23 setembro 2026

Mario Levrero - vazio e luminoso

O Discurso Vazio ("El Discurso Vacío"), trad. Antônio Xerxenesky, ed. Companhia das Letras, 2025, (original de 1996).

O Romance Luminoso ("La Novela Luminosa"), trad. Antônio Xerxenesky, ed. Companhia das Letras, 2018, (original de 2005).

Jess Allen

 

"Apenas não devo continuar adiando a questão de enfrentar e transcender a angústia difusa e chegar ao ócio; é tudo assim tão simples. Tão simples e tão doloroso. Amigo leitor: não pense em entrelaçar sua vida com a literatura. Ou melhor, sim; você sofrerá, mas dará algo de si mesmo, que definitivamente é a única coisa que importa." (O Romance Luminoso, pág. 78) 

 

Li O Discurso Vazio alguns meses atrás, depois de ter conhecido (e adorado) O Romance Luminoso em 2024, e não havia deixado por aqui nenhuma nota sobre o cativante carisma da prosa de Mario Levrero (1940-2004), cujo personagem de si próprio, buscando um equilíbrio entre a iluminação e a paranoia (frequentemente parecendo um integrante da família Glass, do Salinger), soa patético, cômico, neurótico, honesto, vulnerável, ridículo, encantador.

Ambos são escritos na forma de diários do próprio Levrero, registrando desde simples observações cotidianas até momentos de indizível mistério existencial, através de "impiedosa, radical e hilariante introspecção", como bem definiu Ignacio Echevarría (em Conversas com Mario Levrero, de Pablo Silva Olazábal).

Bem mais sucinto, O Discurso Vazio é como um prelúdio ao caudaloso e póstumo O Romance Luminoso; este, à medida que se desenvolve, vai ficando mais e mais ambíguo quanto aos limites entre sonhos, memórias, relatos, ficções, delírios. Na busca pelo espírito em meio às nulidades da vida besta, aparece de tudo: epifania, telepatia, hipnose, parapsicologia, mística, sonho profético, magia, fenômeno paranormal, coincidência, superstição, daemon, dimensão ignorada - como também a acuidade tranquila do olhar lúcido e reflexivo.

Essas coisas luminosas todas, aconteceram mesmo ou são elementos ficcionais?, é o que inevitavelmente pergunta-se o leitor. Não importa, na verdade; no que decidimos acreditar, já que não se sai da cama pela manhã sem alguma crença? E por que acreditamos nisso e não naquilo? E como podemos crer em algo, sabendo que somos movidos a desejos, e, portanto, a ilusões?

Levrero nos deixa com obras ostensivamente incompletas, imperfeitas, incertas - forma-se uma imagem da vida moderna nesse mecanismo de permanente construção-desconstrução-reconstrução de sentidos e narrativas. Um quebra-cabeça sem fim, só precariamente resolvido, mas que não deixa de restituir algum encanto lúdico e existencial - ler e escrever, sobretudo, surgem como finalidades da vida, e não como meios, e o poder introspectivo da sua solidão firma-se contra a tirania da vida conduzida por coletividades, por tecnocratas, pelas massas, pela publicidade, por slogans, por banalidades em série, pelos que não sabem que nada sabem e colocam em movimento as engrenagens de destruição da poesia sutil e libertária vivida na solitude.

Só me resta reconhecer que, dos nove prosadores uruguaios que lembro ter lido (ou nove e meio, se contarmos o doble-chapa Aldyr Garcia Schlee), quatro são da minha alta estima: Morosoli, Onetti, Benedetti e Levrero - um quarteto de cordas que habilmente concilia silêncios, scherzos e passagens iluminadas. 

Fernando Pessina

Pequenas amostras da adorável casmurrice e introspectiva sensibilidade da persona de Levrero:

"A internet sairá definitivamente da esfera da cultura onde nasceu, e será controlada por comerciantes e estadistas. Mas, mesmo assim, a própria estrutura do computador, a inteligência da humanidade que o criou, isso continuará sempre vigente. Sempre será um mundo para desentranhar, com o qual dialogar, porque é necessariamente regido pela lógica. Sem lógica, a máquina não funciona. Embora aquele que a opere não seja lógico. Um fã de futebol babão já pode apertar uns botões e obter resultados. Logo poderá obter muito mais, com menor desgaste intelectual. Porém, talvez continuem restando indivíduos solitários que preferem dialogar com as entranhas de um sistema operacional na noite de Natal, indiferentes aos fogos de artifício e às bebedeiras. Claro que essa solidão me machuca um pouco; as coisas poderiam ser diferentes. Claro que submerjo no mundo da máquina para não sentir essa dor que, mais do que dor, é nostalgia, ou uma espécie de nostalgia, como a dos tangos, que não se refere obrigatoriamente a um fato concreto, a uma história vivida. Nostalgia do que podia ter sido uma raça, ou um país. Ah, as pessoas..." (O Romance Luminoso, pág. 309-310)

[No trecho acima, escrito em dezembro de 2000, diria que o autor foi profético quanto aos rumos da internet; mais do que isso, em pressentir que o espaço a ser ocupado pela inteligência artificial equivale ao da estupidez natural - e aproveito para lembrar que este blog finca o pé na esfera da cultura e segue navegando como se numa garrafa lançada a um nostálgico mar.]

