25 novembro 2025

Notas de leitura - "A TRÉGUA", de Mario Benedetti

[Publicado originalmente em 18/02/2025 em blog desativado]


"La tregua", publicado originalmente em 1960. As referências são da edição da Coleção Folha de São Paulo - Literatura Ibero-Americana, trad. Joana Angelica D'Avila Melo, 2012.
arte de Lucian Freud (Retrato de John Deakin)

Sinopse - Escrito em formato de diário ao longo de um ano, narra o cotidiano de Santomé, funcionário contábil de uma empresa comercial em Montevidéu, viúvo há mais de vinte anos, pai de três filhos adultos com quem não tem um relacionamento próximo. Prestes a se aposentar ao completar 50 anos, apaixona-se e vive um romance com Avellaneda, jovem discreta recém contratada como sua subordinada no escritório.

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"Voltei para casa, dormi a sesta e me levantei pesado, de mau humor. Tomei uns mates, mas estavam amargos, e me aborreci. Então me vesti e fui outra vez ao Centro. Desta vez me meti num café; consegui uma mesa junto à janela. Em um lapso de uma hora e 15, passaram exatamente 35 mulheres interessantes. Para me entreter, fiz uma estatística sobre o que mais me agradava em cada uma. Anotei tudo no guardanapo de papel. Este é o resultado. De duas, gostei da cara; de quatro, do cabelo; de seis, do busto; de oito, das pernas; de 15, do traseiro. Ampla vitória dos traseiros." (pág. 26)

1) Adquiri meu exemplar num sebo de Porto Alegre e iniciei a leitura minutos depois, num banco da Redenção à sombra. Inevitavelmente, às vezes me desconcentrava reparando nas mulheres que passavam. Tem algo de atroz nesse olhar masculino, é verdade, mas não deve ser levado tão a sério. Não anotei os números, mas senti que aí estava selado o meu pacto com o personagem. O trecho me trouxe imediatamente à lembrança o soberbo filme Amor à tarde (Éric Rohmer, 1972), cujo personagem observa as mulheres que passam através da janela de um restaurante. Aliás, tanto o filme quanto o livro de Benedetti têm um marcado caráter de observação urbana, o que voltarei a destacar adiante.

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"Uma das coisas mais agradáveis da vida: ver como o sol se filtra por entre as folhas." (pág. 50)

2) Um dos maiores encantos que o leitor de A trégua encontra é deparar-se com frases assim, simples, verdadeiras, honestas, que Santomé comunica sem afetação. Eu diria (agora sim vai soar afetado, paciência) que é não só uma das coisas mais agradáveis da vida, mas um dos fenômenos estéticos mais deslumbrantes - ai do olho que já o banalizou! Dessa vez, o filme que se faz lembrar é Dias Perfeitos (Wim Wenders, 2023), com a atenção especial que dá ao komorebi, seja como agradável situação da vida cotidiana, seja como fonte de inspiração estética principal para as fotografias do personagem.

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"Minha liberdade é outro nome para minha inércia. Dormir hoje com uma, amanhã com outra; bom, quero dizer, basta uma vez por semana. O que a natureza pede, e mais nada; é o mesmo que comer, o mesmo que tomar banho, o mesmo que fazer as necessidades. Com Isabel era diferente, porque havia uma espécie de comunhão e, quando fazíamos amor, parecia que cada duro osso meu correspondia a um brando côncavo dela, que cada impulso meu se encontrava matematicamente com seu eco receptor. Sob medida." (pág. 59)

3) Isabel é a falecida esposa de Santomé. O quão contundente é esse contraste entre a "comunhão" erótica ("correspondência" / "côncavo" / "eco") de outrora e a "inércia" (meramente fazer as necessidades) de hoje (e da perspectiva do amanhã). Ainda mais duro será ao final, por motivos que é melhor não explicitar para não frustrar a surpresa de eventuais novos leitores.

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"Comecei a 'vê-la' em cada mulher que se aproximava pela Veinticinco. Àquela altura, não me importava tanto o fato de não conseguir reconhecer, nesta ou naquela figura, um só detalhe que me lembrasse a dela. Eu a 'via' do mesmo jeito. Uma espécie de jogo mágico (ou idiota, tudo depende do ponto de vista). Somente quando a mulher se encontrava a poucos passos era que eu efetuava um brusco retrocesso mental e deixava de vê-la, substituía a imagem desejada pela indesejável realidade. Até que, de repente, fez-se o milagre. Uma moça apareceu na esquina e, de imediato, nela eu vi Avellaneda, a imagem de Avellaneda. Mas, quando quis efetuar o esperado retrocesso, ocorreu que a realidade também era Avellaneda." (pág. 68-69)

4) A obsessão pela figura da mulher por quem se está apaixonado, que de fato provoca frequentes "miragens" urbanas desse tipo, é mesmo algo tão mágico quanto idiota. Aqui parece estar presente o espírito de O túnel (1948), estupenda novela de Ernesto Sabato. Além disso, é talvez nesse trecho que começa a se delinear uma questão essencial do personagem, nessa dualidade entre o "milagre" e a "realidade", que vai marcar a sua trajetória com crescentes dúvidas e reflexões sobre a presença/ausência de Deus, como termo final de tudo o que lhe é despertado através do amor, do erotismo, da solidão, da decrepitude, do tempo, do ócio, da finitude.

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"Eu me levantei, tropecei na cadeira, minha colherinha de café resvalou da mesa com um escândalo que mais parecia provir de uma concha de sopa. Os garçons olharam. Ela se sentou. Recolhi a colherinha, mas, antes de conseguir me sentar, enganchei o paletó naquele maldito rebordo que as cadeiras têm no espaldar. Em meu ensaio geral dessa desejada entrevista, não havia levado em conta uma encenação tão movimentada. 'Parece que eu o assustei', disse ela, rindo com franqueza. 'Bem, um pouco, sim', confessei, e isso me salvou. Estava recuperada a naturalidade." (pág. 71)

5) Fora de contexto, é claro que o humor ao mesmo tempo comedido e espalhafatoso da cena do primeiro encontro (fora do ambiente de trabalho) entre Santomé e Avellaneda perde boa parte da graça. Lendo em público - voltei à Redenção por mais alguns dias -, foi necessário mobilizar todas as minhas capacidades musculares faciais e abdominais para tentar parar de rir, sem muito sucesso. E o medo de parecer louco? aos olhos de toda aquela gente que corre, que conduz cães, que tira selfies, "ávidos cultores da realidade" (obrigado, Philip Roth).

Steven J. Levin
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"Afinal, é um alívio voltar a beijar na boca, e com confiança, e com carinho. (...) Nem ela nem eu o dissemos, mas depois desta jornada há uma coisa que ficou estabelecida. Amanhã pensarei. Agora estou cansado. Também poderia dizer: feliz. Mas estou por demais alerta para me sentir totalmente feliz. Alerta ante mim mesmo, ante a sorte, ante esse único futuro tangível que se chama amanhã. Alerta, ou seja: desconfiado." (pág. 87)

6) Esse tipo de desconfiança perante a própria felicidade não é um mal que nós, leitores de ficção, sabemos reconhecer até no escuro?

