23 agosto 2026

Ruínas

"Não de uma vez, mas continuamente se esboroa a nossa capacidade e grandeza; a pequena vegetação que cresce em meio a tudo, e em toda parte consegue aderir, arruína o que é grande em nós - a mesquinhez diária e a cada instante ignorada de nosso ambiente, os milhares de raízes dessa ou daquela pequena e pusilânime sensação que vem de nossa vizinhança, nosso trabalho, nossa vida social, nosso emprego do tempo. Se deixamos de perceber essa erva daninha, perecemos despercebidamente por causa dela! - E se vocês querem de fato perecer, façam-no de uma vez e subitamente: talvez restem de vocês, então, ruínas sublimes! E não, como é de recear agora, montículos de toupeiras! E ervas e capim sobre elas, as pequenas vitoriosas, modestas como sempre, e miseráveis demais até para triunfar!"

AURORA, de F. Nietzsche, trad. Paulo César de Souza, ed. Companhia de Bolso, 2016, §435, pág. 203.

* * *

"Hoje recuperei esses diferentes tipos de ruínas, e sei que com isso a alma está me dizendo que eu sou essas ruínas. Minha contemplação quase erótica das ruínas é uma contemplação narcisista. E se de um lado tem um preço, essa autocontemplação é prazerosa, ainda que a visão seja triste. Eu me olho no espelho e vejo alguém de quem não gosto nem um pouco, mas é alguém em quem posso confiar. O mesmo ocorre com essas contemplações interiores: não importa se eu enxergo um retrato feio, desde que seja autêntico."

O DISCURSO VAZIO, de Mario Levrero, trad. Antônio Xerxenesky, ed. Companhia das Letras, 2025, pág. 113.

Caspar David Friedrich

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