25 novembro 2025

10 filmes preferidos de 2024

 [Publicado originalmente em 29/12/2024 em blog desativado]

Lançados nos cinemas de Porto Alegre em 2024, em ordem de preferência.


1º) Folhas de Outono (Kuolleet lehdet, dir. Aki Kaurismäki)

[visto e revisto na Casa de Cultura Mario Quintana]

Confesso que não conhecia nenhum dos filmes do diretor finlandês (o que decerto facilitou meu deslumbramento), e portanto não tinhas grandes expectativas. Reforço o coro dos que ficam cativados pelo olhar de Kaurismäki sobre essas figuras solitárias, desajeitadas, apagadas, falidas, e pelo coração genuíno que transparece por trás de um aparente artificialismo frio e irônico. Lembro especialmente do frenesi que percorria a sala de cinema na cena capital da reviravolta do protagonista ao ouvir as moças cantando e tocando no bar. (A propósito, o duo de irmãs se chama Maustetytöt, os seus discos são muito bons, e acabei me tornando um ouvinte frequente do pop irresistivelmente estranho delas, que cai como uma luva no filme e no estilo do diretor).


1º) Vidas Passadas (Past Lives, dir. Celine Song)

[visto e revisto na Casa de Cultura Mario Quintana]

O filme de estreia da sul-coreana não é tão bem realizado quanto o do experiente finlandês, mas a verdade é que no meu gosto está empatado na primeira colocação. Dificilmente vemos cenas de abertura e de encerramento tão magistrais quanto aqui — meses depois de vistas, ainda me pego envolvido no olhar enigmático da maravilhosa Greta Lee, como também na sua pungente caminhada de volta pra casa. Além da fascinante sugestão sobre as muitas camadas que compõem a realidade, raramente vemos personagens com tamanha dignidade, emocionalmente maduros, sem serem idealizados, funcionando perfeitamente numa estrutura dramática que abre mão do triângulo amoroso, dos conflitos romanescos e dos rompantes sentimentais — e, por isso, o aparentemente apagado personagem de John Magaro surpreendentemente se torna o mais interessante — não por acaso o desfecho do filme converge na sua direção. A diretora dá umas pistas bacanas sobre os bastidores nesse vídeo.

3º) Dias Perfeitos (Perfect Days, dir. Wim Wenders)

[visto na Casa de Cultura Mario Quintana e revisto em casa]

O ato de observar não é meramente passivo; as árvores, o vento, as sombras, a luz, a música, o silêncio, os livros, as ruas, os transeuntes desconhecidos — tudo isso merece a atenção que o filme de Wenders proporciona. Não se fica realmente sozinho quando se sabe apreciar a companhia de todo esse mistério do planeta — se esse idealismo pode transcender o universo ficcional do filme e ser vivido de fato, é algo que cabe a cada um de nós descobrir por conta própria. Do que mais gostei nesse filme é que me fez ouvir músicas conhecidas como se fosse pela primeira vez, magicamente restituindo aquele prazer único da descoberta de uma música que vai se tornar familiar. Nina Simone, minha maior paixão musical há anos, encerra o filme com aquele misto de alegria e melancolia que para mim é o verdadeiro espírito da arte e da vida (cena que, com outra trilha exuberante, lembra o emocionante final de Jackie Brown, a obra-prima de Tarantino). Wenders revela, inclusive, que a música interpretada por Nina Simone foi a inspiração principal desde o início das filmagens.


4º) Ervas Secas (Kuru Otlar Üstüne, dir. Nuri Bilge Ceylan)

[visto na Casa de Cultura Mario Quintana]

Os filmes do diretor turco são sempre cansativos, com diálogos excessivamente longos e retóricos, mas nunca deixam de conter pelo menos uma cena cuja beleza numinosa não parece deste mundo. Nada em 2024 foi tão sublime quanto as cenas finais de Ervas Secas (retratadas na foto abaixo, a mesma que ilustra o cartão postal de divulgação distribuído na bilheteria do cinema, e que desde então deixo na minha escrivaninha como se fosse uma fotografia familiar).


5º) Nada será como antes (dir. Ana Rieper)

[visto na Casa de Cultura Mario Quintana]

O documentário sobre o Clube da Esquina está longe de ser um ótimo filme, mas os “personagens” são tão carismáticos, e as composições estão entre as melhores coisas já ouvidas na música popular, e o amálgama de diferentes estilos e formações musicais e culturais (música clássica, samba de terreiro, rock progressivo, Beatles, cantigas populares, etc) é tão representativo do que o Brasil tem de melhor, e o relato de Lô Borges seguindo uma voz desconhecida cantando no corredor do condomínio é um testemunho tão vivo de que, se Deus cantasse, teria a voz de Milton Nascimento (alô Elis Regina) — que não tem como não sair encantado da sala de cinema.