Sarker Helal Uddin

"Noto que todas as psicoterapias, todos os meus esforços de adaptação, este viver na Terra, minha aparência decente ou mais ou menos normal dos últimos anos, é só um verniz ou uma forma de simulação, que se desvanece como por encanto quando mal começo a escrever, a pensar, a tentar me resgatar de minhas depressões, a enfrentar a ideia da morte que a necessidade de me operar gerou - quando busco os recursos da vida e da esperança, encontro-me com essas coisas, sempre essas queridas coisas.

"Sim, eu sei; até o bom Jung pensava que a participation mystique implica uma forma de percepção regressiva, correspondente ao período anterior da formação de um 'eu' na criança. Mas este 'eu' não estará hipertrofiado em nós, não terá crescido às custas de uma formação psíquica que seria a fonte de saúde da humanidade? Dito em outras palavras: há alguém, por Deus, que esteja satisfeito com isso que chamam de 'realidade'? Há algum imbecil que pense que o mundo é habitável? Sim, sim, eu sei; há sim, há sim, há sim. Enfim." (O Romance Luminoso, pág. 596)

Karin Jurick

"Quero escrever e publicar. Tenho necessidade de ver meu nome, meu verdadeiro nome e não o que me deram, em letras de fôrma. Mais que isso, muito mais, quero entrar em contato comigo mesmo, com o maravilhoso ser que me habita e é capaz, entre muitos outros prodígios, de fabular histórias ou historietas interessantes. Essa é a questão. Essa é a chave. Recuperar o contato com o ser íntimo, com o ser que participa de algum modo secreto da faísca divina que percorre infatigavelmente o Universo e o anima, sustenta-o, confere-lhe realidade sob seu aspecto de casca vazia. (...)

Que fim levou minha alma? Por onde será que anda? Um tempo atrás, eu dizia a Alicia que me sentia mal porque há muito tempo não me conecto com a eternidade. Isso quer dizer que percebo as coisas de modo superficial, que não tenho vivências, que estou afastado do Ser Interior; muito afastado, e sem ter a menor noção dos caminhos possíveis para me aproximar. Não importa o que se está vivendo quando uma pessoa está apartada de Si Mesma; tudo fica igualmente sem peso, tudo transcorre sem deixar nenhuma marca memorável." (O Discurso Vazio, pág. 35-36)


13 setembro 2026

Além das terras conhecidas: "AS PLANÍCIES", de Gerald Murnane

"The Plains", trad. Caetano Galindo, ed. Todavia, 2024 (original de 1982).

Andrew Wyeth

"Porque para todos quantos, privados de senso artístico, isto é, de submissão à realidade, (...) a literatura reduz-se ao mero jogo do espírito, destinado a ir de futuro gradualmente desaparecendo. Alguns queriam fazer do romance uma espécie de desfile cinematográfico das coisas. Concepção absurda. Nada se afasta mais daquilo que de fato percebemos do que a visão cinematográfica." (O Tempo Redescoberto, de Marcel Proust, trad. Lúcia Miguel Pereira)

 

O australiano Gerald Murnane não precisou de mais do que umas cem páginas para criar uma obra densa, instigante, existencial, infinita, em que equilibra uma prosa fluida e clássica com uma sondagem misteriosa, sutil e obscura sobre a vida interior do narrador e protagonista anônimo, e, por extensão, sobre o lugar verdadeiramente artístico habitado pelo homem.

"Há vinte anos, quando cheguei às planícies, fiquei de olhos bem abertos. Estava à procura de algo naquela paisagem que apontasse para algum sentido complexo por trás das aparências". É com essas palavras - manifestando um processo de fruição estética que define inclusive o ato da leitura - que inicia-se a narrativa do cineasta em busca de inspiração e de condições para realizar um filme vagamente intuído; quase nada irá ocorrer ao longo da jornada que rememora, afora as descrições do que vê e as reflexões que elabora.

Se a construção textual de Murnane é sempre límpida e elegante, a atmosfera do universo que cria nunca é imediatamente assimilável e compreensível - são recorrentes os contrastes entre as zonas sombreadas e os clarões do sol que ofusca as paisagens, como se aqueles segundos necessários para a vista acostumar-se à brusca transição de luminosidade ilustrasse o processo interior que afeta o leitor.

Praticamente inexistem diálogos e não constam referências que permitam situar a narrativa numa época definida, o que dilui as menções à Austrália numa ambientação fantasmática, interiorana e interiorizada, fora do tempo e permeável a dimensões incógnitas.

