"What We Can Know", trad. Jorio Dauster, ed. Companhia das Letras, 2026 (original 2025).
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| Pelle Swedlund |
McEwan segue naquela que, para mim, é sua principal senda: as possibilidades e os limites da constituição de uma voz narrativa a partir das relações entre consciência e ficção.
Gosto bem mais da primeira metade do seu novo romance, ou seja, da sua capacidade de ambientação, de sugestão e de provocar a imaginação, alternando entre o passado e o presente da narrativa. O terço final, com a mudança da voz narrativa, flerta com uma prosa empobrecida e pretensiosa - embora isso se justifique, até certo ponto, por ser o relato escrito de uma personagem.
O capítulo 8 (pág. 65-78) é meu preferido, com a exploração das "variedades do silêncio" externo em confronto com a efervescência da mente de cada um dos personagens envolvidos na cena - me peguei pensando em Virginia Woolf, exímia exploradora desse tipo de abordagem, e não é por acaso que seu nome é expressamente citado (lembro que também pensei na prosa de Woolf num ponto de Reparação, quando a consciência de Briony assume certa plasticidade diante da interação entre ficção, mentira e realidade, e também naquele romance Virginia é expressamente citada). Mas isso ocorre especificamente no capítulo 8. No geral, senti algum parentesco com Aniquilação, de Michel Houellebecq, também um romance especulativo (embora num futuro muito mais próximo) em tom melancólico, à sombra de doenças terminais e da vida que ameaça tornar-se insuportável.
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| Paul Evans |
"Sabendo que certamente eu estaria errado, tinha imaginado que tipo de pessoa seria o nosso capitão. Alto, feições angulares, taciturno. Ou gorducho, barbudo, jovial. Fumava cachimbo. Eu estava certo. A pessoa que veio em nossa direção era magra, baixa e tinha cabelo escuro cortado bem curto." (pág. 206). Esse trecho aparentemente inócuo é exemplar de algo muito caro a McEwan, uma súmula de um princípio fundamental da sua cosmovisão, pois, por mais confusa que pareça a formulação, o significado de "eu estava certo" é que estava errado, como imaginara; o paradoxo socrático é intencional: "só sei que nada sei" encerra o sentido de "o que podemos saber". O nosso problema mais profundo não é que a realidade se mostre diferente do que esperamos/imaginamos/desejamos (ilusão e desilusão), mas que não tenhamos consciência de que parte substancial do que constitui o que chamamos de realidade é essencialmente fictício, na medida em que é constituído de desejos/expectativas/pressuspostos, e nada melhor do que a literatura de ficção para jogar com essa miséria da condição humana, torná-la interessante, desafiadora, inteligível, misteriosa, desesperadora, consoladora, desumana, bela, caótica - e é da relação entre a busca pelo poema mítico perdido e a inexorabilidade do ambiente natural e físico que o novo romance de McEwan extrai os principais embates entre fato e ficção.
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| Lorenzo Mattotti |
"Num dia quente de junho, Rose e eu fomos nadar depois de nossas últimas aulas. Era começo de noite e o ar imprimia uma sensação de calor e cremosidade em nossa pele. O cheiro de ervas e terra aquecida subia do terreno sob nossos pés descalços enquanto cruzávamos a encosta coberta de grama que levava à baía arenosa abaixo dos prédios onde moravam os professores. Passamos pelo posto de salvamento vazio, com seu único eucalipto. A praia, uma ampla ferradura de areia fina e rosa-amarelada, estava deserta, exceto por um grupo de estudantes que jogava vôlei a quase um quilômetro de distância, na ponta extrema onde começavam as falésias de calcário. Nos despimos e caminhamos pela areia de mãos dadas. Em geral, vou avançando de cinco em cinco centímetros. Naquela noite, a água tranquila fez uma carícia de boas-vindas e, quando atingi a profundidade suficiente, me entreguei a seu abraço. Nadamos algumas centenas de metros nos distanciando da praia, indo além das gramas marinhas e deslizando pelas águas translúcidas acima de uma ou outra tartaruga, rumo ao lugar onde sabíamos existir um banco de areia que não aflorava à superfície. Como a maré cheia estava em seu ponto médio, podíamos ficar de pé ali, com água à altura do peito. § Face a face e bem próximos, pusemos as mãos nos ombros um do outro. Sorríamos como dois imbecis. Ela disse depois que foi como se, de repente, tivéssemos nos lembrado de que não éramos apenas mentes, que também tínhamos corpos." (pág. 122-123)
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| Archip Kuindzi |
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| capa da edição |