6º) O mal não existe (Aku wa sonzai shinai, dir. Ryûsuke Hamaguchi)

[visto e revisto na Casa de Cultura Mario Quintana]

Após assistir o filme e pesquisar sobre, fiquei grato por confirmar a minha impressão inicial de que o aspecto mais fundamental é a sua trilha sonora original — de Eiko Ishibashi, de quem partiu a provocação ao diretor para que fizesse um filme para a música que ela compusera. É tão intenso e significativo o uso da trilha sonora nos travellings de abertura e de encerramento, que fica mesmo a impressão de que apenas essa música simultaneamente bela e dissonante é capaz de expressar plenamente o mistério e a estranha beleza que as imagens e o ritmo do filme evocam. Nesse sentido, o novo filme de Hamaguchi se junta a, por exemplo, Morte em Veneza (Visconti) e O Vale do Amor (Guillaume Nicloux), como filmes que parecem ter sido feitos para traduzir em imagens uma música específica (respectivamente o Adagietto, de Mahler, e The Unanswered Question, de Charles Ives).


7º) Coringa: delírio a dois (Joker: Folie à Deux, dir. Todd Phillips)

[visto no GNC Cinemas do Praia de Belas]

Só não digo que possui a mesma qualidade do primeiro Coringa porque já não tem o mesmo impacto da surpresa. A transição para um musical (e o modo como isso impacta na sensibilidade do alucinado protagonista) é muito bem-vinda e coerente com o que o filme anterior apresentou ( aqui o meu comentário sobre o primeiro Coringa, em que enfatizei o uso da trilha sonora original e o caráter performático e operístico de “ um artista em busca do seu palco e do seu público, à procura do eu-lírico que se oculta sob a persona pública e cotidiana — e do assombroso poder ambivalente da força criadora e destrutiva que jaz na imaginação humana”), agora levado à sua plena realização nesse segundo filme. Além do mais, um dos momentos mais comoventes do ano foi ver Arthur Fleck cantando a versão em inglês de Ne Me Quitte Pas no telefone, sem resposta, uma desilusão amorosa toneladas mais pesada do que todo o estardalhaço social em torno do personagem — o tipo de cena que levo comigo pra sempre (e um momento perfeito para que o filme terminasse, ao meu ver, pois tudo o que vem depois me soa como concessão reiterativa).


8º) La Chimera (dir. Alice Rohrwacher)

[visto na Cinemateca Capitólio]

Apesar da costura incongruente e um tanto inábil de diversos gêneros e tipos de registro, La Chimera alcança momentos de verdadeira poesia e rara beleza — seja na crueza decadente de alguns cenários, na sublime exploração dos subterrâneos que guardam tesouros artísticos, ou no rico simbolismo explorado pelo filme. Carol Duarte rouba a cena com seus olhares furtivos e sua presença sempre interessante.


9º) Lupicínio Rodrigues: confissões de um sofredor (dir. Alfredo Manevy)

[visto na Cinemateca Capitólio]

Possivelmente o melhor artista que Porto Alegre já gerou, Lupicínio ganha um documentário muito bem realizado, entremeando com inteligência e sensibilidade os diversos registros — entrevistas, músicas, depoimentos, contextualização histórica e geográfica -, sem perder de vista o que mais importa: a música e o seu encanto, seja de júbilo, seja de dor.


10º) Jurado nº 2 (Juror #2, dir. Clint Eastwood)

[único da lista que não foi lançado nos cinemas, visto em casa]

Penso que o personagem do idoso que testemunha afirmando reconhecer o assassino — ansioso por ser útil, prestativo, socialmente relevante — acaba por ser o melhor retrato de todos nós, bem intencionados e equivocados, vítimas da nossa própria fé na humanidade, quando não passamos de limitadas criaturas em meio à escuridão e à borrasca, procurando ansiosamente por alguma certeza, desejando alguma convicção numa era em que isso já não parece possível.

P.S. 1: Fechada a lista, vejo que 6 filmes têm participação fundamental da música: 3 com música diegética decisiva, 1 com trilha sonora imprescindível, e 2 documentários sobre músicos.
P.S. 2: Dentre os muitos filmes que não vi, desconfio que O quarto ao lado (dir. Almodóvar) poderia ter lugar nesta lista.
Originally published at http://benderlucas.com on December 29, 2024.

