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26 agosto 2026

parágrafo [TRÓPICO DE CÂNCER, de Henry Miller]

[como homenagear Proust devidamente, alquimicamente, iluminadamente - e também Matisse, que não é do meu gosto, ou que não compreendo]

"É somente mais tarde, durante o dia, quando me encontro numa galeria de arte na Rue de Sèze, cercado pelos homens e mulheres de Matisse, que sou novamente arrastado de volta para os limites apropriados do mundo humano. No limiar daquele grande salão cujas paredes estão agora em chamas, paro por um momento para recuperar-me do choque que se experimenta quando o habitual cinzento do mundo é rasgado e a cor da vida salta para a frente em canto e poema. Encontro-me em um mundo tão natural, tão completo, que fico perdido. Tenho a sensação de estar mergulhado no próprio plexo da vida, no ponto focal seja qual for o lugar, posição ou atitude em que me coloque. Perdido como quando me afundei no centro de um bosque em formação e, sentado na sala de jantar daquele enorme mundo de Balbec, compreendi pela primeira vez a profunda significação daquelas quietudes interiores que manifestam sua presença através do exorcismo da vista e do tato. Em pé, no limiar do mundo que Matisse criou, voltei a experimentar a força da revelação que permitiu a Proust deformar tanto o quadro da vida, que somente aqueles que, como ele próprio, são sensíveis à alquimia do som e do sentido, são capazes de transformar a realidade negativa da vida nos contornos substanciais e significativos da arte. Só os que são capazes de admitir a luz em suas entranhas podem traduzir o que há no coração. Vividamente recordo agora como o brilho e o clarão da luz, partindo dos maciços candelabros, estilhaçaram-se e correram como sangue, manchando a crista das ondas que batem monotonamente sobre o ouro baço fora das janelas. Na praia, mastros e chaminés entrelaçados e como sombra fuliginosa, a figura de Albertine deslizando através da arrebentação, fundindo-se no misterioso centro e prisma de um reino protoplásmico, unindo sua sombra ao sonho, mensageiro da morte. Com o cair do dia, a dor ergue-se da terra como um nevoeiro, a tristeza apertando, tapando a vista sem fim do mar e do céu. Duas mãos de cera pousadas languidamente sobre a colcha e, ao longo das veias pálidas, o murmúrio suave de uma concha a repetir a lenda de seu nascimento."

TRÓPICO DE CÂNCER, de Henry Miller, trad. Aydano Arruda, ed. IBRASA, 1974, original de 1934, pág. 136-137.

Claude Monet

23 agosto 2026

Ruínas

"Não de uma vez, mas continuamente se esboroa a nossa capacidade e grandeza; a pequena vegetação que cresce em meio a tudo, e em toda parte consegue aderir, arruína o que é grande em nós - a mesquinhez diária e a cada instante ignorada de nosso ambiente, os milhares de raízes dessa ou daquela pequena e pusilânime sensação que vem de nossa vizinhança, nosso trabalho, nossa vida social, nosso emprego do tempo. Se deixamos de perceber essa erva daninha, perecemos despercebidamente por causa dela! - E se vocês querem de fato perecer, façam-no de uma vez e subitamente: talvez restem de vocês, então, ruínas sublimes! E não, como é de recear agora, montículos de toupeiras! E ervas e capim sobre elas, as pequenas vitoriosas, modestas como sempre, e miseráveis demais até para triunfar!"

AURORA, de F. Nietzsche, trad. Paulo César de Souza, ed. Companhia de Bolso, 2016, §435, pág. 203.

* * *

"Hoje recuperei esses diferentes tipos de ruínas, e sei que com isso a alma está me dizendo que eu sou essas ruínas. Minha contemplação quase erótica das ruínas é uma contemplação narcisista. E se de um lado tem um preço, essa autocontemplação é prazerosa, ainda que a visão seja triste. Eu me olho no espelho e vejo alguém de quem não gosto nem um pouco, mas é alguém em quem posso confiar. O mesmo ocorre com essas contemplações interiores: não importa se eu enxergo um retrato feio, desde que seja autêntico."

O DISCURSO VAZIO, de Mario Levrero, trad. Antônio Xerxenesky, ed. Companhia das Letras, 2025, pág. 113.

