












ATENÇÃO: TEXTO REPLETO DE SPOILERS FUNDAMENTAIS!
Sinopse: Sean (Cameron Bright), um garoto de 10 anos de idade, dirige-se a Anna (Nicole Kidman) dizendo ser seu falecido marido. Posto à prova, demonstra saber de detalhes íntimos e segredos, conquistando a confiança e o amor da viúva, apesar do ceticismo dos demais parentes e amigos. Ao fim (SPOILERS!), revela-se que o garoto teve acesso a diversas cartas trocadas entre o casal.
1) "Birth", lamentavelmente intitulado "Reencarnação" no Brasil (bem melhor a solução portuguesa: "Birth - O Mistério"), foi lançado em 2004, dirigido pelo britânico Jonathan Glazer (Under the skin, Zona de Interesse), que escreveu o roteiro junto com o veterano (falecido em 2021) Jean-Claude Carrière (O Discreto Charme da Burguesia, A Bela da Tarde) e com Milo Addica. A trilha sonora original, soberba, é de Alexandre Desplat. Nicole Kidman, ainda mais soberba, mostra por que é uma das maiores atrizes da sua geração;
2) Revi o filme recentemente (pois tudo isso ficou reverberando em mim desde o primeiro visionamento), e não lembro de a palavra "reencarnação" constar em momento algum. Ainda que o conceito se imponha diante dos fatos, penso que a tradução não deveria ter forçado a barra. Ocorre que o filme é muito mais misterioso e amplo do que os supostos polos sugerem, entre mentira de um lado e reencarnação de outro, e é nesse sentido que quero chamar atenção para alguns detalhes importantes, que podem passar despercebidos ou serem interpretados com demasiada pressa;

3) O que leva o espectador a embarcar na narrativa de Sean (o menino) é a sequência inicial: narração em off de Sean (o adulto), seguida pelo momento da sua morte, seguida pela imagem de um bebê nascendo. Não creio que essa montagem seja mera manipulação para iludir o espectador. O fato é que o guri se chama mesmo Sean, assim como o falecido, e tem realmente 10 anos de idade, o mesmo tempo de viuvez de Anna. Isso, por si só, já é uma tremenda coincidência. Ainda por cima, o destino vai levar o jovem Sean por acaso a um "tesouro" enterrado, em que um outro Sean narra toda sua vida amorosa. Não é difícil entender que o garoto possa mesmo acreditar que se trata de uma predestinação, augúrio do além, reencarnação, ou seja lá como se queira chamar;
4) A mim parece claro que Sean de fato acreditava ser o marido renascido de Anna, e é importante enfatizar isso, para tornar menos simplista a redução a mentira ou manipulação, como ocorre em algumas resenhas. E o ato que o faz deixar de acreditar não é inquestionável; afinal, trata-se de mera narrativa da amante - quem garante que sua opinião implica necessariamente em Sean não amar de fato a esposa? Além do mais, o argumento de que o verdadeiro Sean procuraria ela antes da esposa, por acaso não foi o que de fato ocorreu? Que força foi aquela que fez o garoto segui-la parque adentro, sem saber quem ela era?
5) Agora o detalhe mais revelador, e que pode passar facilmente despercebido: o guri não tinha como saber onde Sean havia morrido, pois obviamente nenhuma das suas cartas poderia falar da sua própria morte. Quando Joseph (Danny Huston), o noivo de Anna, questiona sobre o local da morte, o jovem Sean responde dizendo que teve um déjà-vu - e tudo indica que essa resposta é sincera, já que não poderia constar nas cartas (como a fonte das suas informações só é revelada no final, acabamos nos esquecendo dessa impossibilidade). Também não pode ser uma furada do roteiro, pois o filme enfatiza a importância do local da morte (seja mostrando o fato ao espectador no início, seja repetindo a aparição do local como ponto de encontro entre o guri e Anna), e o fato de exatamente essa pergunta constar da confrontação entre Joseph e Sean é um sinal inequívoco de que os roteiristas nos deixaram a tarefa de acreditar no déjà-vu de Sean, o que eleva tudo a uma potência de mistério que transcende qualquer tentativa de reduzir o filme a uma mera narrativa de mentira e manipulação;

6) Há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia, e "Birth" reflete isso com classe, categoria, excelência, inteligência, emoção, tonalidades invernais e silencioso magnetismo;
7) O nascimento é um continente desconhecido, um milagre com o qual nos acostumamos - e o déjà-vu é outro;
8) A ficção é o jogo mais fascinante que a humanidade criou para envolver-se com os vastos continentes desconhecidos que compõem a "realidade", seja lá o que for isso;
9) Cinema é ficção, literatura é ficção, música é ficção, arte é ficção, amor é ficção, moral é ficção, alma é ficção, dinheiro é ficção, nacionalidade é ficção, nome é ficção, identidade é ficção. Sem ficção não se vive. Sean é a encarnação da ficção;
10) Não é bom ser iludido, porém não se vive sem ilusões - eis o dilema. Mas não são os mistérios que tornam a vida fascinante? Conformar-se às ilusões não é deixar de vivenciar o mistério da existência? Abrir-se à própria ignorância não é aceitar a presença do mistério? Há algum modo mais rico de lidar com isso senão mediante a ficção?
11) Por mais patética que se mostre a situação final de Anna, ainda nos colocamos mais próximos dela do que daqueles impassíveis parentes, tão arrogantes no seu ceticismo, anestesiados diante dos mistérios da vida e da morte. Anna e Sean fazem par com os Dons Quixotes e Emmas Bovarys que povoam nossas histórias, com esses estranhos fenômenos "falsos", "imaginários", "fictícios" que, no entanto, parecem mais verdadeiros do que as pessoas "reais";

