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30 março 2013

Os 328 anos de J.S. Bach, meu conterrâneo


No século XVII vivia em Eisenach, Alemanha, uma família de forte veia musical. Vários dentre os da numerosa prole se dedicaram à música. Viveram dela e por ela morreram. Falo da família Bach, de onde surgiu aquele que é possivelmente o maior nome da história da música ocidental: Johann Sebastian Bach, nascido em 31 de março de 1685, há exatos 328 anos.

Na mesma cidadela de Eisenach, por volta da mesma época, vivia outra numerosa família. Um sujeito de nome Johann Sebastian Lindemeyer (ou Johannes Sebastian Lindemeier), nascido em 1792, decidiu embarcar numa audaciosa viagem só de ida através do Oceano Atlântico, juntamente com filhos e esposa, grávida. Destino: o sul do recém-proclamado Brasil independente.

Johannes Sebastian Lindemeyer se tornou mais um número na estatística da massiva imigração alemã à região do Vale do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul. Sabemos que casou-se com Anna Charlotte Steinmann (ou Susana Charlotta), e que entre seus filhos havia uma de nome Mariana Lindemeyer (ou Maria Anna), nascida no ano de 1826, em plena viagem, a bordo da embarcação. Esta casou-se com Joseph Phillip Schmidt, gerando nove filhos. Entre eles, Carolina Schmidt, nascida em Lomba Grande, distrito rural de Novo Hamburgo. Quatorze foram os seus filhos com Christiano Matte, que se espalharam por diversas cidades do estado – notoriamente Montenegro, onde a filha de nome Paulina Matte, casada com Arthur Affonso Becker, deu à luz cinco rebentos, sendo uma delas de nome Edith Irma Becker. Esta, tendo casado em Novo Hamburgo com Luiz Oswaldo Bender, teve apenas dois filhos: Flávio e Cláudio. O primeiro faleceu sem deixar herdeiros; o segundo casou-se com Jandira Petry. Dois filhos nasceram desta união: Bernardo e este que vos escreve.

Pelo menos até o momento, esta geração anos 1980 não deu prosseguimento genealógico à história iniciada com o obscuro alemão Johann Sebastian Lindemeyer. Passaram-se seis gerações até chegarmos aqui, agora, onde um sujeito de 28 anos de idade, solteiro, sem filhos, habitante de Novo Hamburgo, navega não através do oceano, mas na internet. Dentre suas atividades preferidas está a de baixar e ouvir as composições daquele outro alemão de nome Johann Sebastian, de algum modo seu conterrâneo.

J.S. Bach (1685-1750), o maior entre os maiores, o grande organizador do caos barroco, não poderia imaginar do que a sua música seria capaz no século XXI. Desde que pela primeira vez ouvi a Ária na 4ª corda, por exemplo, tive a impressão de que a minha vida estava sendo salva. E assim acontece todas as vezes que a ouço. “He will be bach, é o que dizem por aí os messiânicos.

Eisenach/Novo Hamburgo, 31 de março de 1685-2013.


P.S.: Eisenach também é lembrada por ter sido o local onde Lutero traduziu o Novo Testamento do latim para o alemão. (Assim como inscrevi meu lugar na história da música, atrelando meu destino ao maior compositor de todos os tempos, em outro momento hei de destrinchar a minha ligação com o livro mais lido do mundo).

Estátua a J.S. Bach em Eisenach
Retrato de J.S. Bach - Haussmann, 1748.
(Olhando bem, tem algo familiar).

19 outubro 2011

Crônicas da Feira do Livro de Novo Hamburgo

Não são contos, nem delírios. São crônicas. Duas mal arranjadas crônicas sobre a Feira do Livro de Novo Hamburgo, que encerrou-se neste fim de semana.

Butão, 2011 - foto de Kevin Frayer


   Sentei numa das poucas cadeiras de plástico ainda vazias para ver o MV Bill. Quando ele apareceu no palco já estava lotada a praça. Fiquei olhando pra todas aquelas cabeças indistintas enquanto o cara se sentava na poltrona do palco, de um jeito desengonçado e sereno. O cara é grande, forte. Foi possível ver algumas tatuagens no antebraço. Deve ter uns dois metros de altura, pensei. Acho que ele precisa mandar fazer especialmente pra ele aqueles panos largões que ele veste. Ele começou a falar, respondendo as perguntas inócuas do entrevistador. Acho que ele nem precisava de microfone, pensei, tão grave e retumbante é a sua voz.

Reparei numa gostosa duas fileiras à frente. Tava cheio de gostosas, mas aquela estava numa posição conveniente ao meu campo de visão. E tinha peitos grandes, fartos. Que baita gostosa, pensei. Cada vez que ela torcia o corpo pro lado eu descobria mais uma delícia de prazer no seu perfil. A boca carnuda me deixou fascinado.

