Ouvindo a voz e o violão de Sharon Van Etten tenho a impressão de que ela está arriscando tudo, inclusive a própria vida, tamanha é a franqueza com que ela oferece a sua música. Com uma personalidade vocal invulgar - geralmente transitando entre lamentos ásperos e doces ambiguidades - e um ataque tantalizante às cordas do violão, parece restar a ela um último resquício de inocência, que oscila diante do abismo, entre a repulsa e a atração.
Esta instabilidade, contudo, está ancorada num ruído de fundo enigmático - uma espécie de sugestão de baixo-contínuo, no qual presume-se crueza, desolação, suplícios da alma, ilusões perdidas; mas, acima de tudo, um desejo hesitante de compreensão. Há ternura, mas sempre mantendo preservado o lado escuro da sua lua. O sombrio mistério de Van Etten evoca as harmonias de Low e de Elliott Smith, através de canções que chegam a um acordo inclusive entre o folk e o shoegaze.
Num meio artístico em que, de um lado, o excesso de artificialismos inviabiliza a busca pelo sentido, e, de outro, o sentido está previamente decretado por consenso, Van Etten é como uma pedra no leito de um riacho - busca a verdade, mas não a encontra.
Banalizei a palavra incrível. Devia ter reservado-a para o dançarino aí abaixo. Incrível mesmo - Elvis, Fred Astaire, Peter Pan e sei lá mais quem encarnados num só.
Ela é toda olhos, cabelos, seda, madura, de bronze. E tem perfumes coloridos sobre cada uma das cinco cavidades do rosto. Na boca os dentes ressoam notas musicais brancas, de marfim esmaltado. Na testa uma faixa cor de rosa, como se adornasse uma virgem escolhida pelos deuses. Cabelo alvo e liso como um espelho d'água. Olhar úmido salino de anil santificado. O sorriso mais raro do mundo, delícia de anéis de Saturno. É a face brilhante e clara da felicidade, destilando elegância parisiense. Mil carros de corrida, mil germânicos embriagados, mil escravas inesquecíveis, tudo a girar no turbilhão da língua que abraça na longa chama loura de alegria - alegria ofuscante como um raio de sol nos olhos claros da vida. Amazona de uma Europa escondida na montanha. Bailarina a se derramar em rios de leite dourado. Câncer da conquista da Cocanha. Utopia a se machucar na imensa árvore noturna. Cometa de fogo ofegante. Estrela de natal.
Os brasileiros Burro Morto e Blubell eu acabo de conhecer. Pitanga em Pé de Amora lançou seu interessante disco de estréia no início do ano, como tinha deixado a dica o Fósforo. Os britânicos do The XX também estrearam com um disco muito bom, de 2009 - por vezes soa como uma combinação atualizada de Portishead com Joy Division - sensual, soturno e chacoalhante ao mesmo tempo.
Hoje eu entendi porque é que costumo acordar angustiado nas manhãs de sábado. É o assombro da liberdade combinado com o prévio saber de que nada é do jeito que eu quero; é a liberdade misturada com o fato de que, mesmo tudo sendo possível, não adianta fazer nada, pois vou querer sempre o impossível.
Acho que é a primeira vez que entendo isso objetivamente. Aconteceu quando eu almoçava sozinho em casa, ao som daquela suíte desesperadamente bela do Bach. Foi uma revelação - mas serena, tranquila, desprovida da própria angústia que caracteriza o que sinto.
Nossa, tanta coisa ao meu alcance! Tanta felicidade, tanta conquista, tanta descoberta, tanta vitória! Estão lá, à minha espera, eu sei. Eu, quase rico, quase belo, quase maduro, quase sempre angustiado: que falta que me faz a outra metade de tudo. Mas a tragédia de se estar completo - heroicamente completo no Olimpo - tampouco me satisfaz. O que, deuses meus, pode aplacar a minha angústia - senão Bach?
