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| Alariko |
Os contos de Onetti foram o objeto do primeiro texto de crítica literária que publiquei, no início de 2011 (aqui no blog e reproduzido no Posfácio). De lá pra cá, eventualmente releio alguns contos, mas só agora me aventurei num romance do uruguaio.
"A vida breve" (La vida breve, trad. Josely Vianna Baptista, ed. Planeta, 2004, original de 1950) possui essencialmente as mesmas características que destaquei nas narrativas curtas. As primeiras 15 ou 20 páginas são tão absorventes na sua prodigiosa capacidade de fabulação, que inevitavelmente fica difícil manter o pique ao longo da narrativa; fui cansando e ficando perdido (desconfio que o autor ria disso no além), até chegar ao ponto de quase não me interessar pelas particularidades dos personagens e seus destinos, mas sem deixar de continuar fascinado por encontrar essa voz narrativa, em que "algum elemento desconhecido continuava se impondo, emanava o mesmo clima de alegria sem motivo, de artifício; a sensação de uma vida fora do tempo e resgatável" (pág. 89).
Os achados inigualáveis de Onetti no seu trabalho com as palavras, aliado a uma cosmovisão angustiada mas lúdica, em que o envolvimento com a realidade imaginada é matéria de salvação e perdição existenciais, tornam "A vida breve" marcante: genial, maldito, cansativo, engenhoso, vicioso, um romance cujo universo trescala a (in)felicidade absurda da ficção.
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| Troy Brooks |
Um dos muitos talentos de Onetti se dá nas frases com enumerações, ora com ares de paródia cervantina, ora com elegante precisão flaubertiana, ora com a impetuosidade dos malditos - ou ainda, como na última das quatro que seguem abaixo, como súmula do ato criador:
1) "Toquei a campainha duas vezes; ouvi os passos sobre o tapete, sobre as madeiras, ouvi o silêncio. Eu devia estar sorrindo diante da porta enquanto erguia o corpo o mais que podia e pensava em cânceres, apoplexias, infartos; em caldeus, assírios e etruscos." (pág. 88)
2) "Pegou um táxi na esquina e vi o último aceno de sua mão, vi-o afastar-se, no começo da noite, para o mundo poético, musical e plástico da manhã, para nosso destino comum de mais automóveis, mais dentifrícios, mais laxantes, mais toalhinhas, mais geladeiras, mais relógios, mais rádios; para o pálido, silencioso frenesi dos vermes." (pág. 171)
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| David Davidovich Shterenberg |
3) "Se agora eu pudesse fazê-lo pensar na vida que continua à nossa volta, nos amiguinhos e nas mulheres a quem poderia estar mentindo, cobiçando, contando histórias sujas. Se pudesse fazê-lo sentir que os atos e sensações que ele chama de vida não se interromperam, que estão servindo pinga com gelo no Novelty, que os rapazes passam giz nos tacos apoiando-se na mesa de bilhar, que María ensaia dengos e roupas diante do espelho, que algumas centenas de cretinos, seus irmãos, estão chegando a Corrientes vindos dos subúrbios, que avançam para os cinemas e os cafés e as milongas, rumo ao sabor de heroísmo e fracasso do puchero na madrugada. Se ele entendesse que eu estou aqui, olhando-o sem necessidade de simpatia, ligado a ele, empenhado em adivinhar o aspecto de sua desgraça..." (pág. 243)
4) "Não olhei para a esquina onde estava o posto de gasolina; diante de mim se estendia um trecho da praça que Díaz Grey contemplava de uma das janelas que nos cercavam; lembrei que a primeira tempestade de primavera sacudira as árvores e que sob as folhas úmidas passaram os perfumes das flores recém-abertas, os calores do verão, homens de macacão com suas amostras de trigo embaladas, mulheres com vontade e com medo de enfrentar o que tinham imaginado na algidez do inverno. Todos eram meus, nascidos de mim, e senti pena deles e amei-os; amei também, nos canteiros da praça, cada paisagem desconhecida da terra; e era como se amasse em determinada mulher todas as mulheres do mundo, as separadas de mim pelo tempo, pelas distâncias, pelas oportunidades perdidas, as mortas e as que ainda eram crianças. Com a conversa de Ernesto me descobri livre do passado e da responsabilidade do futuro, reduzido a um evento, forte na medida de minha capacidade de prescindir." (pág. 291-292)
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| William Kurelek |
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| capa da edição |













































