, embora isso de modo algum esgote as qualidades da verve da sua prosa, inclusive da sua insuspeitada ternura.


O ESTRANGEIRO, de Albert Camus

(trad. Valerie Rumjanek, ed. Record)

Outro retorno depois de vários anos, e dessa vez da melhor maneira possível: gostando muito mais do que da primeira vez. Conforme registrei nas minhas notas de leitura, o ápice do livro é, mais do que o seu cume dramático, também o seu magnífico ponto de inflexão estilístico.


CARPINTEIROS, LEVANTEM BEM ALTO A CUMEEIRA & SEYMOUR, UMA APRESENTAÇÃO, de J.D. Salinger

(trad. Jorio Dauster, ed. L&PM)

Não seria nenhum exagero se eu elegesse este como o meu livro preferido da vida, portanto demorei muito para finalmente conhecer a tradução do Jorio Dauster - havia lido e relido as do Alberto Alexandre Martins (ed. Brasiliense) e do Caetano Galindo (ed. Todavia) - e só lamentei que o simpático Kilroy (grafite cartunesco norte-americano) virou Biriba nesta tradução (troca ruim, pois o contexto em que o Kilroy é citado combina com o seu bordão, "Kilroy was here", além de remeter à 2ª Guerra Mundial, evento que é uma espécie de baixo-contínuo de toda a obra salingeriana). Mas o que importa é que cheguei à conclusão de que, se Proust é o meu prosador favorito da primeira metade do século XX, Salinger é o da segunda metade; sou completamente capturado pelos seus universos ficcionais, envolvido pelo humor e pela visão de mundo dos personagens/narradores e seduzido pelo estilo e pelo trabalho com a linguagem, a tal ponto que é um grande prazer acompanhá-los inclusive quando parecem deambular sem rumo em digressões prolixas e redundantes e copiosas. Tenho um ensaio sobre a obra do Salinger aqui.

29 janeiro 2026

Notas de leitura – “ÚLTIMOS CONTOS” e “OS MUJIQUES”, de Tchékhov

Publicados originalmente entre 1895 e 1903, ed. Todavia, trad. Rubens Figueiredo, 2023 e 2025.

Gennady Yadiganov

Nesses dois volumes estão reunidos os contos e as novelas dos últimos anos de vida do autor (que hoje completaria 166 anos), marcados sobretudo pela melancolia do desengano - personagens que, tão logo realizam seus desejos e planos, descobrem-se insatisfeitos e dão-se conta de que querem mesmo é o contrário do que têm. A realidade nunca se mostra conforme o esperado - eis, talvez, a suma da obra de Tchékhov, muito embora fique sempre aberta a possibilidade de que tais frustrações reflitam mais a incapacidade dos personagens de reconhecerem-se realizados e alegrarem-se com isso, do que propriamente a complexidade e imprevisibilidade da realidade.

"No entanto, só o diabo vai saber por que sinto sempre um desgosto, sempre essa falta de alguma coisa, e por que sempre me vem aquela impressão de que estou deitado em um vale no Daguestão, sonhando com um baile. Em suma, a gente nunca está satisfeito com o que tem." (pág. 111 de Os Mujiques)

Expectativas que nunca são realizadas - no trabalho, no amor, na família, na ordem social, na abolição da servidão, na dinâmica dos desejos entre campo e cidade; desilusão é a palavra de ordem - e, com ela, a consciência de que é preciso acreditar em algo para viver, mas nada se mostra consistentemente verdadeiro, genuíno, digno das mais profundas aspirações, e é preciso reinventar ou redescobrir o sentido a cada nova decepção. Como diria Schopenhauer (falecido no ano em que Tchékhov nasceu): "a vida via de regra nada mais é do que uma série de esperanças mal-sucedidas, tentativas fracassadas e enganos reconhecidos tardiamente" (§172a "Parerga e Paralipomena").

Oxalá a editora Todavia continue retrocedendo até termos a obra completa dos contos e novelas do aniversariante do dia.



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“À noite, depois da corrida, quando eles se deitavam para dormir, um acordeão caro começava a tocar no pátio da casa dos Jovens e, se havia luar, aquelas notas despertavam na alma alegria e comoção e, então, Ukléievo já não parecia mais ser um buraco.” (pág. 214, Últimos Contos)

“À noite, os monges cantaram de forma harmoniosa (…) Talvez, no outro mundo, na outra vida, recordemos o passado remoto, nossa vida aqui na terra, com esse mesmo sentimento. Quem sabe? O reverendíssimo estava sentado no altar, num lugar escuro. Lágrimas corriam em seu rosto. Ele pensava que havia alcançado tudo que uma pessoa na sua condição podia obter, ele tinha fé, porém, mesmo assim, nem tudo estava claro, algo ainda faltava, ele não queria morrer; continuava com a impressão de que não tinha o mais importante, algo com que sonhara vagamente em outros tempos e, agora, ainda o perturbava a mesma esperança no futuro que ele sentira na infância, na academia e no exterior. § ‘Como estão cantando bem hoje!’, pensou, enquanto ouvia o canto, atentamente. ‘Que beleza!’ ” (pág. 281-282, Os Mujiques)