Caspar David Friedrich

19 agosto 2026

parágrafo [O CORAÇÃO DAS TREVAS, de Joseph Conrad]

[quando a vulgaridade sufoca até o pensamento]

"Não, não me enterraram, embora haja um período de tempo que lembro nebulosamente, com um espanto arrepiante, como uma passagem por um mundo inconcebível que não tinha em si esperança nem desejo. Vi-me de volta à cidade sepulcral, ressentindo-me da visão de pessoas andando apressadas pelas ruas para roubar um pouco de dinheiro umas das outras, devorar suas infames comidas, engolir sua insalubre cerveja, sonhar seus sonhos insignificantes e tolos. Elas invadiam meus pensamentos. Eram intrusas cujo conhecimento da vida era para mim uma irritante impostura, porque eu me sentia tão certo de que não podiam conhecer as coisas que eu conhecia. O porte delas, que era simplesmente o porte de indivíduos vulgares tratando de seus negócios na certeza de uma perfeita segurança, era ofensivo como o ultrajante pavonear-se da loucura diante de um perigo que é incapaz de compreender. Eu não tinha qualquer desejo particular de iluminá-los, mas sentia uma certa dificuldade em impedir-me de rir na cara delas, tão cheias de estúpida importância." (pág. 113-114)

* * *

[este outro trecho contrasta curiosamente com a equivocada expectativa sobre o tipo físico do capitão da embarcação em "O que podemos saber", de McEwan; pensando bem, a comparação entre os dois romances pode render boas perspectivas]

"O Diretor de Companhias era nosso comandante e nosso anfitrião. Ali parado na proa, olhando em direção ao mar, era com afeto que observávamos suas costas. Não havia em todo o rio algo que parecesse mais náutico. Parecia um piloto, o que, para um homem do mar, é a segurança personificada." (pág. 11)

* * *

O CORAÇÃO DAS TREVAS, de Joseph Conrad, trad. Marcos Santarrita, ed. Brasiliense, 1984, original de 1899.

John Atkinson Grimshaw

11 agosto 2026

parágrafo [UM HOMEM QUE DORME, de Georges Perec]

[nada esperar, desprender-se de tudo, levar a opacidade ao limite: tornar-se transparente]

"Você vagueia pelas ruas, noite, dia. Entra nos cinemas de bairro onde paira o cheiro insistente dos desinfetantes, come sanduíches nos balcões, fritas em cartuchos de papel, atravessa as feiras populares, joga bilhar eletrônico, vai aos museus, aos mercados, às estações, às bibliotecas de leitura pública, olha as vitrinas dos antiquários da Rua Jacob, dos vidreiros da Rua Paradis, dos comerciantes de móveis do subúrbio de Saint-Antoine.

"Ao longo das horas, dos dias, das semanas, das estações, você se desprende de tudo, desliga-se de tudo. Descobre, às vezes, quase com uma espécie de embriaguez, que você é livre, que nada lhe pesa, nada lhe agrada nem desagrada. Encontra-se, nesta vida, sem usura e sem outro estremecimento além dos instantes suspensos provocados pelas cartas ou certos ruídos, certos espetáculos que você concede a si mesmo, uma felicidade quase perfeita, fascinante, às vezes cheia de emoções novas. Você experimenta um repouso total, é constantemente poupado, protegido. Vive numa bem-aventurada digressão, num vazio cheio de promessas e do qual você nada espera. Você é invisível, límpido, transparente. Você não existe mais: a sucessão das horas, dos dias, a mudança de estações, o escoamento do tempo, você sobrevive, sem alegria e sem tristeza, sem futuro e sem passado, assim, simplesmente, evidentemente, como uma gota d'água que pinga na torneira de um patamar, como seis pés de meia de molho numa bacia de matéria plástica rosa, como uma mosca ou como uma ostra, como uma vaca, como um caracol, como uma criança ou como um velho, como um rato."

UM HOMEM QUE DORME, de Georges Perec, trad. Dalva Laredo Diniz, ed. Nova Fronteira, 1988, pág. 60-61.

