
Revendo o filme do Joachim Trier (no cinema, como tem que ser) encontrei a solução para uma dúvida colocada pela cena final: se a casa da família era tão importante para o diretor Gustav Borg (Stellan Skarsgård) como cenário e local de realização das filmagens, por quê, afinal de contas, o filme está sendo realizado num estúdio? É com a imagem aberta mostrando o estúdio que o filme termina, frustrando uma expectativa que estava colocada desde as cenas iniciais, que praticamente introduzem a casa como o personagem central da obra. Como se explica esse ciclo que não se completa?
O detalhe que tinha passado despercebido na primeira vez, e que começa a responder essa questão, está sentado ao lado do diretor na cena final, quando ele diz "Corta!" - é o seu velho amigo e fotógrafo dos seus filmes anteriores (Lars Väringer), que nesse momento sorri e dá uns tapinhas de contentamento e de reconhecimento no seu parceiro. Essa presença ao lado do diretor, além de dar continuidade a uma cena que parecia isolada e sem consequências - me refiro ao encontro entre os dois na casa do fotógrafo, onde fica evidente que o diretor vai descartá-lo diante da sua precária condição física - responde ao enigma; pois, naquela cena, o fotógrafo diz expressamente que vai filmar usando uma dolly (câmera acoplada a um carrinho sobre trilhos, que é o que efetivamente vemos no estúdio), ou seja, uma estrutura pesada e espaçosa que não é compatível com a filmagem no interior de uma casa, o que obviamente seria uma forma de contornar as suas limitações físicas, mas que estaria em franca oposição aos planos de Gustav.
Portanto, a presença dos dois velhos parceiros lado a lado na cena final, mais do que reforçar o talvez exagerado happy ending (confesso que o desfecho me parece uma concessão ao público sentimentalista norte-americano), em que até o alquebrado amigo é incluído com sucesso nos planos de Gustav, coloca em evidência o movimento de afetuosa redenção do diretor, que prefere resgatar seu velho parceiro do ocaso do que concretizar a vocação da casa familiar como centro para onde tudo converge. Me parece uma escolha importantíssima do roteiro de Trier (em parceria com Eskil Vogt), mas que tende a passar batida. E penso, ainda, que mais do que uma redenção de Gustav, essa conclusão reforça outro aspecto temático do filme: a velhice, o fim da vida que se aproxima, o ato final, a sua solidão intrínseca (que está posta de forma contundente especialmente no que não é dito na cena do encontro entre o diretor e o fotógrafo, naquela formidável troca de olhares desolados). Não por acaso, desde o primeiro visionamento eu já pensava em Rei Lear e suas três filhas, que aqui seriam duas, mas formando um trio com o acréscimo de Rachel (Elle Fanning). E tudo isso dá pano pra muitas outras reflexões, como sói acontecer com ótimos filmes.

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