Há trechos que parecem francamente borgeanos, incluindo toda uma parte situada numa biblioteca que assume ares de microcosmo, além de flertes com noções proustianas de tempo e de arte, e sugestões de dimensões envoltas por enigmáticas dinâmicas de encanto-desencanto, como em A invenção de Morel (Bioy Casares), O deserto dos tártaros (Dino Buzzati) e Stalker (menciono o filme de Tarkovsky já que não conheço o livro que lhe deu origem); O Castelo, de Kafka, talvez seja a inspiração mais ampla e profunda para As Planícies - todos tributários, em maior ou menor grau, das paisagens espirituais desbravadas por Dante n'A Divina Comédia. Dentre os autores contemporâneos, Cormac McCarthy e Mircea Cărtărescu (de Solenoide, lançado no Brasil também em 2024) compartilham certas características semelhantes e qualidades superlativas.

Félix Vallotton

* * *

"Era uma decisão minha me colocar diante dos espectadores nas minhas primeiras revelações tendo atrás de mim apenas uma tela em branco e um projetor vazio que apontava na minha direção de um canto da sala parcialmente escurecido e ficar falando durante dezesseis horas de paisagens que só eu podia interpretar. Pensava então que um ou dois dos meus ouvintes, quando as cortinas fossem outra vez abertas para revelar uma terra mergulhada numa tarde cujo princípio nenhum deles tinha testemunhado, pudesse ver na planície que se estendia à sua frente um lugar que sempre quis explorar."

* * *

Edward Hopper

O universo que Murnane nos oferece é simultaneamente tão estranho quanto familiar, como nos sonhos, como nas salas de cinema, como em certas harmonias musicais, como nos planos intersticiais em que a vida, por breves e eternos momentos, se ilumina com a matéria espiritual da ficção e da realidade.

Se na frase de abertura os "olhos bem abertos" perscrutam adiante, na frase final o olhar volta-se para a escuridão interior do narrador, como se o fracasso do almejado filme indicasse que o destino do olhar é ser espelhado pelas trevas interiores. O filme pode ser malfadado ou impossível, mas a metáfora da leitura se completa e se consuma com o fabuloso livro que temos diante dos olhos (e que chega com muito atraso ao Brasil, que segue sem nenhuma outra obra traduzida do autor), repositório de contrastantes letras negras sobre vastas planícies de páginas brancas.

Será absurdo pensar que, afinal, são as planícies que nos imaginam e nos escrevem e nos vivem?, que somos nós, sombras que se movem numa tela em branco, os venturosos e angustiados coadjuvantes de uma história cujo sentido nunca será conhecido?

Andrew Wyeth

INÍCIOS SIMILARES DE JORNADAS ENIGMÁTICAS

[Os primeiros parágrafos de As Planícies]:

"Há vinte anos, quando cheguei às planícies, fiquei de olhos bem abertos. Estava à procura de algo naquela paisagem que apontasse para algum sentido complexo por trás das aparências.

Meu trajeto até as planícies não foi tão duro quanto minhas descrições posteriores dele. E nem sei dizer se em algum momento eu soube ter deixado a Austrália. Mas recordo com clareza uma sequência de dias em que a terra plana à minha volta parecia cada vez mais um lugar que só eu podia interpretar.

As planícies que atravessei naqueles dias não eram infinitamente iguais. Às vezes meu olhar passava por um grande vale raso com umas árvores e umas reses espalhadas e talvez um riacho estreito no meio. Às vezes, no fim de um terreno totalmente desolado, a estrada subia o que era sem sombra de dúvida um morro antes de eu enxergar à frente o que era apenas mais uma planície, lisa e nua e impressionante.

No vilarejo de bom tamanho a que cheguei certa tarde, percebi um jeito de falar e um estilo de roupas que me convenceram de que não precisava ir mais longe."

* * *

[Os primeiros parágrafos de O Castelo, de Franz Kafka, na tradução de Modesto Carone]:

"Era tarde da noite quando K. chegou. A aldeia jazia na neve profunda. Da encosta não se via nada, névoa e escuridão a cercavam, nem mesmo o clarão mais fraco indicava o grande castelo. K. permaneceu longo tempo sobre a ponte de madeira que levava da estrada à aldeia e ergueu o olhar para o aparente vazio.

Depois caminhou à procura de um lugar para passar a noite; no albergue as pessoas ainda estavam acordadas, o dono não tinha quarto para alugar mas, extremamente surpreso e perturbado com o hóspede retardatário, propôs deixá-lo dormir sobre um saco de palha na sala e K. concordou. Alguns camponeses ainda estavam sentados tomando cerveja mas ele não queria conversar com ninguém, pegou pessoalmente o saco de palha no sótão e deitou-se perto da estufa. Estava quente ali, os camponeses quietos, ele os examinou ainda um pouco com os olhos cansados e em seguida adormeceu."

