03 abril 2011

Prazer pela crise, beleza do caos


Umberto Eco em Obra Aberta (ed. Perspectiva, pág. 137-138):

"um estímulo apresenta-se à atenção do fruidor como ambíguo, inconcluso, e produz uma tendência a obter satisfação: em suma, provoca uma crise, de maneira a obrigar o ouvinte a procurar um ponto firme que o ajude a resolver a ambigüidade. Em tal caso surge uma emoção, pois a tendência a uma resposta é imprevistamente estancada ou inibida; se a tendência fosse satisfeita, não haveria explosão emotiva. [...] Esse jogo de inibições e de reações emotivas intervém para dotar de significado o discurso musical: pois, enquanto na vida cotidiana se criam diversas situações de crise que não são resolvidas e se dispersam acidentalmente tal como surgiram, na música a inibição de uma tendência torna-se significante na medida em que a relação entre tendência e solução se faz explícita e se conclui. Pelo simples fato de concluir-se, o círculo 'estímulo - crise - tendência que surge - satisfação sobrevinda - restabelecimento da ordem' adquire significado. 'Na música o próprio estímulo, a música, ativa as tendências, inibe-as e lhes fornece soluções significantes'.

[...] Há no ouvinte a exigência de que o processo se conclua de maneira simétrica e se organize do melhor modo possível, em harmonia com certos modelos psicológicos [...]. Uma vez que a emoção nasce do bloqueio da regularidade, a tendência à boa forma, a memória de experiências formais passadas intervêm no ouvir para criarem, perante a crise que surge, expectativas: previsões de solução, prefigurações formais nas quais a tendência inibida se resolve. Perdurando a inibição, emerge um gosto da expectativa, quase um sentido de impotência perante o desconhecido: e quanto mais inesperada é a solução, mais intenso o prazer quando ela se verifica. Portanto, se o prazer é dado pela crise, está claro [...] que as leis da forma, ainda que sejam base da compreensão musical, somente regulam o discurso como conjunto se forem continuamente violadas ao longo do desenvolvimento; e a expectativa do ouvinte não é expectativa de resultados óbvios, mas de resultados dessuetos, de violações da regra que tornam mais completa e conquistada a legalidade final do processo."


De: | Criado em: 22/09/2006
a symphony of colour, painting with light -
music by Erik Satie [Gnossienne nº 1], piano : Branka Parlic, film and concept by me

STATEMENT

Artists Films - CHAOS

Every year Ginny and I go down to the Goose Fair to walk around and soak up the atmosphere, smell the air, see the spectacle. Its a rough, noisy, angry, smelly thing.
It stimulates and excites but it doesnt satisfy.

I have photographed it many times and tried, and failed, to paint it with traditional materials. Knowing that digital video and computer editing programmes were becoming available at affordable prices, I felt that video would be the way to capture the chaotic experience, to reveal the underlying beauty of the modern fairground.

Painting with light.

Chaos is, of course, not what we have here.
The title is convenient but ironic.
What we are presented with is the opposite of chaos - symmetry.
Where the fairground is brash - a cacophony of visual and aural noise, -
Here we have a nocturne -
Sympathy, music, light and movement together, grace, order, beauty.

Just as the Impressionist painters sought the impression of light and the Futurists of speed, and just as they took their new technology (still cameras) to the races, the boulevards, the circus, the fair, so here a painter is again using the latest technology to create visual art.

This time, though, no rushing back to the studio to paint in oil colour from the photographs, Here the light itself is the painting, the pigments move, pulsate, blend.
The colours spin and rotate, come and go, erupt and subside but they never stand still.

Order from Chaos, harmony from discord.

The artists remit -
Simplify, reveal, portray.

Impressionism meets futurism at the speed of light -

- A Symphony of Colour,
Whistler would have approved.

02 abril 2011

A música, em todo caso...

A música, sim a música...
Piano banal do outro andar.
A música em todo o caso, a música..
Aquilo que vem buscar o choro imanente
De toda a criatura humana
Aquilo que vem torturar a calma
Com o desejo duma calma melhor...
A música... Um piano lá em cima
Com alguém que o toca mal.
Mas é música...