1) Em dois contos diferentes (e há outros), a mesma situação: a música invade, revela, ilude, inspira, comove, sugere, desilude, consola, empolga, profana, eleva, embriaga, espiritualiza. Adoro quando a maior das artes leva as outras de arrasto. Neste instante mesmo me atrapalho tentando escrever enquanto toca música – e não importa se é Mahler ou Bidê ou Balde, um acordeão ou um coral sacro – tudo se altera diante da música. Não custa voltarmos ao velho Schopenhauer, para quem "o efeito da música é tão mais poderoso e incisivo do que o das outras artes; pois essas somente se referem à sombra, aquela porém à essência" (§52 "O Mundo como Vontade e Representação"). "Em Schopenhauer, pela primeira vez na história da filosofia, a música ocupa o primeiro lugar entre todas as artes. (...) constituindo um meio capaz de propor a libertação do homem", conforme a Introdução do respectivo livro da coleção "Os Pensadores".

Stanislav Alexandrovich Miroshnikov

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"A travessa era toda margeada por jardins e, junto às cercas, cresciam tílias que, agora, sob o luar, lançavam uma sombra larga, de tal modo que, de um dos lados da travessa, as cercas e os portões afundavam de todo na escuridão; de lá vinham sussurros de mulheres, risos abafados e, baixinho, alguém tocava balalaica. O ar cheirava e tília e feno. O sussurro de pessoas invisíveis e aquele aroma instigavam Láptiev. De súbito, veio a vontade apaixonada de abraçar sua companheira, cobrir de beijos seu rosto, suas mãos, seus ombros, soluçar, cair a seus pés, revelar que ele já a esperava desde muito tempo. Dela vinha um leve cheiro de incenso, quase imperceptível, e aquilo trouxe à memória de Láptiev o tempo em que ele também acreditava em Deus, ia às missas de vésperas e sonhava muito com um amor puro e poético. E, como a moça a seu lado não o amava, ele agora achava que a possibilidade daquela paixão com que sonhara tempos antes estava para sempre perdida." (pág. 14-15, Os Mujiques)

2) O quão feliz é Láptiev, sem o perceber (perceberá, mais adiante no conto, quando for tarde demais). Pensa no infortúnio do que não tem, e não nota que dificilmente pode-se estar mais feliz do que assim, andando no escuro, sentindo o cheiro das árvores e a presença suave e misteriosa de pessoas invisíveis (e da música, de novo), desejando abraçar o mundo ainda que sabendo que o gesto é incompatível com a realidade. Uma das duras verdades da vida é que percebemos tarde demais que já tínhamos mais do que o que nos faltava.

3

"Para que Iúlia Serguéievna não se aborrecesse em sua companhia, era necessário falar." (pág. 17, Os Mujiques)

3) Uma definição simples e direta da infelicidade - um espelho invertido do trecho anterior (do mesmo conto), no qual tudo fala, menos a necessidade de falar.

Germashev Mikhail Markianovich

4

"Já estou começando a esquecer a casa com mezanino e só de vez em quando, nos momentos em que leio ou pinto, de repente, do nada, me vem a lembrança da luz verde na janela, do som dos meus passos dispersando pelo campo, na noite em que voltei para casa apaixonado, esfregando as mãos por causa do frio. E, mais raramente ainda, nos momentos em que a solidão me aflige e eu me sinto triste, me vem uma recordação muito vaga e, pouco a pouco, por algum motivo, começo a ter a impressão de que também estão se lembrando de mim, de que alguém está à minha espera e de que vamos nos encontrar..." (pág. 267, Os Mujiques)

4) O tom desse parágrafo - o penúltimo do conto Uma casa com mezanino -, com a presença evocativa da luz verde avistada à distância, não parece ter inspirado Fitzgerald para O Grande Gatsby?

5

"E enquanto caminhava sem direção, decidiu que, depois de casar, iria cuidar dos trabalhos de casa, tratar os doentes, dar aula para as crianças, faria tudo o que fazem as outras mulheres de seu meio; e aquela constante insatisfação consigo e com os outros, aquela série de erros grosseiros, que se acumulam à nossa frente como uma montanha quando voltamos o olhar para o passado, ela iria considerar como sua vida verdadeira, a vida destinada a ela, e não iria esperar nada melhor... Pois não existe algo melhor! A natureza linda, os sonhos, a música dizem uma coisa, e a realidade da vida, outra. Pelo visto, a felicidade e a verdade só existem em algum lugar fora da vida... É preciso viver, é preciso fundir-se com essa estepe exuberante, infinita e indiferente como a eternidade, com suas flores, seus túmulos em forma de outeiro e sua vastidão, e aí tudo ficará bem..." (pág. 452, Os Mujiques)

5) Sempre o casamento por tédio. Sempre as ilusões. Sempre a dignidade da consciência em conflito com os limites da experiência. Sempre a desilusão com a inteligência e com a arte, que não fazem a vida melhor (nem mesmo a música!). Sempre a expectativa dos outros em conflito com o que realmente se quer. E que dificuldade de se ter expectativas equilibradas, ajustadas com a realidade, sem sentir-se definhar por causa disso! Aos espíritos mais fracos, só resta mesmo a vodca ou uma religiosidade exaltada; aos mais resistentes, porém, guardam-se prodígios inigualáveis, dignos de um Tolstói, de um Dostoiévski, de um Tchékhov.