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"Talvez eu seja um maníaco da equidistância. Em cada problema que se apresenta, nunca me sinto atraído pelas soluções extremas. É possível que essa seja a raiz da minha frustração. Uma coisa é evidente: se, por um lado, as atitudes extremas provocam entusiasmo, arrastam os outros, são indícios de vigor, por outro, as atitudes equilibradas são em geral incômodas, às vezes desagradáveis, e quase nunca parecem heroicas. Em geral, precisa-se de bastante coragem (um tipo muito especial de coragem) para manter-se em equilíbrio, mas não se pode evitar que aos outros isso pareça uma demonstração de covardia. O equilíbrio é tedioso, ainda por cima. E o tédio, hoje em dia, é uma grande desvantagem que em geral as pessoas não perdoam." (pág. 87)

7) Além de definir um traço essencial do personagem, com grande potencial de identificação com o leitor, é um olhar franco sobre o que o torna um personagem aparentemente desprovido de maiores interesses, mas que oculta uma riqueza interior complexa, pois avessa às soluções simplistas, ao engajamento automático, às pressões sociais embrutecedoras ou sentimentalistas (o que traz à lembrança Stoner, o personagem-título do romance de John Williams). Talvez Santomé nos conquiste sobretudo por essa lucidez de um indivíduo que, embora sinta-se frustrado por não aderir à fuga desesperada que muitos empreendem de si próprios, ainda assim reconhece o valor do seu tipo "muito especial de coragem"; e antes que essa situação eventualmente favorecesse o desenvolvimento de ressentimentos insolúveis contra tudo e contra todos, surge Avellaneda com sua coragem não menos especial de reconhecer o valor desse "equilíbrio tedioso". Algo que me deixa perplexo e decepcionado é ver como muitas resenhas sobre o livro reproduzem o lugar-comum falso, estúpido e mesquinho de que a vida de Santomé é meramente monótona, desprovida de sentido, sem nenhuma graça - de fato, não perdoam o tédio; esses resenhistas demonstram, assim, que sequer são capazes de compreender o simples e profundo valor existencial, por exemplo, de "uma das coisas mais agradáveis da vida: ver como o sol se filtra por entre as folhas". Santomé está pleno de razão: precisa-se de bastante coragem para manter-se em equilíbrio. Onde estão as Avellanedas?

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"Eu me senti decepcionado, imbecil, compreensivo." (pág. 99)

8) Surpreendente simultaneidade de adjetivos, que reforça o que há de tragicômico na personalidade de Santomé, abordado no tópico anterior. Não posso deixar de notar a recorrente impressão pessoal de que, sobretudo no Brasil do século XXI, ser compreensivo praticamente equivale a um atestado de imbecilidade; e, no entanto, é a única postura que pode verdadeiramente nos livrar de uma imbecilidade ainda maior, mais completa e mais perversa. E embora o trecho tenha um contexto bem mais restrito, penso que o livro de Benedetti estimula reflexões nesse sentido.

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"Sim, o trabalho amordaça a confiança. Mas também existe a galhofa. Todos somos especialistas em galhofa. A disponibilidade de interesse ante o próximo tem de ser gasta de algum modo; do contrário, ela se instala e sobrevém a claustrofobia, a neurastenia, sei lá. Já que não temos a coragem suficiente, a franqueza suficiente para nos interessarmos amistosamente pelo próximo (não o próximo nebuloso, bíblico, sem rosto, mas o próximo com nome e sobrenome, o próximo mais próximo, aquele que escreve na mesa em frente à minha e me estende o cálculo de juros para que eu o revise e coloque minha rubrica de aprovação), já que renunciamos voluntariamente à amizade, bem, pois então vamos nos interessar galhofeiramente por esse vizinho que, ao longo de oito horas, está sempre vulnerável. Além disso, a galhofa proporciona uma espécie de solidariedade. Hoje o candidato é este, amanhã é aquele, depois de amanhã serei eu. O galhofado maldiz em silêncio, mas logo se resigna, sabe que isso é só uma parte do jogo, que no futuro próximo, talvez dentro de uma hora ou duas, poderá escolher a forma de desforra que melhor coincida com sua vocação. Os galhofeiros, por sua vez, sentem-se solidários, entusiastas, esfuziantes. A cada vez que um deles acrescenta à galhofa um condimento, os outros festejam, trocam sinais, sentem-se cheios de cumplicidade, só falta que se abracem e gritem hurras. E que alívio é rir, mesmo quando é preciso prender o riso, porque lá no fundo assomou o gerente com sua cara de melancia! Que desforra contra a rotina, contra a papelada, contra essa condenação que significa ficar oito horas enredado em algo que não importa, em algo que faz incharem as contas bancárias desses inúteis que pecam pelo mero fato de viver, de deixar-se viver, desses ocos que acreditam em Deus só porque ignoram que há muito tempo Deus deixou de acreditar neles. A galhofa e o trabalho. Em que diferem, afinal? E que trabalho nos dá a galhofa, que cansaço! E que galhofa é este trabalho, que piada de mau gosto!" (pág. 108-109)

9) Verdadeira fenomenologia da galhofa (da gozação entre colegas de escritório, em português claro e raso). Nada a acrescentar; apenas confirmo a sua precisão, como membro desse zoológico.

Anne Magill

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"Fui até a cozinha, acendi o fogareiro e coloquei água para esquentar. Lá do quarto, ela me chamou. Levantara-se assim mesmo, embrulhada na manta, e estava junto à janela, vendo chover. Eu me aproximei, também olhei como chovia, e por alguns minutos não dissemos nada. De repente, tive consciência de que aquele momento, aquela fatia de cotidianidade, era o grau máximo de bem-estar, era a Ventura. Eu nunca havia sido tão plenamente feliz como naquele momento, mas tinha a aguda sensação de que nunca mais voltaria a sê-lo, pelo menos naquele grau, com aquela intensidade. O ápice é assim, claro que é assim. Além disso, tenho certeza de que o ápice é só um segundo, um breve segundo, um clarão instantâneo, e não há direito a prorrogações." (pág. 111-112)

10) Os momentos mais sublimes da vida - como dos livros - não são sempre assim, silentes, imersos na completude do não-dito? O romance luminoso, do outro Mario uruguaio (o Levrero), tem semelhantes ápices efêmeros e venturosos - penso também em Salinger, mestre do inefável. E poucas coisas são tão inspiradoras dessa forma de felicidade algo melancólica (no sentido mais doce e suave da palavra) quanto observar a chuva. Guardo comigo - e procuro praticar - a cena do filme Assassinos da Lua das Flores (Martin Scorsese, 2023), aquela em que os futuros cônjuges recém estão se conhecendo, flertando durante um jantar a sós, quando começa um temporal; ele (Di Caprio) corre e se agita para fechar as janelas, enquanto ela (Lily Gladstone), que é de origem indígena, pede que ele relaxe, que apenas fique sentado quieto, escutando a chuva, reverenciando essa manifestação da natureza; ele ainda tenta puxar assunto, desconfortável com o silêncio, mas ela pede de novo que apenas aprecie o momento em quietude.

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"Assim com a praia vazia, as ondas se tornam imponentes, governam sozinhas a paisagem. Nesse sentido, eu me reconheço lamentavelmente dócil, maleável. Vejo esse mar implacável e desolado, tão orgulhoso de sua espuma e de sua coragem, levemente salpicado de gaivotas ingênuas, quase irreais, e de imediato me refugio numa irresponsável admiração." (pág. 113)

11) Provavelmente o trecho de prosa mais lírica do livro. Sai um pouco do tom do personagem, mas reforça a ideia de que ele possui uma interioridade mais rica e complexa do que aparenta (e do que ele mesmo supõe, já que se trata de um diário). Na sequência, vem a descrição de um diálogo com Avellaneda sobre a dúvida na existência de Deus (e em como defini-lo), questão que vai ficando progressivamente mais premente à medida que a narrativa avança.