Abaixo, diversas e diversificadas boas versões da segunda peça (Air) da Suíte Orquestral nº 3 BWV 1068 (também conhecida como Ária na 4ª corda, ou da corda Sol):
Magnífica interpretação de orquestra de clarinetes.
Eu lhes confesso: não há nada que eu admire mais do que essa peça de Bach. Ouvi pela primeira vez na televisão, num anúncio que pedia doações para alguma entidade beneficente de Porto Alegre. Nunca ajudei a tal entidade; eles é que me deram uma força sem igual.
Achei entre os meus papéis uma entrevista que fiz com Mr. Chinaski quando ele veio à Feira do Livro de Novo Hamburgo, uns anos atrás. Entrevistei-o às pressas, na delegacia, enquanto ele assinava um termo circunstanciado, após ter aberto a cabeça de um travesti com uma garrafada. Não sei como, mas ele servia-se de uma vodca sobre o balcão do escrivão.
- Mr. Chinaski, não bastam os problemas que o senhor já tem quando sóbrio?
Esse é o problema com a bebida [falava, enquanto enchia o copo]. Se acontece uma coisa ruim, você bebe pra esquecer; se acontece uma coisa boa, você bebe pra comemorar; se não acontece nada, você bebe pra que aconteça alguma coisa. (pág. 167)
- E o amor? O amor supera isso tudo, não?
O amor é bom pros que aguentam a sobrecarga psíquica. É que nem tentar carregar uma lata de lixo abarrotada nas costas, nadando contra a correnteza num rio de mijo. (p. 172)
- O senhor não acha que o amor colocas as pessoas em sintonia?
Nada está em sintonia, nunca. As pessoas vão se agarrando às cegas a tudo que existe: comunismo, comida natural, zen, surf, balé, hipnotismo, encontros grupais, orgias, ciclismo, ervas, catolicismo, halterofilismo, viagens, retiros, vegeterianismo, Índia, pintura, literatura, escultura, música, carros, mochila, ioga, cópula, jogo, bebida, andar por aí, iogurte congelado, Beethoven, Bach, Buda, Cristo, heróina, suco de cenoura, suicídio, roupas feitas à mão, vôos a jato, Nova Iorque, e aí tudo se evapora, se rompe em pedaços. As pessoas têm de achar o que fazer enquanto esperam a morte. (p. 172)
- Os escritores também escrevem esperando a morte?
Tem um problema com os escritores. Se o livro de um escritor foi publicado e vendeu um montão de cópias, o cara se acha um grande escritor. Se o livro de um escritor foi publicado e vendeu um número razoável de cópias, o cara se acha um grande escritor. Se o livro de um escritor foi publicado e vendeu muito poucas cópias, o cara se acha um grande escritor. Se o livro de um escritor nunca foi publicado e o cara não tem dinheiro suficiente para publicá-lo por si mesmo, aí é que ele se acha de fato um grande escritor. Mas, a verdade é que há muito pouca grandeza. Quase inexistente. (p. 136)
- Por que o senhor quis virar escritor?
Próxima pergunta, por favor. (p. 29)
- Quem é você, afinal? Como definir a essência do grande escritor Chinaski?
Eu como carne. Eu não tenho deus. Eu gosto de trepar. A natureza não me interessa. Nunca votei. Gosto de guerras. O espaço sideral me entedia. Baseball me entedia. História me entedia. Zoológicos me entediam. (p. 177)
- E as mulheres, Mr. Chinaski, porque elas o fascinam tanto?