Arkhip Kuindzhi

10 janeiro 2026

Meus filmes preferidos de 2025

Lançados nos cinemas de Porto Alegre em 2025, em ordem de preferência.


1º) Dreams (Drømmer, dir. Dag Johan Haugerud)

[visto e revisto na Casa de Cultura Mario Quintana]

Gostei da trilogia inteira do diretor norueguês (que inclui Sex e Love), mas apenas com Dreams fiquei realmente entusiasmado e deslumbrado. O despertar erótico provocado na jovem protagonista a partir da interação entre a leitura de um romance e a presença da bela professora; os vários pontos de vista divergentes que tornam as discussões complexas e sem soluções fáceis; os dilemas envolvendo a escrita, a leitura e a publicação; uma cena tão simples e tão marcante quanto a das folhas em botão se abrindo na água do chá (que de fato me remeteu para o olhar de Kieślowski, cuja trilogia inspirou Haugerud, como vim a saber posteriormente); o uso da ótima trilha sonora original de Anna Berg e Peder Kjellsby; o jogo com a ficção, com as realidades alternativas, com o artifício da narrativa, com a porta que é fechada na cara do espectador, deixando-nos do lado de fora e sem qualquer certeza sobre tudo o que se segue a partir daí.

* * *

2º) Valor Sentimental (Affeksjonsverdi, dir. Joachim Trier)

[visto na Casa de Cultura Mario Quintana]

Flagrei a mim mesmo extremamente decepcionado e comovido com a cena em que a atriz interpretada por Elle Fanning comunica o diretor de que não quer continuar realizando o filme, e que portanto provavelmente não haverá filme. Por que tanta decepção de minha parte, se eu nem simpatizava com o personagem do diretor? Ou eu não queria admitir que simpatizava? Ou minha simpatia é intermediada pelo sentimento do fracasso? Ou eu nem sei definir minha própria simpatia? Não sei - e nem importa, na verdade. O gancho sobre "problemas familiares" é mera isca, Valor Sentimental não é sobre a vida - e sim sobre a vida por trás da vida, sobre fazer um filme e o que isso significa, sobre a forma que a realidade assume a partir de certa mediação, sobre o drama de ver a vida (de viver?) a partir da arte. Todo filme, toda arte, é sobre a vida por trás da vida, nunca sobre a vida mesma, embora a gente acabe esquecendo disso frequentemente (inclusive os seus realizadores). Quando um filme retoma essa percepção com tanta propriedade, sensibilidade, inteligência, ritmo, iluminação - e uma boa dose daquele pathos escandinavo que imprime algo de gélido nos olhos claros da vida - o resultado é brilhante como o alcançado aqui por Trier, conterrâneo de Haugerud. Surpreendente que os dois primeiros postos desta lista sejam ocupados por noruegueses, ambos demonstrando excelência no cultivo dessa vida por trás da vida, que se manifesta propriamente através da arte da ficção.

* * *

3º) Lumière: A Aventura Continua (Lumière: L'aventure Continue, dir. Thierry Frémaux)

[visto na Casa de Cultura Mario Quintana]

O fato de ser uma continuação (de Lumière: A Aventura Começa) pode dar a impressão de ser um filme oportunista, mas não é o caso. Nova coleção de ótimos registros ancestrais da arte cinematográfica costurados por comentários instigantes, que nos restituem plenamente aquilo que temos de mais significativo (e de mais sujeito à banalização): a nossa capacidade de olhar, de observar, de prestar atenção.

* * *

4º) O que a natureza te conta (Geu jayeoni nege mworago han, dir. Hong Sang-soo)

5º) As aventuras de uma francesa na Coréia (Yeohaengjaui Pilyo, dir. Hong Sang-soo)

[vistos na Casa de Cultura Mario Quintana]

Figura carimbada nas minhas listas anuais, Sang-soo marca presença em dobro. Segue me fascinando o modo como concilia trivialidade e mistério existencial, seja nos diálogos, nas situações, nas imagens, na montagem. Talvez a deliberada utilização de foco ligeiramente ruim em O que a natureza te conta seja idiossincrática demais, mas a gente acaba aceitando e até desfrutando dessa imperfeição com um charme meio retrô, meio rebelde.


