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| Jim Holland |
Terça-feira de Carnaval: queria uma ficção daquelas para se ler num único dia. A escolha foi "Na praia", do Ian McEwan (On Chesil Beach, trad. Bernardo Carvalho, ed. Companhia das Letras, 2007). Ao terminar a leitura, sentia um júbilo tranquilo e raro, e aqui vai uma tentativa de entender o porquê.
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No dia anterior, tinha ouvido pela enésima vez o adágio do Concerto para piano em sol maior, do Ravel, com a consagrada interpretação da Martha Argerich, porém com uma intensidade que não costuma acontecer frequentemente diante de uma peça já muito conhecida; pêlos arrepiados, sentimento de completude, vibração com a existência, toda aquela maravilha que a música é capaz (aliás, Carrère também tem algo a dizer sobre epifanias com a pianista argentina). Esse concerto (o vídeo abaixo é de outra gravação, mas vou deixar como referência), cujos allegro inicial e presto final são agitadamente jazzísticos, tem no centro um adagio belíssimo, sonhador, melancólico e lírico. Ainda assim, seu tema principal não demora a se esgotar, até porque não varia essencialmente com relação à tradição clássica e romântica. Lá pela metade do adágio, após um curto diálogo com as madeiras (flauta, oboé e clarinete) e mais uma repetição do tema cadenciado, o piano parece argumentar que não encontra uma saída, o que é expressado por escalas que parecem indiferentes à orquestra (13m08s no vídeo) - e é a partir daí que o impasse é dissolvido pelo surgimento de um sopro (oboé) inspirador de novos rumos (14m25s), com quem o piano inicia um diálogo sublime e encantador; ainda que mantenha seu ar de deambulação, o teclado passa a soar mais cristalino no contraste com o timbre amadeirado do oboé, como se vibrasse com esse encontro de temas paralelos mas distintos, eventualmente repousando juntos em acordo. É o grande momento do concerto, seu êxtase maior, sua clarividência mais deslumbrante.
Prestar atenção na evolução dos temas - repetição, transformação, retomada, contraste, criação de expectativa e sua confirmação ou suspensão ou frustração etc - é o bê-á-bá da audição de música clássica (ou erudita, ou de concerto, ou como se queira chamar), mas um leigo como eu nem sempre acompanha essa "narrativa" com a devida desenvoltura, por isso tanta comoção quando ela de fato faz pleno sentido, mostrando por que a música é essa coisa maior do que tudo.
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Quando apanhei o "Na praia" no dia seguinte, não fazia ideia de que tinha a música como um dos seus temas; eu procurava apenas por uma ficção ideal para ler num único dia. A novela centra-se na noite de núpcias de Edward e Florence, na costa sul da Inglaterra (praia de Chesil), em 1962, portanto num momento histórico que ainda não tinha assumido totalmente os efeitos da revolução dos costumes que estaria a pleno na segunda metade da década, como escreve McEwan já na primeira frase: "Eram jovens, educados e ambos virgens nessa noite, sua noite de núpcias, e viviam num tempo em que conversar sobre as dificuldades sexuais era completamente impossível". Florence é violinista, líder de um quarteto de cordas, enquanto seu noivo é entusiasta do blues e do rock'n'roll, além de ter uma origem social e econômica menos privilegiada. A música não ocupa grandes porções da narrativa, que foca nos pensamentos hesitantes e nas dúvidas interiores de ambos diante do evento fascinante e misterioso que se aproxima, ou seja, da sua primeira noite de intimidade sexual. A trama às vezes recua até 1961, entremeando o tempo presente com episódios do desenvolvimento do namoro, e próximo ao final avança até décadas posteriores para mostrar a situação dos personagens diante das consequências daquela noite.
O estilo da prosa de McEwan se faz presente em sua plena elegância e fluidez, e isso basta para que a narrativa nos cative. O drama dos personagens, por outro lado, soa um tanto quanto banal, mesmo assumindo-se a distância histórica, e é difícil evitar certo enfado diante das suas perspectivas burguesas, bastante limitadas e quase desprovidas de mistérios existenciais e dos seus abismos (senão quanto à perda da virgindade). Mas, ao fim e ao cabo da leitura, o sentimento é de uma alquimia espiritual rara, e isso acontece por causa da música, menos por sua presença nas melhores cenas da narrativa, e mais pela própria estrutura de tipo musical que vai aos poucos se revelando como base do subtexto, muito semelhante àquela que tanto me entusiasmou e comoveu no adágio do Ravel. Ainda que a oposição entre, de um lado, a avidez de Edward, e, de outro, a rigidez de Florence, não seja sutil quanto a ilustrar o contraste entre o espírito jovial e rockeiro daquele e a postura introspectiva e resguardada desta, o que é realmente admirável e inspirador na construção da narrativa é o modo como os dois personagens se assemelham a dois temas musicais. "Na praia", assim como o referido adágio, também soa com beleza e, do mesmo modo, parece se esgotar rapidamente, criando um impasse. E se a peça musical ganha novo fôlego a partir do diálogo entre o piano e o oboé, da mesma maneira a novela de McEwan cria paralelismos entre os personagens que sustentam um subtexto formal encantador.