Um sapato de mulher debaixo da cama; o jeito de elas dizerem "vou fazer xixi"; prendedores de cabelo; andar com elas pelos bulevares à 1:30 da tarde, só os dois, juntinhos; as longas noites bebendo, fumando, conversando; as brigas; pensar em suicídio; comer juntos e se sentir bem; as brincadeiras, as gargalhadas sem motivo; sentir milagres no ar; estar junto com elas num carro estacionado; lembrar de amores passados às 3 da manhã; ser avisado de que você ronca; ouvi-la roncando; mães, filhas, filhos, gatos, cachorros; às vezes morte, às vezes divórcio, mas sempre tocando pra frente, sempre chegando ao ponto final; ler um jornal sozinho numa lanchonete, nauseado pelo fato de ela ter se casado com um dentista de QI 95; pistas de corrida, parques, piqueniques nos parques; até prisões; os amigos chatos dela, os seus amigos chatos; seus porres, a dança dela; seus flertes, os flertes dela; as pílulas dela, as suas trepadas fora do penico, ela fazendo o mesmo; dormir juntos... (p. 221)
- O que está achando de Novo Hamburgo?
É bom sair do cortiço sujo e apinhado de gente em que moro. Não tem sombra; o sol nos fustiga sem piedade. Somos todos dementes, de um jeito ou de outro. Até os cachorros e gatos são dementes, mais os pássaros e os garotos jornaleiros e as putas. Pra gente, de Hollywood-Leste, as privadas nunca funcionaram direito, e os encanadores de carregação que o senhorio arruma não são capazes de consertá-las. A gente tem de deixar as caixas d'água abertas e acionar a descarga com as mãos. As torneiras pingam, as baratas pululam, os cachorros cagam em toda parte e os buracos nas telas deixam entrar as moscas e todo tipo de insetos estranhos com asas. (p. 207)
- E no entanto o senhor mantém certa elegância...
Nunca fui elegante. Minhas camisas são todas desbotadas, encolhidas, surradas, e já tem cinco ou seis anos. Minhas calças, a mesma coisa. Detesto as grandes lojas, detesto os vendedores, eles se fazem de superiores, parecem conhecer o sentido da vida, têm uma segurança que me falta. Meus sapatos são velhos e estropiados, e eu detesto lojas de sapatos também. Nunca compro nada novo, a não ser que as minhas coisas já estejam completamente inutilizadas - automóveis inclusive. Não é questão de economia; é que eu não tolero ser um comprador na dependência dos vendedores, aqueles caras tão altivos e superiores. Além disso, eu perco tempo, um tempo em que eu podia muito bem estar de papo pro ar, bebendo. (p. 205)
- Por que o senhor acabou não comparecendo à Feira do Livro?
Eu detesto gente, patotas, em qualquer lugar. Eu sumo na frente das pessoas, elas me drenam o sangue. "Humanitarismo, ninguém tem isso de nascença" - eis o meu lema. (p. 217)
Anos depois fui visitá-lo em Los Angeles. Gravamos um vídeo.
Chinaski, todos sabem, é o alter-ego de Bukowski. Todas as respostas, com mínimas alterações, se encontram nas páginas indicadas de "Mulheres", de Charles Bukowski, trad. Reinaldo Moraes, ed. Brasiliense, 1984.
O maior de todos os mestres comparece para deixar ainda mais deslumbrante esta cena de La Route de Salina (filme obscuro, não encontro-o em lugar algum) - Bach interpretado pela flauta de Ian Anderson do Jethro Tull. Dica do Fósforo.
Por fim, Miles Davis em Ascensor para o Cadafalso. Trilha finíssima para um filme elegantérrimo. Na segunda metade do vídeo o diretor Louis Malle fala algo - me parece explicar que Miles grava a trilha improvisando sobre as imagens (no caso, Jeanne Moreau passando em frente às vitrines de Paris, desolada). Dica do zégeraldo.
(O sorriso do violinista não me convence muito, mas há uma oriental que ri bem lá no fundo, depois uma outra mulher de óculos sorri, e mais um outro logo na frente. Eles parecem se divertir. Eu me divirto, pelo menos).
E aqui o clarinete de Fröst passa ao largo da melodia, dando um tom especial ao conhecidíssimo tema da Ave Maria de Bach/Gounod.
—Entonces... ¿cómo podemos saber que esto no es un sueño? —se alzó una voz femenina.
