"Eros the bittersweet: an essay", trad. Julia Raiz, ed. Bazar do Tempo, 2022, original de 1986.
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| capa da edição |
Aproveitando a ocasião (Prêmio Nobel de Literatura de 2026), lanço algumas notas do único livro que li de Anne Carson, um trabalho de origem acadêmica, reformatado como ensaio bastante acessível, sobre as raízes de Eros e sua influência na cultura ocidental, sobretudo quanto ao erotismo intrínseco aos atos de ler e de escrever. Afinal, toda Literatura é érotica.
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"Será coincidência que os poetas que inventaram Eros, fazendo dele uma divindade e uma obsessão literária, foram também os primeiros autores da nossa tradição a nos deixar poemas em forma escrita? Para colocar a questão de maneira mais pungente: o que há de erótico na alfabetização? Essa pode parecer uma pergunta menos irrespondível do que boba, a princípio, mas vamos olhar mais de perto para os eus das primeiras pessoas escritoras. O eu é crucial para quem escreve.
"Independente de ser justo ou não atribuir aos poetas arcaicos uma 'descoberta da mente' como descreve Snell, restam evidências inegáveis, nos fragmentos preservados dos versos, de uma sensibilidade agudamente afinada com a vulnerabilidade do corpo físico e das emoções ou espírito dentro dele. Não se dá voz a tal sensibilidade na poesia anterior a esse período. Talvez isso tenha acontecido por causa de um acidente de tecnologia. A poesia lírica e a sensibilidade típica dessa poesia, para nós, começam com Arquíloco porque seus poemas foram escritos, não sabemos como ou por que, em algum momento do século VII ou VI a.C. Talvez, antes dele, existissem muitos Arquílocos compondo líricas orais sobre as depredações de Eros. No entanto, o fato de Arquíloco e seus sucessores líricos derivarem de uma tradição escrita marca em si uma diferença decisiva entre eles e tudo o que veio antes, não apenas porque essa tradição nos dá acesso a seus textos, mas também porque nos indica certas condições de vida e de mente radicalmente novas dentro das quais eles estavam operando. As culturas orais e as culturas letradas não pensam, percebem ou se apaixonam da mesma maneira." (pág. 70)
1) Era junho de 2025 quando eu lia, e lembro de relacionar a obra com o filme Dreams (dir. Dag Johan Haugerud), que passara no cinema alguns meses antes (e que acabei elegendo como meu preferido do ano). No filme, a leitura de um romance clássico é fundamental para mediar a paixão despertada na jovem protagonista por sua professora, evoluindo para o ato de escrita de um diário (ou de uma autoficção), que acaba por assumir o protagonismo na vida da personagem. Fazem bom par, Dreams e o livro de Carson. E já que falei em cinema, lembro da minha grata surpresa, dias após ter comprado o livro, diante da coincidência de vê-lo na estante que aparece demoradamente no plano final de Matt e Mara (dir. Kazik Radwanski, canadense como Carson), outro filme que trabalha questões como essas.
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| Cena do excelente Dreams, filme que casa muito bem com o livro. |
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"A posição de conhecimento privilegiada que você desfruta ao ler Dafnis e Cloé não se baseia simplesmente em acreditar que as coisas vão terminar bem. Longo assume, e joga com toda a história dos topoi eróticos e da sagacidade gramatical disponível a um público alfabetizado. Ele quer oferecer uma experiência sólida daquele registro de atividade mental, a metáfora, que mais se aproxima de eros. Pense como o romance faz você se sentir. Enquanto você o lê, a mente muda do nível dos personagens, episódios e pistas para o nível das ideias, soluções, exegese. É uma atividade deliciosa, mas que também causa dor. Cada mudança é acompanhada por uma intensa sensação de que algo está sendo perdido, ou já foi perdido. A exegese desfigura e disturba a assimilação pura na narrativa. A narrativa insiste em distrair sua atenção da exegese. Ainda assim, sua mente não está disposta a abandonar nenhuma das atividades e permanece presa em um ponto de estereoscopia entre as duas. Elas compõem um único significado. O romancista que constrói esse momento de interceptação emocional e cognitiva está fazendo amor, e você é o objeto da conquista." (pág. 130-131)
2) "A posição de conhecimento privilegiada" - eis uma boa súmula da relação entre a literatura narrativa e seu erotismo subjacente, da atividade mental que quer perder-se e encontrar-se, velar e desvelar, aprofundar-se em sentidos que são mediados por outra mente, numa experiência profundamente significativa, pessoal, íntima.