Ela estava ocupadíssima com o seu aparelho de telefone celular - ou seja lá o que for aquele tecladinho reluzente cheio de botõezinhos. As unhas impecavelmente vermelhas trabalhavam incessantemente naquele aparelhinho. Mandando mensagens ou e-mails, pensei. Talvez jogando algum daqueles passatempos bestas? De qualquer modo, não parecia ser nada muito importante, a despeito da atenção devotada.

Reparei também que ela estava vestida com capricho, bastante maquiada, com brilhos que cintilavam nas bochecas, nos lábios, nas unhas. O cabelo reluzia um negrume cacheado que devia ser muito cheiroso. Enormes argolas douradas pendiam de cada lado daquele pescoço que eu queria morder e beijar.

O MV Bill já estava encerrando sua fala. Recitava uma rima fácil demais pro meu gosto. Algo com falta de ética / droga sintética / polícia energética. As cabeças indistintas pareciam gostar, talvez pelo tal impacto social da mensagem. Mas ela continuava voltada apenas às mensagens do celular. Mascava chiclé displicentemente e tinha ares de entediada.

Quando o MV Bill levantou pra sair, as luzes foram intensificadas, subiu o som da vinheta da Feira do Livro, estouraram aplausos e assovios, e então ela finalmente olhou pro palco, levantou também, deu um jeito de bater palmas sem largar o celular, e gritou: - Gostosoooooo!

Era o que eu queria gritar pra ela, pensei.

11 de setembro de 2001 - foto de Larry Towell


   Cheguei cedo na praça pra ver o Arnaldo Antunes. Ainda tinha muitos lugares vagos. Escolhi uma cadeira próxima ao palco. Fiquei pensando nos motivos que me levavam até ali. O pouco que conheço da obra do Arnaldo Antunes não me entusiasma muito. A pequena multidão cult hamburguense tampouco me atrai. Mas era uma agradável noite de sábado e eu estava entediado.

Ainda faltava um bom tanto pra começar o bate-papo com o cara, quando chega uma família formada por mãe, filho e cachorro, e sentam-se bem à minha frente. O cachorro, no colo deles, deixava a língua escorrer pra fora da bocarra e me olhava inquieto, inquiridor. Às vezes dava um latido e precisava ser firmemente contido pelos primatas avançados que supostamente queriam ver e ouvir Arnaldo Antunes.

Pensei em sair, trocar de lugar, ir embora. Fiquei (pois não costumo transformar em ação o que formulo em pensamento; sou um primata pouco ativo). Fiquei pra ver o Arnaldo Antunes, embora a atração do momento fosse o cão na platéia. Platéia que se mostrava tão terna quanto admirada com a presença do canídeo ali, em território supostamente primata.

Primatas fêmeas, das mais esbeltas e charmosas e atraentes, multiplicavam-se entre a platéia. Eu e também o cão nos sentíamos deslocados. Ele por ser o único da espécie. Eu por não saber o porquê de eu estar ali, nem o porquê de eu querer ver o Arnaldo Antunes. Me senti melhor quando percebi que havia grande quantidade de belas mulheres no local. Fiquei.

Fiquei pensando no porquê de aquele cachorro estar ali, enquanto o Arnaldo Antunes respondia as perguntas banais do entrevistador. Reparei que a atenção da mãe e do filho voltava-se quase completamente ao cachorro: vigiavam, continham, admoestavam, acariciavam, bajulavam, repreendiam.

Acho que o cão não queria estar ali. Acho que a mãe e o filho não queriam estar ali. Acho que eu não queria estar ali.

Acho que Arnaldo Antunes não queria estar ali.

01 outubro 2011

Cardiff After Dark


Cardiff, capital do País de Gales, tem uma vida noturna efervescente. E por que não teria? Não sei, só sei que causa alguma surpresa o trabalho do fotógrafo polonês Dakowicz, que passou cinco anos flagrando imagens de animação, bebedeira, libertinagem, fome e esquisitices da madrugada. A St. Mary Street fica fechada para carros, e as pessoas de fato usam o espaço público. E como usam. Mulheres que não aguentam o salto alto por toda uma noite, simplesmente andam descalças. Por outro lado, homens mijam em qualquer canto e vomitam sem muita cerimônia. Por que tanta gente deita no chão?










Eu fiz uma seleção das fotos menos absurdas. O ensaio completo Cardiff After Dark está no flickr, e parte das fotos também estão no site oficial do fotógrafo.