Sócrates enmudeció. Las cabezas de la asamblea se orientaron hacia esa voz que, de ninguna manera, podía pertenecer a una mujer. Un niño tal vez. Hasta un esclavo. Pero una mujer...
Sócrates retomó su discurso y preguntó a la asamblea si era posible que las mujeres esbozaran siquiera un pensamiento filosófico.
Se decidió, por unanimidad, que se trataba de un sueño.
Tudo o que foi gasto com palavras no post anterior poderia resumir-se a este vídeo. Zaratustra, o bêbado de enigmas, oferece sua bênção ao irrefreável Dionísio, neste que é denominado "o melhor vídeo da internet". Imagens impressionantes dos últimos momentos de sanidade do espírito reencarnado de Nietzsche, em algum confim dionisíaco (suspeita-se da Turquia).
"o blues vocal é uma das raras formas de arte que, como a dança e a representação, é perfeitamente adaptável às mulheres, para quem a forma mais natural de arte é aquela que menos se separa do corpo, do gesto e da voz".
"História social do jazz", de Eric Hobsbawm, trad. Angela Noronha, ed. Paz e Terra, 1990, pág. 108
"E a beleza é uma forma de genialidade; é, na verdade, mais elevada do que a genialidade, pois não carece de explicação. Pertence aos grandes fatos do mundo, como a luz do sol, a primavera, o reflexo das águas turvas, ou aquela concha de prata a que chamamos lua. Não pode ser questionada. Possui o direito divino de soberania. Os que a têm, ela os faz príncipes. Você ri? Pois não vai rir quando perdê-la! Vez que outra, as pessoas costumam dizer que a beleza é coisa superficial. Mesmo que o seja, não é, ao menos, tão superficial quanto o pensamento. A beleza, para mim, é a maravilha das maravilhas. Apenas as pessoas superficiais não julgam pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível, e não o invisível."
"O retrato de Dorian Gray", de Oscar Wilde, trad. José Eduardo R. Moretzsohn, ed. L&PM, p.28-29
Das filhas que o Orgulho teve com a Necessidade, a Beleza é a mais cobiçada. A Beleza é cobiçada até pelos filhos bastardos da Solidão. E eis que percebo que posso desposá-la, pois que a Beleza sorri para mim. Mas eu, que já não sou mais um sátiro (nunca o fui, na verdade) tenho minhas intimidades com Orgulho, o pai severo, e com Necessidade, a mãe caridosa - bem sei que eles não valem o que comem, que a fraqueza alheia é seu alimento, que convenientemente se auto-justificam. Eu não sinto por ela - falo da Beleza - nada mais que a obrigação de retribuir-lhe os sorrisos, o que nos leva, então, a nos consumirmos na casa do Orgulho e da Necessidade. O preço que se paga por desprezá-la? Tirem-me em libras de minha carne seca, mas preservem cada gota do meu sangue digno e rubro. A grande avó de todos nós - gregos e troianos, crentes e pagãos, mercadores e selvagens, senhores e escravos -, a força primitiva que a todos nós engendrou em seu ventre brutal e sensual, chama-se Liberdade.
Bem se vê quão medíocre é a Beleza perto de sua avó.
Esta é uma tentativa hipocondríaca e cardíaca de demonstrar o satânico mecanismo de desfuncionamento da internet da interne da intern da inter da inte da int da in da i?
É que eu digitei no Google "camelo vermelho"; desatento ao absurdo, pensava em encontrar a letra da música Vermelho, do novo disco de Marcelo Camelo.
Encontrei foi uma "caravana de portugueses no deserto vermelho". É a sua única chance de imaginar como seria um First Person Shooter do ponto de vista do animal de corcovas. Há uma simpática narração e um final digno de Lawrence da Arábia.
Chame o seu avô para ver, explique-lhe que a internet é maravilhosa. E sua mãe vai gostar de saber que "Se você quer realmente estar na moda neste inverno não deixe de investir em uma peça de roupa no tom camelo e no vermelho", dentre outras sapientes dicas de moda que juntam camelo e vermelho na mesma oração.
