[como se alegrar com a escrita de ficção e estranhar a realidade]
Os dias bons, os dias gordos, página sobre página; dias prósperos, alguma coisa a dizer, a história de Vera Rivken, e as páginas se multiplicavam e eu estava feliz. Dias fabulosos, o aluguel pago, ainda cinquenta dólares na minha conta, nada pra fazer o dia todo e a noite toda a não ser escrever e pensar em escrever: ah, os dias doces, ver tudo crescer, me preocupar comigo mesmo, meu livro, muitas palavras, talvez importantes, talvez além do tempo, mas minhas, de qualquer maneira, o indomável Arturo Bandini, indo fundo em seu primeiro romance.
Assim uma tarde chega, e que fazer com ela, minha alma fria depois do banho de palavras, meus pés firmes no chão, e que fazem os outros, as outras pessoas do mundo?
"PERGUNTE AO PÓ", de John Fante, trad. Paulo Leminski, ed. Brasiliense, 1987, pág. 130.

Rein Tammik
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