07 agosto 2011

Mundos

O fotógrafo James Mollison tem um livro chamado "Where children sleep", retratando dezenas de crianças ao redor do mundo, a partir dos quartos onde elas vivem. Algumas estão aí abaixo:

Prena, 14, empregada doméstica, mora na casa onde trabalha, Katmandu, Nepal

Nantio, 15, Quênia

Tzvika, 9, Jerusalém, Israel

Jaime, 9, Nova York, EUA

Dong, 9, Yunnan, China

Ahkohxet, 8, Amazônia, Brasil

Anônimo, 4, romeno, vive na periferia de Roma, Itália

Jasmine, 4, Kentucky, EUA

Rhiannon, 14, Darvel, Escócia

Thais, 11, Cidade de Deus, Rio de Janeiro, Brasil

Joey, 11, gosta de caçar, Kentucky, EUA

Indira, 7, trabalha numa pedreira, Katmandu, Nepal


Ryuta, 10, campeão de sumô, Tóquio, Japão

23 maio 2011

O nada

"O Nada é a palavra que mais assusta o comum das gentes. Mas, para exorcizá-lo ninguém precisa ir aos padres, às mães-pretas, aos índios velhos, ao diabo: basta ir a um dicionário e verá que o nada não existe. Sim, é uma coisa tão absurda como a existência do mundo."

"Na volta da esquina", de Mario Quintana, ed. Globo, 1979, pág. 89-90

pôr-do-sol em Marte  (NASA's Mars Exploration Rover Spirit)


o nada está em tudo
em cada tic
em cada tac
o nada enche copos
enche sacos
enche vidas
até o obrigado é de nada
e daqui há bilhões de anos
quando o sol explodir
o que vai ser de todo esse NADA?
(e ainda resta tanto a ser dito sobre o nada...)


03 maio 2011

Pensando bem...

E se bombardeassem as catacumbas do american way of life, quantos terroristas não morreriam?

Abril de 2011, tornado nos EUA


30 abril 2011

As diferentes afinações de um mesmo instrumento

O encontro ora ruidoso ora harmônico entre o pensamento religioso e o filosófico rende reflexões interessantes. No artigo abaixo, publicado hoje no Notícias IHU Unisinos, religião e filosofia são postas em discussão mediante a relação com um problema concreto da contemporaneidade - neste caso, a vida dita vegetativa e a angústia dos familiares diante da premência do tempo que passa.


A alma em forma de violão

A circunstância verdadeiramente embaraçosa é que a metáfora da alma como as cordas de um violão, utilizada recentemente por Bento XVI, serve, na sua versão original, para demonstrar que a alma não é imortal.
A análise é da filósofa italiana Franca D'Agostini, professora do Politécnico de Turim e da Università del Piemonte Orientale. É autora, em português, de Analíticos e Continentais (Ed. Unisinos, 2002) e de Lógica do Niilismo: Dialética, Diferença e Recursividade (Ed. Unisinos, 2002). O artigo foi publicado no jornal Il Manifesto, 28-04-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Mas o Papa Bento XVI, Joseph Ratzinger, acredita na imortalidade da alma? Provavelmente sim, visto o ofício que faz, mas, à luz das suas recentes declarações, há alguma razão, senão para duvidar, pelo menos para ficar perplexos. Refiro-me à metáfora do violão com as cordas despedaçadas utilizada por ele para explicar à mãe de Francesco (em coma desde 2009) que a alma do seu filho ainda existe, embora tácita, no corpo em estado vegetativo. "A alma não pode tocar", explica o Papa, mas "continua presente".
É uma metáfora antiga e figura sobretudo no Fédon platônico: ela é apresentada por Símias, em uma célebre discussão sobre a imortalidade da alma. Mas a circunstância verdadeiramente embaraçosa é que a metáfora serve para demonstrar que a alma não é imortal. Diz Símias: de acordo, supondo que a alma exista, e que seja algo imaterial que está ligado ao nosso corpo, ela poderia ser como a música de uma lira, que certamente é imaterial, e é algo "invisível, incorpóreo, sumamente belo"; mas "suponhamos que alguém quebre a lira e corte ou arrebente suas cordas": nesse caso, a alma cessaria de existir.
O argumento é verdadeiramente muito forte: admite-se que existe na vida humana uma realidade espiritual, mas unicamente como resultado e fruto de fatos materiais, de reações químicas e físicas. A ideia do espírito como algo que sobrevém inesperadamente sobre o corpo é uma das grandes linhas-guia do materialismo, de Símias a Gassendi, e hoje a David Armstrong ou Jaegwon Kim. O fato de o Papa usar a mesma metáfora dá o que pensar.
Mas o aspecto talvez ainda mais interessante e embaraçoso da questão é que Sócrates refuta a hipótese de Símias servindo-se da tese da pré-existência da alma ao corpo, uma tese que os socráticos consideram indiscutível (sendo a base da teoria do conhecimento como reminiscência) e que a metafísica católica, ao contrário, não pode aceitar de modo algum.
Diz Sócrates: se a alma é o incorpóreo som do violão (da lira) que permanece tácito quando o violão (lira) tem as cordas arrebentadas, certamente não podes admitir que a alma exista em uma vida anterior, antes do corpo. Sim, reconhece sabiamente Símias. Então "qual raciocínio preferes", perguntou Sócrates: o que demonstra a pré-existência da alma ou o que demonstra que a alma é a "harmonia", ou seja, a música, fruto do corpo? Símias não tem dúvida: o primeiro é preferível.
Qual poderia ser, ao invés, a resposta do Papa? O que ele prefere: a ideia da transmigração das almas, ou a da alma que morre com o corpo, nada mais sendo do que o som deste último? Do ponto de vista católico, a alternativa é sem saída: uma via é pior do que a outra.
Talvez, seria melhor evitar o uso dessas metáforas, que revelam toda a fragilidade da filosofia oficial do catolicismo e, além disso, não consolam muito (não tenho a menor ideia de como a mãe de Francesco pôde se sentir tranquilizada com aquilo que lhe disseram: as cordas neste estado estão arrebentadas, e poderiam tocar, mas não tocam).
Muito sensatamente, Símias reconhece que o raciocínio sobre a lira das cordas arrebentadas lhe viera à mente "por parecer-me verossímil e algum tanto conveniente", e argumentos desse tipo "são vãos", servem só para enganar "os demais", com a luminosidade das imagens, mas levam sistematicamente a teses falsas e discutíveis. Ou, talvez, podemos dizer: revelam mais do que o que se gostaria de revelar.