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"Deus, se é que existe, deve estar lá em cima admirado. Avellaneda (oh, ela existe) está agora cá embaixo, abrindo os olhos." (pág.117)

"Por isso prefiro a assustadora franqueza do Palacio Salvo, porque ele sempre foi horroroso, nunca nos enganou, porque se instalou aqui, no ponto mais concorrido da cidade, e há trinta anos nos obriga a todos, naturais e estrangeiros, a erguermos os olhos à sua feiura. Para ver os jornais, é preciso baixar os olhos." (pág. 127)

12) Aqui traço um paralelo entre dois trechos distintos, ainda que percam parte do sentido fora de contexto. Além de apreciar o contraste entre o Deus distante que observa de cima e a mulher amada na cama cá embaixo, gosto da ressonância do mesmo tropo acima/abaixo no trecho seguinte, com o Palacio Salvo como uma entidade superior, e a cotidianidade dos jornais lidos aqui embaixo na mesa do café - com ênfase nos "olhos", a encerrar os dois períodos e as duas entradas do diário. É um tropo narrativo que ilumina a postura do personagem diante dos seus dilemas e angústias, procurando conciliar a mundanidade terrena e algum sentido transcendente.

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"Porém, mais do que qualquer outra coisa, o que nos entretém é conversar, falar de nós, contar um ao outro toda essa zona de nossas vidas que se situa antes do Nosso Assunto. Não há diversão, não há espetáculo que possa substituir o que desfrutamos nesse exercício de sinceridade, de franqueza. (...) nestes diálogos francos com Avellaneda, eu me vi pronunciando palavras que pareciam ainda mais sinceras do que meus pensamentos. É possível isso?" (pág. 133)

13) Eu me pergunto: é possível isso? Tudo isso que está aí descrito?

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"Eu penso por minha conta. Mas, mesmo pensando por minha conta, poderia desconfiar do ócio, sempre que o ócio fosse uma simples variante da solidão; como poderia ser, no meu futuro de alguns meses atrás, antes de Avellaneda aparecer. Com ela instalada na minha existência, porém, já não haverá solidão. Isto é: tomara que não haja. Convém ser mais modesto, mais modesto. Não diante dos outros, isso não importa. Convém ser mais modesto quando o sujeito se enfrenta, quando se confessa a si mesmo, quando se aproxima de sua verdade extrema, que pode até chegar a ser mais decisiva do que a voz da consciência, porque esta sofre de afonias, de rouquidões imprevistas, que com frequência a impedem de ser audível. Agora já sei que minha solidão era um horrível fantasma, sei que a simples presença de Avellaneda bastou para espantá-la, mas sei também que ela não morreu, que deve estar juntando forças em algum porão imundo, em algum arrabalde da minha rotina. Por isso, só por isso, abro mão da minha suficiência e me limito a dizer: tomara." (pág. 139)

14) Mais uma demonstração de que a consciência do personagem tem consistência invulgar. O trecho se torna especialmente doloroso na releitura.

Tom Shropshire

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"(...) formam para si uma espécie de casca de orgulho, uma embalagem repugnante, uma sólida hipocrisia, mas no fundo são ocos. Asquerosos e ocos. E padecem a mais horrível variante da solidão: a solidão daquele que nem sequer tem a si mesmo." (pág. 144)

15) A lucidez ácida de Santomé encontra repouso naquilo que nós, leitores, aspiramos: ter a nós mesmos - coisa que a poesia e a literatura de ficção nos ensinam, nos inspiram, nos desafiam. Harold Bloom tem muitas frases certeiras a esse respeito, e aqui vão três delas: "A recepção da força estética nos possibilita aprender a falar a nós mesmos e a suportar a nós mesmos." / "Esse leitor não lê pelo prazer fácil ou para expiar alguma culpa social, mas para ampliar uma existência solitária." / "Lemos, penso eu, para sanar a solidão, embora, na prática, quanto melhor lemos, mais solitários ficamos."

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"Quando um indivíduo permanece muito tempo sozinho, quando se passam anos e anos sem que o diálogo vivificante e investigativo o estimule a levar essa modesta civilização da alma, que se chama lucidez, até as zonas mais intrincadas do instinto, até essas terras realmente virgens, inexploradas, dos desejos, dos sentimentos, das repulsas, quando essa solidão se transforma em rotina, ele vai perdendo inexoravelmente a capacidade de sentir-se sacudido, de sentir-se viver." (pág. 144-145)

16) Que achado, esta definição de lucidez: "modesta civilização da alma". Espécie de contraponto do tópico anterior, aqui Santomé fala de si mesmo. Como ele não é um leitor (há menção apenas da compra de um livro e de leitura de revistas), posso apenas acrescentar que os grandes livros de ficção (e a grande arte, a poesia lato sensu) têm justamente a capacidade de sacudir, de despertar, de avivar os pontos sensíveis da vida - foi a leitura de A trégua, para citar apenas um exemplo, que me inspirou a concretamente enfrentar uma situação que vinha me perturbando -, o que não necessariamente impede a ocorrência do que ele descreve (sem falar que existe o perigo de romantizar falsamente a vida a partir de leituras ruins, ao modo Madame Bovary). Lembro agora do entusiasmo de Natalia Ginzburg em um dos ensaios de Não me pergunte jamais: "não lembrava mais o que era um romance vivo. Não lembrava quanta vida nos agrega e como de repente ele pode, com sua presença viva, arrancar ao mesmo tempo nossos trajes de luto e nossa íntima e lúgubre indiferença. (...) os verdadeiros romances podem milagrosamente nos devolver o amor pela vida e a sensação concreta do que queremos da vida. Os verdadeiros romances têm o poder de nos livrar da covardia, da letargia e da submissão às ideias coletivas, aos contágios e aos pesadelos que respiramos no ar. Os verdadeiros romances têm o poder de nos conduzir, repentinamente, ao coração do real". E isso ocorre menos pelo que é narrado, e mais por assumirmos tão completamente outra perspectiva, por adotarmos tão profundamente outra subjetividade, que nosso olhar assim modificado lança uma luz diferente sobre tudo.

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"(...) ver passar a Gente e esquadrinhar seus rostos, reconhecer aqui e ali expressões de felicidade e de amargura, ver como se precipitam todos rumo aos seus destinos, em insaciada turbulência, em esplêndida azáfama, e dar-me conta de como avançam, inconscientes de sua brevidade, de sua insignificância, de sua vida sem reservas, sem jamais se sentirem encurralados, sem admitir que estão encurralados. (...) Creio que nesse momento afirmou-se definitivamente em mim uma convicção: eu sou deste lugar, desta cidade. (...) Esse que passa (o de sobretudo comprido, orelha de abano, passo capenga e raivoso), esse é meu semelhante. Ainda ignora que eu existo, mas um dia me verá de frente, de perfil ou de costas, e terá a sensação de que entre nós existe algo secreto, um recôndito laço que nos une, que nos dá forças para nos entendermos." (pág. 154-155)

17) Pena que a essa altura eu já não estava lendo na Redenção ou em outro local público. Ótima expressão do singular prazer existencial em ser apenas mais um na multidão que habita uma grande cidade. O caráter de observação urbana é fundamental para acentuar o conflito do personagem que inscreve-se entre, de um lado, ser apenas mais um cidadão sem maior relevância, e, de outro, ser reconhecido em sua individualidade, ser encontrado em meio à indistinção existencial cinzenta. Além disso, pessoalmente, frente à epidemia de celulares e redes sociais (e suas respectivas ansiedades), cheguei num ponto em que nada me provoca maior sentimento dessa irmandade com desconhecidos do que ver alguém que apenas observa o mundo, sozinho, sereno - como um pária que se entretém com o sol filtrado pelas folhas, por exemplo.