Egon Schiele


04 agosto 2026

parágrafo [O FIM DA HISTÓRIA, de Lydia Davis]

Benjamin Esposito

[Três formas de tomar distância, de isolar-se, de alhear-se, ou seja, de dar forma estética à consciência]:

[1. momento-ilha / olhar retrospectivo / reviver é melhor do que viver]

"Esse me pareceu, de certa maneira, o melhor momento de todos, quando tudo mal tinha começado. Quando abríssemos a segunda garrafa de cerveja, estaríamos abrindo também tudo o que viria, o fim do outono e todo o inverno, mas enquanto permanecíamos sentados sem abri-la estávamos numa espécie de ilha, e toda a felicidade se estendia à nossa frente, sem começar até que abríssemos a segunda garrafa de cerveja. Não consegui enxergar isso no momento, porque não sabia o que se seguiria, mas mais tarde pude olhar para trás e ver.
Olhar aquela noite em retrospectiva era quase melhor do que vivê-la pela primeira vez, porque o tempo não passava rápido demais e fugia ao controle, eu não precisava me preocupar com meu papel e não me deixava distrair pelas dúvidas, porque sabia o que aconteceria no fim das contas. Revivi aquilo tantas noites que tudo deve ter acontecido apenas para que eu pudesse reviver depois." (pág. 24)

Nicolás Uribe

[2. absurdo / escuridão e vazio / observar-se de fora]

"Pela hora tão avançada, ou pelo absurdo do que eu estava fazendo, minha falta de dignidade, o fato de ter tirado a camisola e voltado às minhas roupas para fazer isso, ou por alguma outra razão, quando cheguei à curva comprida e larga da estrada ao redor do estacionamento da pista, seguindo em direção ao acampamento de trailers e vendo, a distância, a estrada com seus pares de luzes amarelas descendo a costa e de luzes vermelhas subindo, e pude ver bem no alto um trem vindo para o sul, com seu único farol e seus dois longos dentes de luz refletida brilhando para mim através dos trilhos, sem nada a não ser escuridão e vazio de ambos os lados, camadas e camadas de tons diferentes de escuridão e vazio, luz suficiente apenas para ver a lateral escura da montanha atrás da cerca de arame farpado, atrás do chão arenoso, atrás do canal de água escura, senti que já não estava observando essa paisagem, e sim que ela me observava: eu eгa a única coisa móvel exatamente ali, naquele espaço vazio, e de repente me voltei para mim mesma, como se refletida na paisagem, e me forcei a ver o que estava fazendo naquele momento." (pág. 83-84)

Anne Magill

[3. vidro, tanto vidro]

"Esse homem me dava instruções, embora com gentileza, e eu fiquei ali deitada pensando que tudo começava a parecer uma operação distante, mecânica. Havia tanto vidro no caminho, pensei, como se eu estivesse de óculos, ali na cama, e estivesse vendo tudo muito claramente, ou como se tivesse um microscópio e pudesse ver muito de perto, com muitos detalhes, com muita ciência, ou como se o observasse se juntando a mim atrás da vitrine de uma loja, abaixo de uma luz fluorescente, ou como se houvesse lâminas de vidro entre nós, entre todas as partes dos nossos dois corpos, entre nossas duas peles quando se encontravam, de modo que, enquanto eu via tudo com tanta clareza, não conseguia sentir nada, ou talvez apenas algo macio e frio.
Nossos corpos não se confundiam. Eu sabia qual braço era o dele e qual era o meu, qual perna, qual ombro. Não perdia a noção e beijava meu próprio braço, ou o que quer que chegasse perto da minha boca. O menor movimento não levava de imediato a outro movimento. Aquilo não era interminável, eu não caía mais e mais profundamente no meu corpo e no corpo dele como se fosse o mais longe possível da minha mente, e da mente dele, tão consciente, tão implacável." (pág. 185)

O FIM DA HISTÓRIA, de Lydia Davis, trad. Julián Fuks, ed. José Olympio, 2016, original de 1995.

Nathanaëlle Herbelin


17 junho 2026

parágrafo [O JOVEM TÖRLESS, de Robert Musil]

[como usar uma tecnologia nova, o filme, como metáfora existencial (a edição original é de 1906)]:

"Pois era sempre como se uma imagem acabasse de se esgueirar rapidamente sobre a misteriosa superfície, e jamais ele conseguia apanhá-la no momento de sua passagem. Por isso, sentia uma inquietação constante, como num filme, quando, ao lado da ilusão do conjunto, não se consegue abandonar a vaga certeza de que, por trás da imagem que se recebe, passam centenas de imagens diferentes. Não sabia, no entanto, onde encontrar, dentro de si, essa força ilusória — força que, em sua mais diminuta fração, era sempre insuficientemente ilusória. Apenas adivinhava obscuramente que ela se ligava àquela enigmática qualidade de sua alma, de ser atingida também pelas coisas inanimadas, pelos meros objetos, como se fossem centenas de olhos silenciosos e interrogativos." (pág. 123-124)