* * *

6º) Levados pelas marés (Feng liu yi dai, dir. Jia Zhang-ke)

[visto na Casa de Cultura Mario Quintana]

O filme parece flutuar e reverberar na água, como um fluxo melancólico de memórias e de impressões deixadas incompletas. A aura é de decadência, mas o seu olhar vence o tempo e a busca por sentido. É bom que o espectador conheça a obra prévia do diretor e compreenda que se faz uso de um apanhado de "sobras" de filmes anteriores, cobrindo um largo período de tempo. Mas a verdade é que o olhar por trás de cada imagem é tão autêntico que basta para marcar o filme na memória como uma espécie de música, de estado de espírito, de saudade.

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7º) Parthenope (idem, dir. Paolo Sorrentino)

[visto no GNC Moinhos]

Por mais limitado que seja o talento de Sorrentino como cineasta e por mais irritantes que sejam seus cacoetes publicitários, é contagiante a sua capacidade de transmitir o seu entusiasmo, sua paixão, sua devoção mística e existencial à arte e à beleza, nas suas mais variadas formas e manifestações, desde as ancestrais raízes mito-poéticas europeias até a presença inebriante de uma humana com atributos de deusa como Celeste Dalla Porta, passando pela música, pelas artes plásticas, pelas referências literárias, etc. 

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P.S. 1: A verdade é que o grande filme do ano foi Paris, Texas (dir. Wim Wenders, 1984), gloriosamente relançado em versão restaurada, visto e revisto em sessões lotadas na Casa de Cultura Mario Quintana;

P.S. 2: Saúdo a Cinemateca Capitólio por homenagear Lô Borges com a exibição do muito bom documentário Lô Borges - Toda Essa Água (dir. Rodrigo de Oliveira, 2023), e deixo também aqui minha lembrança afetiva ao seu apaixonante legado musical.

13 dezembro 2025

parágrafo

[como alguns desenhos na noite dão um discreto lirismo à prosa magnificamente econômica de Morosoli]

Umpiérrez despertava, começava o mate, acendia o fogo e preparava um churrasquinho nas brasas. Comia, depois ia para o forno de tijolos onde trabalhava. Ao meio-dia separava-se do grupo de cortadores que faziam o fogo em comum, acendia seu próprio fogo, tomava mate, encostava uma carne e almoçava. De tarde, ao voltar do trabalho, passava pelo matadouro, trazia umas fressuras, assava-as, tomava mate e jantava. Depois sentava-se ao relento, fumando. Pelo caminho sem desvios que ia dar no forno não passava ninguém. Às suas costas, as tunas e as sinas-sinas faziam desenhos na noite. Depois ia dormir.

Do conto "O burro", o meu preferido da antologia "A longa viagem de prazer", de Juan José Morosoli, trad. Sergio Faraco, ed. Mercado Aberto / Metrópole / IEL, 1991, pág. 21

Brent Cotton

04 dezembro 2025

Indicações III

cena de "Certo Agora, Errado Antes", dir. Hong Sang-soo


1) Entrevista de Roberto Calasso a Lila Azam Zanganeh, para The Paris Review:

https://ayine.substack.com/p/a-arte-da-ficcao

"Como Salustiano, o neoplatonista, escreveu, o próprio mundo é um mito. Então não importa o que estamos fazendo, estamos em meio a uma fábula. E a fábula, por definição, é aquilo que nos encanta. A única questão é se o percebemos ou não."

* * *

2) "Writing as Transformation", ensaio de Louise Gluck:


"I wanted to turn experience, often disappointment or hurt, into an externalized form that, in its accuracy and beauty, would both separate me from the experience and redeem it. The need to write in this way was constant, but the ability to write at all came and went; often in my life it was gone for years. This was not something I could do anything about."

* * *

3) "Discurso sobre as mulheres", por Natalia Ginzburg, seguido por "Carta a Natalia Ginzburg", por Alba de Céspedes:


"Mas — ao contrário de você — eu acredito que esses poços sejam a nossa força. Pois toda vez que caímos no poço, descemos às mais profundas raízes do nosso ser humano, e ao emergir trazemos em nós experiências tais que nos permitem compreender tudo aquilo que os homens — que nunca caem no poço — jamais compreenderão."

* * *

4) "O verdadeiro motivo pelos quais os homens deveriam ler ficção", por Jeremy Gordon:


"Não estou tentando entender Polo, mas estou acompanhando o ritmo de sua percepção, e minha consciência de como Melchor manipulou a realidade até torná-la febril e absorvente me faz lembrar de momentos em que também experimentei eventos com essa mesma intensidade. Isso não é empatia, exatamente, mas uma fuga da minha própria consciência e do meu entorno — algo de que preciso, de tempos em tempos."