E mister Google ainda tem a audácia de perguntar: "Você quis dizer cabelo vermelho?"
Ora, não! O que eu quis dizer está aí abaixo:
Vermelho
Marcelo Camelo
As vezes eu só quero descansar
Desacreditar no espelho
Ver o sol se pôr vermelho
Acho graça
Que isso sempre foi assim
Mas você me chama pro mundo
E me faz sair do fundo de onde eu tô de novo
Nada sei dessa tarde
Se você não vem
Sigo o sol na cidade
Pra te procurar
Eu bem sei onde tudo vai parar
Já não tenho medo do mundo
Sou filho da eternidade
Trago nesses pés o vento
Pra te carregar daqui
Mas você sorri desse jeito
E eu que já perdi a hora e o lugar
Aceito
Nada sei nessa tarde
Se você não vem
Sigo o sol na cidade
A te procurar
Nada de meu nesse lugar
A cidade vai pensar
Que nada aconteceu em vão
Você vai me ligar então mais uma vez
A letra pode não ser tudo isso, mas a música é a melhor do disco Toque Dela - aliás, não tá fácil encontrá-lo na blogosfera, os patrulheiros da ordem devem ganhar a medalha Fukushima de eficiência deste mês. Busque direto nos searchs dos arquivos shared.
Depois descanse, desacredite no espelho e veja o sol se pôr, vermelho.
Putamadre, a ciranda solar musical continua rodando - eu já avisei aos navegantes: a música é que faz girar este planeta. A novidade é que tão filmando essa barbaridade mais e mais.
Pedrada hiponga: nem precisa gostar de hip hop pra grudar o olho no luzedo do vestido da Da Luz; nem precisa gostar de samplers pra curar o ouvido no que fazem os Marginals com sax, bateria e baixo acústico.
E pra não dizer que só falei de flores brasileiras, aceite a provocação insinuante e sinuosa do Portico Quartet. O texto a seguir é do Evangelista:
O instrumento é um hang, suíço, inventado em 2000, originalmente percussivo, mas usado aqui com forte intenção melódica, com uma sonoridade entre uma guitarra celestial, o piano-de-dedão africano Mbira, a delicadeza da uma celeste, uma marimba metálica circular. Baixo acústico forte e econômico, bateria jazzística espaçada e sax soprano cheio de climas, sugerindo melodias, completam o som do quarteto, bem jovem, de Londres, dois álbuns lançados em anos recentes. // Jack Wyllie no sax, Nick Mulvey no hang, Milo Fitzpatrick no baixo, Duncan Bellamy na bateria formam o Portico Quartet, jazz moderno a definição básica, "pós-jazz" já sugeriram os jornalistas indie, "world music do futuro" diz a bio. Certo clima de jazz europeu, com toques orientais, mas próximo do universo de grooves da, digamos, Cinematic Orchestra, com uma pegada não muito distante, talvez, do Marginals, e sensibilidade prima, quem sabe, do À Deriva. // Vídeo acima, gravação da faixa "Line", do álbum Isla.
“My most recent paintings and drawings explore the sensation of seeing from a car while driving through the rain. I am fascinated with the constantly changing, yet particular landscapes seen from the car and also the way that the water on the windshield interacts with that landscape. The water creates a shifting lens for the way we see the environment- both highlights and obscures our viewing. Perspectives slip and compress, while shapes and colors merge into one another. I also work with relationships between surface and depth, between flatness and illusion".
O post do Trabalho Sujo me faz lembrar que a chuva tem suas insuspeitadas belezas, sejam elas visuais, olfativas, auditivas. E que aqui no Uruguai do Norte temos a oportunidade de conviver intimamente com elas - como bem o sabe Milton Ribeiro.
Também o sabe o italiano que filmou seu para-brisa molhado ao som da delicada Fat Old Sun do Pink Floyd. Ele tenta encontrar uma nesga de sol, acaba descobrindo um raio purpúreo que mais parece uma manifestação da pacífica psicodelia divina.