24 novembro 2025

Breve paralelo entre “Um retrato do artista quando jovem” e “Os irmãos Karamázov” 

[Publicado originalmente em 12/03/2023 em blog pessoal desativado]

Richard Thorn


São ambas epifanias arrebatadoras, decisivas na trajetória de dois jovens seminaristas em crise diante da dificuldade de conciliar suas aspirações com o mundo tal qual é. Stephen Dedalus diante da moça desconhecida na praia faz eco a Aliócha após o seu encontro com Grúchenka: 

“Um retrato do artista quando jovem” (James Joyce): 

Ele se afastou de repente dela e se afastou pela praia. Seu rosto estava em chamas; seu corpo brilhava; seus membros tremiam. Adiante, adiante, adiante e adiante ele foi, bem longe sobre a areia, cantando ensandecido para o mar, gritando em reconhecimento ao advento da vida que tinha gritado por ele. 

A imagem dela entrara em sua alma para sempre e palavra alguma rompera o silêncio santo de seu êxtase. Os olhos dela chamaram por ele e sua alma saltara em resposta ao chamado. Viver, errar, cair, triunfar, recriar da vida a vida! Um anjo ensandecido lhe surgira, o anjo da juventude e da beleza mortais, um enviado das belas cortes da vida, para abrir diante dele num instante de êxtase os portões de todos os caminhos de erro e de glória. Adiante, adiante, adiante e adiante! 

Ele se deteve subitamente e ficou ouvindo o coração em silêncio. Quanto tinha andado? Que horas eram? 

Não havia qualquer figura humana perto dele nem qualquer som lhe era trazido pelo ar. Mas a maré estava quase virando e o dia já minguava. Ele se virou para a terra e correu para a praia e, correndo praia inclinada acima, sem ligar para o pedrisco triscante, encontrou um cantinho de areia em meio a um aro de pequenas dunas cobertas de tufos e se estendeu ali para que a paz e o silêncio do entardecer pudessem lhe acalmar o caos do sangue. 

Sentiu acima de si a vasta abóbada indiferente e os calmos progressos de corpos celestes; e a terra sob seu corpo, a terra que o tinha gerado, que o tinha posto no colo.

(pág. 209-210, ed. Companhia das Letras, trad. Caetano Galindo) 

* * *

“Os irmãos Karamázov” (Fiódor Dostoiévski): 

Não parou nem no alpendre, desceu rapidamente os degraus. Sua alma cheia de êxtase ansiava por liberdade, por espaço, por amplitude. Sobre sua cabeça desmaiava a abóbada celeste inalcançável à vista e coberta de estrelas serenas e cintilantes. Do zênite ao horizonte desdobrava-se uma vaga Via Láctea. A noite fresca e quase imóvel de tão calma envolvia a Terra. As torres brancas e as cúpulas douradas da catedral resplandeciam contra um céu safira. Nos canteiros próximas à casa, as exuberantes flores do outono tiraram a noite num sono só, que se estendeu até o amanhecer. O silêncio da terra parecia fundir-se ao silêncio do céu, o mistério da terra tocava o mistério das estrelas... Aliócha observava tudo parado, e de repente desabou de joelhos sobre a terra como se o tivessem abatido. 

Não sabia por que a abraçava, não se dava conta da razão pela qual sentira uma vontade incontida de beijá-la, de beijá-la toda, mas ele a beijava chorando, soluçando e banhando-se com suas lágrimas e, exaltado, jurava amá-la, amá-la até a consumação dos séculos.

(pág. 488, Editora 34, trad. Paulo Bezerra) 

Meus filmes preferidos de 2020

O ano da peste. O ano dos cinemas fechados. O ano em que mais assisti filmes na minha vida, porém em que menos vezes fui ao cinema — uma contradição atroz, para quem considera que o ritual da sala de cinema pode ser tão importante quanto o filme em si. Lamentações evasivas de quem assistiu apenas oito lançamentos e oferece esta escassa lista de preferidos:

1º) Uma Vida Oculta (Terrence Malick)

Malick volta a pisar em chão mais firme, ao mesmo tempo em que nos leva para alturas alpinas — e além. Terra e Céu conjugam-se numa grande história de amor. Escrevi sobre o filme para o Persona.

