"Das Schloss", trad. Modesto Carone, ed. Companhia das Letras, 2008, original de 1926.
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| Johan Christian Dahl |
Treze anos depois, volto a O Castelo, onde perco-me com fascínio, talvez sob o influxo das hipnóticas imagens mentais de As Planícies (Gerald Murnane). Faço eu também filmes que só existem na minha mente, sou também agrimensor de terras nenhumas. Quero crer que a exploração dos mundos imaginais leva a algum não-lugar.
O Castelo é infinito, literalmente - nossa leitura interrompe-se de forma abrupta em meio a uma frase que se expande pelo silêncio do vazio sem fim. Já o início da sua trajetória junto ao público leitor data de exatos 100 anos; a 1ª edição foi publicada por Max Brod em Munique em 1926, dois anos após a morte de Kafka, ainda desprovida de vários trechos (cfe. posfácio de Modesto Carone). Celebremos, então, o centenário desse castelo cujo principal aposento abre-se (fecha-se?) para o fato de que não há explicação para a existência da consciência - nem nunca haverá, portanto nada mais apropriado do que não estar finalizado.
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| Samuel Chamberlain |
1
"- Quem sou eu, então? - perguntou K., calmo como até aquele momento." (pág. 29)
1) K. lança mão de algo como uma psicologia reversa no diálogo ao telefone com as autoridades do castelo, para confirmar-se como "o agrimensor", ou seja, uma figura a ser respeitada, com uma função social e um reconhecimento público. É uma artimanha persuasiva com ecos de algo como um enigma esfíngico ou oráculo délfico, e a questão permanece ressoando ao longo da obra, expressando a raiz dos problemas de quem não conhece a si mesmo.
2
"Eles se abraçaram, o pequeno corpo ardia nas mãos de K., eles rolaram, num estado de esquecimento do qual K. tentava contínua mas inutilmente se livrar; alguns passos à frente, bateram surdamente na porta de Klamm e depois ficaram deitados nas pequenas poças de cerveja e outras sujeiras que cobriam o chão. Ali passaram-se as horas, horas de respiração confundida, de batidas comuns do coração, horas nas quais K. tinha sem parar o sentimento de que se perdia ou estivesse numa terra estranha como ninguém antes dele, uma terra estranha na qual até o ar não tinha nada de familiar e em cujas tentações sem sentido não era possível fazer nada senão ir em frente e continuar se perdendo." (pág. 52)
2) Nessa lírica e sórdida cena de amor sexual, destaquei em negrito o que me parece ilustrar o que bem poderia ser uma descrição da própria obra de Kafka, do seu universo, da sua atmosfera, bem como da situação do leitor diante dela. É mais um exemplo de como o erotismo e a narrativa literária conjugam-se estruturalmente, em dinâmicas de ocultação e revelação, segredo e exposição, identificação e alteridade, intimidade e estranhamento, etc.
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| Toulouse-Lautrec |
3
"O senhor não é do castelo, o senhor não é da aldeia, o senhor não é nada. Infelizmente porém o senhor é alguma coisa, ou seja, um estranho, alguém que está sobrando e fica no meio do caminho (...)." (pág. 61)
"Será que a senhora na verdade não teme que, para quem não sabe de nada, tudo parece possível?" (pág. 69)
3) Selecionei estes dois trechos do longo diálogo entre K. e a dona do albergue por serem definidores da situação do personagem, mas sobretudo porque definem também o leitor - sua posição na sociedade, sua individualidade diante das forças sociais, sua abertura às realidades potenciais a partir do questionamento do que sejam a verdade, a realidade e a ficção.
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| Van Gogh |
4
"O castelo, cujos contornos já principiavam a se desvanecer, permanecia silencioso como sempre, nunca ainda K. tinha visto o menor sinal de vida nele, talvez não fosse possível reconhecer alguma coisa daquela distância e no entanto os olhos exigiam isso e não queriam suportar a quietude. Quando K. fitava o castelo, às vezes era como se observasse alguém que estivesse calmamente sentado ali e dirigisse o olhar para a frente, não porventura perdido nos próprios pensamentos e com isso fechado a tudo, mas sim livre e despreocupado: como se estivesse sozinho e ninguém o observasse. Tinha no entanto de notar que era observado, sem que isso afetasse o mínimo que fosse sua tranquilidade; na realidade - não se sabia se era a causa ou a consequência - os olhares do observador não podiam se fixar e se desviavam. Essa impressão estava hoje mais reforçada pela escuridão prematura: quanto mais ele fitava tanto menos reconhecia, tanto mais fundo tudo mergulhava no crepúsculo." (pág. 161)
4) Nada a acrescentar, só ler e reler e reler este que é um dos mais intrigantes e sutis parágrafos da obra - e que está no início do capítulo mais fascinante do livro, sobre o qual falarei no próximo item.
