O Discurso Vazio ("El Discurso Vacío"), trad. Antônio Xerxenesky, ed. Companhia das Letras, 2025, (original de 1996).
O Romance Luminoso ("La Novela Luminosa"), trad. Antônio Xerxenesky, ed. Companhia das Letras, 2018, (original de 2005).
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| Jess Allen |
"Apenas não devo continuar adiando a questão de enfrentar e transcender a angústia difusa e chegar ao ócio; é tudo assim tão simples. Tão simples e tão doloroso. Amigo leitor: não pense em entrelaçar sua vida com a literatura. Ou melhor, sim; você sofrerá, mas dará algo de si mesmo, que definitivamente é a única coisa que importa." (O Romance Luminoso, pág. 78)
Li O Discurso Vazio alguns meses atrás, depois de ter conhecido (e adorado) O Romance Luminoso em 2024, e não havia deixado por aqui nenhuma nota sobre o cativante carisma da prosa de Mario Levrero (1940-2004), cujo personagem de si próprio, buscando um equilíbrio entre a iluminação e a paranoia (frequentemente parecendo um integrante da família Glass, do Salinger), soa patético, cômico, neurótico, honesto, vulnerável, ridículo, encantador.
Ambos são escritos na forma de diários do próprio Levrero, registrando desde simples observações cotidianas até momentos de indizível mistério existencial, através de "impiedosa, radical e hilariante introspecção", como bem definiu Ignacio Echevarría (em Conversas com Mario Levrero, de Pablo Silva Olazábal).
Bem mais sucinto, O Discurso Vazio é como um prelúdio ao caudaloso e póstumo O Romance Luminoso; este, à medida que se desenvolve, vai ficando mais e mais ambíguo quanto aos limites entre sonhos, memórias, relatos, ficções, delírios. Na busca pelo espírito em meio às nulidades da vida besta, aparece de tudo: epifania, telepatia, hipnose, parapsicologia, mística, sonho profético, magia, fenômeno paranormal, coincidência, superstição, daemon, dimensão ignorada - como também a acuidade tranquila do olhar lúcido e reflexivo.
Essas coisas luminosas todas, aconteceram mesmo ou são elementos ficcionais?, é o que inevitavelmente pergunta-se o leitor. Não importa, na verdade; no que decidimos acreditar, já que não se sai da cama pela manhã sem alguma crença? E por que acreditamos nisso e não naquilo? E como podemos crer em algo, sabendo que somos movidos a desejos, e, portanto, a ilusões?
Levrero nos deixa com obras ostensivamente incompletas, imperfeitas, incertas - forma-se uma imagem da vida moderna nesse mecanismo de permanente construção-desconstrução-reconstrução de sentidos e narrativas. Um quebra-cabeça sem fim, só precariamente resolvido, mas que não deixa de restituir algum encanto lúdico e existencial - ler e escrever, sobretudo, surgem como finalidades da vida, e não como meios, e o poder introspectivo da sua solidão firma-se contra a tirania da vida conduzida por coletividades, por tecnocratas, pelas massas, pela publicidade, por slogans, por banalidades em série, pelos que não sabem que nada sabem e colocam em movimento as engrenagens de destruição da poesia sutil e libertária vivida na solitude.
Só me resta reconhecer que, dos nove prosadores uruguaios que lembro ter lido (ou nove e meio, se contarmos o doble-chapa Aldyr Garcia Schlee), quatro são da minha alta estima: Morosoli, Onetti, Benedetti e Levrero - um quarteto de cordas que habilmente concilia silêncios, scherzos e passagens iluminadas.
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| Fernando Pessina |
Pequenas amostras da adorável casmurrice e introspectiva sensibilidade da persona de Levrero:
"A internet sairá definitivamente da esfera da cultura onde nasceu, e será controlada por comerciantes e estadistas. Mas, mesmo assim, a própria estrutura do computador, a inteligência da humanidade que o criou, isso continuará sempre vigente. Sempre será um mundo para desentranhar, com o qual dialogar, porque é necessariamente regido pela lógica. Sem lógica, a máquina não funciona. Embora aquele que a opere não seja lógico. Um fã de futebol babão já pode apertar uns botões e obter resultados. Logo poderá obter muito mais, com menor desgaste intelectual. Porém, talvez continuem restando indivíduos solitários que preferem dialogar com as entranhas de um sistema operacional na noite de Natal, indiferentes aos fogos de artifício e às bebedeiras. Claro que essa solidão me machuca um pouco; as coisas poderiam ser diferentes. Claro que submerjo no mundo da máquina para não sentir essa dor que, mais do que dor, é nostalgia, ou uma espécie de nostalgia, como a dos tangos, que não se refere obrigatoriamente a um fato concreto, a uma história vivida. Nostalgia do que podia ter sido uma raça, ou um país. Ah, as pessoas..." (O Romance Luminoso, pág. 309-310)
[No trecho acima, escrito em dezembro de 2000, diria que o autor foi profético quanto aos rumos da internet; mais do que isso, em pressentir que o espaço a ser ocupado pela inteligência artificial equivale ao da estupidez natural - e aproveito para lembrar que este blog finca o pé na esfera da cultura e segue navegando como se numa garrafa lançada a um nostálgico mar.]
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| Sarker Helal Uddin |
"Noto que todas as psicoterapias, todos os meus esforços de adaptação, este viver na Terra, minha aparência decente ou mais ou menos normal dos últimos anos, é só um verniz ou uma forma de simulação, que se desvanece como por encanto quando mal começo a escrever, a pensar, a tentar me resgatar de minhas depressões, a enfrentar a ideia da morte que a necessidade de me operar gerou - quando busco os recursos da vida e da esperança, encontro-me com essas coisas, sempre essas queridas coisas.
"Sim, eu sei; até o bom Jung pensava que a participation mystique implica uma forma de percepção regressiva, correspondente ao período anterior da formação de um 'eu' na criança. Mas este 'eu' não estará hipertrofiado em nós, não terá crescido às custas de uma formação psíquica que seria a fonte de saúde da humanidade? Dito em outras palavras: há alguém, por Deus, que esteja satisfeito com isso que chamam de 'realidade'? Há algum imbecil que pense que o mundo é habitável? Sim, sim, eu sei; há sim, há sim, há sim. Enfim." (O Romance Luminoso, pág. 596)
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| Karin Jurick |
"Quero escrever e publicar. Tenho necessidade de ver meu nome, meu verdadeiro nome e não o que me deram, em letras de fôrma. Mais que isso, muito mais, quero entrar em contato comigo mesmo, com o maravilhoso ser que me habita e é capaz, entre muitos outros prodígios, de fabular histórias ou historietas interessantes. Essa é a questão. Essa é a chave. Recuperar o contato com o ser íntimo, com o ser que participa de algum modo secreto da faísca divina que percorre infatigavelmente o Universo e o anima, sustenta-o, confere-lhe realidade sob seu aspecto de casca vazia. (...)
Que fim levou minha alma? Por onde será que anda? Um tempo atrás, eu dizia a Alicia que me sentia mal porque há muito tempo não me conecto com a eternidade. Isso quer dizer que percebo as coisas de modo superficial, que não tenho vivências, que estou afastado do Ser Interior; muito afastado, e sem ter a menor noção dos caminhos possíveis para me aproximar. Não importa o que se está vivendo quando uma pessoa está apartada de Si Mesma; tudo fica igualmente sem peso, tudo transcorre sem deixar nenhuma marca memorável." (O Discurso Vazio, pág. 35-36)

