Ah quantas infâncias tive!
Quantas boas mágoas?,
A música...
Quantas mais boas mágoas!
Sempre a música...
O pobre piano tocado por quem não sabe tocar.
Mas apesar de tudo é música.

Ah, lá conseguiu uma música seguida —
Uma melodia racional —
Racional, meu Deus!
Como se alguma coisa fosse racional!
Que novas paisagens de um piano mal tocado?
A música!... A música...!

Álvaro de Campos - aquele Pessoa...


30 março 2011

parágrafo

[como despertar a memória usando palavras impressas]

"Houve uma rápida visão de azul, lembrava-se, e alguém sentado com ele rira, capitulara, e ele ficara muito zangado. Devia ter sido sua mãe, pensou, sentada numa espreguiçadeira, enquanto seu pai ficara de pé atrás dela. Começou a procurar por entre a série infinita de impressões que o tempo, folha por folha, dobra após dobra, suave e incessantemente, depositara em seu cérebro; por entre odores e sons; vozes ásperas, graves, doces; e luzes passando, vassouras batendo; e o marulho e o silêncio do mar, e como um homem andava de um lado para outro, se detendo de repente e se postando imóvel atrás deles."

"Passeio ao Farol" de Virginia Woolf, tradução de Luiza Lobo, editora Riográfica, pág. 171

29 março 2011

Quem tem medo de Virginia Woolf?

 
Cena do filme À Deriva




Milton Ribeiro lembrou dos 70 anos da morte de Virginia Woolf, ontem.

Hoje, é dia de relembrar que a obra continua viva, e muito. Relembrar e comemorar.

Passeio ao Farol é leitura do mais puro e genuíno enlevo, e lá estão elencadas algumas imagens que são de vida simples e gostosa de ser vivida:

"símbolos usuais da bondade divina - o pôr-do-sol sobre o mar, a palidez da aurora, o nascer da lua, os barcos de pesca contra o luar, as crianças atirando-se nos montes de grama - [...] essa alegria, essa serenidade. [...] Sonho de compartilhar, de completar, de encontrar sozinho, na praia, uma resposta"





crianças de Cabo Verde
 


Também se faz sentir o poder-sem-nome que provoca a meditação angustiada:

"Então, deixando os olhos deslizarem imperceptivelmente pela poça e descansarem na ondulante linha entre o céu e o mar, nos troncos das árvores que a fumaça dos navios a vapor fazia tremerem acima do horizonte, ficou hipnotizada por todo esse poder que se contraía selvagemente e inevitavelmente se alastrava. E os dois sentidos, de amplidão e de insignificância, florescendo dentro da poça (que diminuíra outra vez), faziam-na se sentir com os pés e as mãos amarradas e incapaz de se mover devido à intensidade de sentimentos que reduziam seu próprio corpo, sua própria vida e as vidas de todas as pessoas do mundo, para sempre, ao nada. Assim, ouvindo as ondas, de cócoras diante da poça, ela meditava".



Mente tão sensível como a de Virginia não poderia mesmo resistir a tamanho fluxo de vida. Cada palavra contém um centro gravitacional irresistível, onde transitam, contemplando-se orgulhosos, o deleite da memória, a fugacidade do instante, a melancolia da vida.

ilha de Lesbos, Grécia
"Ela não queria dizer alguma coisa, mas tudo. [...] A premência do momento sempre fazia as palavras perderem seu objetivo. Elas se alvoroçavam e acabavam atingindo o alvo algumas polegadas abaixo. Então, desistia-se; a idéia era de novo esquecida; e passava-se a ser como a maioria das pessoas de meia-idade: cauteloso, furtivo, com rugas entre os olhos e um olhar de perpétua apreensão. Pois como se poderia expressar em palavras essas emoções do corpo? Como expressar aquele vazio ali? (Olhava a escada da sala de visitas, que parecia extraordinariamente vazia). Era uma sensação do corpo, não da mente. As sensações físicas que acompanhavam a visão dos degraus vazios se tornavam extremamente desagradáveis. O querer e não ter transmitia a todo o seu corpo uma insensibilidade, um vazio, uma tensão. Querer e não ter - querer e querer - como isso atormentava seu coração!"

pintura de Edward Hopper

WOOLF, Virginia. Passeio ao Farol. Trad. Luiza Lobo. Riográfica, 1987.

