04 agosto 2026

parágrafo [O FIM DA HISTÓRIA, de Lydia Davis]

Benjamin Esposito

[Três formas de tomar distância, de isolar-se, de alhear-se, ou seja, de dar forma estética à consciência]:

[1. momento-ilha / olhar retrospectivo / reviver é melhor do que viver]

"Esse me pareceu, de certa maneira, o melhor momento de todos, quando tudo mal tinha começado. Quando abríssemos a segunda garrafa de cerveja, estaríamos abrindo também tudo o que viria, o fim do outono e todo o inverno, mas enquanto permanecíamos sentados sem abri-la estávamos numa espécie de ilha, e toda a felicidade se estendia à nossa frente, sem começar até que abríssemos a segunda garrafa de cerveja. Não consegui enxergar isso no momento, porque não sabia o que se seguiria, mas mais tarde pude olhar para trás e ver.
Olhar aquela noite em retrospectiva era quase melhor do que vivê-la pela primeira vez, porque o tempo não passava rápido demais e fugia ao controle, eu não precisava me preocupar com meu papel e não me deixava distrair pelas dúvidas, porque sabia o que aconteceria no fim das contas. Revivi aquilo tantas noites que tudo deve ter acontecido apenas para que eu pudesse reviver depois." (pág. 24)

Nicolás Uribe

[2. absurdo / escuridão e vazio / observar-se de fora]

"Pela hora tão avançada, ou pelo absurdo do que eu estava fazendo, minha falta de dignidade, o fato de ter tirado a camisola e voltado às minhas roupas para fazer isso, ou por alguma outra razão, quando cheguei à curva comprida e larga da estrada ao redor do estacionamento da pista, seguindo em direção ao acampamento de trailers e vendo, a distância, a estrada com seus pares de luzes amarelas descendo a costa e de luzes vermelhas subindo, e pude ver bem no alto um trem vindo para o sul, com seu único farol e seus dois longos dentes de luz refletida brilhando para mim através dos trilhos, sem nada a não ser escuridão e vazio de ambos os lados, camadas e camadas de tons diferentes de escuridão e vazio, luz suficiente apenas para ver a lateral escura da montanha atrás da cerca de arame farpado, atrás do chão arenoso, atrás do canal de água escura, senti que já não estava observando essa paisagem, e sim que ela me observava: eu eгa a única coisa móvel exatamente ali, naquele espaço vazio, e de repente me voltei para mim mesma, como se refletida na paisagem, e me forcei a ver o que estava fazendo naquele momento." (pág. 83-84)

Anne Magill

[3. vidro, tanto vidro]

"Esse homem me dava instruções, embora com gentileza, e eu fiquei ali deitada pensando que tudo começava a parecer uma operação distante, mecânica. Havia tanto vidro no caminho, pensei, como se eu estivesse de óculos, ali na cama, e estivesse vendo tudo muito claramente, ou como se tivesse um microscópio e pudesse ver muito de perto, com muitos detalhes, com muita ciência, ou como se o observasse se juntando a mim atrás da vitrine de uma loja, abaixo de uma luz fluorescente, ou como se houvesse lâminas de vidro entre nós, entre todas as partes dos nossos dois corpos, entre nossas duas peles quando se encontravam, de modo que, enquanto eu via tudo com tanta clareza, não conseguia sentir nada, ou talvez apenas algo macio e frio.
Nossos corpos não se confundiam. Eu sabia qual braço era o dele e qual era o meu, qual perna, qual ombro. Não perdia a noção e beijava meu próprio braço, ou o que quer que chegasse perto da minha boca. O menor movimento não levava de imediato a outro movimento. Aquilo não era interminável, eu não caía mais e mais profundamente no meu corpo e no corpo dele como se fosse o mais longe possível da minha mente, e da mente dele, tão consciente, tão implacável." (pág. 185)

O FIM DA HISTÓRIA, de Lydia Davis, trad. Julián Fuks, ed. José Olympio, 2016, original de 1995.

Nathanaëlle Herbelin


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