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Não estou muito seguro quanto à compreensão da autora do artigo com relação à metáfora do Papa, já que este me parece mais consciente da ressonância e suas reminiscências sobre o instrumento do que propriamente da necessidade de a corda estar inteira. Talvez ele tenha se expressado no sentido de que a perpetuação de uma vibração da corda na memória - ou a lembrança que os pais têm da vida ativa do filho - sinalize a perpetuação da alma, inscrevendo-a no corpo do próprio filho.

Seja como for, me sendo permitida uma interferência, eu colocaria em relação também a física da música, tão bem revelada no livro O Som e o Sentido. A música, ou antes o som, não deixa de ser também uma manifestação plástica, embora invisível; é física, concreta, na medida em que nasce de vibrações que se expandem pelo ar (lembremos que o ar também não é mera abstração, mas combinação de gases).

"Sabemos que o som é onda, que os corpos vibram, que essa vibração se transmite para a atmosfera sob a forma de uma propagação ondulatória, que o nosso ouvido é capaz de captá-la e que o cérebro a interpreta, dando-lhe configurações e sentidos". Sendo assim, talvez seja mais apropriado pensar que é o sentido -formado na ponta final de um processo material - que ultrapassa a realidade física para atingir algo que pode ser comparado à realidade espiritual, ou à alma. Mas o som em si é um processo físico e material, e o apito para cães indica isso com bastante evidência - a menos que se pense que o homo sapiens possui uma alma elevada que só lhe permite distinguir sons que lhe sejam reveladores.

"Toda a nossa relação com os universos sonoros e a música passa por certos padrões de pulsação somáticos e psíquicos, com os quais jogamos ao ler o tempo e o som". Bem, a partir daí a discussão vai longe, e todo este blog é um reflexo mais ou menos nítido destas variações sobre o ritmo de nossa percepção.


Fiquem em compania do som da flauta japonesa:


15 abril 2011

wish-wash

Dizem que na Tailândia se comemora o ano novo de 13 a 15 de abril, com a chegada do calor. Parece que em lugar de champanha, ondinhas, lentilhas e lamentáveis reuniões familiares, os tailandeses vão às ruas numa guerra cristalina de água. Elefantes também participam, com sua peculiar mangueira. Piriguetis de camisa branca fazem as vezes de trio elétrico, para delírio das massas masculinas. Tiros de água nas escolas. Sem ecochatos para pesarem na consciência do desperdício dos recursos hídricos. Bem, fica a dica para as férias do ano que vem.

Festa boa pruma câmera

Há quem prefira Ivete Sangalo

Elefantes mais psicodélicos do que Júpiter Maçã na sétima efervescência

Peleia braba

As pessoas já estão meio emputecidas, mas o elefante ao centro está rindo que nem guri com brinquedo novo


Massacre de crianças?

Todas as imagens são do ótimo blog fotográfico The Frame

08 abril 2011

Realengo



"Nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo", dizia a letra de Tempo Perdido - "e o que foi prometido, ninguém prometeu".

O Brasil caminha a passos largos rumo ao envelhecimento da população, conforme as tendências demográficas. O que será da juventude do tempo perdido? E o que resta à juventude de hoje, além de todo o tempo do mundo? O que faz uma juventude na escola, além de esperar o final da vida escolar? O que faz a juventude após terminar a escola, além de remoer as promessas que ninguém prometeu?