René Magritte

capa da edição


30 agosto 2026

"BARTLEBY, O ESCRIVÃO", de Herman Melville

Felix Vallotton

Finalmente conheci essa pequena e impecável novela de Melville. Não lembro de ter lido alguma abordagem crítica sobre a obra, portanto meus pitacos podem soar batidos - mas são meus, oras, e prefiro fazê-los.

A comparação com Kafka sei que é conhecida e inevitável, e fica ainda mais interessante por não haver registro, salvo engano, de que o tcheco tenha tomado conhecimento de seu predecessor norte-americano. Diversos especialistas em Kafka chamam a atenção para o fato de que sua ficção soa (ou deveria soar) engraçada, ao menos em parte, o que para mim nunca fez muito sentido (um pouquinho, vá lá), ainda que existam registros de que o autor fazia divertidas leituras em voz alta para os amigos (mas quando jovens se reúnem, seja lá para o que for, não acaba tudo virando motivo para riso? ainda mais se embalados por cerveja tcheca ou, mais apropriadamente, boêmia, ou até mesmo austro-húngara), e tampouco consigo compreender isso à luz dos seus sublimes e melancólicos diários. Seja como for, o fato é que Bartleby é, por sua vez, muito engraçado, sobretudo no início, quando nos deparamos com as primeiras polidas recusas do escrivão e do seu efeito na fauna local do escritório. O mais espantoso é que, à medida que avança a narrativa, o riso vai dando lugar a um soturno desalento, até se extinguir numa loucura trágica.

Foi lá pelo final do primeiro terço da novela que me peguei pensando em como o anônimo narrador é muito parecido com o "inexplicável" Bartleby, sem que seja capaz de admiti-lo; afinal, ele sempre encontra uma justificativa para adiar o confronto ou diálogo com seu empregado, como se "preferisse não" agir para resolver o problema. A questão que se impunha, àquela altura da narrativa, era saber se Bartleby também sofria com "perplexidade e aflição", como o narrador. Mas a história segue e continuamos totalmente privados do que se passa no interior do escrivão. Cada vez mais, vai ganhando força a impressão de que Bartleby não existe autonomamente, não no sentido estrito de ser uma mera alucinação, mas de representar um alterego do narrador, ou uma face sombria da sua vida oculta, ou uma expressão de uma personalidade reprimida, ou algo do gênero.

De qualquer modo, para mim está claro que a novela é sobre o anônimo narrador, e que Bartleby é um expediente (a palavra é bem essa) para desvelá-lo, como demonstram alguns exemplos de locuções do narrador: "estávamos a sós", "sozinhos num escritório deserto", "nunca me sinto tão íntimo quanto ao saber que você está aqui", "houve ocasiões em que um advogado vinha ao escritório à minha procura, só encontrando o escrevente ali", "a estranha criatura que eu mantinha no escritório", "uma sombra lúgubre", "talvez me sobrevivendo ao final", "pesadelo", "fantasma", "ocupante imóvel de uma sala vazia".

Edward Hopper

Difícil não ver aí um parentesco da novela de Melville (publicada em 1853) com "O Duplo" (Dostoiévski, 1846) e com alguns aspectos de Poe (décadas de 1830 e 1840), além de anteceder em décadas "O médico e o monstro" (Stevenson, 1886) e outros ecos de Oscar Wilde e Joseph Conrad, sem falar nos caminhos que levam não só a Kafka, mas a Beckett, Camus e toda a exploração do absurdo.

Talvez não seja despropositado dotar Bartleby de uma descendência com Dom Quixote, seja ao considerar o cavaleiro alucinado como uma faceta complementada pelo razoável Sancho Pança, seja pela trajetória do cômico à loucura. Não tem o escrivão algo de nobre e patético na sua heroica recusa em se integrar às rotinas do mundo maquinal e desencantado? Não se reconhece aí o leitor que se (des)preze, que dedica a parte mais íntima e verdadeira da sua vida à ficção, como complemento necessário da realidade? E não é esse o principal aspecto reprimido ou desprezado do narrador anônimo de Wall Street e de todos esses homens e mulheres tão empenhados em serem "ávidos cultores da realidade" (expressão de Philip Roth que aplico a quem não lê ficção, ou aos leitores preocupados com a utilidade prática do que lêem).

É representativo, nesse sentido, que o narrador acredite - equivocadamente - que tenha derrotado a teimosia de Bartleby ao adotar o "preceito divino" de "amar-vos uns aos outros", pois omite o complemento "como a ti mesmo" - omissão que trai justamente a inconsistência da sua vida interior. Do mesmo modo, a perplexidade do narrador diante da constatação da solidão de Bartleby é um reflexo distorcido e não reconhecido da sua própria solidão, escamoteada pelo trabalho e pelos afazeres sociais. Nessa perspectiva, Bartleby se apresenta como a consciência que busca um prisma contemplativo e que assume seu desamparo existencial, recusando-se a dissimular, sem com isso deixar de preservar o enigma da sua existência.