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"Este dia com Avellaneda não é a eternidade, é só um dia, um pobre, indigno, limitado dia, que todos nós, de Deus para baixo, condenamos. Não é a eternidade, mas é o instante, que, afinal, é o único sucedâneo verdadeiro da eternidade." (pág. 156)

18) Mais um aspecto da tentativa do personagem de equilibrar o mundano e o transcendente. Proust aprovaria essa definição do instante - ao contrário do que muitos podem pensar, Em busca do tempo perdido não refere-se ao resgate do passado ou das memórias, e sim do valor do instante; é o agora que está sempre se extraviando. E o que o herói de Proust descobre é que somente a arte (literatura, artes visuais e, sobretudo, música) recupera plenamente o valor do instante, reatualizando-o no seu universo ficcional. Santomé decerto não concordaria, mas Benedetti, quem sabe?

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"Detesto os aniversários, as alegrias e as dores a prazo fixo." (pág. 168)

19) Pretendo adotar essa máxima para uso pessoal. Tem muito a ver com a nota anterior.

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"Tive a sensação, além disso, de que havia um argumento decisivo, um argumento que estava junto de mim, diante de mim, e que, apesar disso, eu não conseguia reconhecer, não conseguia incorporar à minha alegação." (pág. 176)

20) Me soa bastante kafkiana essa sensação, esse argumento que escapa, essa angustiante lógica elusiva, como num sonho. É uma forma de registro que ainda não aparecera de modo tão evidente no diário de Santomé, e que vem à tona nas inquirições a Deus após um evento trágico.

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"Ela me dava a mão e eu não precisava de mais nada. Bastava isso para que eu me sentisse bem acolhido. Mais do que beijá-la, mais do que nos deitarmos juntos, mais do que qualquer outra coisa, ela me dava a mão, e isso era amor." (pág. 180)

21) Eu nem pretendia acrescentar nada, apenas silenciar diante de toda essa beleza (e dor). Mas me ocorre agora, copiando o trecho, como essa mão faz um contraste (irônico, tocante, triste) com aquela catalogação das partes do corpo feminino na 1ª nota. Ampla vitória da mão que se dá.

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As entradas dos dias 6 de fevereiro e 13 de fevereiro. (pág. 180-184)

22) São duas entradas mais longas que o habitual, narrando a ida de Santomé à casa dos pais de Avellaneda. Não é o caso de transcrevê-las, nem de resumi-las. Para mim formam o ápice da obra, o seu momento mais marcante e sublime. Quero apenas remeter à nota 17, para enfatizar que o desejo do personagem de "ser reconhecido em sua individualidade, ser encontrado em meio à indistinção existencial cinzenta", vai além do relacionamento com Avellaneda, e alcança aqui, diante da mãe dela, uma forma de reconhecimento mais sutil, inefável, comovente. Me parece que a missão desse extraordinário e apaixonante livrinho se consuma nesse ponto.

Paul Fenniak

Indicações I

[Publicado originalmente em 29/06/2024 em blog desativado]


1) Sobre a música Inverno (Adriana Calcanhotto), por Túlio Ceci Villaça:

https://tuliovillaca.wordpress.com/2020/02/07/uma-parceria-e-dois-males-do-seculo/


2) Do mesmo autor, sobre Cazuza, Clarice Lispector, Cássia Eller, Legião Urbana:

https://tuliovillaca.wordpress.com/2024/06/18/clarice-e-cazuza-como-reproduzir-em-palavras-o-gosto/


3) The deracination of literature, ensaio de Mary Gaitskill:

https://unherd.com/2022/06/the-death-of-literature


4) Resenha dos Diários de Kakfa, por Felipe Charbel:

https://quatrocincoum.com.br/resenhas/literatura-israelense/as-vidas-paralelas-de-kafka


5) Entrevista com o pintor Nigel Van Wieck, por Ben Jones:

https://benhaynesjones1999.wordpress.com/2018/08/23/in-conversation-with-nigel-van-wieck-artist/


6) Porquê filmar?, ensaio de Pedro Florêncio:

https://apaladewalsh.com/2023/10/porque-filmar/


7) Entrevista com Shiguéhiko Hasumi a respeito de Ozu, por K. F. Watanabe:

https://mubi.com/pt/notebook/posts/this-second-is-eternal-shiguehiko-hasumi-on-directed-by-yasujiro-ozu


8) Entrevista (áudio) com Wim Wenders sobre Dias Perfeitos:

https://mubi.com/en/notebook/posts/mubi-podcast-perfect-days-wim-wenders-cures-his-post-pandemic-blues


9) Celine Song sobre seu filme Vidas Passadas:

https://www.youtube.com/watch?v=IAy9WVR5BUg


10) Sobre a versão de David Bowie de Wild Is The Wind, por Ana Júlia Galvan:

https://unamuno.com.br/david-bowie-station/


10 filmes preferidos de 2024

 [Publicado originalmente em 29/12/2024 em blog desativado]

Lançados nos cinemas de Porto Alegre em 2024, em ordem de preferência.


1º) Folhas de Outono (Kuolleet lehdet, dir. Aki Kaurismäki)

[visto e revisto na Casa de Cultura Mario Quintana]

Confesso que não conhecia nenhum dos filmes do diretor finlandês (o que decerto facilitou meu deslumbramento), e portanto não tinhas grandes expectativas. Reforço o coro dos que ficam cativados pelo olhar de Kaurismäki sobre essas figuras solitárias, desajeitadas, apagadas, falidas, e pelo coração genuíno que transparece por trás de um aparente artificialismo frio e irônico. Lembro especialmente do frenesi que percorria a sala de cinema na cena capital da reviravolta do protagonista ao ouvir as moças cantando e tocando no bar. (A propósito, o duo de irmãs se chama Maustetytöt, os seus discos são muito bons, e acabei me tornando um ouvinte frequente do pop irresistivelmente estranho delas, que cai como uma luva no filme e no estilo do diretor).


1º) Vidas Passadas (Past Lives, dir. Celine Song)

[visto e revisto na Casa de Cultura Mario Quintana]

O filme de estreia da sul-coreana não é tão bem realizado quanto o do experiente finlandês, mas a verdade é que no meu gosto está empatado na primeira colocação. Dificilmente vemos cenas de abertura e de encerramento tão magistrais quanto aqui — meses depois de vistas, ainda me pego envolvido no olhar enigmático da maravilhosa Greta Lee, como também na sua pungente caminhada de volta pra casa. Além da fascinante sugestão sobre as muitas camadas que compõem a realidade, raramente vemos personagens com tamanha dignidade, emocionalmente maduros, sem serem idealizados, funcionando perfeitamente numa estrutura dramática que abre mão do triângulo amoroso, dos conflitos romanescos e dos rompantes sentimentais — e, por isso, o aparentemente apagado personagem de John Magaro surpreendentemente se torna o mais interessante — não por acaso o desfecho do filme converge na sua direção. A diretora dá umas pistas bacanas sobre os bastidores nesse vídeo.