26 março 2011

O que pode ser mostrado não pode ser dito


pintura de Jackson Pollock


Certa vez, após apresentar um concerto em Roma, John Cage foi repreendido por uma velha senhora, que foi ao seu encontro para dizer-lhe que sua música era escandalosa, repugnante e imoral, ao que o músico respondeu: "Era uma vez, na China, uma senhora belíssima que fazia enlouquecer todos os homens da cidade; certo dia, caiu nas profundezas de um lago e assustou os peixes".

Quem nos conta é Umberto Eco em Zen e Ocidente, um dos magníficos ensaios de Obra Aberta. O estudioso italiano considerava, àquela altura de 1959, que a onda Zen que varria o Ocidente tinha na vanguarda musical o seu mais fértil campo. Eco pinta Cage com cores de divertida dissonância:

"Mas onde a influência Zen se fez sentir de maneira mais sensível e paradoxal foi na vanguarda musical norte-americana. Referimo-nos em especial a John Cage, a figura mais discutida da música norte-americana (sem dúvida, a mais paradoxal de toda a música contemporânea), o músico com que muitos compositores pós-weberianos e eletrônicos estão freqüentemente em polêmica, sem poder subtrair-se à sua fascinação e ao inevitável magistério de seu exemplo. Cage é o profeta da desorganização musical, o sumo-sacerdote do acaso: a desagregação das estruturas tradicionais, que a nova música serial procura com uma decisão quase científica, encontra em Cage um eversor desprovido de qualquer inibição. [...] A quem o interpela a respeito das finalidades de sua música, Cage responde citando Lao Tsé e advertindo o público de que só se chocando com a completa incompreensão e medindo a própria estultice ele poderá colher o profundo sentido do Tao. A quem lhe objeta que sua música não é música, Cage responde que, com efeito, não pretende fazer música; a quem propõe questões demasiado sutis, a resposta é o pedido para repetir a pergunta: se a pergunta for repetida, pede que se repita mais uma vez a questão; ao terceiro pedido de repetição, o interlocutor toma consciência de que a expressão: 'Por favor, quer repetir a pergunta?' não constitui um pedido mas a própria resposta à pergunta. Na maioria das vezes, Cage prepara, para seus contraditores, respostas pré-fabricadas, boas para qualquer pergunta, visto que querem ser desprovidas de sentido. O ouvinte superficial se satisfaz ao pensar em Cage como num blefador que nem mesmo é muito hábil, mas suas constantes referências às doutrinas orientais deveriam alertar-nos a seu respeito: antes de ser visto como músico de vanguarda, deve ser encarado como o mais inopinado dos mestres Zen, e a estrutura de seus contraditores é perfeitamente idêntica à dos mondo, as típicas perguntas com respostas absolutamente casuais, com que os mestres japoneses levam os discípulos à iluminação. No plano musical pode-se discutir efizcamente a respeito do destino da nova música, se reside no completo abandono à felicidade do acaso ou na disposição de estruturas 'abertas', todavia orientadas segundo módulos de possibilidade formal: mas no plano filosófico, Cage é intocável, sua dialética Zen perfeitamente ortodoxa, sua função de pedra de escândalo e de estimulador das inteligências sopitadas, inigualável. E é o caso de perguntar se ele está contribuindo para o esoterismo Zen ou para o campo musical, procurando uma lavagem mental de hábitos musicais adquiridos."

Eco prossegue na identificação de elementos Zen na cultura ocidental, passando pelo dadaísmo, surrealismo, Ionesco, Beckett, chegando aos filósofos existencialistas, especialmente em Wittgenstein. "Há em Wittgenstein a renúncia à filosofia como explicação total do mundo. [...] As proposições linguísticas não interpretam o fato, nem tampouco o explicam: elas o 'mostram', indicando e reproduzindo fielmente suas conexões. Uma proposição reproduz a realidade como se fora uma das muitas projeções dela, mas nada pode ser dito acerca do acordo entre os dois planos: esse somente pode ser mostrado."