O cineasta norte-americano Gus Van Sant dedicou alguns belos filmes ao olhar da juventude. A referência mais evidente é Elephant, ficção baseada no célebre massacre de Columbine. Menos conhecido é Paranoid Park, cujas primeiras cenas estão aí:


Poderíamos ter mais cinema assim, com o olhar da juventude de dentro pra fora.

E antes que alguém diga que poderíamos ter mais rock genuíno de juventude, que tal ouvir "Tudo que eu sempre sonhei" dos Pullovers? (Os tempos correm tão depressa que já há uma parte da letra ultrapassada pelos acontecimentos).


Tudo Que Eu Sempre Sonhei

Pullovers

Composição : Luiz Venâncio

Sempre pensei que aconteceria,
de criança acreditava nos adultos
que era só pagar pra ver.
Feio, meio assim desconfiado,
perna em xis, já barrigudo,
duvidando que eu conseguisse crescer.
Mesmo assim, contudo,
o tempo foi passando
e eu fui adiando, mudo,
os grandes dias que ia conhecer.
Quem sabe amanhã? Próximo ano?
Cebolinha com seus planos
infalíveis ia me ensinar a ser
 
forte, corajoso, bom de bola,
um dos bonitos da escola
muito embora eu não fizesse questão.
Ainda bem que eu sou brasileiro,
tão teimoso, esperançoso,
orgulhoso de ser pentacampeão,
já que se eu fosse americano
pegaria uma pistola
e a cabeça ia perder a razão:
mataria quinze na escola,
estouraria a caixola
e apareceria na televisão.

E por fim cresci, de insulto em insulto
eu me vi como um adulto,
culto, pronto pra o que mesmo? Já nem sei.
Olho e não encontro,
penso se não fui um tonto
de acreditar no conto
do vigário que escutei.
Não tem carro me esperando,
não tem mesa reservada,
só uma piada sem graça de português.
Não tem vinho nem champanhe ou taça,
só um dedo de cachaça
e um troco magro todo fim de mês.

Tudo que eu sempre sonhei.
Tanto que eu consegui...
É tão bom estar aqui...
Quanto ainda está por vir...

Mas bobagem, quanta amargura,
eu já sei que a vida é dura,
agora é pura questão de se acostumar.
Basta ter coragem e finura
e o jogo de cintura
aprendido dia a dia, bar em bar.
Pra que reclamar se tem conhaque,
se na tevê tem um craque
e o meu Timão só entra pra ganhar?
Pra que imitar Chico Buarque,
pra que querer ser um mártir
se faz parte do momento se entregar?

E por fim tem até namorada,
bonitinha, educada,
séria, tudo o que mamãe vive a pedir.
Tem beijinho e também trepada
e a consciência pesada
a cada nova vontadinha que surgir
de outra mulher, de liberdade,
de um amor de verdade,
de poder fechar os olhos e sorrir,
pensando que então, dali pra frente,
seja qual for tua idade,
o melhor ainda vai estar por vir!

Tudo o que eu sempre sonhei.
Tanto que eu consegui...
É tão bom estar aqui...
Quanto ainda está por vir...
Tudo que eu sempre sonhei.
Tanto que eu consegui...
É tão bom estar aqui...
Eu sei.


O disco é bem bacana e pode ser baixado no site da banda.

07 abril 2011

O possível primeiro retrato de Jesus


Poderia ser o primeiro retrato de Jesus, esculpido pelos seus contemporâneos e usado como "capa" de um livro sagrado que contém imagens e relatos sobre a vida e sobre a morte de Cristo. Uma descoberta que faz enlouquecer de curiosidade, empolgação e preocupação todo o exército de arqueólogos, colecionadores, bibliófilos e historiadores das religiões que palpitam por todo achado na Terra Santa: nada de tão antigo já surgiu sobre o cristianismo.

A reportagem é de Enrico Franceschini, publicada no jornal La Repubblica, 04-04-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Alguns são levados a chamá-lo de "o diário de Jesus". Outro notam que a existência de um livro selado, que contém informações sagradas, é mencionada na Bíblia, nas Revelações. É possível que aquele livro, confeccionado pelos primeiros cristãos, por seguidores que haviam visto, ouvido e seguido jesus nas suas primeiras peregrinações, tenha sido enfim encontrado?


Há um grande "se" ao lado dessas perguntas: se o livro é autêntico. Certamente, ele já colocou em ação uma série de tratativas, investigações, maquinações na metade do caminho entre o Código da Vinci e um filme de Indiana Jones. É uma história que começa no deserto da Jordânia, passa por Israel e acabe em Londres.