5
"Imediatamente, sem uma palavra de explicação, K. deixou o balcão; no corredor dirigiu-se não para a saída, mas para o interior da casa e, em poucas passadas, chegou ao pátio. Como era silencioso e belo ali! Um pátio quadrangular, limitado em três lados pela casa e, na direção da rua - uma rua lateral, que K. não conhecia -, por um muro alto e branco com um grande e pesado portão que agora estava aberto." (pág. 119)
5) Na verdade, gostaria de reproduzir toda a cena no pátio da Hospedaria dos Senhores (pág. 119-125), o que seria excessivo, então deixo apenas o seu início. "Cena" é bem a palavra mesmo, pois a força visual e atmosférica da passagem é plena; trata-se de uma set piece de maestria fascinante e terrível, como um sonho dos mais vívidos. O pátio em que K. vive a expectativa da chegada de Klamm, atrapalhando-se com garrafas de conhaque diante do cocheiro, é possivelmente o único local de todo o livro descrito como silencioso e belo, o que lhe empresta ares de uma antessala do paraíso - apenas para fazer com que as expectativas sejam frustradas, como sempre.
A situação é reveladora também do plano intermediário ocupado por K., afastado tanto do cocheiro (ou da aldeia) quanto do senhor (ou do castelo) - posição que parece fruto muito mais de inaptidão e orgulho obstinado do que de um destino, vocação ou escolha consciente. No fundo, K. é um estrangeiro para si mesmo, e por isso nunca trilha os caminhos que imagina.
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| Willem Witsen |
6
"E o ridículo motivo de tudo? Talvez um humor inclemente de Gisa naquele dia em virtude do qual Schwarzer perambulou de um lado para outro, insone, naquela noite, para em seguida se desforrar da sua dor em K. Sem dúvida também se poderia dizer, por outro lado, que K. devia muito a esse comportamento de Schwarzer. Só por meio dele tinha sido possível, pelo menos um pouco, aquilo que K. nunca alcançou sozinho, nem teria ousado fazê-lo, o que também, por outro lado, a autoridade dificilmente teria admitido, ou seja, que ele desde o início a havia encarado sem rodeio, com franqueza e olho no olho, na medida, evidentemente, em que isso era possível. Porém foi um péssimo presente que, na verdade, poupou a K. muita mentira e subterfúgio, mas também o tornou quase sem defesa;" (pág. 192)
6) Aqui também transcrevo apenas um pequeno trecho para exemplificar as muitas e complexas circunvoluções psicossociais que são o próprio inferno de K. Não bastasse a vida social ser um inferno (e nisso O Castelo é bastante realista), K. é incapaz de esquecer-se de si, de onde deve ir, do que deve fazer - de calar por momentos a voz interior, de admitir que nada sabe, de contemplar o mundo como ele é.
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| Asya Lisina ? (sem confirmação) |
7
" - Mas você tem razão em tudo o que diz a ele - disse K. - Resumiu tudo direito de uma forma admirável. Como é capaz de pensar claro de maneira espantosa!
- Não - disse Olga. - Isso o engana e talvez seja assim também que eu o engane. O que, pois, ele conseguiu? Pode entrar numa repartição, mas não parece nem mesmo uma repartição, antes uma ante-sala das repartições, talvez nem mesmo isso, talvez um quarto, onde devem ser retidos todos aqueles que não podem entrar nas repartições reais. É com Klamm que ele fala, mas é Klamm? Não é antes alguém apenas parecido com Klamm? Talvez um secretário (...)". (pág. 208)
7) A questão aqui é tudo o que vem antes do trecho transcrito, ou seja, um discurso de Olga no pior estilo dos clichês de autoajuda para defender o fracassado trabalho do seu irmão Barnabás - e K. se mostra sinceramente comovido com a balela toda. Através do cinismo de Olga, Kafka parece tripudiar dos belos discursos psicológicos nesta passagem cruelmente divertida.