* * *

[como antecipar os anseios modernistas que seriam plenamente desenvolvidos nas décadas seguintes]:

"A morte é apenas uma consequência da nossa maneira de viver. Vivemos de um pensamento a outro, de uma sensação a outra. Pois nossos pensamentos e sensações não correm tranquilos como um rio; eles nos 'ocorrem', na verdade caem dentro de nós como pedras. Se vocês se observarem atentamente, perceberão que a alma não é algo que troca de cor em gradações paulatinas, mas que os pensamentos saltam dela como algarismos para fora de um buraco negro. Agora vocês têm um pensamento ou uma sensação, e quase ao mesmo tempo aparece um outro diferente, como se espocasse do nada. Se prestarem atenção, podem até sentir, entre dois pensamentos, um instante em que tudo é absoluta escuridão. Esse instante, uma vez apreendido, é para nós o mesmo que a morte." (pág. 165-166)

O JOVEM TÖRLESS, de Robert Musil, trad. Lya Luft, ed. Nova Fronteira, 1996 (ed. original 1906).

Chin H Shin

11 junho 2026

parágrafo [ESTAÇÃO ATOCHA, de Ben Lerner]

[como aventurar-se através da insensibilidade]

"Mas, ao mesmo tempo, sentia uma espécie de euforia por essa repentina incapacidade de me emocionar, uma emotividade excessiva de segundo grau que não alterava de jeito nenhum a insensibilidade de primeiro grau. Essa euforia, se é que era disso que se tratava, ficava bem longe de meu corpo e, portanto, era compatível com minha anedonia; era como se eu estivesse imerso num banho quente fora de mim mesmo. Sentia algo parecido com um surto de potência, a potência de sentir o mundo como se estivesse em uma estufa, e essa distância, junto com minha reduzida necessidade ou capacidade de dormir, encheu-me de uma espécie de energia vampiresca, com a única diferença de que eu mesmo era a presa. Conseguia ler e escrever por horas a fio com uma concentração quase total, mal percebendo quando anoitecia, e de madrugada vagueava por Madri, passando em frente ao apartamento de Isabel ou à galeria de Teresa só para demonstrar a mim mesmo que conseguia fazê-lo sem um pingo de aflição. Muitas vezes observava a alvorada da colunata do Retiro ou de um dos bancos do Paseo del Prado ou pegava o metrô até uma parada que não conhecia e de lá observava o sol nascendo e depois voltava para casa, dormia por algumas horas, acordava e tomava comprimidos brancos, haxixe, café e, com uma energia sobrenatural, retomava minhas aventuras no mundo da insensibilidade. Tinha um pouco de medo, a razão não sabia dizer; talvez de perder a cabeça e me jogar debaixo de um ônibus ou de invadir o apartamento de Isabel e rasgar o caderno do irmão dela ou, ainda, de jogar uma lixeira contra a vitrine da galeria ou então de fazer um escândalo, incapaz de me controlar àquela distância. Mas também, pela primeira vez, me senti escritor de verdade, como se a vida real estivesse nas páginas, e tive de comprar na Casa del Libro um monte de cadernos pautados para reunir todos os meus poemas e minhas notas. Dizia a mim mesmo que meus novos poemas seriam tão lindos e importantes que, quando Teresa os traduzisse e imprimisse e quando eu desse uma cópia a Isabel, ambas entenderiam que se encontravam diante de um poeta que era capaz, sozinho, de organizar os descartes do real, transformando-os numa música que o transcendia." 

ESTAÇÃO ATOCHA, de Ben Lerner, trad. Gianluca Giurlando, ed. Rádio Londres/TAG, 2019, pág. 125-126.

Robin F. Williams

27 maio 2026

Grandes livros e seus augúrios [Kerouac e Harold Bloom]

"Quando o dia nasceu, já estávamos zunindo por Nova Jersey, tendo a imensa nuvem metropolitana de Nova York à nossa frente, na distância gelada. Para se conservar aquecido, Dean usava um suéter enrolado nas orelhas. Disse que éramos um bando de árabes chegando para explodir Nova York." 

[ON THE ROAD, de Jack Kerouac, original de 1957, trad. Eduardo Bueno e Antonio Bivar, ed. Círculo do Livro, pág. 122.]