De Cage a Wittgenstein, da música de vanguarda ao existencialismo, Eco identifica a recusa a enrijecer o mundo com explicações, numa postura de fundamentos caros ao Zen. Cita o exemplo do monge, de simplicidade estarrecedora: ao discípulo que o interrogava sobre o significado das coisas, o monge responde erguendo o cajado; o discípulo explica com muita sutileza teológica o significado do gesto, mas o monge contesta que a explicação é demasiado complexa. O discípulo pergunta então qual é a exata explicação do gesto. O monge responde erguendo novamente o cajado.

Eco não alimenta ilusões, adverte que a relação entre o Zen e a cultura ocidental é mais problemática do que os exemplos acima fazem acreditar. O que poderíamos dizer hoje da nossa cultura ocidental, 52 anos depois destas palavras de Eco? "Repentinamente, alguém encontrou o Zen; avalizada por sua venerável idade, essa doutrina vinha ensinando que o universo, o todo, é mutável, indefinível, fugaz, paradoxal; que a ordem dos eventos é uma ilusão de nossa inteligência esclerosante, que toda tentativa para defini-la e fixá-la em leis está condenada ao fracasso... Mas que justamente na plena consciência e aceitação alegre dessa condição está a extrema sabedoria, a iluminação definitiva; e que a crise eterna do homem não surge porque ele deve definir o mundo e não o consegue, mas porque quer defini-lo e não deve."

Eco não acreditava muito em que o ocidental pudesse renunciar ao desejo de definir o mundo. Cage e os existencialistas seriam exceções? O conflito está aí, ao nosso redor e dentro de nós, em cada esquina, em cada blog, em cada vida.


red pill or blue pill?


24 março 2011

Eu tenho meu útero

Eu conheço apenas uma única situação que me dá contentamento (isto, talvez, seja mentira, mas cai bem aqui): o útero. De resto, é como disse o poeta-Pessoa,

E falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, uma frase,
E a vida dói, quanto mais se goza e quanto mais se inventa.

Eu sei reviver o útero, meus amigos, e isso também dói, porque paga-se o preço do isolamento, da solidão profunda. Mas o útero é a solidão perfeita, porque em sintonia com aquele som abafado e reconfortante, um pouco assustador às vezes, do coração da mãe (mãe-mundo). Literalmente mergulhado num caldo de som e de contentamento; nada mais, nada, nada... só o som e o contentamento.

Mas eu dizia que sei reviver o útero, que sei superar a sina de peixe fora d'água que acompanha toda criatura humana.

Estou contente, nada me falta: chegou uma chuva suave lá fora, enquanto aqui dentro chovem Vitor Ramil e Sigur Rós, me devolvendo ao útero úmido do contentamento.

Ouçam... ouçam... é o milagre de estar contente! (só funciona com fone de ouvido)


clipe com gostosíssimas imagens tendo por trilha All Allright, da banda islandesa Sigur Rós
Créditos para Marco Aslan


a mesma música rendeu um enredo que não ficou ruim
Créditos para myhairisprettykewl



Longes, de Vitor  Ramil


Atalho para o contentamento: discografia Sigur Rós
(recomendo o disco de 1999 e o último, de 2008, cujas últimas faixas estão entre as melhores reproduções uterinas que conheço)

23 março 2011

Como um sonho atravessa o mundo

O jornal aqui da província de Novo Hamburgo traz a seguinte matéria na edição de hoje: "Filme protagonizado por Breno Mello inspira Obama". Breno Mello, ator principal do famoso filme Orfeu Negro (1959), era jogador de futebol e viveu por estas bandas, ainda habitadas por seus familiares. Obama relembrou o filme em discurso na sua visita ao Brasil. Mas este é um detalhe provinciano (e a matéria é ruim), o que interessa é a história, belíssima, que liga as raízes afetivas do presidente dos EUA à rica fonte de cultura do Brasil.

Conheci essa história pelo meio mais vivo e quente, creio, e gostaria de compartilhá-la. Ela está muito bem narrada por José Miguel Wisnik, em aula-show do Instituto Moreira Salles sobre a canção brasileira. Não, eu não estou fugindo do assunto: a canção brasileira chega ao filme Orfeu Negro, via Vinícius de Moraes, principalmente, grande idealizador do projeto; de Orfeu Negro vamos à mãe de Obama, que assistiu o filme quando jovem e ficou encantada, tanto que, décadas depois, levou o filho Barack ao cinema; do encontro na sala escura entre o jovem Barack, sua mãe e aquele caldo de cultura brasileira de Orfeu Negro, nasceu uma compreensão que é dessas coisas raras da vida.

