Oito leituras e quatro releituras que mais me encantaram, confrontaram, fascinaram, desafiaram, que mais me aumentaram e me diminuíram, que mais me salvaram e me desencaminharam em 2025 (sem ordem de preferência):
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| Alariko |
A TRÉGUA, de Mario Benedetti
(trad. Joana Angelica D'Avila Melo, ed. Coleção Folha de São Paulo - Literatura Ibero-Americana)
Minhas notas de leitura atestam o quanto fui conquistado por essa singela novela em forma de diário, meu primeiro contato com a obra do autor uruguaio. Guardo com muito carinho a recordação das leituras no Parque da Redenção; não são muitos os livros que se mostram aptos a mim para uma proveitosa leitura em público, e aqui talvez haja uma conexão com o aspecto de observação urbana do protagonista e de vizinhança entre Montevidéu e Porto Alegre.
SOLENOIDE, de Mircea Cărtărescu
(trad. Fernando Klabin, ed. Mundaréu)
OS MUJIQUES, de Anton Tchékhov
(trad. Rubens Figueiredo, ed. Todavia)
É o segundo volume dos contos e novelas da fase final da obra do meu contista favorito, excelente serviço prestado pela editora Todavia. É com sua consagrada sutileza que o autor narra reflexões terrivelmente francas dos personagens, e também as pequenas e preciosas alegrias que, entretanto, não resistem ao curso inevitável das desilusões. Aqui algumas notas de leitura.
A LONGA VIAGEM DE PRAZER, de Juan José Morosoli
(trad. Sergio Faraco, ed. Mercado Aberto / Metrópole / IEL)
Outro uruguaio na lista, bem menos lembrado do que Benedetti. O universo interiorano gaucho ganha, na prosa econômica dos contos de Morosoli, surpreendente força calada, cativante humor ingênuo e ternura sob camadas de aridez.
O CORAÇÃO PRONTO PARA O ROUBO, de Manuel António Pina
(ed. 34)
O que pode ser melhor do que descobrir um poeta contemporâneo (1943-2012) que fala contigo na tua língua nativa e no mesmo idioma da tua alma?
Teoria das cordas
Não era isso que eu queria dizer, /
queria dizer que na alma /
(tu é que falaste da alma), /
no fundo da alma e no fundo /
da ideia de alma, há talvez /
alguma vibrante música física /
que só a Matemática ouve, /
a mesma música simétrica que dançam /
o quarto, o silêncio /
a memória, a minha voz acordada, /
a tua mão que deixou tombar o livro /
sobre a cama, o teu sonho, a coisa sonhada; /
e que o sentido que tudo isto possa ter /
é ser assim e não diferentemente, /
um vazio no vazio, vagamente ciente /
de si, não haver resposta /
nem segredo.
TESTEMUNHO TRANSIENTE, de Juliano Garcia Pessanha
(ed. Cosac Naify)
Não é menor a satisfação de descobrir um ensaísta contemporâneo na tua língua nativa, que ousa levar tua alma aos limites onde se encontram (e se perdem) o estudo filosófico, o aforismo, a ficção, a biografia, o poema em prosa, a confidência - um esforço corajosamente autêntico de estranhamento, desassossego e visão poética. O volume (fora de catálogo) reúne quatro livros do autor, publicados entre 1999 e 2009: Sabedoria do nunca, Ignorância do sempre, Certeza do agora e Instabilidade perpétua.
A LITERATURA E OS DEUSES, de Roberto Calasso
(trad. Jônatas Batista Neto, ed. Companhia das Letras)
Parte de um ponto, chega em outro, atravessa e se detém e parte novamente, e o leitor vai junto, mais interessado na qualidade da prosa em si do que no produto final das reflexões - eis um livro magnificamente ensaístico, inspirado, culto, apaixonado pela arte literária e seduzido pelos seus mistérios. Fiz algumas notas de leitura.
O ÚLTIMO LEITOR, de Ricardo Piglia
(trad. Heloisa Jahn, ed. Companhia das Letras)
É da mesma categoria que o livro do Calasso - menos erudito e refinado, talvez, contudo mais claro e eloquente. O que importa é que é movido pelo mesmo fascínio que tanto absorve a nós, leitores que habitam esse "espaço entre o imaginário e o real, [que] desmonta a clássica oposição binária entre ilusão e realidade. Não existe nada simultaneamente mais real e mais ilusório do que o ato de ler."
MELHORES RELEITURAS:
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| Caspar David Friedrich |
O PROCESSO, de Franz Kafka
(trad. Modesto Carone, ed. Companhia das Letras)
Motivado por uma situação pessoal que guarda alguma semelhança com a situação de Josef K., retornei a esse clássico depois de muitos anos. A verdade é que não é necessária qualquer justificativa para voltar a um narrativa tão poderosamente estranha, tão misteriosamente familiar, tão consoladoramente desesperançada.
O COMPLEXO DE PORTNOY, de Philip Roth
(trad. Cezar Tozzi, ed. Círculo do Livro)
Depois de anos, confirmei que trata-se de uma das narrativas mais hilárias e provocativas que conheço, embora isso de modo algum esgote as qualidades da verve da sua prosa, inclusive da sua insuspeitada ternura.
O ESTRANGEIRO, de Albert Camus
(trad. Valerie Rumjanek, ed. Record)
Outro retorno depois de vários anos, e dessa vez da melhor maneira possível: gostando muito mais do que da primeira vez. Conforme registrei nas minhas notas de leitura, o ápice do livro é, mais do que o seu cume dramático, também o seu magnífico ponto de inflexão estilístico.
CARPINTEIROS, LEVANTEM BEM ALTO A CUMEEIRA & SEYMOUR, UMA APRESENTAÇÃO, de J.D. Salinger
(trad. Jorio Dauster, ed. L&PM)
Não seria nenhum exagero se eu elegesse este como o meu livro preferido da vida, portanto demorei muito para finalmente conhecer a tradução do Jorio Dauster - havia lido e relido as do Alberto Alexandre Martins (ed. Brasiliense) e do Caetano Galindo (ed. Todavia) - e só lamentei que o simpático Kilroy (grafite cartunesco norte-americano) virou Biriba nesta tradução (troca ruim, pois o contexto em que o Kilroy é citado combina com o seu bordão, "Kilroy was here", além de remeter à 2ª Guerra Mundial, evento que é uma espécie de baixo-contínuo de toda a obra salingeriana). Mas o que importa é que cheguei à conclusão de que, se Proust é o meu prosador favorito da primeira metade do século XX, Salinger é o da segunda metade; sou completamente capturado pelos seus universos ficcionais, envolvido pelo humor e pela visão de mundo dos personagens/narradores e seduzido pelo estilo e pelo trabalho com a linguagem, a tal ponto que é um grande prazer acompanhá-los inclusive quando parecem deambular sem rumo em digressões prolixas e redundantes e copiosas. Tenho um ensaio sobre a obra do Salinger aqui.


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