Começa com o inevitável pastor árabe que, há cinco anos, explorando em uma caverna da Jordânia, em uma zona selvagem ao longo da fronteira com a Síria e Israel, encontrou códices selados, esculpidos em bronze. Eles têm as dimensões de um cartão de crédito. São 70 livrinhos de uma dezena de páginas cada um.

A zona onde foram encontrados chama-se Saham, a cinco quilômetros de uma antiga fonte, onde, há 2 mil anos, no primeiro século da era cristã, seitas messiânicas judaicas se refugiaram depois de várias revoltas contra o Império Romano em Jerusalém.

Há três anos, o pastor vendeu os códices a um pequeno comerciante beduíno israelense, Hassan Saida, que transportou ilegalmente os preciosos livrinhos da Jordânia para o Estado judeu. Saida tentou fazer com que fossem autenticados pelo Sotheby, pelo British Museum, por outros, mas só obteve recusas, porque a proveniência dos objetos não era clara, e os especialistas temiam uma fraude.

Depois, com a ajuda de alguns arqueólogos britânicos, David e Jennifer Elkington, fez-se com que alguns códices chegassem à Oxford University. Os primeiros testes confirmaram que o chumbo tem origem no Mediterrâneo, que é do primeiro século e que a corrosão é autêntica. Outros testes feitos na Suíça, no National Materials Laboratory de Dubendorf, deram o mesmo resultado.

Nesse ponto, a Jordânia grita pelo furto e quer o material traficado novamente de volta. O beduíno desaparece. E os dois arqueólogos britânicos que têm alguns dos códices dizem estar sendo perseguidos e terem recebido ameaças obscuras.

Ninguém ainda traduziu os textos dos livrinhos, exceto duas palavras: "Salvador de Israel" e Yahweh – Deus. E o fato de haver, na capa, uma imagem confirma a ligação com o cristianismo, porque, para o judaísmo, é idolatria retratar a divindade.

Se os códices são autênticos, seria uma descoberta potencialmente mais importante do que os Manuscritos do Mar Morto. Mas os céticos lembram as crescentes dúvidas sobre o "túmulo de Tiago, irmão de Jesus", anunciada ao mundo por ninguém menos do que James Cameron, o diretor de “Avatar”.

Como mínimo, gravariam um filme sobre isso. Como máximo, temos a primeira "fotografia" de Jesus e um segredo sobre o cristianismo que permaneceu fechado por 2 mil anos em uma caverna.

26 março 2011

O que pode ser mostrado não pode ser dito


pintura de Jackson Pollock


Certa vez, após apresentar um concerto em Roma, John Cage foi repreendido por uma velha senhora, que foi ao seu encontro para dizer-lhe que sua música era escandalosa, repugnante e imoral, ao que o músico respondeu: "Era uma vez, na China, uma senhora belíssima que fazia enlouquecer todos os homens da cidade; certo dia, caiu nas profundezas de um lago e assustou os peixes".

Quem nos conta é Umberto Eco em Zen e Ocidente, um dos magníficos ensaios de Obra Aberta. O estudioso italiano considerava, àquela altura de 1959, que a onda Zen que varria o Ocidente tinha na vanguarda musical o seu mais fértil campo. Eco pinta Cage com cores de divertida dissonância:

"Mas onde a influência Zen se fez sentir de maneira mais sensível e paradoxal foi na vanguarda musical norte-americana. Referimo-nos em especial a John Cage, a figura mais discutida da música norte-americana (sem dúvida, a mais paradoxal de toda a música contemporânea), o músico com que muitos compositores pós-weberianos e eletrônicos estão freqüentemente em polêmica, sem poder subtrair-se à sua fascinação e ao inevitável magistério de seu exemplo. Cage é o profeta da desorganização musical, o sumo-sacerdote do acaso: a desagregação das estruturas tradicionais, que a nova música serial procura com uma decisão quase científica, encontra em Cage um eversor desprovido de qualquer inibição. [...] A quem o interpela a respeito das finalidades de sua música, Cage responde citando Lao Tsé e advertindo o público de que só se chocando com a completa incompreensão e medindo a própria estultice ele poderá colher o profundo sentido do Tao. A quem lhe objeta que sua música não é música, Cage responde que, com efeito, não pretende fazer música; a quem propõe questões demasiado sutis, a resposta é o pedido para repetir a pergunta: se a pergunta for repetida, pede que se repita mais uma vez a questão; ao terceiro pedido de repetição, o interlocutor toma consciência de que a expressão: 'Por favor, quer repetir a pergunta?' não constitui um pedido mas a própria resposta à pergunta. Na maioria das vezes, Cage prepara, para seus contraditores, respostas pré-fabricadas, boas para qualquer pergunta, visto que querem ser desprovidas de sentido. O ouvinte superficial se satisfaz ao pensar em Cage como num blefador que nem mesmo é muito hábil, mas suas constantes referências às doutrinas orientais deveriam alertar-nos a seu respeito: antes de ser visto como músico de vanguarda, deve ser encarado como o mais inopinado dos mestres Zen, e a estrutura de seus contraditores é perfeitamente idêntica à dos mondo, as típicas perguntas com respostas absolutamente casuais, com que os mestres japoneses levam os discípulos à iluminação. No plano musical pode-se discutir efizcamente a respeito do destino da nova música, se reside no completo abandono à felicidade do acaso ou na disposição de estruturas 'abertas', todavia orientadas segundo módulos de possibilidade formal: mas no plano filosófico, Cage é intocável, sua dialética Zen perfeitamente ortodoxa, sua função de pedra de escândalo e de estimulador das inteligências sopitadas, inigualável. E é o caso de perguntar se ele está contribuindo para o esoterismo Zen ou para o campo musical, procurando uma lavagem mental de hábitos musicais adquiridos."