Bartleby sempre vai existir por trás do seu biombo, como um homem do subsolo ou um imenso e inexplicável inseto a assombrar nossas vidas sociais hipócritas e vulgares. Em 2026, sua aparição funciona inclusive como um protesto contra uma sociedade massificada em torno de algoritmos, curtidas, engajamentos - e, quem sabe, como um arauto de quem prefere não fazer parte disso.

BARTLEBY, O ESCRIVÃO, de Herman Melville, trad. A. B. Pinheiro de Lemos, ed. José Olympio, 2026, original de 1853.

capa da edição


26 agosto 2026

parágrafo [TRÓPICO DE CÂNCER, de Henry Miller]

[como homenagear Proust devidamente, alquimicamente, iluminadamente - e também Matisse, que não é do meu gosto, ou que não compreendo]

"É somente mais tarde, durante o dia, quando me encontro numa galeria de arte na Rue de Sèze, cercado pelos homens e mulheres de Matisse, que sou novamente arrastado de volta para os limites apropriados do mundo humano. No limiar daquele grande salão cujas paredes estão agora em chamas, paro por um momento para recuperar-me do choque que se experimenta quando o habitual cinzento do mundo é rasgado e a cor da vida salta para a frente em canto e poema. Encontro-me em um mundo tão natural, tão completo, que fico perdido. Tenho a sensação de estar mergulhado no próprio plexo da vida, no ponto focal seja qual for o lugar, posição ou atitude em que me coloque. Perdido como quando me afundei no centro de um bosque em formação e, sentado na sala de jantar daquele enorme mundo de Balbec, compreendi pela primeira vez a profunda significação daquelas quietudes interiores que manifestam sua presença através do exorcismo da vista e do tato. Em pé, no limiar do mundo que Matisse criou, voltei a experimentar a força da revelação que permitiu a Proust deformar tanto o quadro da vida, que somente aqueles que, como ele próprio, são sensíveis à alquimia do som e do sentido, são capazes de transformar a realidade negativa da vida nos contornos substanciais e significativos da arte. Só os que são capazes de admitir a luz em suas entranhas podem traduzir o que há no coração. Vividamente recordo agora como o brilho e o clarão da luz, partindo dos maciços candelabros, estilhaçaram-se e correram como sangue, manchando a crista das ondas que batem monotonamente sobre o ouro baço fora das janelas. Na praia, mastros e chaminés entrelaçados e como sombra fuliginosa, a figura de Albertine deslizando através da arrebentação, fundindo-se no misterioso centro e prisma de um reino protoplásmico, unindo sua sombra ao sonho, mensageiro da morte. Com o cair do dia, a dor ergue-se da terra como um nevoeiro, a tristeza apertando, tapando a vista sem fim do mar e do céu. Duas mãos de cera pousadas languidamente sobre a colcha e, ao longo das veias pálidas, o murmúrio suave de uma concha a repetir a lenda de seu nascimento."

TRÓPICO DE CÂNCER, de Henry Miller, trad. Aydano Arruda, ed. IBRASA, 1974, original de 1934, pág. 136-137.

Claude Monet

23 agosto 2026

Ruínas

"Não de uma vez, mas continuamente se esboroa a nossa capacidade e grandeza; a pequena vegetação que cresce em meio a tudo, e em toda parte consegue aderir, arruína o que é grande em nós - a mesquinhez diária e a cada instante ignorada de nosso ambiente, os milhares de raízes dessa ou daquela pequena e pusilânime sensação que vem de nossa vizinhança, nosso trabalho, nossa vida social, nosso emprego do tempo. Se deixamos de perceber essa erva daninha, perecemos despercebidamente por causa dela! - E se vocês querem de fato perecer, façam-no de uma vez e subitamente: talvez restem de vocês, então, ruínas sublimes! E não, como é de recear agora, montículos de toupeiras! E ervas e capim sobre elas, as pequenas vitoriosas, modestas como sempre, e miseráveis demais até para triunfar!"

AURORA, de F. Nietzsche, trad. Paulo César de Souza, ed. Companhia de Bolso, 2016, §435, pág. 203.

* * *

"Hoje recuperei esses diferentes tipos de ruínas, e sei que com isso a alma está me dizendo que eu sou essas ruínas. Minha contemplação quase erótica das ruínas é uma contemplação narcisista. E se de um lado tem um preço, essa autocontemplação é prazerosa, ainda que a visão seja triste. Eu me olho no espelho e vejo alguém de quem não gosto nem um pouco, mas é alguém em quem posso confiar. O mesmo ocorre com essas contemplações interiores: não importa se eu enxergo um retrato feio, desde que seja autêntico."