3º) Dias Perfeitos (Perfect Days, dir. Wim Wenders)

[visto na Casa de Cultura Mario Quintana e revisto em casa]

O ato de observar não é meramente passivo; as árvores, o vento, as sombras, a luz, a música, o silêncio, os livros, as ruas, os transeuntes desconhecidos — tudo isso merece a atenção que o filme de Wenders proporciona. Não se fica realmente sozinho quando se sabe apreciar a companhia de todo esse mistério do planeta — se esse idealismo pode transcender o universo ficcional do filme e ser vivido de fato, é algo que cabe a cada um de nós descobrir por conta própria. Do que mais gostei nesse filme é que me fez ouvir músicas conhecidas como se fosse pela primeira vez, magicamente restituindo aquele prazer único da descoberta de uma música que vai se tornar familiar. Nina Simone, minha maior paixão musical há anos, encerra o filme com aquele misto de alegria e melancolia que para mim é o verdadeiro espírito da arte e da vida (cena que, com outra trilha exuberante, lembra o emocionante final de Jackie Brown, a obra-prima de Tarantino). Wenders revela, inclusive, que a música interpretada por Nina Simone foi a inspiração principal desde o início das filmagens.


4º) Ervas Secas (Kuru Otlar Üstüne, dir. Nuri Bilge Ceylan)

[visto na Casa de Cultura Mario Quintana]

Os filmes do diretor turco são sempre cansativos, com diálogos excessivamente longos e retóricos, mas nunca deixam de conter pelo menos uma cena cuja beleza numinosa não parece deste mundo. Nada em 2024 foi tão sublime quanto as cenas finais de Ervas Secas (retratadas na foto abaixo, a mesma que ilustra o cartão postal de divulgação distribuído na bilheteria do cinema, e que desde então deixo na minha escrivaninha como se fosse uma fotografia familiar).


5º) Nada será como antes (dir. Ana Rieper)

[visto na Casa de Cultura Mario Quintana]

O documentário sobre o Clube da Esquina está longe de ser um ótimo filme, mas os “personagens” são tão carismáticos, e as composições estão entre as melhores coisas já ouvidas na música popular, e o amálgama de diferentes estilos e formações musicais e culturais (música clássica, samba de terreiro, rock progressivo, Beatles, cantigas populares, etc) é tão representativo do que o Brasil tem de melhor, e o relato de Lô Borges seguindo uma voz desconhecida cantando no corredor do condomínio é um testemunho tão vivo de que, se Deus cantasse, teria a voz de Milton Nascimento (alô Elis Regina) — que não tem como não sair encantado da sala de cinema.


6º) O mal não existe (Aku wa sonzai shinai, dir. Ryûsuke Hamaguchi)

[visto e revisto na Casa de Cultura Mario Quintana]

Após assistir o filme e pesquisar sobre, fiquei grato por confirmar a minha impressão inicial de que o aspecto mais fundamental é a sua trilha sonora original — de Eiko Ishibashi, de quem partiu a provocação ao diretor para que fizesse um filme para a música que ela compusera. É tão intenso e significativo o uso da trilha sonora nos travellings de abertura e de encerramento, que fica mesmo a impressão de que apenas essa música simultaneamente bela e dissonante é capaz de expressar plenamente o mistério e a estranha beleza que as imagens e o ritmo do filme evocam. Nesse sentido, o novo filme de Hamaguchi se junta a, por exemplo, Morte em Veneza (Visconti) e O Vale do Amor (Guillaume Nicloux), como filmes que parecem ter sido feitos para traduzir em imagens uma música específica (respectivamente o Adagietto, de Mahler, e The Unanswered Question, de Charles Ives).


7º) Coringa: delírio a dois (Joker: Folie à Deux, dir. Todd Phillips)

[visto no GNC Cinemas do Praia de Belas]

Só não digo que possui a mesma qualidade do primeiro Coringa porque já não tem o mesmo impacto da surpresa. A transição para um musical (e o modo como isso impacta na sensibilidade do alucinado protagonista) é muito bem-vinda e coerente com o que o filme anterior apresentou ( aqui o meu comentário sobre o primeiro Coringa, em que enfatizei o uso da trilha sonora original e o caráter performático e operístico de “ um artista em busca do seu palco e do seu público, à procura do eu-lírico que se oculta sob a persona pública e cotidiana — e do assombroso poder ambivalente da força criadora e destrutiva que jaz na imaginação humana”), agora levado à sua plena realização nesse segundo filme. Além do mais, um dos momentos mais comoventes do ano foi ver Arthur Fleck cantando a versão em inglês de Ne Me Quitte Pas no telefone, sem resposta, uma desilusão amorosa toneladas mais pesada do que todo o estardalhaço social em torno do personagem — o tipo de cena que levo comigo pra sempre (e um momento perfeito para que o filme terminasse, ao meu ver, pois tudo o que vem depois me soa como concessão reiterativa).


8º) La Chimera (dir. Alice Rohrwacher)

[visto na Cinemateca Capitólio]

Apesar da costura incongruente e um tanto inábil de diversos gêneros e tipos de registro, La Chimera alcança momentos de verdadeira poesia e rara beleza — seja na crueza decadente de alguns cenários, na sublime exploração dos subterrâneos que guardam tesouros artísticos, ou no rico simbolismo explorado pelo filme. Carol Duarte rouba a cena com seus olhares furtivos e sua presença sempre interessante.


9º) Lupicínio Rodrigues: confissões de um sofredor (dir. Alfredo Manevy)

[visto na Cinemateca Capitólio]

Possivelmente o melhor artista que Porto Alegre já gerou, Lupicínio ganha um documentário muito bem realizado, entremeando com inteligência e sensibilidade os diversos registros — entrevistas, músicas, depoimentos, contextualização histórica e geográfica -, sem perder de vista o que mais importa: a música e o seu encanto, seja de júbilo, seja de dor.


10º) Jurado nº 2 (Juror #2, dir. Clint Eastwood)

[único da lista que não foi lançado nos cinemas, visto em casa]

Penso que o personagem do idoso que testemunha afirmando reconhecer o assassino — ansioso por ser útil, prestativo, socialmente relevante — acaba por ser o melhor retrato de todos nós, bem intencionados e equivocados, vítimas da nossa própria fé na humanidade, quando não passamos de limitadas criaturas em meio à escuridão e à borrasca, procurando ansiosamente por alguma certeza, desejando alguma convicção numa era em que isso já não parece possível.

P.S. 1: Fechada a lista, vejo que 6 filmes têm participação fundamental da música: 3 com música diegética decisiva, 1 com trilha sonora imprescindível, e 2 documentários sobre músicos.
P.S. 2: Dentre os muitos filmes que não vi, desconfio que O quarto ao lado (dir. Almodóvar) poderia ter lugar nesta lista.
Originally published at http://benderlucas.com on December 29, 2024.