Eco prossegue na identificação de elementos Zen na cultura ocidental, passando pelo dadaísmo, surrealismo, Ionesco, Beckett, chegando aos filósofos existencialistas, especialmente em Wittgenstein. "Há em Wittgenstein a renúncia à filosofia como explicação total do mundo. [...] As proposições linguísticas não interpretam o fato, nem tampouco o explicam: elas o 'mostram', indicando e reproduzindo fielmente suas conexões. Uma proposição reproduz a realidade como se fora uma das muitas projeções dela, mas nada pode ser dito acerca do acordo entre os dois planos: esse somente pode ser mostrado."

De Cage a Wittgenstein, da música de vanguarda ao existencialismo, Eco identifica a recusa a enrijecer o mundo com explicações, numa postura de fundamentos caros ao Zen. Cita o exemplo do monge, de simplicidade estarrecedora: ao discípulo que o interrogava sobre o significado das coisas, o monge responde erguendo o cajado; o discípulo explica com muita sutileza teológica o significado do gesto, mas o monge contesta que a explicação é demasiado complexa. O discípulo pergunta então qual é a exata explicação do gesto. O monge responde erguendo novamente o cajado.

Eco não alimenta ilusões, adverte que a relação entre o Zen e a cultura ocidental é mais problemática do que os exemplos acima fazem acreditar. O que poderíamos dizer hoje da nossa cultura ocidental, 52 anos depois destas palavras de Eco? "Repentinamente, alguém encontrou o Zen; avalizada por sua venerável idade, essa doutrina vinha ensinando que o universo, o todo, é mutável, indefinível, fugaz, paradoxal; que a ordem dos eventos é uma ilusão de nossa inteligência esclerosante, que toda tentativa para defini-la e fixá-la em leis está condenada ao fracasso... Mas que justamente na plena consciência e aceitação alegre dessa condição está a extrema sabedoria, a iluminação definitiva; e que a crise eterna do homem não surge porque ele deve definir o mundo e não o consegue, mas porque quer defini-lo e não deve."

Eco não acreditava muito em que o ocidental pudesse renunciar ao desejo de definir o mundo. Cage e os existencialistas seriam exceções? O conflito está aí, ao nosso redor e dentro de nós, em cada esquina, em cada blog, em cada vida.


red pill or blue pill?


23 março 2011

Como um sonho atravessa o mundo

O jornal aqui da província de Novo Hamburgo traz a seguinte matéria na edição de hoje: "Filme protagonizado por Breno Mello inspira Obama". Breno Mello, ator principal do famoso filme Orfeu Negro (1959), era jogador de futebol e viveu por estas bandas, ainda habitadas por seus familiares. Obama relembrou o filme em discurso na sua visita ao Brasil. Mas este é um detalhe provinciano (e a matéria é ruim), o que interessa é a história, belíssima, que liga as raízes afetivas do presidente dos EUA à rica fonte de cultura do Brasil.

Conheci essa história pelo meio mais vivo e quente, creio, e gostaria de compartilhá-la. Ela está muito bem narrada por José Miguel Wisnik, em aula-show do Instituto Moreira Salles sobre a canção brasileira. Não, eu não estou fugindo do assunto: a canção brasileira chega ao filme Orfeu Negro, via Vinícius de Moraes, principalmente, grande idealizador do projeto; de Orfeu Negro vamos à mãe de Obama, que assistiu o filme quando jovem e ficou encantada, tanto que, décadas depois, levou o filho Barack ao cinema; do encontro na sala escura entre o jovem Barack, sua mãe e aquele caldo de cultura brasileira de Orfeu Negro, nasceu uma compreensão que é dessas coisas raras da vida.