Este vídeo é mais uma prova de que o mundo nada seria sem a música. Dedico-o aos infiéis que não crêem ser a música a força que move o planeta Terra na ciranda solar espacial.
São imagens do casamento de Máxima Zorreguieta, intitulada princesa da Holanda, com Willem-Alexander, príncipe de Orange. Não vou tentar explicar as intricadas relações de laços nobiliárquicos que envolvem este casal real, pois são tão complicadas quanto as equações das teorias das cordas no campo gravitacional (?!). Contento-me em saber que a moça é argentina, filha de ministro do tenebroso governo Videla, que seus pais não aprovaram o casório, que ela não se converteu ao protestantismo do marido, e que provavelmente nem ela deve ter entedido como funciona o sistema de titulações e predicados da casa real holandesa. Pelo menos é o que se infere do Wikipedia.
O que nos importa é que ela deve ter gostado da pomposa cerimônia, onde, a despeito das câmeras indiscretas sobre suas lágrimas, ouviu a pérola de Piazzolla sendo executada com direito a coro, harpa, xilofone e orquestra: Adiós Nonino, a vertente de beleza que a morte do pai inspirou ao célebre argentino.
Terá a princesa também lembrado do pai? Terá chorado a terra da infância perdida, nalguma esquina de Buenos Aires? Terá sido iluminada pela compreensão de que a música expressa tudo aquilo que as palavras não conseguem e que os olhares ensaiam?
Tudo isso em plena Amsterdã. São as voltas que o mundo dá, embalado pela música.
Ah, e o silêncio ao final da música... tão belo quanto.
Basta que se abra a janela, que se ouça lá fora o burburinho das gentes e dos pássaros, ou o vozerio risonho de vizinhos. Basta que se diga uma bobagem qualquer para puxar assunto, basta o zumbido da TV, o som alto do automóvel, um grito de pátio de escola, um assovio de final de expediente, uma cantada sorridente. Basta uma promessa de sábado. Basta a última traição, o primeiro beijo; a roupa nova, o velho jeito; bastam cervejas geladas, abraços quentes. Basta bastante qualquer coisa, que nos faça esquecer da falta que faz outra coisa qualquer.
Mas e da alegria profunda? Alegria fria e sem medida; alegria sem janela, sem vizinho, sem barulho, sem sábado? Que poeta de ruas da infância, que pessoa de rio de aldeia, que moça de canteiros de framboesa, que amante de chama eterna, quem, quem, quem sabe o que é alegria profunda?
Alasca, 2011
Ramilonga
Vitor Ramil
Chove na tarde fria de Porto Alegre
Trago sozinho o verde do chimarrão
Olho o cotidiano, sei que vou embora
Nunca mais, nunca mais
Chega em ondas a música da cidade
Também eu me transformo numa canção
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí
Ramilonga, Ramilonga
Sobrevôo os telhados da Bela Vista
Na Chácara das Pedras vou me perder
Noites no Rio Branco, tardes no Bom Fim
Nunca mais, nunca mais
O trânsito em transe intenso antecipa a noite
Riscando estrelas no bronze do temporal
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí
Ramilonga, Ramilonga
O tango dos guarda-chuvas na Praça XV
Confere elegância ao passo da multidão
Triste lambe-lambe, aquém e além do tempo
Nunca mais, nunca mais
Do alto da torre a água do rio é limpa
Guaíba deserto, barcos que não estão
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí
Ramilonga, Ramilonga
Ruas molhadas, ruas da flor lilás
Ruas de um anarquista noturno
Ruas do Armando, ruas do Quintana
Nunca mais, nunca mais
Do Alto da Bronze eu vou pra Cidade Baixa
Depois as estradas, praias e morros
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí
Ramilonga, Ramilonga
Vaga visão viajo e antevejo a inveja
De quem descobrir a forma com que me fui
Ares de milonga sobre Porto Alegre
Nada mais, nada mais