24 novembro 2025

Breve paralelo entre “Um retrato do artista quando jovem” e “Os irmãos Karamázov” 

[Publicado originalmente em 12/03/2023 em blog pessoal desativado]

Richard Thorn


São ambas epifanias arrebatadoras, decisivas na trajetória de dois jovens seminaristas em crise diante da dificuldade de conciliar suas aspirações com o mundo tal qual é. Stephen Dedalus diante da moça desconhecida na praia faz eco a Aliócha após o seu encontro com Grúchenka: 

“Um retrato do artista quando jovem” (James Joyce): 

Ele se afastou de repente dela e se afastou pela praia. Seu rosto estava em chamas; seu corpo brilhava; seus membros tremiam. Adiante, adiante, adiante e adiante ele foi, bem longe sobre a areia, cantando ensandecido para o mar, gritando em reconhecimento ao advento da vida que tinha gritado por ele. 

A imagem dela entrara em sua alma para sempre e palavra alguma rompera o silêncio santo de seu êxtase. Os olhos dela chamaram por ele e sua alma saltara em resposta ao chamado. Viver, errar, cair, triunfar, recriar da vida a vida! Um anjo ensandecido lhe surgira, o anjo da juventude e da beleza mortais, um enviado das belas cortes da vida, para abrir diante dele num instante de êxtase os portões de todos os caminhos de erro e de glória. Adiante, adiante, adiante e adiante! 

Ele se deteve subitamente e ficou ouvindo o coração em silêncio. Quanto tinha andado? Que horas eram? 

Não havia qualquer figura humana perto dele nem qualquer som lhe era trazido pelo ar. Mas a maré estava quase virando e o dia já minguava. Ele se virou para a terra e correu para a praia e, correndo praia inclinada acima, sem ligar para o pedrisco triscante, encontrou um cantinho de areia em meio a um aro de pequenas dunas cobertas de tufos e se estendeu ali para que a paz e o silêncio do entardecer pudessem lhe acalmar o caos do sangue. 

Sentiu acima de si a vasta abóbada indiferente e os calmos progressos de corpos celestes; e a terra sob seu corpo, a terra que o tinha gerado, que o tinha posto no colo.

(pág. 209-210, ed. Companhia das Letras, trad. Caetano Galindo) 

* * *

“Os irmãos Karamázov” (Fiódor Dostoiévski): 

Não parou nem no alpendre, desceu rapidamente os degraus. Sua alma cheia de êxtase ansiava por liberdade, por espaço, por amplitude. Sobre sua cabeça desmaiava a abóbada celeste inalcançável à vista e coberta de estrelas serenas e cintilantes. Do zênite ao horizonte desdobrava-se uma vaga Via Láctea. A noite fresca e quase imóvel de tão calma envolvia a Terra. As torres brancas e as cúpulas douradas da catedral resplandeciam contra um céu safira. Nos canteiros próximas à casa, as exuberantes flores do outono tiraram a noite num sono só, que se estendeu até o amanhecer. O silêncio da terra parecia fundir-se ao silêncio do céu, o mistério da terra tocava o mistério das estrelas... Aliócha observava tudo parado, e de repente desabou de joelhos sobre a terra como se o tivessem abatido. 

Não sabia por que a abraçava, não se dava conta da razão pela qual sentira uma vontade incontida de beijá-la, de beijá-la toda, mas ele a beijava chorando, soluçando e banhando-se com suas lágrimas e, exaltado, jurava amá-la, amá-la até a consumação dos séculos.

(pág. 488, Editora 34, trad. Paulo Bezerra) 

Meus filmes preferidos de 2020

O ano da peste. O ano dos cinemas fechados. O ano em que mais assisti filmes na minha vida, porém em que menos vezes fui ao cinema — uma contradição atroz, para quem considera que o ritual da sala de cinema pode ser tão importante quanto o filme em si. Lamentações evasivas de quem assistiu apenas oito lançamentos e oferece esta escassa lista de preferidos:

1º) Uma Vida Oculta (Terrence Malick)

Malick volta a pisar em chão mais firme, ao mesmo tempo em que nos leva para alturas alpinas — e além. Terra e Céu conjugam-se numa grande história de amor. Escrevi sobre o filme para o Persona.

2º) O Oficial e o Espião (Roman Polanski)

Não é necessário ter algum interesse prévio pelo infame caso Dreyfus para ser completamente cativado pelo filme, pois através de tamanha elegância, concisão, apuro, sobriedade e rigor, não resta ao espectador outra opção senão render-se.

3º) On The Rocks (Sofia Coppola)

Aqui a vida ou presença oculta é de Woody Allen, certamente uma das grandes inspirações para uma amadurecida Sofia Coppola alcançar a adorável mistura de frivolidade e encanto que o veterano nova-iorquino realiza como ninguém.

4º) O Caso Richard Jewell (Clint Eastwood)

Já no texto que fiz para o Persona dizia que pouquíssimas cenas se mantêm vivas na memória — o que o tempo confirmou, a mim pelo menos. Embora não deixe saudades, é mais uma demonstração da eficiência narrativa de Eastwood na abordagem de tragédias que ocorrem sobretudo no íntimo dos indivíduos.


Não deixa de ser curioso que, dos quatro filmes, três sejam centrados na acusação e/ou prisão de homens íntegros, injustiçados, perseguidos — todos eles homens reais em histórias verídicas. Na verdade, isso me faz gostar ainda mais do filme de Sofia Coppola, por sua capacidade de se fazer notável com sua despretensiosa graça em meio a histórias verídicas tão prementes.

Para 2021, espero que possamos voltar ao bom e velho cineminha, àquele arrepio de expectativa quando as luzes se apagam, àquele misterioso silêncio compartilhado na escuridão — até mesmo à eventual irritação pelos maus modos dos desconhecidos com quem compartilhamos a sessão, com quem compartilhamos esse hábito tão trivial e tão mágico de frequentar as salas de cinema.

26 dezembro 2019

10 filmes de 2019

Estes são os meus dez filmes preferidos de 2019. Considero os que estiveram em cartaz nos nossos cinemas durante o ano (com duas exceções). Estão em ordem de preferência, com título, diretor, um breve comentário e uma foto.

1º) Assunto de Família (Hirokazu Koreeda)

Uma escolha fácil. Costumo gostar dos filmes do Koreeda, mas não tanto quanto deste. Há uma tensão que é instalada desde o princípio, e que vai assumindo crescente dramaticidade com o seu desenrolar, proporcionando ao filme uma força que faltava nos trabalhos anteriores do diretor — sem, contudo, perder o equilíbrio harmônico de planos despretensiosos e despojados, que permitem a espontaneidade bem humorada da interação entre as personagens, bem como a simplicidade cativante de rotinas domésticas, além do lirismo de cenas exteriores junto à natureza. Escrevi sobre o filme para o Persona.


2º) Coringa (Todd Phillips)

Grande parte das leituras que o filme recebeu sugerem o contrário, mas considero-o bastante auto-referente, fechado em si próprio. Gotham é uma cidade de trevas, apenas. Todos os personagens decepcionam as expectativas de Arthur Fleck. Todas as perspectivas de redenção são fechadas, deformadas, desvirtuadas. Não há luz nenhuma, a não ser o brilho íntimo da individualidade que descobre a sua força, a sua vitalidade, a sua afirmação. E essa descoberta é ótima de se acompanhar, revela toda a capacidade do cinema em nos abrir a realidade interior de um indivíduo. Mas, por outro lado, baseia-se num artifício que deforma a realidade exterior. É muito mais fácil criar tomando por base apenas trevas, pois mostrar a luz é bem mais complexo. O efeito final disso é que o filme é obcecante — e aí repousa toda a sua sombria glória e toda a sua limitação.