Embora em alguns poucos momentos as metáforas musicais sejam explícitas, como numa discussão entre o casal que soa como "o segundo violino respondendo ao primeiro, uma defesa retórica provocada pela brusquidez, pela precisão do ataque dele", em outros trechos se destaca a manipulação de expectativas comum às formas narrativas tanto musicais quanto literárias - "sofrera um tormento passivo, desejando-a até doer, (...) não havia necessidade de tamanhas contorções, tamanhas agonias restritivas. Ele tinha sido paciente, (...) e pensou tudo de novo, desbastando as arestas ásperas e as passagens difíceis, as pontes de ligação que se erguiam acima de suas próprias dúvidas, assim foi aperfeiçoando seu argumento e, enquanto o fazia, sentiu a ira avolumar-se de novo. Esta chegava ao ápice".
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| Bernard Fleetwood-Walker |
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Durante o namoro, o único momento de verdadeiro entusiasmo de Edward com a música clássica (e, em última análise, com Florence) é ao ouvir as primeiras notas da Sinfonia Haffner, de Mozart, quando "o salto da oitava na abertura apossou-se dele com uma clareza desafiadora (...), ele levantou o punho e gritou que a amava", mas que não se sustenta por muito tempo à medida que a música se desenvolve - e a mesma sofreguidão que se esgota na abertura será o emblema do momento mais esperado da noite de núpcias. Por outro lado, Florence reage de modo perfunctório aos discos de rock que tanto estimulam seu namorado (nesta passagem o autor comete um pequeno anacronismo, que mais adiante eu explico), e sente-se incomodada com a percussão, que lhe soa exagerada, mostrando-se muito resistente a deixar-se levar pelo ritmo mais desprendido e sensual.
Entre os dois polos, no entanto, surge uma cena de entendimento que, assim como no adágio de Ravel, ilumina todo o potencial amoroso da relação entre os dois temas/personagens; é quando Edward se faz presente num ensaio do quarteto liderado pelo violino de Florence, no qual sente-se aborrecido com "a agitação afetada e a mesmice de tudo", até que, diante das diversas interrupções e comentários entre os músicos para ajustes e aperfeiçoamentos, chega um ponto em que "a repetição começou a revelar a Edward uma melodia suave e discernível e vários enredos de passagem entre os músicos, ataques e saltos desafiadores que ele acabava procurando na vez seguinte". Considero este o momento mais expressivo (e verdadeiramente erótico, imbuído de Eros) da novela de McEwan, por simultaneamente aprofundar a capacidade de compreensão entre os amantes e incutir no leitor um estado de espírito musical, que se revela como o aspecto mais significativo da obra, a ponto de amar e ouvir música se tornarem análogos - e, consequentemente, também o próprio ato de ler (com a mesma dedicação profunda), já que é o texto de McEwan que une todos esses elementos e que atrai o leitor/ouvinte para que participe da construção de alguma ordem e das consequentes expectativas. É dessa atenção mediada que nascem os mais surpreendentes prazeres estéticos, inclusive a felicidade de compreender a coerência estrutural, para além da apreciação da prosa, da empatia com os personagens, da identificação pessoal com os dramas e do interesse pela história - quiçá seja a melhor forma de fazer convergir e consumar tudo isso.
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A analogia entre amar e ouvir música pode soar banal diante de toda a tradição da música popular e, sobretudo, do rock, principalmente quando se opõe o seu caráter percussivo (energia, frenesi) ao formalismo da música clássica (temas, arquitetura), contudo McEwan torna as coisas mais ambíguas e sutis ao colocar em relação as limitações e libertações sugeridas pela interação entre os perfis opostos. A frustrada noite de núpcias ilustra como pode ser fácil contagiar-se pela energia da música pop-rock, pelos mesmos motivos que a fazem esgotar-se rapidamente, assim como o muito mais vasto, duradouro e profundo campo de forças psíquicas mobilizado pela música clássica pode trair um espírito demasiadamente rígido e renitente, ainda que sensível.
Muitos anos depois, entretanto, os destinos separados de Edward e Florence indicam maior empatia do autor/narrador com ela - "tocou, se é que posso dizer assim, como uma mulher apaixonada, não apenas por Mozart, ou pela música, mas pela própria vida", nas palavras de um crítico musical que a ouve -, enquanto Edward reflete melancolicamente sobre "o que fizera de si? Deixou-se levar, semi-adormecido, desatento, sem ambições, leviano, infantil, acomodado". Quiçá seja este contraste no destino dos personagens que melhor reflete as dimensões musicais: aquele momento no adágio de Ravel em que o piano parece não encontrar uma saída, até ser apanhado pelo tema de outro instrumento, criando uma nova camada musical tão ou mais brilhante, que por sua vez volta a compor outro tema mais abrangente - grosso modo, não é na ausência (ou simplificação) desses encontros e desencontros que o rock e a música popular geralmente se esgotam? Suas faixas não costumam terminar antes mesmo de reconhecerem-se diante de um impasse? Se a música pop parece sempre saber para onde ir, muito em função do seu abrangente processo de industrialização, resta reconhecer o valor estético de uma tradição musical em que o ouvinte pode se perder - e se reencontrar.
