06 maio 2026

Sade e Milton Nascimento

 


Me chamou a atenção a semelhança (homenagem?) entre as capas de Love deluxe (Sade, 1992) e de Nascimento (Milton Nascimento, 1997).

1984

1997

Aí resolvi brincar com todas as capas dos discos de estúdio da Sade, buscando um paralelo nas capas do Milton...

1985

1975

porque adoro o som de ambos...

1988

1976

porque, em tempos de streaming, é oportuno prestar mais atenção nas capas...

2000

1967


e porque ambos são belos e fotogênicos.

2010

1973

Começamos com os artistas nus, terminamos com eles de costas - o que talvez seja ainda mais ousado. 

Sabe Deus quando (e se) Sade vai lançar outro álbum, para que eu possa continuar a brincadeira. Encerro, então, com fotos que, não sendo capas, são ótimos retratos:




03 maio 2026

Impressões sobre CIDADES DA PLANÍCIE, de Cormac McCarthy

"Cities of the Plain", original publicado em 1998, trad. José Antonio Arantes, ed. Alfaguara, 2024.

Andrew Wyeth

Se Todos os belos cavalos é ótimo e A Travessia é estupendo, o encerramento da trilogia da fronteira me pareceu menos interessante, talvez por se sustentar mais em diálogos, recurso que penso não ser o ponto forte de McCarthy, além de colocar em cena vários personagens interagindo, outro terreno que o autor não percorre com tanta destreza. Ainda assim, funciona muito bem como arremate final do ciclo de romances, especialmente pelas sequências do desfecho - primeiro o longo diálogo acerca do sonho dentro do sonho, trazendo para aquele universo algo de kafkiano e de borgeano, abrindo perspectivas de uma metanarrativa que delineia a parceria entre leitor e autor como ato criador de uma densa e enigmática realidade, e por fim com a derradeira cena de acolhimento a um idoso Billy Parham, contrastando com o que ele fizera com o cão velho no final de A Travessia.

Gino Covili

Fortes impressões:

A sabedoria dos cavalos, e o respeito que os homens lhes devem.

Os longos e lisos e negros e irresistíveis cabelos da musa mexicana.

Glenn Dean

"Uma noite a gente estava no rio Platte afastado de Ogallala e eu estava dormindo metido no meu soogan longe do acampamento. Era uma noite de luar assim como esta. Fria. Primavera. Acordei e penso que ouvi eles enquanto dormia e tinha essa baita som de cochicho em toda parte e eram gansos aos milhares voando rio acima. Foram passando por quase uma hora inteira. Escureceram a lua. Pensei que o bando ia fugir mas não. Me levantei e caminhei e fiquei observando eles e alguns dos outros boiadeiros jovens também se levantaram com as roupas que vestiam e estava todo mundo de ceroulas lá de pé observando. Era só esse som de cochicho. Eles estavam bem no alto e não faziam barulho nem nada e eu não podia imaginar que uma coisa daquela ia acordar a gente como acordou." (pág. 121)

Thomas Hart Benton

Uma associação talvez despropositada, mas curiosa: desde A Travessia que a busca dos irmãos pelos cavalos já me fizera lembrar do conto taoísta narrado bem no início da novela de Salinger (Pra cima com a viga, moçada!), lembrança reforçada agora quando Billy rememora a familiaridade do falecido irmão Boyd com os cavalos, ecoando Buddy referindo-se a Seymour Glass: "não consigo pensar em ninguém mais como ele, para ir procurar cavalos". Não bastasse isso, a ternura comovente da cena final, em que um alquebrado e velho Billy é acolhido no lar de uma família de desconhecidos, quando diz "eu não sou ninguém" e ouve que "eu sei quem o senhor é", me fez lembrar da figura da Senhora Gorda, imagem metafórica criada pelos irmãos Glass (em Franny & Zooey) para referir-se a uma pessoa desconhecida, desamparada e solitária, mas que de alguma forma compartilha da mesma existência, do mesmo momento, da mesma vida - e que, em última análise, é o próprio leitor.

 Maynard Dixon

Frederic Remington

capa da edição