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| Pieter Brueghel, o Jovem |
8
"E um homem tão frequentemente desejado e tão raramente alcançado, como Klamm é, assume na imaginação dos homens, facilmente, diversas configurações." (pág. 209)
"(...) e investigar cada uma de suas palavras como uma revelação e tornar a própria felicidade da vida dependente de uma interpretação." (pág. 210)
"(...) é culpa apenas dele se não consegue nada senão dúvida, medo e desesperança." (pág. 211)
8) Pesquei essas três frases em páginas próximas para ilustrar não só o caráter ambíguo, sugestivo e profusamente metafórico que define O Castelo - e que dá origem a incontáveis interpretações sobre a obra -, como para demonstrar que o autor se mostra consciente da situação do leitor.
O mais irônico é imaginar Kafka como sendo um inalcançável Klamm (em vez de um K.), jogando com nossos desejos, expectativas, frustrações, dúvidas. A propósito, vale notar que, ao contrário das solidões de Josef K., de Gregor Samsa, do faquir, da toupeira e de tantos outros "heróis" kafkianos, a solidão de K. não se mostra tão afeita à empatia do leitor, talvez porque K. não demore a mimetizar o comportamento preponderantemente hostil da aldeia, embora se julgue superior. O herói de O Castelo aproxima-se mais do homem do subsolo dostoievskiano.
9
"K. dormia, não era propriamente um sono, ouvia as palavras de Bürgel talvez melhor do que durante a vigília anterior, morto de sono; palavra por palavra golpeava seu ouvido, mas a consciência importuna havia desaparecido, ele se sentia livre, nem Bürgel o retinha mais, ele tateava ainda às vezes em direção a Bürgel, não estava ainda nas profundezas do sono, mas já se encontrava imerso nele, ninguém mais devia despojá-lo daquilo. Era como se houvesse conquistado uma grande vitória e já havia pessoas ali para comemorar, e ele ou algum outro levantava a taça de champanhe numa homenagem a essa vitória." (pág. 297)
"K. acenou sorrindo com a cabeça; acreditava agora entender tudo com exatidão, não porque o preocupasse, mas porque estava então convencido de que nos próximos instantes adormeceria completamente, dessa vez sem sonho nem perturbação; entre os secretários competentes, de um lado, e os não competentes, de outro, e diante da massa das partes plenamente ocupadas, ele mergulharia em sono profundo e desse modo escaparia de todos." (pág. 299)
9) Além de representar o estado de sonolência de modo incomparável, a longa passagem ao pé da cama de Bürgel finalmente direciona K. para alguma paz interior, algum alívio frente ao drama da consciência que não se ajusta nem à aldeia, nem ao castelo, nem à solidão - ainda que tal refúgio não passe de uma prelibação de sonhos.
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| Adrianus Eversen |
10
"Pepi tinha terminado. Com um suspiro, limpou algumas lágrimas dos olhos e das maçãs do rosto e depois olhou para K. meneando a cabeça, como se quisesse dizer que, no fundo, não se tratava absolutamente da infelicidade dela; iria suportá-la e para tanto não precisava nem de ajuda nem de consolo de quem quer que fosse, muito menos ainda de K.; apesar de sua juventude conhecia a vida, e sua desgraça era apenas uma confirmação de experiência; mas tratava-se, sim, de K.; o que ela queria era fazê-lo encarar a si próprio: mesmo depois do colapso de todas as esperanças dela, havia avaliado que esse gesto era necessário." (pág. 340)
10) O que mais impressiona no longo relato de Pepi que antecede o trecho acima é que, dando-se crédito a ela, Frieda é das maiores manipuladoras que já povoaram a literatura; não lhe dando crédito, isso se aplica a Pepi. Seja como for, é notável o tino do autor para representar a engenhosidade da manipulação feminina (algo que existe apenas no mundo da ficção e da fantasia, é claro, sem dúvida, aham).
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| Goya |
11
" - Quanto tempo ainda demora até chegar a primavera? - perguntou K.
- Até chegar a primavera? - repetiu Pepi. - O inverno entre nós é longo, um inverno muito longo e monótono. Mas lá embaixo não nos queixamos, estamos protegidas contra o inverno. Bem, a primavera uma hora chega, o verão também, e ambos sem dúvida têm o seu tempo; mas neste momento, na memória, primavera e verão parecem tão curtos como se não fossem muito mais que dois dias e mesmo assim, até durante o mais belo dos dias, ainda neva ocasionalmente." (pág. 346)
11) Pelas minhas contas, a jornada de K. se encerra no 6º dia a partir da sua chegada à aldeia (lembrando que a obra não foi concluída; será que Kafka pretendia encerrar no cabalístico 7º dia?). Mas o que eu queria destacar é o lirismo surpreendente da singela pergunta de K.: quanto tempo ainda demora até chegar a primavera?
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| capa da edição |










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