3º) A Árvore dos Frutos Selvagens (Nuri Bilge Ceylan)

Dada a sua longa duração, é preciso ter paciência, é necessário dar um voto de confiança ao diretor turco, é preciso colocar-se naquele estado de espírito contemplativo, que não gera expectativas, não cria ansiedades, que deixa as coisas fluírem no seu ritmo natural. São posturas que o próprio protagonista do filme vai aprendendo, junto conosco. Ceylan, capaz de criar cenas de beleza ímpar, nos premia aqui com um momento dourado junto a uma moça que sorri, à sombra das árvores e ao som do vento nas folhas, que é das coisas mais exuberantes e memoráveis que o ano de 2019 nos ofereceu.

4º) História de um casamento (Noah Baumbach)

Não foi lançado nos cinemas do Brasil, entrando direto no Netflix. O que inviabiliza a vida de um casal assim — belos, prósperos, relativamente jovens, profissionalmente destacados, talentosos — é o medo de estagnar-se no que eles consideram como mediocridade, ou seja, uma vida “invisível”, pacata, rotineira, despretensiosa, doméstica, familiar. Quando as frustrações desse jaez são levadas ao paroxismo pelo verdadeiro inferno jurídico do divórcio, começa a girar a roda da tragédia que vai triturar a boa vontade das pessoas. A abordagem do filme flerta com a banalidade, mas sobressai a pungência de sua honestidade e a beleza inesperada de gestos simples — características sintetizadas na cena em que o personagem de Adam Driver canta no microfone de um bar; seu canto não é belo, não é formalmente rico, mas sua interpretação nos toca.

5º) O Irlandês (Martin Scorsese)

Sou da turma que penou para acompanhar o desenrolar da longa trama, que cansou diante do painel histórico dos EUA e que não criou grandes laços afetivos com os personagens. No entanto, sou também da turma que achou a última parte do filme sublime, redimindo todo o enfado que nos fez chegar até ali. O que mais me afasta do filme é ver que ao longo de toda a vida adulta de Frank (De Niro) quase não há espaço para o amor apaixonado, quase não há importância na presença das mulheres que tenham feito seu coração bater mais forte. Tenho dificuldade em crer num personagem assim. No entanto, não é exatamente este o drama mais silencioso e subterrâneo de Frank? No fim das contas, não é esta a condenação no olhar da sua filha?

6º) Ad Astra (James Gray)

“Ad Astra” é a travessia do descomunal deserto da solidão, para aprender a acolher e gerar a vida. Pra mim, é o tipo de filme que cresce à medida que pensamos nele, posteriormente, compensando alguma decepção durante a sua fruição. De James Gray espero sempre o máximo, o que não é muito justo, mas é o ônus de quem já nos presenteou com obras-primas como “Os Donos da Noite” e “Era uma vez em Nova York”.

7º) Fé Corrompida (Paul Schrader)

Muito se falou sobre First Reformed no ano passado; o filme permaneceu sem lançamento nos nossos cinemas, mas em 2019 foi disponibilizado oficialmente em streaming, com o título de “Fé Corrompida”. Escrevi acerca dele para o Persona, inclusive usando a definição “fé pervertida”, que ficou muito próxima do que viria a ser o título brasileiro. Faltou, no meu texto, a obrigatória referência a “Luz de Inverno”, do Bergman, do qual saiu a maior parte da inspiração de Schrader.

8º) O hotel às margens do rio (Hong Sang-soo)

Temos origem no Paraíso e precisamos aprender a ser humanos. Isso é poesia, e se você não sabe disso, então é um morto em vida. Somos gratos pela beleza, embora vivamos em quartos de hotel inexpressivos e sustentemos conversas ébrias em torno da mesa. Um poeta vai morrer amanhã.

9º) Um dia de chuva em Nova York (Woody Allen)

Uma lição de como fazer um filme simultaneamente bobo e encantador. Na cena de clímax dramático, em que o jovem protagonista descobre que sua mãe não é a mera dondoca fútil e esnobe que parecia, algo análogo ocorre conosco, ao percebermos que a aparente frivolidade juvenil do filme reveste um núcleo mais significativo. E se calhar de você voltar da sessão de cinema andando na chuva, garanto que o encantamento será abundante.

10º) Era uma vez em… Hollywood (Quentin Tarantino)

Sendo bem franco, eu não posso dizer que gostei do filme, mas algumas críticas me ajudaram a compreendê-lo e valorizá-lo. Seja como for, bastam as duas cenas em que o personagem do Di Caprio contracena com uma menininha (o nome da pequena e adorável atriz mirim é Julia Butters) para deixar uma boa saudade.



Em 2020 teremos filme novo do Terrence Malick, ou seja, já está garantido que será um grande ano. Desejo um bom Ano Novo para todos que amam o cinema!

16 dezembro 2018

Meus filmes preferidos de 2018

A cada final de ano escolho os dez filmes de que mais gostei, mas em 2018 só consegui juntar sete. Título, diretor e breve comentário: 

1º) Três anúncios para um crime (Martin McDonagh) 
Nunca foi tão fácil escolher o preferido do ano, disparado acima dos demais. Um improvável estudo sobre a caridade e o perdão, marcado pela violência e pela bizarrice. Fiz um comentário mais extenso para a Amálgama, no link abaixo:








2º) Maria Madalena (Garth Davis) 
Pelo que pude ver, o filme desagradou tanto a cristãos quanto a ateus; na melhor das hipóteses, foi desprezado. Por isso, vale um comentário um pouco mais extenso. Concedo que não é um grande filme, mas a mim tocou o coração. Antes de qualquer coisa, fique claro que não há “relação amorosa” entre Jesus e a personagem-título; o que o filme faz é concebê-la entre os apóstolos de Cristo, como fiel discípula que o segue junto com Pedro, Judas, Tomé e os demais. Embora sempre haja certa margem de ambiguidade, me parece que o filme evita as tentações ideológicas, como a de exaltar a figura feminina a partir de valores modernos. Creio mesmo que o filme transporta para Maria Madalena muito do que caracteriza Maria, a Nossa Senhora. No filme, Maria Madalena é a discípula que melhor ouve Cristo, é a que melhor lhe compreende, a que melhor aceita o que parece insensato em suas escolhas, é a que melhor sabe esperar. Madalena é a mais fraca, a mais passiva, a menor entre todos eles. Mas, na lógica paradoxal dos Evangelhos – em que fraqueza é força, pequenez é grandeza, pobreza é abundância - Madalena é a mais preparada para o Reino. Por isso, acho o filme essencialmente anti-gnóstico, contra o mistério domesticado, que é uma tentação muito presente em outros discípulos, que querem guiar Jesus ou desejam o Reino para agora, para já. Em termos estéticos, o filme tem cenas memoráveis, como a da reanimação de Lázaro e como o rosto iluminado da protagonista ao ver o Ressuscitado. 