* * *

"O ano 2000-2001 não será um ano confortável nos Estados Unidos da América, não porque vamos experimentar alguma ruptura ou arrebatamento, mas porque há grupos extremistas entre os pré-milenaristas, e a decepção deles pode levar a violência. A Nação Ariana e outros fascistas apocalípticos semelhantes podem tentar aliviar expectativas não realizadas com terrorismo, num padrão psicológico conhecido."

[PRESSÁGIOS DO MILÊNIO: ANJOS, SONHOS E IMORTALIDADE, de Harold Bloom, trad. Marcos Santarrita, 1996 (original e tradução), pág. 162.]

René Magritte

15 fevereiro 2026

parágrafo [PERGUNTE AO PÓ, de John Fante]

[como se alegrar com a escrita de ficção e estranhar a realidade]

"Os dias bons, os dias gordos, página sobre página; dias prósperos, alguma coisa a dizer, a história de Vera Rivken, e as páginas se multiplicavam e eu estava feliz. Dias fabulosos, o aluguel pago, ainda cinquenta dólares na minha conta, nada pra fazer o dia todo e a noite toda a não ser escrever e pensar em escrever: ah, os dias doces, ver tudo crescer, me preocupar comigo mesmo, meu livro, muitas palavras, talvez importantes, talvez além do tempo, mas minhas, de qualquer maneira, o indomável Arturo Bandini, indo fundo em seu primeiro romance.

"Assim uma tarde chega, e que fazer com ela, minha alma fria depois do banho de palavras, meus pés firmes no chão, e que fazem os outros, as outras pessoas do mundo?"

"PERGUNTE AO PÓ", de John Fante, trad. Paulo Leminski, ed. Brasiliense, 1987, pág. 130.

Rein Tammik

13 dezembro 2025

parágrafo [Juan José Morosoli]

[como alguns desenhos na noite dão um discreto lirismo à prosa magnificamente econômica de Morosoli]

Umpiérrez despertava, começava o mate, acendia o fogo e preparava um churrasquinho nas brasas. Comia, depois ia para o forno de tijolos onde trabalhava. Ao meio-dia separava-se do grupo de cortadores que faziam o fogo em comum, acendia seu próprio fogo, tomava mate, encostava uma carne e almoçava. De tarde, ao voltar do trabalho, passava pelo matadouro, trazia umas fressuras, assava-as, tomava mate e jantava. Depois sentava-se ao relento, fumando. Pelo caminho sem desvios que ia dar no forno não passava ninguém. Às suas costas, as tunas e as sinas-sinas faziam desenhos na noite. Depois ia dormir.

Do conto "O burro", o meu preferido da antologia "A longa viagem de prazer", de Juan José Morosoli, trad. Sergio Faraco, ed. Mercado Aberto / Metrópole / IEL, 1991, pág. 21

Brent Cotton

13 outubro 2011

parágrafo [MULHERES, de Charles Bukowski]

foto de William Eggleston

[como criar deslocamento com palavras]

Ela [Dee Dee] me beijou e saiu. Desliguei a tevê e abri outra cerveja. Nada a fazer nessa terra além de encher a cara. Fui até a janela. Lá embaixo, na praia, Dee Dee, sentada ao lado de um jovem, conversava animada, sorrindo e gesticulando muito. O jovem também sorria pra ela. Me sentia bem em não participar dessas coisas. Me alegrava não estar apaixonado e não estar de bem com o mundo. Gostava de me sentir estranho a tudo. As pessoas apaixonadas, em geral, se tornam impacientes, perigosas. Perdem o senso de perspectiva. Perdem o senso de humor. Ficam nervosas, tornam-se chatas, psicóticas. Podem virar assassinas.
Dee Dee ficou fora umas duas ou três horas. Vi um pouco de tevê e datilografei dois ou três poemas numa máquina portátil. Poemas de amor - sobre Lydia. Escondi-os na minha pasta. Bebi mais cerveja.