* * *

5) "When Hong Sang-soo Pays You A Compliment", ensaio de Elissa Suh:


"Beauty is the instigator of men’s troubles, and while the age-old weakness sets their romantic calamities in motion, the women are never reduced to temptress or idealized naïfs. Rather, the ubiquity of the phrase, the ease with which it is pronounced, only highlights male imprudence and lack of judgement."

01 dezembro 2025

Notas de leitura – “A LITERATURA E OS DEUSES”, de Roberto Calasso

[Publicado originalmente em 23/09/2025 em blog desativado]

“La letteratura e gli dèi”, reunião de oito conferências ministradas pelo autor em 2000, trad. Jônatas Batista Neto, ed. Companhia das Letras, 2004.


“Acreditávamos viver num mundo sem névoa e desencantado, avaliável e verificável. Ao contrário, encontramo-nos num mundo onde tudo voltou a ser ‘fábula’. Como poderemos nos orientar? A que fábula vamos nos abandonar se já sabemos que a fábula vizinha tem condições de submergi-la? Essa é a paralisia, a peculiar incerteza dos tempos novos, uma paralisia que todos, desde aquele momento, experimentamos. Nietzsche apresenta-a como o ordálio pelo qual agora temos de passar: a condenação – ou a escolha – a atravessar um mundo totalmente espectral, onde sem dúvida é verdade que ‘tantos novos deuses são ainda possíveis‘ e o passo se prepara para uma nova dança, para ‘uma eterna fuga e busca de muitos deuses, um feliz contradizer-se, voltar a entender, voltar a pertencer a muitas entidades‘. Mas, ao mesmo tempo, tudo isso é envolvido por uma sutil e incontrolável irrisão, tornando a situação passageira, fugidia, em outras palavras: uma paródia.” (pág. 55-56)

“Procedimentos como o que acabamos de descrever pressupõem que toda criação – e, em particular, qualquer forma literária, de qualquer nível – seja envolvida no manto tóxico da paródia. Nada é mais o que afirma ser. Tudo já é uma citação no momento em que aparece. Esse evento enigmático e perturbador, do qual poucos, até então, pareciam dar-se conta, pode ser visto como uma manifestação do fato de que o mundo inteiro, como Nietzsche logo iria anunciar, estava voltando a transformar-se em fábula. Mas agora a fábula é um turbilhão indiferente, onde os simulacros se revezam como uma poeira igualitária. ‘Lá onde não há deuses, reinam os fantasmas‘, vaticinara Novalis. E era possível acrescentar: deuses e fantasmas se alternarão no palco, com direitos idênticos. Não há mais um poderio teológico capaz de governá-los e de ordená-los. Quem se arriscará, então, a entrar em contato com eles, a coordená-los? Uma potência ulterior, até então mantida em perene minoria, e usada para o serviço do corpo social, mas que, nesse momento, ameaça desancorar-se de tudo e navegar, solitária e soberana, como uma nave que acolhe todos os simulacros e vaga, no oceano da mente, pelo puro prazer do jogo e do gesto: a literatura. Que, nessa sua mutação, poderá, também, ser definida como literatura absoluta.” (pág. 62)

1) Troque-se ‘fábula’ por ‘narrativa’ e estaremos diante de uma definição ainda mais reconhecível nos dias de hoje. Penso que aí está expressada boa parte da angústia que movia um David Foster Wallace, pra citar um exemplo de uma geração de autores muito conscientes de todo o pós-tudo, que levou à paródia como estratégia de sobrevivência num mundo totalmente espectral. Penso na IA como consumação da paródia, como paródia infinita, como a espécie mais insidiosa de fantasma – nos restando, quem sabe?, a improvável esperança de que “o puro prazer do jogo e do gesto” vai tornar a literatura ainda mais agudamente absoluta.

* * *

“Há um sentimento muito forte e muito antigo que raramente é identificado e mencionado: a angústia decorrente da ausência de ídolos. Se o olhar não tem uma imagem sobre a qual repousar, se lhe falta uma mediação entre o fantasma mental e aquilo que tem existência concreta, um desânimo sutil nos invade. É essa a atmosfera dominante do primeiro sonho de que temos notícia, e que foi registrado por uma mulher, Adduduri, funcionária do palácio de Mari, na Mesopotâmia, numa carta cunhada em tabuinhas de argila, há mais de 3 mil anos: ‘No meu sonho, eu entrara no templo da deusa Bêlit-ekallim mas a estátua de Bêlit-ekallim não se encontrava lá! E nem as estátuas das outras divindades que, normalmente, a circundam. Diante de tal espetáculo, pus-me a chorar por longo tempo’. O primeiro de todos os sonhos trata de um templo vazio, como o aposento de Mallarmé. Talvez as estátuas tivessem sofrido uma deportação, como acontecia, às vezes, naqueles tempos, com certas populações. A ausência vem antes da presença: esse é o regime que governa a existência das imagens. E isso permite compreender por que a literatura, rapidamente, reencontrou e restaurou os ídolos fugitivos: ela é a guardiã de todos os lugares frequentados por fantasmas.” (pág. 86)