O DISCURSO VAZIO, de Mario Levrero, trad. Antônio Xerxenesky, ed. Companhia das Letras, 2025, pág. 113.

Caspar David Friedrich

19 agosto 2026

parágrafo [O CORAÇÃO DAS TREVAS, de Joseph Conrad]

[quando a vulgaridade sufoca até o pensamento]

"Não, não me enterraram, embora haja um período de tempo que lembro nebulosamente, com um espanto arrepiante, como uma passagem por um mundo inconcebível que não tinha em si esperança nem desejo. Vi-me de volta à cidade sepulcral, ressentindo-me da visão de pessoas andando apressadas pelas ruas para roubar um pouco de dinheiro umas das outras, devorar suas infames comidas, engolir sua insalubre cerveja, sonhar seus sonhos insignificantes e tolos. Elas invadiam meus pensamentos. Eram intrusas cujo conhecimento da vida era para mim uma irritante impostura, porque eu me sentia tão certo de que não podiam conhecer as coisas que eu conhecia. O porte delas, que era simplesmente o porte de indivíduos vulgares tratando de seus negócios na certeza de uma perfeita segurança, era ofensivo como o ultrajante pavonear-se da loucura diante de um perigo que é incapaz de compreender. Eu não tinha qualquer desejo particular de iluminá-los, mas sentia uma certa dificuldade em impedir-me de rir na cara delas, tão cheias de estúpida importância." (pág. 113-114)

* * *

[este outro trecho contrasta curiosamente com a equivocada expectativa sobre o tipo físico do capitão da embarcação em "O que podemos saber", de McEwan; pensando bem, a comparação entre os dois romances pode render boas perspectivas]

"O Diretor de Companhias era nosso comandante e nosso anfitrião. Ali parado na proa, olhando em direção ao mar, era com afeto que observávamos suas costas. Não havia em todo o rio algo que parecesse mais náutico. Parecia um piloto, o que, para um homem do mar, é a segurança personificada." (pág. 11)

* * *

O CORAÇÃO DAS TREVAS, de Joseph Conrad, trad. Marcos Santarrita, ed. Brasiliense, 1984, original de 1899.

John Atkinson Grimshaw

11 agosto 2026

parágrafo [UM HOMEM QUE DORME, de Georges Perec]

[nada esperar, desprender-se de tudo, levar a opacidade ao limite: tornar-se transparente]

"Você vagueia pelas ruas, noite, dia. Entra nos cinemas de bairro onde paira o cheiro insistente dos desinfetantes, come sanduíches nos balcões, fritas em cartuchos de papel, atravessa as feiras populares, joga bilhar eletrônico, vai aos museus, aos mercados, às estações, às bibliotecas de leitura pública, olha as vitrinas dos antiquários da Rua Jacob, dos vidreiros da Rua Paradis, dos comerciantes de móveis do subúrbio de Saint-Antoine.

"Ao longo das horas, dos dias, das semanas, das estações, você se desprende de tudo, desliga-se de tudo. Descobre, às vezes, quase com uma espécie de embriaguez, que você é livre, que nada lhe pesa, nada lhe agrada nem desagrada. Encontra-se, nesta vida, sem usura e sem outro estremecimento além dos instantes suspensos provocados pelas cartas ou certos ruídos, certos espetáculos que você concede a si mesmo, uma felicidade quase perfeita, fascinante, às vezes cheia de emoções novas. Você experimenta um repouso total, é constantemente poupado, protegido. Vive numa bem-aventurada digressão, num vazio cheio de promessas e do qual você nada espera. Você é invisível, límpido, transparente. Você não existe mais: a sucessão das horas, dos dias, a mudança de estações, o escoamento do tempo, você sobrevive, sem alegria e sem tristeza, sem futuro e sem passado, assim, simplesmente, evidentemente, como uma gota d'água que pinga na torneira de um patamar, como seis pés de meia de molho numa bacia de matéria plástica rosa, como uma mosca ou como uma ostra, como uma vaca, como um caracol, como uma criança ou como um velho, como um rato."

UM HOMEM QUE DORME, de Georges Perec, trad. Dalva Laredo Diniz, ed. Nova Fronteira, 1988, pág. 60-61.