3º) O dia depois (Hong Sang-Soo) 
O sul-coreano emplaca o segundo ano consecutivo nas minhas preferências, sobretudo graças à interpretação de Kim Min-Hee e às suas falas cheias de uma lucidez agridoce. É filme que chega ao ponto de perguntar, com todas as letras: “por que você vive?”; no entanto, não lhe falta leveza e um olhar contemplativo de serenidade, que simultaneamente repousam e agitam o espírito. 


4º) A balada de Buster Scruggs (irmãos Coen) 
Considero-o bastante irregular. Embora veja aspectos brilhantes em todas as histórias, meu coração fica quase inteiramente preso ao episódio da moça na caravana. Se é verdade que todos os episódios refletem sobre a morte, penso que essa história trabalha sobretudo com a descoberta da alegria de viver e do feliz acaso de um encontro – bem como com a irônica tragédia dos seus inversos, a insegurança de viver e o infeliz acaso de um encontro, que dão à morte o seu peso terrível e insondável. 


5º) Trama Fantasma (Paul Thomas Anderson) 
De tão perfeito, é difícil amá-lo. A mim o espírito do filme não convence, o que não me impede de ficar fascinado com o seu aspecto, seus modos, sua elegância, seu porte, seu perfume inconfundível de cinema feito com encantamento e excelência. 


6º) 15h17: Trem para Paris (Clint Eastwood) 
Em um filme bastante semelhante ao seu anterior – “Sully: o herói do Rio Hudson” –, Eastwood continua mostrando que sabe como contar uma história. Retornam os elementos e símbolos cristãos, ausentes no filme anterior, embora o assunto principal continue sendo o mesmo: o livre arbítrio. Independente de em quê acreditamos, o fato mesmo de que decidimos agir é um enigma – enigma que pressupõe sempre alguma forma de esperança. Pena que o filme tenha tantas parcelas de banalidade imagética e estética; ainda que se possa dizer que essa é a proposta estética deliberada, creio que falta maior cuidado com a imagem. 


7º) A melhor escolha (Richard Linklater) 
Bastante medíocre e limitado, mas suficientemente espirituoso para ser lembrado com alguma saudade, graças ao entrosamento divertidíssimo entre Steve Carell, Bryan Cranston e Laurence Fishburne. Tem uma cena em que eles jogam conversa fora, falando bobagens mesmo, que me deixou com aquela dor muscular na barriga, que acontece quando rimos demais (ou quando tentamos segurar o excesso de gargalhadas, para não atrapalhar no cinema). Já é o suficiente. (E fico me perguntando se, apesar da mediocridade, não seja talvez melhor do que o aclamado Boyhood, do mesmo diretor). 

31 dezembro 2017

10 filmes de 2017

Podem não ser os dez melhores filmes do ano, mas são os que chegaram mais perto do meu coração. [Aviso de antemão que não assisti alguns filmes que, desconfio, me seriam de muito agrado, principalmente “Z – A Cidade Perdida” e “Além das Palavras”]. Vamos à lista, em ordem de preferência:

1º) La La Land (Demian Chazelle)
Adorável abordagem sobre o páthos romântico. O poder dos temas musicais ao piano de evocar a grandeza e a miséria do amor de Mia e Sebastian é encantador e desesperador, a um só tempo. Casablanca revisitado – este me parece o paralelo mais fecundo, e não com os musicais.

2º) Manchester à beira-mar (Kenneth Lonergan)
A maior força do filme está no seu protagonista, Lee, que transmite uma espécie de dignidade baseada numa experiência trágica de vida. Como um náufrago em terra firme, se defronta com o fato de que não basta agir como se tudo dependesse de uma fé otimista na bondade natural humana. Lee vislumbra o abismo de ter a consciência de que nem tudo depende da nossa vontade.

3º) Paterson (Jim Jarmusch)
Novamente, um personagem raro e precioso. Paterson cultiva sua liberdade interior sem se deixar oprimir pela aparente banalidade da vida cotidiana. Inspiradora jornada sobre como sentir-se em casa no universo. Escrevi mais sobre o filme neste ensaio aqui.

4º) De canção em canção (Terrence Malick)
De canção em canção, alimenta-se o som e a fúria a fim de ludibriar o tédio e o vazio. Poderemos viver uma vida verdadeira deste modo? Não é esta uma morte em vida? Será possível renascer, de algum modo? Malick segue pintando seu monumental afresco no teto de sua catedral cinematográfica – representando, filme após filme, o drama espiritual do nosso tempo e da nossa condição.

5º) Até o último homem (Mel Gibson)
Não apenas o personagem é extraordinário, mas a ambientação do campo de batalha é digna de um inferno dantesco. Neste inferno, porém, Desmond Doss entrará sem abandonar toda a esperança, o que levará sua fé e caridade ao limite.

6º) Silêncio (Martin Scorsese)
Se a questão é a fé levada ao limite, Scorsese e Shusaku Endo (o autor do romance) dão a palavra final – ou, melhor dizendo, o silêncio final. Creio que o mais interessante é pensar na importância fundamental de Kichijiro – o traidor, o fraco, o errante, o demasiado humano – dentro dos contextos religiosos do budismo e do cristianismo. Somos mais Kichijiro do que gostaríamos de admitir; e, no entanto, nesta queda se manifesta uma verdade elementar da condição humana.

7º) Frantz (François Ozon)
Em cada cena há algo a ser descoberto, em cada sequência há uma revelação, o desvendar de pequenos segredos que dão ao filme o seu tom intimista – embora o estilo seja seco, sóbrio, contido, com toques de mistério e estranhamento que beiram o surreal, mas sem perder o controle. Talvez tenha faltado apenas uma grande cena para que pudesse ser uma obra-prima.

 8º) Jackie (Pablo Larraín)
Irregular, deixa de ser um mero psico-drama a partir da segunda metade, quando entra na narrativa o personagem do padre; a partir daí, o filme transcende o ego da protagonista, e a discussão relativista sobre “o que é a verdade”, disputada com o jornalista, ganha uma grandeza verdadeiramente madura (tão bem encarnada por John Hurt, que faleceu em seguida). Verdade que está para além dos fatos (portanto para além da compreensão do jornalista); para além da psicologia (portanto para além dos limites da protagonista); para além daquele que, após questionar “o que é a verdade?”, e, não sabendo reconhecê-la, disse “lavo as minhas mãos” – ou seja, para além do poder político (o ambiente que cerca Jackie). Verdade que devemos buscar quando estamos sozinhos, no escuro, e nada parece fazer sentido.

9º) Na praia à noite sozinha (Hong Sang-soo)
O amargor e a melancolia por não encontrar o Amor. Nos momentos de ébria franqueza, a protagonista exige, irascível, que os outros manifestem um amor perfeito; teme uma morte inglória, de uma vida que acaba sem descobri-lo. O uso reiterado do belíssimo Quinteto de Cordas de Schubert dá o tom, entre a melancolia e a consolação, com uma sutil sugestão de que o amor ausente apenas não se mostra, mas está aí.

10º) Os Cowboys (Thomas Bidegain)
Estreia de Bidegain como diretor, tendo a ousadia de abordar alguns aspectos “politicamente incorretos” do islamismo radical. Mas o que toca o coração e o faz entrar nesta lista é, acima de tudo, a aguardada cena final – talvez a melhor do ano – construída inteiramente por olhares e silêncios, dando ao filme um desfecho muito marcante e significativo.