2º) O Oficial e o Espião (Roman Polanski)

Não é necessário ter algum interesse prévio pelo infame caso Dreyfus para ser completamente cativado pelo filme, pois através de tamanha elegância, concisão, apuro, sobriedade e rigor, não resta ao espectador outra opção senão render-se.

3º) On The Rocks (Sofia Coppola)

Aqui a vida ou presença oculta é de Woody Allen, certamente uma das grandes inspirações para uma amadurecida Sofia Coppola alcançar a adorável mistura de frivolidade e encanto que o veterano nova-iorquino realiza como ninguém.

4º) O Caso Richard Jewell (Clint Eastwood)

Já no texto que fiz para o Persona dizia que pouquíssimas cenas se mantêm vivas na memória — o que o tempo confirmou, a mim pelo menos. Embora não deixe saudades, é mais uma demonstração da eficiência narrativa de Eastwood na abordagem de tragédias que ocorrem sobretudo no íntimo dos indivíduos.


Não deixa de ser curioso que, dos quatro filmes, três sejam centrados na acusação e/ou prisão de homens íntegros, injustiçados, perseguidos — todos eles homens reais em histórias verídicas. Na verdade, isso me faz gostar ainda mais do filme de Sofia Coppola, por sua capacidade de se fazer notável com sua despretensiosa graça em meio a histórias verídicas tão prementes.

Para 2021, espero que possamos voltar ao bom e velho cineminha, àquele arrepio de expectativa quando as luzes se apagam, àquele misterioso silêncio compartilhado na escuridão — até mesmo à eventual irritação pelos maus modos dos desconhecidos com quem compartilhamos a sessão, com quem compartilhamos esse hábito tão trivial e tão mágico de frequentar as salas de cinema.

26 dezembro 2019

10 filmes de 2019

Estes são os meus dez filmes preferidos de 2019. Considero os que estiveram em cartaz nos nossos cinemas durante o ano (com duas exceções). Estão em ordem de preferência, com título, diretor, um breve comentário e uma foto.

1º) Assunto de Família (Hirokazu Koreeda)

Uma escolha fácil. Costumo gostar dos filmes do Koreeda, mas não tanto quanto deste. Há uma tensão que é instalada desde o princípio, e que vai assumindo crescente dramaticidade com o seu desenrolar, proporcionando ao filme uma força que faltava nos trabalhos anteriores do diretor — sem, contudo, perder o equilíbrio harmônico de planos despretensiosos e despojados, que permitem a espontaneidade bem humorada da interação entre as personagens, bem como a simplicidade cativante de rotinas domésticas, além do lirismo de cenas exteriores junto à natureza. Escrevi sobre o filme para o Persona.


2º) Coringa (Todd Phillips)

Grande parte das leituras que o filme recebeu sugerem o contrário, mas considero-o bastante auto-referente, fechado em si próprio. Gotham é uma cidade de trevas, apenas. Todos os personagens decepcionam as expectativas de Arthur Fleck. Todas as perspectivas de redenção são fechadas, deformadas, desvirtuadas. Não há luz nenhuma, a não ser o brilho íntimo da individualidade que descobre a sua força, a sua vitalidade, a sua afirmação. E essa descoberta é ótima de se acompanhar, revela toda a capacidade do cinema em nos abrir a realidade interior de um indivíduo. Mas, por outro lado, baseia-se num artifício que deforma a realidade exterior. É muito mais fácil criar tomando por base apenas trevas, pois mostrar a luz é bem mais complexo. O efeito final disso é que o filme é obcecante — e aí repousa toda a sua sombria glória e toda a sua limitação.

3º) A Árvore dos Frutos Selvagens (Nuri Bilge Ceylan)

Dada a sua longa duração, é preciso ter paciência, é necessário dar um voto de confiança ao diretor turco, é preciso colocar-se naquele estado de espírito contemplativo, que não gera expectativas, não cria ansiedades, que deixa as coisas fluírem no seu ritmo natural. São posturas que o próprio protagonista do filme vai aprendendo, junto conosco. Ceylan, capaz de criar cenas de beleza ímpar, nos premia aqui com um momento dourado junto a uma moça que sorri, à sombra das árvores e ao som do vento nas folhas, que é das coisas mais exuberantes e memoráveis que o ano de 2019 nos ofereceu.