Egon Schiele


04 agosto 2026

parágrafo [O FIM DA HISTÓRIA, de Lydia Davis]

Benjamin Esposito

[Três formas de tomar distância, de isolar-se, de alhear-se, ou seja, de dar forma estética à consciência]:

[1. momento-ilha / olhar retrospectivo / reviver é melhor do que viver]

"Esse me pareceu, de certa maneira, o melhor momento de todos, quando tudo mal tinha começado. Quando abríssemos a segunda garrafa de cerveja, estaríamos abrindo também tudo o que viria, o fim do outono e todo o inverno, mas enquanto permanecíamos sentados sem abri-la estávamos numa espécie de ilha, e toda a felicidade se estendia à nossa frente, sem começar até que abríssemos a segunda garrafa de cerveja. Não consegui enxergar isso no momento, porque não sabia o que se seguiria, mas mais tarde pude olhar para trás e ver.
Olhar aquela noite em retrospectiva era quase melhor do que vivê-la pela primeira vez, porque o tempo não passava rápido demais e fugia ao controle, eu não precisava me preocupar com meu papel e não me deixava distrair pelas dúvidas, porque sabia o que aconteceria no fim das contas. Revivi aquilo tantas noites que tudo deve ter acontecido apenas para que eu pudesse reviver depois." (pág. 24)

Nicolás Uribe

[2. absurdo / escuridão e vazio / observar-se de fora]

"Pela hora tão avançada, ou pelo absurdo do que eu estava fazendo, minha falta de dignidade, o fato de ter tirado a camisola e voltado às minhas roupas para fazer isso, ou por alguma outra razão, quando cheguei à curva comprida e larga da estrada ao redor do estacionamento da pista, seguindo em direção ao acampamento de trailers e vendo, a distância, a estrada com seus pares de luzes amarelas descendo a costa e de luzes vermelhas subindo, e pude ver bem no alto um trem vindo para o sul, com seu único farol e seus dois longos dentes de luz refletida brilhando para mim através dos trilhos, sem nada a não ser escuridão e vazio de ambos os lados, camadas e camadas de tons diferentes de escuridão e vazio, luz suficiente apenas para ver a lateral escura da montanha atrás da cerca de arame farpado, atrás do chão arenoso, atrás do canal de água escura, senti que já não estava observando essa paisagem, e sim que ela me observava: eu eгa a única coisa móvel exatamente ali, naquele espaço vazio, e de repente me voltei para mim mesma, como se refletida na paisagem, e me forcei a ver o que estava fazendo naquele momento." (pág. 83-84)

Anne Magill

[3. vidro, tanto vidro]

"Esse homem me dava instruções, embora com gentileza, e eu fiquei ali deitada pensando que tudo começava a parecer uma operação distante, mecânica. Havia tanto vidro no caminho, pensei, como se eu estivesse de óculos, ali na cama, e estivesse vendo tudo muito claramente, ou como se tivesse um microscópio e pudesse ver muito de perto, com muitos detalhes, com muita ciência, ou como se o observasse se juntando a mim atrás da vitrine de uma loja, abaixo de uma luz fluorescente, ou como se houvesse lâminas de vidro entre nós, entre todas as partes dos nossos dois corpos, entre nossas duas peles quando se encontravam, de modo que, enquanto eu via tudo com tanta clareza, não conseguia sentir nada, ou talvez apenas algo macio e frio.
Nossos corpos não se confundiam. Eu sabia qual braço era o dele e qual era o meu, qual perna, qual ombro. Não perdia a noção e beijava meu próprio braço, ou o que quer que chegasse perto da minha boca. O menor movimento não levava de imediato a outro movimento. Aquilo não era interminável, eu não caía mais e mais profundamente no meu corpo e no corpo dele como se fosse o mais longe possível da minha mente, e da mente dele, tão consciente, tão implacável." (pág. 185)

O FIM DA HISTÓRIA, de Lydia Davis, trad. Julián Fuks, ed. José Olympio, 2016, original de 1995.

Nathanaëlle Herbelin


01 agosto 2026

"A VIDA BREVE", de Juan Carlos Onetti

Alariko

Os contos de Onetti foram o objeto do primeiro texto de crítica literária que publiquei, no início de 2011 (aqui no blog e reproduzido no Posfácio). De lá pra cá, eventualmente releio alguns contos, mas só agora me aventurei num romance do uruguaio.

"A vida breve" (La vida breve, trad. Josely Vianna Baptista, ed. Planeta, 2004, original de 1950) possui essencialmente as mesmas características que destaquei nas narrativas curtas. As primeiras 15 ou 20 páginas são tão absorventes na sua prodigiosa capacidade de fabulação, que inevitavelmente fica difícil manter o pique ao longo da narrativa; fui cansando e ficando perdido (desconfio que o autor ria disso no além), até chegar ao ponto de quase não me interessar pelas particularidades dos personagens e seus destinos, mas sem deixar de continuar fascinado por encontrar essa voz narrativa, em que "algum elemento desconhecido continuava se impondo, emanava o mesmo clima de alegria sem motivo, de artifício; a sensação de uma vida fora do tempo e resgatável" (pág. 89).

Os achados inigualáveis de Onetti no seu trabalho com as palavras, aliado a uma cosmovisão angustiada mas lúdica, em que o envolvimento com a realidade imaginada é matéria de salvação e perdição existenciais, tornam "A vida breve" marcante: genial, maldito, cansativo, engenhoso, vicioso, um romance cujo universo trescala a (in)felicidade absurda da ficção.