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Em mais de uma oportunidade - inclusive na sua palestra em 2016 no evento Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre -, McEwan comentou com bom humor algumas correções que recebeu de leitores ao longo da sua carreira, sobre pequenos lapsos factuais ou materiais que lhe passaram despercebidos (como a configuração das estrelas no hemisfério norte em determinada época do ano, ou a troca de marchas num modelo de automóvel que é automático). Imagino que alguém já terá apontado para o erro cronológico à página 100, em que a narrativa está em 1961, quando do início do namoro dos protagonistas; Edward apresenta a Florence discos de rock, incluindo versões de Chuck Berry gravadas pelos Beatles e pelos Rolling Stones - gravações que, de fato, só ocorreriam em 1963. Apesar de McEwan ser ouvinte interessado de variados tipos de música, inclusive rock, é possível que o pequeno anacronismo fale mais sobre seu grande entusiasmo pela música clássica, que marca presença em várias das suas ficções e que dificilmente seria alvo de equívoco semelhante. Em 2008, ano seguinte à publicação de "Na praia", o britânico inclusive escreveu o libreto de uma ópera do seu compatriota Michael Berkeley, aprofundando sua ligação com a música de concerto, o que evidencia ainda mais o contexto musical desse período da vida do escritor.
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Penso em romances e novelas (para ficar apenas em narrativas longas) de outros autores que têm a música como um elemento que ultrapassa o enredo, de algum modo jogando com aspectos mais estruturais da narrativa - música clássica, em todos os casos: o delirante Valsa Negra (2003), de Patrícia Melo; o exasperante O Náufrago (1983), de Thomas Bernhard, de notória influência na ficção mais recente de Luiz Antonio de Assis Brasil, Leopold (2023), cuja sintaxe sugere contiguidade entre o processo musical (seja como ouvinte ou como compositor) e o pensamento (monólogo interior), inclusive no modo como o narrador-protagonista (pai de Mozart) procura conscientemente controlar e organizar seus pensamentos e sentimentos, possibilitando reflexões comuns às narrativas musical e literária sobre controle do tempo, lógica, harmonia, dissonância, compreensão; a novela de Assis Brasil, embora encontre uma solução final interessante numa personagem secundária, não alcança o mesmo poder penetrante que a ficção de Bernhard, em que por vezes até nos esquecemos de quem está narrando/pensando, sugados que somos pelo abismo da consciência. Penso também nos clássicos que (ainda) não li, como Doutor Fausto (Thomas Mann) e Contraponto (Aldous Huxley), embora eu duvide que qualquer obra literária possa ter uma relação tão rica e significativa com a música quanto a que Proust desenvolveu ao longo dos volumes de Em busca do tempo perdido, em que ela se constitui como a grande chave existencial do narrador-protagonista.
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| Sandrine Revel retratando Glenn Gould, icônico pianista personagem de O Náufrago. |
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Se o rito da perda da virgindade consolida a entrada no mundo adulto, podemos dizer que essa passagem consiste fundamentalmente em tentar compreender o rock, no caso de Florence, ou a música clássica, no caso de Edward. "Amor e paciência - se pelo menos ele tivesse conhecido ambos ao mesmo tempo", lemos no último parágrafo de "Na praia". Rock e música clássica - se pelo menos eles tivessem compreendido ambos ao mesmo tempo, pensa o leitor. Para além das perspectivas limitadas dos personagens, do conservadorismo dos costumes e da frustração dos sonhos malogrados, a obra de McEwan sugere que aprender a ouvir o Outro equivale a dedicar-se a ouvir música - e este talvez seja o ato mais profundamente erótico de amor e paciência.
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Proust, para a coda: "(...) eu pensava comigo se a música não era o exemplo único do que poderia ter sido - se não tivesse havido a invenção da linguagem, a formação das palavras, a análise das ideias - a comunicação das almas. É ela como uma possibilidade que não teve prosseguimento; os homens enveredaram por outros caminhos, o da linguagem falada e escrita. (...) E a frase final do andante parecia-me tão sublime que eu lamentava que Albertina não soubesse, e se tivesse sabido, não compreendesse a honra que era para ela estar associada a essa coisa tão grande que nos reunia (...), aquela frase, que me oferecia com voz tão amorável uma felicidade que realmente valeria a pena obter, foi talvez - invisível criatura cuja linguagem eu não conhecia mas compreendia tão bem - a única Desconhecida que jamais me tenha sido dado encontrar." (A Prisioneira, trad. Manuel Bandeira e Lourdes Sousa de Alencar)
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Capa da obscura gravação que ouço há anos, com direito a erro na tonalidade ("sol menor"). Conforme o site pianistdiscography.com, o concerto foi realizado na Suíça, em 1959. Vale mencionar que, dez anos depois, a solista e o regente desta gravação, Charles Dutoit, casariam-se. A propósito, McEwan dedicou o "Na praia" à sua esposa, Annalena - e acho que esses dois fatos reforçam a conclusão do meu ensaio.
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| capa da edição |





