4º) História de um casamento (Noah Baumbach)

Não foi lançado nos cinemas do Brasil, entrando direto no Netflix. O que inviabiliza a vida de um casal assim — belos, prósperos, relativamente jovens, profissionalmente destacados, talentosos — é o medo de estagnar-se no que eles consideram como mediocridade, ou seja, uma vida “invisível”, pacata, rotineira, despretensiosa, doméstica, familiar. Quando as frustrações desse jaez são levadas ao paroxismo pelo verdadeiro inferno jurídico do divórcio, começa a girar a roda da tragédia que vai triturar a boa vontade das pessoas. A abordagem do filme flerta com a banalidade, mas sobressai a pungência de sua honestidade e a beleza inesperada de gestos simples — características sintetizadas na cena em que o personagem de Adam Driver canta no microfone de um bar; seu canto não é belo, não é formalmente rico, mas sua interpretação nos toca.

5º) O Irlandês (Martin Scorsese)

Sou da turma que penou para acompanhar o desenrolar da longa trama, que cansou diante do painel histórico dos EUA e que não criou grandes laços afetivos com os personagens. No entanto, sou também da turma que achou a última parte do filme sublime, redimindo todo o enfado que nos fez chegar até ali. O que mais me afasta do filme é ver que ao longo de toda a vida adulta de Frank (De Niro) quase não há espaço para o amor apaixonado, quase não há importância na presença das mulheres que tenham feito seu coração bater mais forte. Tenho dificuldade em crer num personagem assim. No entanto, não é exatamente este o drama mais silencioso e subterrâneo de Frank? No fim das contas, não é esta a condenação no olhar da sua filha?

6º) Ad Astra (James Gray)

“Ad Astra” é a travessia do descomunal deserto da solidão, para aprender a acolher e gerar a vida. Pra mim, é o tipo de filme que cresce à medida que pensamos nele, posteriormente, compensando alguma decepção durante a sua fruição. De James Gray espero sempre o máximo, o que não é muito justo, mas é o ônus de quem já nos presenteou com obras-primas como “Os Donos da Noite” e “Era uma vez em Nova York”.

7º) Fé Corrompida (Paul Schrader)

Muito se falou sobre First Reformed no ano passado; o filme permaneceu sem lançamento nos nossos cinemas, mas em 2019 foi disponibilizado oficialmente em streaming, com o título de “Fé Corrompida”. Escrevi acerca dele para o Persona, inclusive usando a definição “fé pervertida”, que ficou muito próxima do que viria a ser o título brasileiro. Faltou, no meu texto, a obrigatória referência a “Luz de Inverno”, do Bergman, do qual saiu a maior parte da inspiração de Schrader.

8º) O hotel às margens do rio (Hong Sang-soo)

Temos origem no Paraíso e precisamos aprender a ser humanos. Isso é poesia, e se você não sabe disso, então é um morto em vida. Somos gratos pela beleza, embora vivamos em quartos de hotel inexpressivos e sustentemos conversas ébrias em torno da mesa. Um poeta vai morrer amanhã.

9º) Um dia de chuva em Nova York (Woody Allen)

Uma lição de como fazer um filme simultaneamente bobo e encantador. Na cena de clímax dramático, em que o jovem protagonista descobre que sua mãe não é a mera dondoca fútil e esnobe que parecia, algo análogo ocorre conosco, ao percebermos que a aparente frivolidade juvenil do filme reveste um núcleo mais significativo. E se calhar de você voltar da sessão de cinema andando na chuva, garanto que o encantamento será abundante.

10º) Era uma vez em… Hollywood (Quentin Tarantino)

Sendo bem franco, eu não posso dizer que gostei do filme, mas algumas críticas me ajudaram a compreendê-lo e valorizá-lo. Seja como for, bastam as duas cenas em que o personagem do Di Caprio contracena com uma menininha (o nome da pequena e adorável atriz mirim é Julia Butters) para deixar uma boa saudade.



Em 2020 teremos filme novo do Terrence Malick, ou seja, já está garantido que será um grande ano. Desejo um bom Ano Novo para todos que amam o cinema!