2) A metáfora se aplica a toda a literatura de ficção, por definição, mas eventualmente também o sentido denotativo, do qual o espectro do Rei Hamlet talvez seja o grande patrono. No meio do caminho entre a metáfora e o sentido literal, entre o aposento vazio e o encontro com a imagem, entre a solidão e o reconhecimento, guardo comigo três adoradas imagens de ausência-presença, das mais queridas que a guardiã dos lugares frequentados por fantasmas já me proporcionou:

a) Uma parada imprevista no apartamento ora desocupado da irmã faz Buddy Glass se deparar com um recado, deixado escrito no espelho do banheiro, ao irmão Seymour, que se ausentou do próprio casamento. (Pra cima com a viga, moçada! ou Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira ou Erguei bem alto a viga, carpinteiros, de J.D. Salinger). (Aliás, Seymour Glass talvez seja o grande ídolo/fantasma da literatura do século XX, cuja mitologia familiar é alimentada por cartas, diários, telefonemas, entre outras formas de assombração – já escrevi um pouco sobre isso aqui).

b) Dia após dia, Faustine contempla o pôr-do-sol e se mantém totalmente indiferente às tentativas de aproximação do narrador, até que ele descubra como eternizar-se na fantasmagoria da realidade. (A invenção de Morel, de A. Bioy Casares)

c) Um sujeito introvertido vaga pelos numerosos aposentos de um palacete durante um baile, em busca de alguma privacidade, até que, num quarto totalmente às escuras, de repente recebe um beijo de uma dama oculta que decerto aguardava outro, e que fugirá, incógnita, devolvendo-o a uma renovada solidão. (O Beijo, conto de Tchékhov)

A mensagem escrita no espelho. O encanto por algo que não passa de engenhosa ilusão. O vestígio de calor humano que dura só um instante e permanece para sempre sem explicação. São três imagens riquíssimas do que é a literatura de ficção.

E são três exemplos de como o “mundo totalmente espectral” (citação 1) da realidade contemporânea poderá encontrar caminhos insuspeitos naquele outro mundo que sempre se assumiu como espectral, ilusório, metafórico – vazio e pleno.

* * *

“Como reconhecer, de outra forma, a poesia – e o seu desvio em relação ao que já existe? Algo ocorre, algo que Coomaraswamy definiu, um dia, como ‘o abalo estético’. A sua natureza não muda – quer se trate do aparecimento de um deus ou de uma sequência de palavras. É a isso que a poesia induz: ela faz ver o que, de outra forma, não se veria, por meio daquilo que, antes, jamais se ouviu.

“Mas o que tinham em mente esses escritores que mencionei, quando diziam, quando pensavam a respeito de algo: isso é Literatura? Alérgicos a qualquer pertença, sócios honorários (como Groucho Marx) do clube daqueles que jamais se inscreveriam numa agremiação que os aceitasse como membros, eles aludiam, com essa palavra, à única paisagem na qual sentiam-se vivos: uma espécie de realidade segunda, que se escancara por trás das fissuras daquela onde foram harmonizadas, coletivamente, as convenções que fazem avançar a máquina do mundo. Que tais fissuras existam já é um postulado metafísico – e nem todos tinham vontade de estudar textos de filosofia. Mas, de fato, operavam assim, como se a literatura fosse uma espécie de metafísica natural, irreprimível, que se baseia em cadeias não de conceitos mas sim de entidades heteróclitas – fragmentos de imagens, assonâncias, ritmos, gestos, formas de todo gênero. E esta última era, talvez, a palavra decisiva: forma. Repetida por séculos, pelos motivos mais variados e sob as mais diversas espécies, ainda hoje parece ser o fundo por trás de qualquer outro fundo, quando se fala de literatura. Fundo fugidio, além de tudo, e incapaz, por natureza, de traduzir-se em enunciados. De forma, é possível se falar, de modo convincente, apenas por meio de outras formas. Não existe nenhuma linguagem superposta às formas, e que possa explicá-las, bem como torná-las funcionais. Assim como isso não existe, também, com relação ao mito.” (pág. 125)

3) Não costumo dar atenção a polêmicas – a verdade é que, confesso, o nome de Aurora Bernardini não me diz nada, e sequer li os autores que ela criticou, assim como não li a tal entrevista, portanto tampouco sei o contexto -, mas aqui e ali vi reações e provocações repercutindo suas recentes declarações sobre o conceito de literatura, de estilo, de forma e de conteúdo, e este trecho do Calasso conversa com essas questões. Ele assume a perspectiva dos escritores, mas penso que o mesmo se aplica ao leitor – pelo menos ao leitor exigente, atento e dedicado, que, ao ler, está escrevendo junto com o autor, e que não tem nada de melhor a fazer na vida, pois na literatura encontra a “única paisagem na qual sentiam-se vivos: uma espécie de realidade segunda, que se escancara por trás das fissuras daquela onde foram harmonizadas, coletivamente, as convenções que fazem avançar a máquina do mundo”. O que é literatura? Está lá na citação 2: “é a guardiã de todos os lugares frequentados por fantasmas” – e será tanto melhor quanto mais souber fazê-lo.