Troy Brooks

Um dos muitos talentos de Onetti se dá nas frases com enumerações, ora com ares de paródia cervantina, ora com elegante precisão flaubertiana, ora com a impetuosidade dos malditos - ou ainda, como na última das quatro que seguem abaixo, como súmula do ato criador:

1) "Toquei a campainha duas vezes; ouvi os passos sobre o tapete, sobre as madeiras, ouvi o silêncio. Eu devia estar sorrindo diante da porta enquanto erguia o corpo o mais que podia e pensava em cânceres, apoplexias, infartos; em caldeus, assírios e etruscos." (pág. 88)

2) "Pegou um táxi na esquina e vi o último aceno de sua mão, vi-o afastar-se, no começo da noite, para o mundo poético, musical e plástico da manhã, para nosso destino comum de mais automóveis, mais dentifrícios, mais laxantes, mais toalhinhas, mais geladeiras, mais relógios, mais rádios; para o pálido, silencioso frenesi dos vermes." (pág. 171)

David Davidovich Shterenberg

3) "Se agora eu pudesse fazê-lo pensar na vida que continua à nossa volta, nos amiguinhos e nas mulheres a quem poderia estar mentindo, cobiçando, contando histórias sujas. Se pudesse fazê-lo sentir que os atos e sensações que ele chama de vida não se interromperam, que estão servindo pinga com gelo no Novelty, que os rapazes passam giz nos tacos apoiando-se na mesa de bilhar, que María ensaia dengos e roupas diante do espelho, que algumas centenas de cretinos, seus irmãos, estão chegando a Corrientes vindos dos subúrbios, que avançam para os cinemas e os cafés e as milongas, rumo ao sabor de heroísmo e fracasso do puchero na madrugada. Se ele entendesse que eu estou aqui, olhando-o sem necessidade de simpatia, ligado a ele, empenhado em adivinhar o aspecto de sua desgraça..." (pág. 243)

4) "Não olhei para a esquina onde estava o posto de gasolina; diante de mim se estendia um trecho da praça que Díaz Grey contemplava de uma das janelas que nos cercavam; lembrei que a primeira tempestade de primavera sacudira as árvores e que sob as folhas úmidas passaram os perfumes das flores recém-abertas, os calores do verão, homens de macacão com suas amostras de trigo embaladas, mulheres com vontade e com medo de enfrentar o que tinham imaginado na algidez do inverno. Todos eram meus, nascidos de mim, e senti pena deles e amei-os; amei também, nos canteiros da praça, cada paisagem desconhecida da terra; e era como se amasse em determinada mulher todas as mulheres do mundo, as separadas de mim pelo tempo, pelas distâncias, pelas oportunidades perdidas, as mortas e as que ainda eram crianças. Com a conversa de Ernesto me descobri livre do passado e da responsabilidade do futuro, reduzido a um evento, forte na medida de minha capacidade de prescindir." (pág. 291-292)

William Kurelek

capa da edição


26 julho 2026

Um itinerário de VOO BREVE SOB O SOL, de Ana Costa dos Santos

Tracei um caminho através de cinco poemas do ótimo Voo breve sob o sol (Ana Costa dos Santos, ed. Círculo de Poemas, 2025). 

Partindo do título do livro, com sua sugestão da vida como fenômeno fugaz diante do sol imperioso e inequívoco, chego a Et facta est lux (pág. 23), com sua irônica vulnerabilidade diante do dixit divino - a escuridão como verdade primordial e essencial, os luzeiros brilhantes como ilusões (falsas e fascinantes):


Me acostumo ao casulo e suas trevas, sei que a ele pertenço, o tenho como fortaleza contra a desilusão e contra a espera inútil por manhãs enganosas. Meu Plano de fuga (pág. 32) é para dentro:


É para dentro: a verdade interior é escura. A luz é o que seduz, atrai, ilude, agride, consome - mas não destroi o essencial, oculto na verdade da noite primordial, como na Fala da mariposa (pág. 69):


Luz, teus truques baratos podem até me enganar por momentos, mas sei que és vazia - tenho em algum recanto inato de mim a reminiscência da mágica verdadeira, inefável, misteriosa. Teu espetáculo de sombras nas paredes é quase convincente, embora não passe de Ilusionismo (pág. 77):


Eis que um gesto de reconhecimento me alcança desde milênios, um Aceno (pág. 81) ancestral impresso na escuridão de uma caverna, onde sempre é noite, onde todas as imagens anteriores - lâmpada, casulo, coração, mágica - convergem para uma forma suprema de ausência, de negativo que se eterniza, de lucidez na escuridão, de rastro real da vulnerabilidade humana e da sempiterna tentativa de expressão de tudo o que vai marcado na ventura da vida: arte.


Entendo que é meu - só pode ser meu - este voo breve sob o sol.