16 dezembro 2018

Meus filmes preferidos de 2018

A cada final de ano escolho os dez filmes de que mais gostei, mas em 2018 só consegui juntar sete. Título, diretor e breve comentário: 

1º) Três anúncios para um crime (Martin McDonagh) 
Nunca foi tão fácil escolher o preferido do ano, disparado acima dos demais. Um improvável estudo sobre a caridade e o perdão, marcado pela violência e pela bizarrice. Fiz um comentário mais extenso para a Amálgama, no link abaixo:








2º) Maria Madalena (Garth Davis) 
Pelo que pude ver, o filme desagradou tanto a cristãos quanto a ateus; na melhor das hipóteses, foi desprezado. Por isso, vale um comentário um pouco mais extenso. Concedo que não é um grande filme, mas a mim tocou o coração. Antes de qualquer coisa, fique claro que não há “relação amorosa” entre Jesus e a personagem-título; o que o filme faz é concebê-la entre os apóstolos de Cristo, como fiel discípula que o segue junto com Pedro, Judas, Tomé e os demais. Embora sempre haja certa margem de ambiguidade, me parece que o filme evita as tentações ideológicas, como a de exaltar a figura feminina a partir de valores modernos. Creio mesmo que o filme transporta para Maria Madalena muito do que caracteriza Maria, a Nossa Senhora. No filme, Maria Madalena é a discípula que melhor ouve Cristo, é a que melhor lhe compreende, a que melhor aceita o que parece insensato em suas escolhas, é a que melhor sabe esperar. Madalena é a mais fraca, a mais passiva, a menor entre todos eles. Mas, na lógica paradoxal dos Evangelhos – em que fraqueza é força, pequenez é grandeza, pobreza é abundância - Madalena é a mais preparada para o Reino. Por isso, acho o filme essencialmente anti-gnóstico, contra o mistério domesticado, que é uma tentação muito presente em outros discípulos, que querem guiar Jesus ou desejam o Reino para agora, para já. Em termos estéticos, o filme tem cenas memoráveis, como a da reanimação de Lázaro e como o rosto iluminado da protagonista ao ver o Ressuscitado. 


3º) O dia depois (Hong Sang-Soo) 
O sul-coreano emplaca o segundo ano consecutivo nas minhas preferências, sobretudo graças à interpretação de Kim Min-Hee e às suas falas cheias de uma lucidez agridoce. É filme que chega ao ponto de perguntar, com todas as letras: “por que você vive?”; no entanto, não lhe falta leveza e um olhar contemplativo de serenidade, que simultaneamente repousam e agitam o espírito. 


4º) A balada de Buster Scruggs (irmãos Coen) 
Considero-o bastante irregular. Embora veja aspectos brilhantes em todas as histórias, meu coração fica quase inteiramente preso ao episódio da moça na caravana. Se é verdade que todos os episódios refletem sobre a morte, penso que essa história trabalha sobretudo com a descoberta da alegria de viver e do feliz acaso de um encontro – bem como com a irônica tragédia dos seus inversos, a insegurança de viver e o infeliz acaso de um encontro, que dão à morte o seu peso terrível e insondável. 


5º) Trama Fantasma (Paul Thomas Anderson) 
De tão perfeito, é difícil amá-lo. A mim o espírito do filme não convence, o que não me impede de ficar fascinado com o seu aspecto, seus modos, sua elegância, seu porte, seu perfume inconfundível de cinema feito com encantamento e excelência. 


6º) 15h17: Trem para Paris (Clint Eastwood) 
Em um filme bastante semelhante ao seu anterior – “Sully: o herói do Rio Hudson” –, Eastwood continua mostrando que sabe como contar uma história. Retornam os elementos e símbolos cristãos, ausentes no filme anterior, embora o assunto principal continue sendo o mesmo: o livre arbítrio. Independente de em quê acreditamos, o fato mesmo de que decidimos agir é um enigma – enigma que pressupõe sempre alguma forma de esperança. Pena que o filme tenha tantas parcelas de banalidade imagética e estética; ainda que se possa dizer que essa é a proposta estética deliberada, creio que falta maior cuidado com a imagem. 


7º) A melhor escolha (Richard Linklater) 
Bastante medíocre e limitado, mas suficientemente espirituoso para ser lembrado com alguma saudade, graças ao entrosamento divertidíssimo entre Steve Carell, Bryan Cranston e Laurence Fishburne. Tem uma cena em que eles jogam conversa fora, falando bobagens mesmo, que me deixou com aquela dor muscular na barriga, que acontece quando rimos demais (ou quando tentamos segurar o excesso de gargalhadas, para não atrapalhar no cinema). Já é o suficiente. (E fico me perguntando se, apesar da mediocridade, não seja talvez melhor do que o aclamado Boyhood, do mesmo diretor). 