Detalhe da capa, com a obra “A educação de Maria de Médici” (1622-5), de Peter Paul Rubens. Por que, dos sete personagens retratados, apenas uma das Graças nos olha? Não será ela a verdadeira razão de ser do quadro?


Notas de leitura – “O ESTRANGEIRO”, de Albert Camus

[Publicado originalmente em 14/10/2025 em blog desativado]

“L’étranger”, publicado originalmente em 1942. Trad. Valerie Rumjanek, ed. Record, ano da edição não identificado. Lido em 2009, relido em 2025.

Valentine Panici

“- Se andarmos devagar – disse ela – arriscamo-nos a uma insolação. Mas se andarmos depressa demais, transpiramos, e, na igreja, apanhamos um resfriado.

“Tinha razão. Não havia saída.” (pág. 22)

1) A fala da enfermeira, que será relembrada pelo protagonista muito depois, num momento existencial crítico, talvez seja a chave do coração do livro, ao dar uma expressão concreta às aporias da existência. Por mais que se busque alguma forma de equilíbrio, este desejo é sempre precário diante da força implacável dos contrastes.

Como bem observou Vargas Llosa no seu comentário sobre o livro (em A verdade das mentiras), O Estrangeiro é ambíguo e se presta a diferentes perspectivas acerca do caráter do seu herói, cabendo a cada leitor construir o seu próprio julgamento; em última análise, desafiando-nos com o dilema: o que é menos pior? Andar devagar ou depressa? A insolação ou o resfriado? Adaptar-se à ficção da sociedade ou manter-se fiel ao seu próprio personagem íntimo? E assim por diante.

cena do filme “Valsa com Bashir”, dirigido por Ari Folman


* * *

“Era o mesmo brilho vermelho. Na areia, o mar ofegava com toda a respiração rápida e sufocada de suas pequenas ondas. Eu caminhava lentamente para os rochedos e sentia a testa inchar, sob o sol. Todo este calor me apertava, opondo-se a meus passos. E cada vez que sentia o seu grande sopro quente no meu rosto, trincava os dentes, fechava os punhos nos bolsos das calças, retesava-me todo para triunfar sobre o sol e essa embriaguez opaca que ele despejava sobre mim. A cada espada de luz que jorrava da areia, de uma concha esbranquiçada ou de um caco de vidro, meus maxilares se crispavam. Andei durante muito tempo.

“Via, de longe, a pequena massa sombria do rochedo, envolto em uma auréola ofuscante pela luz e pela névoa do mar. Pensava na nascente fresca atrás do rochedo. Tinha vontade de reencontrar o murmúrio de sua água, vontade de fugir do sol, do esforço e do choro de mulher, enfim, vontade de reencontrar a sombra e seu repouso. Mas, quando cheguei mais perto, vi que o árabe de Raymond tinha voltado.

“Estava só. Descansava de costas, as mãos debaixo da nuca, a cabeça nas sombras do rochedo, todo o corpo ao sol. Seu macacão azul fumegava ao calor. Fiquei um pouco surpreso. Para mim, era um caso encerrado, e viera para cá sem pensar nisso. Logo que me viu, ergueu-se um pouco, e meteu a mão no bolso. Eu, naturalmente, agarrei o revólver de Raymond, dentro do paletó. Então, o árabe deixou-se cair outra vez para trás, mas sem tirar a mão do bolso. Eu estava bastante longe dele, a uns 10 metros de distância. Adivinhava-lhe por instantes o olhar, entre as pálpebras semicerradas. Mas, na maioria das vezes, a sua imagem dançava diante de meus olhos, no ar inflamado. O barulho das vagas era ainda mais preguiçoso, mais estagnado do que ao meio-dia. Eram o mesmo sol e a mesma luz, sobre a mesma areia, que se prolongavam até aqui. Havia já duas horas que o dia não progredia, duas horas que lançara âncora num oceano de metal fervilhante. No horizonte, passou um pequeno vapor, distingui sua mancha negra com o canto do olho, pois não deixara de fitar o árabe.