Lembro de Carrère em Ioga, quando, após enfatizar tanto o seu compromisso com a verdade, faz retornar justamente a personagem fictícia para uma última cena, “e essa certeza de ter um acesso sem limites aos pensamentos dela, às fantasias dela, e ela às minhas, torna a situação extraordinariamente erótica.”
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| Não encontrei uma imagem limpa, mas o plano final de Matt e Mara se detém sobre as lombadas antes de encerrar. Eros é o terceiro à esquerda. |
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"À medida que você percebe o limite de si mesmo no momento do desejo, à medida que você percebe os limites das palavras no momento da leitura (ou da escrita), recebe estímulos para ir além dos limites perceptíveis - em direção a outra coisa, alguma coisa ainda não compreendida. A maçã que não foi colhida, a amada que está fora de alcance, o significado ainda não atingido são objetos de conhecimento desejáveis. O trabalho de eros é mantê-los assim. O desconhecido deve permanecer desconhecido ou o romance termina. Da mesma forma que todos os paradoxos são, em certa medida, paradoxos sobre o paradoxo, todo eros é, até certo ponto, desejo pelo desejo.
"Por isso, artimanhas. O que existe de erótico na leitura (ou escrita) é o jogo da imaginação evocado no espaço entre você e seu objeto de conhecimento. Poetas e romancistas, assim como amantes, dão vida a esse espaço usando metáforas e subterfúgios. Os contornos do espaço são os contornos das coisas que você ama, cujas inconsistências fazem a mente entrar em movimento. E ali está Eros, um realista nervoso dentro desse território sentimental, que age por amor ao paradoxo, ou seja, guarda o objeto amado fora de vista em um mistério, em um ponto cego onde o objeto pode flutuar conhecido e desconhecido, real e possível, próximo e distante, desejado e atraindo você para perto." (pág. 158-159)
3) Um dos aspectos mais insuspeitados daquela época da pandemia, em que saíamos de casa com máscara cobrindo nariz e boca, foi o de acentuar a beleza feminina; tornou-se ainda mais frequente impressionar-se com olhos, cabelos, pescoços, vozes, gestos, meneios - a promessa de felicidade exacerbava-se diante das máscaras, diante do mistério.
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| cartaz de De Olhos Bem Fechados |
4
"Sempre que qualquer criatura é movida a buscar o que deseja, diz Aristóteles, esse movimento começa com um ato da imaginação, que ele chama de phantasia. (...). Na sua visão, toda mente desejante tenta se aproximar do objeto por meio de uma ação imaginativa. Se isso for verdade, nenhuma amante, poeta ou não, pode manter seu desejo distante do empreendimento fictício e triangulador revelado por Safo no fragmento 31. 'Eros faz de todo homem um poeta' diz a antiga sabedoria.
"Eros é sempre uma história na qual quem ama, a pessoa amada e a diferença entre eles interagem. A interação é uma ficção arranjada pela mente de quem ama. Ela carrega uma carga emocional ao mesmo tempo detestável e deliciosa e emite uma luz da mesma forma que o conhecimento. (...)
"Sócrates chama Eros de Sofista, mas Safo o chama de 'fiandeiro de ficções' [mythoplokon], diz Máximo de Tiro. O adjetivo mythoplokos, assim como o contexto no qual Máximo o preservou, reúne alguns aspectos significativos de Eros. Para Safo, a desejabilidade do desejo parece estar ligada ao processo ficcional que ela chama de 'fiação do mito'. (...)
"O mesmo subterfúgio que tínhamos chamado de 'artimanha erótica' em romances e poemas parece agora constituir a própria estrutura do pensamento humano. Quando a mente busca o conhecimento, o espaço do desejo se abre e uma ficção necessária acontece." (pág. 237-241)
4) Eros, o grande ficcionista, tão somente torna mais premente e astuciosa a ficção incontornável da realidade, do mundo, de nós mesmos.
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| cartaz de Blade Runner |