31 dezembro 2017

10 filmes de 2017

Podem não ser os dez melhores filmes do ano, mas são os que chegaram mais perto do meu coração. [Aviso de antemão que não assisti alguns filmes que, desconfio, me seriam de muito agrado, principalmente “Z – A Cidade Perdida” e “Além das Palavras”]. Vamos à lista, em ordem de preferência:

1º) La La Land (Demian Chazelle)
Adorável abordagem sobre o páthos romântico. O poder dos temas musicais ao piano de evocar a grandeza e a miséria do amor de Mia e Sebastian é encantador e desesperador, a um só tempo. Casablanca revisitado – este me parece o paralelo mais fecundo, e não com os musicais.

2º) Manchester à beira-mar (Kenneth Lonergan)
A maior força do filme está no seu protagonista, Lee, que transmite uma espécie de dignidade baseada numa experiência trágica de vida. Como um náufrago em terra firme, se defronta com o fato de que não basta agir como se tudo dependesse de uma fé otimista na bondade natural humana. Lee vislumbra o abismo de ter a consciência de que nem tudo depende da nossa vontade.

3º) Paterson (Jim Jarmusch)
Novamente, um personagem raro e precioso. Paterson cultiva sua liberdade interior sem se deixar oprimir pela aparente banalidade da vida cotidiana. Inspiradora jornada sobre como sentir-se em casa no universo. Escrevi mais sobre o filme neste ensaio aqui.

4º) De canção em canção (Terrence Malick)
De canção em canção, alimenta-se o som e a fúria a fim de ludibriar o tédio e o vazio. Poderemos viver uma vida verdadeira deste modo? Não é esta uma morte em vida? Será possível renascer, de algum modo? Malick segue pintando seu monumental afresco no teto de sua catedral cinematográfica – representando, filme após filme, o drama espiritual do nosso tempo e da nossa condição.

5º) Até o último homem (Mel Gibson)
Não apenas o personagem é extraordinário, mas a ambientação do campo de batalha é digna de um inferno dantesco. Neste inferno, porém, Desmond Doss entrará sem abandonar toda a esperança, o que levará sua fé e caridade ao limite.

6º) Silêncio (Martin Scorsese)
Se a questão é a fé levada ao limite, Scorsese e Shusaku Endo (o autor do romance) dão a palavra final – ou, melhor dizendo, o silêncio final. Creio que o mais interessante é pensar na importância fundamental de Kichijiro – o traidor, o fraco, o errante, o demasiado humano – dentro dos contextos religiosos do budismo e do cristianismo. Somos mais Kichijiro do que gostaríamos de admitir; e, no entanto, nesta queda se manifesta uma verdade elementar da condição humana.

7º) Frantz (François Ozon)
Em cada cena há algo a ser descoberto, em cada sequência há uma revelação, o desvendar de pequenos segredos que dão ao filme o seu tom intimista – embora o estilo seja seco, sóbrio, contido, com toques de mistério e estranhamento que beiram o surreal, mas sem perder o controle. Talvez tenha faltado apenas uma grande cena para que pudesse ser uma obra-prima.

 8º) Jackie (Pablo Larraín)
Irregular, deixa de ser um mero psico-drama a partir da segunda metade, quando entra na narrativa o personagem do padre; a partir daí, o filme transcende o ego da protagonista, e a discussão relativista sobre “o que é a verdade”, disputada com o jornalista, ganha uma grandeza verdadeiramente madura (tão bem encarnada por John Hurt, que faleceu em seguida). Verdade que está para além dos fatos (portanto para além da compreensão do jornalista); para além da psicologia (portanto para além dos limites da protagonista); para além daquele que, após questionar “o que é a verdade?”, e, não sabendo reconhecê-la, disse “lavo as minhas mãos” – ou seja, para além do poder político (o ambiente que cerca Jackie). Verdade que devemos buscar quando estamos sozinhos, no escuro, e nada parece fazer sentido.

9º) Na praia à noite sozinha (Hong Sang-soo)
O amargor e a melancolia por não encontrar o Amor. Nos momentos de ébria franqueza, a protagonista exige, irascível, que os outros manifestem um amor perfeito; teme uma morte inglória, de uma vida que acaba sem descobri-lo. O uso reiterado do belíssimo Quinteto de Cordas de Schubert dá o tom, entre a melancolia e a consolação, com uma sutil sugestão de que o amor ausente apenas não se mostra, mas está aí.

10º) Os Cowboys (Thomas Bidegain)
Estreia de Bidegain como diretor, tendo a ousadia de abordar alguns aspectos “politicamente incorretos” do islamismo radical. Mas o que toca o coração e o faz entrar nesta lista é, acima de tudo, a aguardada cena final – talvez a melhor do ano – construída inteiramente por olhares e silêncios, dando ao filme um desfecho muito marcante e significativo.


