[como homenagear Proust devidamente, alquimicamente, iluminadamente - e também Matisse, que não é do meu gosto, ou que não compreendo]
"É somente mais tarde, durante o dia, quando me encontro numa galeria de arte na Rue de Sèze, cercado pelos homens e mulheres de Matisse, que sou novamente arrastado de volta para os limites apropriados do mundo humano. No limiar daquele grande salão cujas paredes estão agora em chamas, paro por um momento para recuperar-me do choque que se experimenta quando o habitual cinzento do mundo é rasgado e a cor da vida salta para a frente em canto e poema. Encontro-me em um mundo tão natural, tão completo, que fico perdido. Tenho a sensação de estar mergulhado no próprio plexo da vida, no ponto focal seja qual for o lugar, posição ou atitude em que me coloque. Perdido como quando me afundei no centro de um bosque em formação e, sentado na sala de jantar daquele enorme mundo de Balbec, compreendi pela primeira vez a profunda significação daquelas quietudes interiores que manifestam sua presença através do exorcismo da vista e do tato. Em pé, no limiar do mundo que Matisse criou, voltei a experimentar a força da revelação que permitiu a Proust deformar tanto o quadro da vida, que somente aqueles que, como ele próprio, são sensíveis à alquimia do som e do sentido, são capazes de transformar a realidade negativa da vida nos contornos substanciais e significativos da arte. Só os que são capazes de admitir a luz em suas entranhas podem traduzir o que há no coração. Vividamente recordo agora como o brilho e o clarão da luz, partindo dos maciços candelabros, estilhaçaram-se e correram como sangue, manchando a crista das ondas que batem monotonamente sobre o ouro baço fora das janelas. Na praia, mastros e chaminés entrelaçados e como sombra fuliginosa, a figura de Albertine deslizando através da arrebentação, fundindo-se no misterioso centro e prisma de um reino protoplásmico, unindo sua sombra ao sonho, mensageiro da morte. Com o cair do dia, a dor ergue-se da terra como um nevoeiro, a tristeza apertando, tapando a vista sem fim do mar e do céu. Duas mãos de cera pousadas languidamente sobre a colcha e, ao longo das veias pálidas, o murmúrio suave de uma concha a repetir a lenda de seu nascimento."
TRÓPICO DE CÂNCER, de Henry Miller, trad. Aydano Arruda, ed. IBRASA, 1974, original de 1934, pág. 136-137.
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| Claude Monet |

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