E o mérito é todo de Barack Hussein Obama, que, para lá de ser o primeiro presidente negro dos EUA, é um sujeito que conquistou minha simpatia por este episódio, narrado em sua autobiografia (um parêntese: Obama autobiografou-se quando ainda era jovem, tinha apenas galgado alguns degraus de destaque na Universidade de Harvard e nem sequer havia iniciado na carreira política!). A figura-chave deste conto (vamos chamar assim) é, na verdade, a mãe de Obama, cuja trajetória peculiar começa pelo próprio nome: Stanley Ann - aqui mais detalhes da interessante vida desta antropóloga branca do Kansas.

Cliquem aqui, seus impacientes cibernéticos, e calem-se uma vez na vida para ouvir uma boa história; aos mais afoitos, recomendo que avancem a barra de tempo até a marcação de 04:05, que é quando começa propriamente esta breve e bela narração.

E então entenderão quão poético é o exagero de dizer que o primeiro presidente negro dos EUA nasceu do sonho de Vinícius de Moraes.


Cena do filme Orfeu Negro

Eu, se fosse você, prosseguiria escutando as aulas-show do site do IMS, intituladas "O Fim da Canção", banho de interpretação sobre aspectos da canção popular brasileira, com destaque para a Bossa Nova, Caymmi e o Tropicalismo.

22 março 2011

parágrafo

[como despertar os sentidos usando palavras impressas]

"Deixando a penumbra vermelha do subsolo, Lenina Crowne bruscamente subiu dezessete andares, virou à direita ao sair do elevador, meteu-se por um corredor comprido e, abrindo uma porta assinalada VESTIÁRIO DAS MOÇAS, mergulhou num caos atordoante de braços, bustos e lingeries. Torrentes de água quente enchiam cem banheiras, respingavam ou delas se escoavam com um gorgolejar ruidoso. Roncando e sibilando, oitenta aparelhos de massagem a vibro-vácuo sacudiam e sugavam simultaneamente a carne firme e tostada de oitenta soberbos espécimes femininos. Todas falavam a plenos pulmões. Uma máquina de Música Sintética trinava um solo de supertrombone de pistão."

"Admirável mundo novo" de Aldous Huxley, tradução de Lino Vallandro e Vidal Serrano, editora Globo, pág. 74-75

tem cheiro, cor, som, movimento, até gosto - só falta poder agarrar essa mulherada

20 março 2011

Fukushima: admirável mundo novo


Em 1946, Aldous Huxley faz um prefácio à “Admirável Mundo Novo”, obra sua de 1931. O autor evita desqualificar seu romance em virtude de defeitos que seriam próprios da imaturidade. Recusa o remorso e busca identificar a validade dos prognósticos sobre o futuro, o que julga essencial num romance futurista. Refletindo sobre este aspecto da obra, quinze anos depois, admite: “Uma enorme e óbvia falha de previsão é imediatamente visível. Admirável mundo novo não contém nenhuma referência à fissão nuclear”. Justifica a omissão e passa a expor suas expectativas para o futuro, onde tem lugar destacado a ameaça de guerra atômica e a consequente hecatombe nuclear, ou, de forma menos pessimista (?), o domínio de sistemas totalitários sustentados pela energia nuclear aplicada em fins industriais.

O prefácio se estende no exercício de prognosticar a tragédia do futuro, até dar lugar à obra em si; esta, ainda no seu primeiro capítulo, contém uma referência curiosa. Os administradores do Centro de Incubação e Condicionamento explicam aos alunos visitantes todo o processo de produção em série de seres humanos, a partir de engenhosos mecanismos biogenéticos. As pessoas são geradas em conformidade com as necessidades de manutenção do sistema social:

                - Tantos indivíduos, de tal e tal qualidade – disse o Sr. Foster.
                - Distribuídos em tais e tais quantidades.
                - O Índice de Decantação ideal a qualquer momento.
                - As perdas imprevistas prontamente compensadas.
                - Prontamente – repetiu o Sr. Foster. – Se os senhores soubessem quantas horas suplementares tive de fazer depois do último terremoto no Japão!