12) O olhar intenso de Anna diante do espetáculo (ópera de Wagner, se não me engano), que permanece fora de campo - é a grande cena do filme, não apenas por dar acesso ao interior da personagem (mais uma vez, palmas para Kidman), mas por ser isso: um olhar diante de uma encenação, de um palco, de uma ficção, ou seja, um olhar espelhado, que reflete a ficção dentro e fora da "realidade";
13) A cena final mostra uma série de crianças, Sean entre elas, posando para fotos escolares, abrindo falsos sorrisos - não são todas elas ficções de si próprias? Não somos todos falsos? Nobres e patéticos como Dom Quixote, Emma Bovary, Anna (a Karênina e a de Nicole Kidman)...
14) Ao fim e ao cabo, "Birth" nos lembra, simultaneamente, de como é absurda a importância que damos às ficções, e de que como é ainda mais absurdo supor que não acreditamos em ficção alguma. E que, talvez, um bom modo de lidar com esse dilema seja prestar muita atenção nas ficções que se assumem como tais, e não tanto naquelas que são automaticamente incorporadas como sendo reais.

"What We Can Know", trad. Jorio Dauster, ed. Companhia das Letras, 2026 (original 2025).
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| Pelle Swedlund |
McEwan segue naquela que, para mim, é sua principal senda: as possibilidades e os limites da constituição de uma voz narrativa a partir das relações entre consciência e ficção.
Gosto bem mais da primeira metade do seu novo romance, ou seja, da sua capacidade de ambientação, de sugestão e de provocar a imaginação, alternando entre o passado e o presente da narrativa. O terço final, com a mudança da voz narrativa, flerta com uma prosa empobrecida e pretensiosa - embora isso se justifique, até certo ponto, por ser o relato escrito de uma personagem.
O capítulo 8 (pág. 65-78) é meu preferido, com a exploração das "variedades do silêncio" externo em confronto com a efervescência da mente de cada um dos personagens envolvidos na cena - me peguei pensando em Virginia Woolf, exímia exploradora desse tipo de abordagem, e não é por acaso que seu nome é expressamente citado (lembro que também pensei na prosa de Woolf num ponto de Reparação, quando a consciência de Briony assume certa plasticidade diante da interação entre ficção, mentira e realidade, e também naquele romance Virginia é expressamente citada). Mas isso ocorre especificamente no capítulo 8. No geral, senti algum parentesco com Aniquilar, de Michel Houellebecq, também um romance especulativo (embora num futuro muito mais próximo) em tom melancólico, à sombra de doenças terminais e da vida que ameaça tornar-se insuportável.
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| Paul Evans |
"Sabendo que certamente eu estaria errado, tinha imaginado que tipo de pessoa seria o nosso capitão. Alto, feições angulares, taciturno. Ou gorducho, barbudo, jovial. Fumava cachimbo. Eu estava certo. A pessoa que veio em nossa direção era magra, baixa e tinha cabelo escuro cortado bem curto." (pág. 206). Esse trecho aparentemente inócuo é exemplar de algo muito caro a McEwan, uma súmula de um princípio fundamental da sua cosmovisão, pois, por mais confusa que pareça a formulação, o significado de "eu estava certo" é que estava errado, como imaginara; o paradoxo socrático é intencional: "só sei que nada sei" encerra o sentido de "o que podemos saber". O nosso problema mais profundo não é que a realidade se mostre diferente do que esperamos/imaginamos/desejamos (ilusão e desilusão), mas que não tenhamos consciência de que parte substancial do que constitui o que chamamos de realidade é essencialmente fictício, na medida em que é constituído de desejos/expectativas/pressuspostos, e nada melhor do que a literatura de ficção para jogar com essa miséria da condição humana, torná-la interessante, desafiadora, inteligível, misteriosa, desesperadora, consoladora, desumana, bela, caótica - e é da relação entre a busca pelo poema mítico perdido e a inexorabilidade do ambiente natural e físico que o novo romance de McEwan extrai os principais embates entre fato e ficção.
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| Lorenzo Mattotti |
"Num dia quente de junho, Rose e eu fomos nadar depois de nossas últimas aulas. Era começo de noite e o ar imprimia uma sensação de calor e cremosidade em nossa pele. O cheiro de ervas e terra aquecida subia do terreno sob nossos pés descalços enquanto cruzávamos a encosta coberta de grama que levava à baía arenosa abaixo dos prédios onde moravam os professores. Passamos pelo posto de salvamento vazio, com seu único eucalipto. A praia, uma ampla ferradura de areia fina e rosa-amarelada, estava deserta, exceto por um grupo de estudantes que jogava vôlei a quase um quilômetro de distância, na ponta extrema onde começavam as falésias de calcário. Nos despimos e caminhamos pela areia de mãos dadas. Em geral, vou avançando de cinco em cinco centímetros. Naquela noite, a água tranquila fez uma carícia de boas-vindas e, quando atingi a profundidade suficiente, me entreguei a seu abraço. Nadamos algumas centenas de metros nos distanciando da praia, indo além das gramas marinhas e deslizando pelas águas translúcidas acima de uma ou outra tartaruga, rumo ao lugar onde sabíamos existir um banco de areia que não aflorava à superfície. Como a maré cheia estava em seu ponto médio, podíamos ficar de pé ali, com água à altura do peito. § Face a face e bem próximos, pusemos as mãos nos ombros um do outro. Sorríamos como dois imbecis. Ela disse depois que foi como se, de repente, tivéssemos nos lembrado de que não éramos apenas mentes, que também tínhamos corpos." (pág. 122-123)
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| Archip Kuindzi |
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| capa da edição |