“Pensei que bastava dar meia-volta e tudo estaria acabado. Mas, atrás de mim, comprimia-se toda uma praia vibrante de sol. Dei alguns passos em direção à nascente. O árabe não se mexeu. Apesar disso, estava ainda bastante longe. Parecia sorrir, talvez por causa das sombras sobre o seu rosto. Esperei. A ardência do sol ganhava-me as faces e senti gotas de suor se acumularem nas minhas sobrancelhas. Era o mesmo sol do dia em que enterrara mamãe, e, como então, doía-me sobretudo a testa, e todas as suas veias batiam juntas debaixo da pele. Por causa desta queimadura, que já não conseguia suportar, fiz um movimento para a frente. Sabia que era estupidez, que não me livraria do sol se desse um passo. Mas dei um passo, um só passo à frente. E, desta vez, sem se levantar, o árabe tirou a faca, que ele me exibiu ao sol. A luz brilhou no aço e era como uma longa lâmina fulgurante que me atingisse na testa. No mesmo momento, o suor acumulado nas sobrancelhas correu de repente pelas pálpebras, recobrindo-as com um véu morno e espesso. Meus olhos ficaram cegos, por trás desta cortina de lágrimas e de sal. Sentia apenas os címbalos do sol na testa e, de modo difuso, a lâmina brilhante da faca sempre diante de mim. Esta espada incandescente corroía as pestanas e penetrava meus olhos doloridos. Foi, então, que tudo vacilou. O mar trouxe um sopro espesso e ardente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão, deixando chover fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão sobre o revólver. O gatilho cedeu, toquei o ventre polido da coronha e foi aí, no barulho, ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo começou. Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Então, atirei quatro vezes ainda num corpo inerte, em que as balas se enterravam sem que se desse por isso. E era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça.” (pág. 61-63)

2) Poucas vezes o clímax de uma narrativa foi tão bem situado e explorado. Estamos exatamente na metade do livro, e, talvez, prestes a nos cansarmos da sua prosa seca e econômica – que se justifica pelo temperamento do protagonista. E eis que, neste encerramento da primeira parte do romance, Camus deixa bem evidente que sabe, quando necessário, desenvolver um estilo mais descritivo, envolvente, impressionista, enervantemente poético. O desabrochar dessa torrente estilística vem marcar o ponto de inflexão do drama de Mersault. E se o sol massacrante, onipresente, opressivo, inclemente, parece o índice da presença de um Deus com as mesmas propriedades, ou de um sistema de sentido totalizante e totalitário, a “vontade de reencontrar a sombra e seu repouso” não apenas aponta para o árabe sem nome como a sombra que Mersault carrega consigo, como também traduz o destino irônico de quem enfim encontrará uma sombra permanente na prisão e uma condenação ao repouso na sentença de morte.

É interessante como o segundo parágrafo faz pensar quase numa miragem, uma visão que surge com uma aura de salvação, expressão de uma sede metafísica – para terminar na muito concreta presença de um outro que é hostil e incompreensível, espécie de guardião daquele oásis proibido.

E que achado é esta frase, talvez a mais verdadeira e íntima desse personagem elusivo que é Mersault: “Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz”. Proust tem razão: os verdadeiros paraísos são os que perdemos.

Gordon Hunt


* * *

“Ao sair do Palácio da Justiça para entrar no carro, reconheci por um instante o cheiro e a cor da tarde de verão. Na obscuridade da minha prisão rolante, reencontrei, um a um, no fundo do meu cansaço, todos os ruídos familiares de uma cidade que eu amava e de uma certa hora em que me ocorria ficar contente. O pregão dos vendedores de jornais no ar já distendido, os últimos pássaros na praça, o grito dos vendedores de sanduíches, o lamento dos bondes nas pronunciadas curvas da cidade e este rumor do céu antes de a noite descer sobre o porto, tudo isto recompunha, para mim, um itinerário de cego, que eu conhecia bem antes de entrar para a prisão. Sim, era a hora em que, há muito, muito tempo, eu me sentia contente. O que me aguardava era sempre um sono leve e sem sonhos. E, no entanto, alguma coisa mudara, pois, com a expectativa do dia seguinte, foi a minha cela que reencontrei. Como se os caminhos familiares traçados nos céus de verão pudessem conduzir tanto às prisões, como aos sonos inocentes.” (pág. 99)

3) Por um instante, a consciência do que seja a liberdade. Mais cedo há outro trecho magnífico, quando Mersault descobre que o melhor que pode fazer para passar o tempo na prisão é reconstituir com a memória cada palmo do quarto da sua casa, com suas variadas formas, cores, texturas – um formidável lembrete do quão facilmente nos esquecemos do valor de termos tudo isso ao dispor dos nossos olhos, mãos, corpo, sentidos, consciência, da nossa liberdade, enfim. E, curioso, até mesmo neste trecho longe da praia e do sol ofuscante, o motivo do olho/cegueira se faz presente (“um itinerário de cego").

* * *

Encerro com uma sincronicidade ocorrida no último domingo: interrompi a leitura de O Estrangeiro para dar uma caminhada no Parque Marinha, onde vi (e ouvi) um vendedor ambulante de sorvete com a peculiar corneta, e pensei que era a primeira vez em muitos meses que via um sorveteiro, sinal do verão que se aproxima. Voltei pra casa, retomei a leitura, e me deparei com o seguinte na página 106: “lembro-me apenas de que (…) eu ouvia o ecoar da buzina do vendedor de sorvetes."

capa da edição