E o mérito é todo de Barack Hussein Obama, que, para lá de ser o primeiro presidente negro dos EUA, é um sujeito que conquistou minha simpatia por este episódio, narrado em sua autobiografia (um parêntese: Obama autobiografou-se quando ainda era jovem, tinha apenas galgado alguns degraus de destaque na Universidade de Harvard e nem sequer havia iniciado na carreira política!). A figura-chave deste conto (vamos chamar assim) é, na verdade, a mãe de Obama, cuja trajetória peculiar começa pelo próprio nome: Stanley Ann - aqui mais detalhes da interessante vida desta antropóloga branca do Kansas.

Cliquem aqui, seus impacientes cibernéticos, e calem-se uma vez na vida para ouvir uma boa história; aos mais afoitos, recomendo que avancem a barra de tempo até a marcação de 04:05, que é quando começa propriamente esta breve e bela narração.

E então entenderão quão poético é o exagero de dizer que o primeiro presidente negro dos EUA nasceu do sonho de Vinícius de Moraes.


Cena do filme Orfeu Negro

Eu, se fosse você, prosseguiria escutando as aulas-show do site do IMS, intituladas "O Fim da Canção", banho de interpretação sobre aspectos da canção popular brasileira, com destaque para a Bossa Nova, Caymmi e o Tropicalismo.

20 março 2011

Fukushima: admirável mundo novo


Em 1946, Aldous Huxley faz um prefácio à “Admirável Mundo Novo”, obra sua de 1931. O autor evita desqualificar seu romance em virtude de defeitos que seriam próprios da imaturidade. Recusa o remorso e busca identificar a validade dos prognósticos sobre o futuro, o que julga essencial num romance futurista. Refletindo sobre este aspecto da obra, quinze anos depois, admite: “Uma enorme e óbvia falha de previsão é imediatamente visível. Admirável mundo novo não contém nenhuma referência à fissão nuclear”. Justifica a omissão e passa a expor suas expectativas para o futuro, onde tem lugar destacado a ameaça de guerra atômica e a consequente hecatombe nuclear, ou, de forma menos pessimista (?), o domínio de sistemas totalitários sustentados pela energia nuclear aplicada em fins industriais.

O prefácio se estende no exercício de prognosticar a tragédia do futuro, até dar lugar à obra em si; esta, ainda no seu primeiro capítulo, contém uma referência curiosa. Os administradores do Centro de Incubação e Condicionamento explicam aos alunos visitantes todo o processo de produção em série de seres humanos, a partir de engenhosos mecanismos biogenéticos. As pessoas são geradas em conformidade com as necessidades de manutenção do sistema social:

                - Tantos indivíduos, de tal e tal qualidade – disse o Sr. Foster.
                - Distribuídos em tais e tais quantidades.
                - O Índice de Decantação ideal a qualquer momento.
                - As perdas imprevistas prontamente compensadas.
                - Prontamente – repetiu o Sr. Foster. – Se os senhores soubessem quantas horas suplementares tive de fazer depois do último terremoto no Japão!

É um comentário despretensioso e aparentemente¹ sem desdobramentos na história. Coloca um germe de instabilidade naquele processo hermeticamente ordenado; o terremoto, manifestação indomável da imprevisibilidade da natureza, perturba a perfeição do nosso sistema social.

No distante futuro imaginado por Huxley, as placas tectônicas continuam se movendo poderosamente (pelo menos sob o Japão); a ameaça nuclear, mesmo objetivamente negada, continua pairando no inconsciente coletivo. E os homens continuam aferrados a uma fracassada esperança de uma catástrofe definitiva.

Hiroshima foi o começo dessa história.
Fukuyama² foi o “fim da história”.
Fukushima, o que será?

Admirável Mundo Novo.

Notas
1. Digo aparentemente pois estou em plena leitura.
2. Fukuyama – filósofo e economista político nipo-americano – desenvolveu uma linha de abordagem da História, desde Platão até Nietzsche, passando por Kant e Hegel, a fim de revigorar a teoria de que o capitalismo e a democracia burguesa constituem o coroamento da história da humanidade. Na sua ótica, após a destruição do fascismo e do socialismo, a humanidade, à época, teria atingido o ponto culminante de sua evolução com o triunfo da democracia liberal ocidental sobre todos os demais sistemas e ideologias concorrentes. Em oposição à proposta capitalista liberal, restavam apenas os vestígios de nacionalismos (sem possibilidade de significarem um projeto para a humanidade) e o fundamentalismo islâmico (restrito ao Oriente e a países periféricos). Desse modo, diante da derrocada do socialismo, o autor concluiu que a democracia liberal ocidental firmou-se como a solução final do governo humano, significando, nesse sentido, o "fim da história" da humanidade. Fonte: Wikipédia
3. Todas as imagens são da tragédia de 11 de março no Japão, retiradas do excelente blog fotográfico The Frame