"Mulheres", de Charles Bukowski, trad. Reinaldo Moraes, ed. Brasiliense, 1984, pág. 58

11 junho 2011

parágrafo [Jorge Luis Borges]

[como suplantar a razão com uma epifania]:

cerimônia voodoo no Haiti - (Ramon Espinosa)

     "Dizem que não há geração sem quatro homens retos que secretamente sustentam o universo e o justificam diante do Senhor: um desses varões teria sido o juiz mais idôneo. Mas onde encontrá-los, se andam perdidos e anônimos pelo mundo e não se reconhecem quando se vêem e nem eles mesmos sabem do alto ministério que cumprem? Alguém então opinou que, se o destino nos negava os sábios, teríamos que buscar os insensatos. Esta idéia prevaleceu. Alcoranistas, doutores da lei, sikhs que levam o nome de leões e que adoram um Deus, hindus que adoram multidões de deuses, monges de Mahavira que ensinam ter o universo a forma de um homem com as pernas abertas, adoradores do fogo e judeus negros, integraram o tribunal, mas a última sentença foi encomendada ao arbítrio de um louco.
     Aqui o interromperam algumas pessoas que se iam da festa.
     - De um louco - repetiu - para que a sabedoria de Deus falasse por sua boca e envergonhasse a soberba humana. Seu nome perdeu-se ou nunca foi conhecido, mas andava nu por estas ruas, ou coberto de trapos, contando os dedos com o polegar e fazendo escárnio das árvores."

do conto "O Homem no Umbral", de Jorge Luis Borges, trad. Flávio José Cardozo

03 maio 2011

parágrafo [Oscar Wilde e Clarice Lispector]

[como fazer anoitecer com palavras impressas]

"Houve silêncio. No aposento, a noite escureceu. Sem fazer ruído e com pés prateados, as sombras vieram do jardim, entraram. As cores, cansadas, esvaíram-se das coisas."
"O retrato de Dorian Gray", de Oscar Wilde, trad. José Eduardo R. Moretzsohn, ed. L&PM, 2010, pág. 113

"Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia."
Conto "Amor" em "A imitação da rosa" de Clarice Lispector, ed. Artenova, 1973, pág. 32

22 abril 2011

parágrafo [ILÍADA, de Homero]

[como criar conforto com palavras impressas]

"Na popa de seu navio, foram colocados por Ulisses os despojos sangrentos de Dolon, enquanto se preparava um sacrifício para Atena. Os dois heróis, afinal, lavaram o suor abundante no mar, mergulhando nele as pernas, a nuca e as coxas. Depois que as ondas do mar lhes carregaram o suor abundante da pele, quando se lhes confortou o coração, entraram em banheiras polidas e banharam-se. Ambos, asseados e untados de óleo, sentaram-se para a refeição; e de uma cratera cheia de melífico vinho fizeram a libação a Atena."

"Ilíada" de Homero, trad. Octávio Mendes Cajado, ed. Círculo do Livro, 1986, pág. 162

30 março 2011

parágrafo [PASSEIO AO FAROL, de V. Woolf]

[como despertar a memória usando palavras impressas]

"Houve uma rápida visão de azul, lembrava-se, e alguém sentado com ele rira, capitulara, e ele ficara muito zangado. Devia ter sido sua mãe, pensou, sentada numa espreguiçadeira, enquanto seu pai ficara de pé atrás dela. Começou a procurar por entre a série infinita de impressões que o tempo, folha por folha, dobra após dobra, suave e incessantemente, depositara em seu cérebro; por entre odores e sons; vozes ásperas, graves, doces; e luzes passando, vassouras batendo; e o marulho e o silêncio do mar, e como um homem andava de um lado para outro, se detendo de repente e se postando imóvel atrás deles."

"Passeio ao Farol" de Virginia Woolf, tradução de Luiza Lobo, editora Riográfica, pág. 171

22 março 2011

parágrafo [ADMIRÁVEL MUNDO NOVO, de A. Huxley]

[como despertar os sentidos usando palavras impressas]

"Deixando a penumbra vermelha do subsolo, Lenina Crowne bruscamente subiu dezessete andares, virou à direita ao sair do elevador, meteu-se por um corredor comprido e, abrindo uma porta assinalada VESTIÁRIO DAS MOÇAS, mergulhou num caos atordoante de braços, bustos e lingeries. Torrentes de água quente enchiam cem banheiras, respingavam ou delas se escoavam com um gorgolejar ruidoso. Roncando e sibilando, oitenta aparelhos de massagem a vibro-vácuo sacudiam e sugavam simultaneamente a carne firme e tostada de oitenta soberbos espécimes femininos. Todas falavam a plenos pulmões. Uma máquina de Música Sintética trinava um solo de supertrombone de pistão."

"Admirável mundo novo" de Aldous Huxley, tradução de Lino Vallandro e Vidal Serrano, editora Globo, pág. 74-75