É um comentário despretensioso e aparentemente¹ sem desdobramentos na história. Coloca um germe de instabilidade naquele processo hermeticamente ordenado; o terremoto, manifestação indomável da imprevisibilidade da natureza, perturba a perfeição do nosso sistema social.

No distante futuro imaginado por Huxley, as placas tectônicas continuam se movendo poderosamente (pelo menos sob o Japão); a ameaça nuclear, mesmo objetivamente negada, continua pairando no inconsciente coletivo. E os homens continuam aferrados a uma fracassada esperança de uma catástrofe definitiva.

Hiroshima foi o começo dessa história.
Fukuyama² foi o “fim da história”.
Fukushima, o que será?

Admirável Mundo Novo.

Notas
1. Digo aparentemente pois estou em plena leitura.
2. Fukuyama – filósofo e economista político nipo-americano – desenvolveu uma linha de abordagem da História, desde Platão até Nietzsche, passando por Kant e Hegel, a fim de revigorar a teoria de que o capitalismo e a democracia burguesa constituem o coroamento da história da humanidade. Na sua ótica, após a destruição do fascismo e do socialismo, a humanidade, à época, teria atingido o ponto culminante de sua evolução com o triunfo da democracia liberal ocidental sobre todos os demais sistemas e ideologias concorrentes. Em oposição à proposta capitalista liberal, restavam apenas os vestígios de nacionalismos (sem possibilidade de significarem um projeto para a humanidade) e o fundamentalismo islâmico (restrito ao Oriente e a países periféricos). Desse modo, diante da derrocada do socialismo, o autor concluiu que a democracia liberal ocidental firmou-se como a solução final do governo humano, significando, nesse sentido, o "fim da história" da humanidade. Fonte: Wikipédia
3. Todas as imagens são da tragédia de 11 de março no Japão, retiradas do excelente blog fotográfico The Frame


18 março 2011

Cisne Negro: espetáculo das sombras na caverna

Os críticos de matizes progressistas têm grande dificuldade em aceitar o fato de um filme ser um espetáculo. A síndrome platônico-socrática os conduz sempre para fora da caverna, para a realidade solar, de modo que vêem o espetáculo sempre pelo lado de fora, deixando de vivenciá-lo realmente, intensamente, sensorialmente, como ocorre com o abismado espectador da caverna-cinema (ou cinema-caverna?). Procuram argumentos quando o que se exige é deixar-se seduzir pelos sentidos. Entendem que isso seja uma desvantagem, quando é, na verdade, o sentido primeiro e fundamental da arte: o prazer.
Resta aos pássaros que alçam voos diante de abismos encontrarem um lugar para pousar. O terrível Cisne Negro guia-se por imponente vigor, ousa confrontar o sol e projeta sua sombra surreal sobre o espectador.
Cisne Negro é o espetáculo da coragem desentranhando-se do ventre repressor. O desabrochar da flor mais bela e terrível. O triunfo da fantasia sobre as pequenezas reais. A exuberância do som e da fúria. E sendo assim, é a experiência concreta do prazer de sentar numa sala escura, diante de uma tela imensa e envolto em poderoso som. O adjetivo espetacular serve aqui com o devido valor.
Sou seu cúmplice, cisne famigerado. Confesso, eu me deixei levar por sua coragem inaudita, e matei minha realidade só para vivenciar contigo o prazer da fantasia mais perversa se realizando. Ora, como se realiza o que não é real? Como pode uma fantasia confundir-se com a pele? Como se derruba a barreira ilusória entre o bem e o mal? De onde vem a coragem da metamorfose?
São estas as perguntas de Aronofsky, alimentadas pelo balé de Tchaikovsky e pela trilha sonora de Clint Mansell.
Sim, há o exagero no uso dos efeitos especiais; há a insuficiência de Vincent Cassel; há a lamentável participação de Winona Ryder. Pro diabo com tudo isso, o filme é apaixonante. Sai-se da sala escura pronto a matar os últimos anjos da inocência que habitam nosso interior. Recomenda-se asas abertas à obsessão.