09 janeiro 2017

10 filmes de 2016

Eis minha seleção de filmes de 2016, com larga vantagem para os três primeiros colocados:

1º) A Academia das Musas (José Luis Guerín)
Praticamente um experimento narrativo que retoma o vigor das tradições mito-poéticas e filosóficas da Europa mediterrânea.


2º) A Luz Entre Oceanos (Derek Cianfrance)
Um melodrama cuja força se encontra, mais do que nas emoções que desperta, no uso de ricas metáforas de cunho religioso. A crítica progressista, entorpecida e insensível neste aspecto, limitou-se a reconhecer as deslumbrantes paisagens à la Turner e Caspar David Friedrich.


3º) 45 Anos (Andrew Haigh)
Ok, o filme é do final de 2015, mas caiu em 2016 para mim. Sóbrio, intimista, sem soluções fáceis. Se é verdade que o final de A Luz Entre Oceanos pode ser considerado uma concessão para as lágrimas açucaradas do grande público, aqui restam as lágrimas amargas de desilusão de Charlotte Rampling, num contraste desconcertante com a doçura romântica de “Smoke Gets In Your Eyes”.


4º) O Vale do Amor (Guillaume Nicloux)
O sentido do filme se revela em paralelo com o sentido da sua trilha sonora – a assombrosa composição “The Unanswered Question”, de Charles Ives –, sondando o mistério da existência a partir do trompete que rompe a placidez das cordas ao introduzir a questão do inefável, seguido pelos demais sopros, progressivamente dissonantes, mal articulando tentativas de respostas, que se tornam cada vez mais incoerentes até que parecem perder completamente o sentido.


5º) Sully (Clint Eastwood)
Numa narrativa impecável, Eastwood parece apontar que, se o Sniper Americano foi o último herói de guerra, Sully é o herói possível em tempos de crise de consciência e de perseguição àqueles que não seguem as cartilhas pré-determinadas.


6º) Cavaleiro de Copas (Terrence Malick)
Como explicar que o mais recente filme de um dos maiores diretores vivos, com um elenco que inclui Christian Bale, Cate Blanchett e Natalie Portman, não seja lançado nos cinemas do Brasil (apenas em meios como o Netflix)? Como bem observou Martim Vasques da Cunha, as narrativas de Malick estão em progressivo processo de implosão, acompanhando o colapso espiritual da modernidade. Se é verdade que isso dificulta a apreciação por parte do grande público – e, novamente, da crítica progressista –, também é verdade que estamos sendo privados de acompanhar no ambiente apropriado das salas de cinema uma das abordagens mais lúcidas e originais do cinema contemporâneo e uma reflexão essencial sobre a condição humana.


7º) Táxi Teerã (Jafar Panahi)
A narrativa apresenta uma proposta experimental semelhante a de A Academia das Musas, mas aqui formando um painel social de Teerã a partir das tribulações cotidianas de seus habitantes. Nos seus melhores momentos, revela um frescor e uma espontaneidade que estimulam nossa capacidade universal de empatia, reforçando, assim, um dos tantos potenciais do cinema – e das narrativas, de modo geral.


8º) Depois da Tempestade (Hirokazu Koreeda)
Algumas das virtudes dos filmes de Koreeda são também fontes de suas fraquezas. Afinal, a contrapartida de abordagens sutis, delicadas, minimalistas, quase desprovidas de páthos, é a de um certo distanciamento entre os personagens e o coração do espectador. Será tão somente o reflexo do distanciamento entre as culturas do ocidente e do extremo-oriente? Seja como for, neste filme o diretor encontrou melhor equilíbrio entre a doçura e a aridez, entre a impassibilidade e a angústia.


9º) Nossa irmã mais nova (Hirokazu Koreeda)
Koreeda, de novo. Se este filme não é tão bem equilibrado quanto o Depois da Tempestade, o encanto que emana das quatro protagonistas é de uma preciosidade rara. Ainda assim, o resultado é, novamente, uma obra um tanto inofensiva, no sentido de não atingir as camadas mais profundas de nossa sensibilidade.


10) Café Society (Woody Allen)
Alguém já disse que gostaria de, após deixar esta vida, reencarnar neste filme. É compreensível, considerando a dignidade e o charme dos personagens – principalmente a adorável mistura de astúcia e decência encarnada em Kristen Stewart. O romantismo desiludido deixa, ao final, um travo meio amargo que salva o filme de se tornar perfunctório.