07 setembro 2015
Pequenas porções de ilusão
Três retratos de jovens renascentistas, por Domenico Ghirlandaio, século XV.
A inscrição em latim na segunda imagem significa algo como "se a arte pudesse retratar o caráter e a alma, mais bela pintura não haveria na Terra".
A beleza - atributo físico, moral e espiritual - permanece sendo um dos grandes enigmas filosóficos da humanidade.
A arte tenta decifrá-lo, ou ao menos traduzi-lo. Stendhal escreveu que "a beleza é a promessa de felicidade".
Pequenas porções de ilusão?
04 junho 2015
Sharon Van Etten, cantora e compositora
Ouvindo a voz e o violão de Sharon Van Etten tenho a impressão de que ela está arriscando tudo, inclusive a própria vida, tamanha é a franqueza com que ela oferece a sua música. Com uma personalidade vocal invulgar - geralmente transitando entre lamentos ásperos e doces ambiguidades - e um ataque tantalizante às cordas do violão, parece restar a ela um último resquício de inocência, que oscila diante do abismo, entre a repulsa e a atração.
Esta instabilidade, contudo, está ancorada num ruído de fundo enigmático - uma espécie de sugestão de baixo-contínuo, no qual presume-se crueza, desolação, suplícios da alma, ilusões perdidas; mas, acima de tudo, um desejo hesitante de compreensão. Há ternura, mas sempre mantendo preservado o lado escuro da sua lua. O sombrio mistério de Van Etten evoca as harmonias de Low e de Elliott Smith, através de canções que chegam a um acordo inclusive entre o folk e o shoegaze.
Num meio artístico em que, de um lado, o excesso de artificialismos inviabiliza a busca pelo sentido, e, de outro, o sentido está previamente decretado por consenso, Van Etten é como uma pedra no leito de um riacho - busca a verdade, mas não a encontra.
30 março 2013
Os 328 anos de J.S. Bach, meu conterrâneo
No século XVII vivia em Eisenach, Alemanha, uma família de
forte veia musical. Vários dentre os da numerosa prole se dedicaram à música.
Viveram dela e por ela morreram. Falo da família Bach, de onde surgiu aquele
que é possivelmente o maior nome da história da música ocidental: Johann
Sebastian Bach, nascido em 31 de março de 1685, há exatos 328 anos.
Na mesma cidadela de Eisenach, por volta da mesma época, vivia
outra numerosa família. Um sujeito de nome Johann Sebastian Lindemeyer (ou Johannes Sebastian Lindemeier),
nascido em 1792, decidiu embarcar numa audaciosa viagem
só de ida através do Oceano Atlântico, juntamente com filhos e esposa, grávida.
Destino: o sul do recém-proclamado Brasil independente.
Johannes Sebastian Lindemeyer se tornou mais um número na
estatística da massiva imigração alemã à região do Vale do Rio dos Sinos, no
Rio Grande do Sul. Sabemos que casou-se com Anna Charlotte Steinmann (ou Susana Charlotta), e que
entre seus filhos havia uma de nome Mariana Lindemeyer (ou Maria Anna), nascida no ano de 1826,
em plena viagem, a bordo da embarcação. Esta casou-se com Joseph Phillip
Schmidt, gerando nove filhos. Entre eles, Carolina Schmidt, nascida em Lomba
Grande, distrito rural de Novo Hamburgo. Quatorze foram os seus filhos com Christiano
Matte, que se espalharam por diversas cidades do estado – notoriamente
Montenegro, onde a filha de nome Paulina Matte, casada com Arthur Affonso Becker,
deu à luz cinco rebentos, sendo uma delas de nome Edith Irma Becker. Esta,
tendo casado em Novo Hamburgo com Luiz Oswaldo Bender, teve apenas dois filhos:
Flávio e Cláudio. O primeiro faleceu sem deixar herdeiros; o segundo casou-se
com Jandira Petry. Dois filhos nasceram desta união: Bernardo e este que vos
escreve.
Pelo menos até o momento, esta geração anos 1980 não deu
prosseguimento genealógico à história iniciada com o obscuro alemão Johann Sebastian Lindemeyer. Passaram-se seis gerações até chegarmos aqui, agora, onde
um sujeito de 28 anos de idade, solteiro, sem filhos, habitante de Novo Hamburgo,
navega não através do oceano, mas na internet. Dentre suas atividades
preferidas está a de baixar e ouvir
as composições daquele outro alemão
de nome Johann Sebastian, de algum modo seu conterrâneo.
J.S. Bach (1685-1750), o maior entre os maiores, o grande
organizador do caos barroco, não poderia imaginar do que a sua música seria
capaz no século XXI. Desde que pela primeira vez ouvi a Ária na 4ª corda, por
exemplo, tive a impressão de que a minha vida estava sendo salva. E assim
acontece todas as vezes que a ouço. “He
will be bach”, é o que dizem por
aí os messiânicos.
Eisenach/Novo Hamburgo, 31 de março de 1685-2013.
P.S.: Eisenach também é lembrada por ter sido o local onde
Lutero traduziu o Novo Testamento do latim para o alemão. (Assim como inscrevi
meu lugar na história da música, atrelando meu destino ao maior compositor de todos
os tempos, em outro momento hei de destrinchar a minha ligação com o livro mais lido do mundo).
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| Estátua a J.S. Bach em Eisenach |
![]() |
| Retrato de J.S. Bach - Haussmann, 1748. (Olhando bem, tem algo familiar). |
26 outubro 2012
02 junho 2012
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RELAÇÕES DIAGONAIS
Depois que Camila me comparou com
o pai dela – debaixo do toldo verde do nosso restaurante favorito, ela limpando
o canto da boca com a unha de um dedo esmaltado de verde (ou era a luz
esverdeada do toldo que deu essa impressão?), sendo que ela nunca fazia esse
gesto, nunca ela foi assim de uma delicadeza tão sutil e ardilosa, muitas vezes
eu vi os seus guardanapos repletos de manchas de batom, amarrotados sobre a mesa,
eu acho que aquele gesto incomum dela antecipou que aquele almoço não ia
terminar bem – depois que ela me disse que eu estava apegado demais em coisas
que deviam ficar no passado e que isso estava me recalcando e me deixando
agressivo, exatamente como o pai dela era, eu nunca mais consegui olhar para
uma mulher que eu desejasse sem levar em consideração que certamente não valia
a pena começar algo cujo final já estava estampado em caracteres tristes e
sombrios nas suas caras.
Clara, por exemplo, cumpre
integralmente os requisitos da promessa de felicidade que sua beleza
deslumbrante espalha pelo ar, mas não é difícil prever que um relacionamento
com ela vá terminar ali adiante, de forma melancólica ou bélica, e que isso é
tanto mais provável quanto maior for o esforço de cada um para que isso não
aconteça. É o que a experiência tem me ensinado, é o que eu comecei a perceber
assim que saí de baixo daquele toldo verde, me sentindo ressentido, barrigudo e
intolerante como o pai de Camila.
Depois que o sujeito acumula uma
certa carga de derrotas, acontece o surpreendente espetáculo da parábola do
homem que não tem nada a perder. Percebe-se que nada vale a pena, e portanto
tudo está disponível de forma imediata e inconsequente. A partir de então,
qualquer vida que passe diante do sujeito parece ser mais interessante do que a
sua própria, e não demora para que ele fique novamente enredado nas malhas das
misérias e dos triunfos da existência sobre a Terra. E aí começa tudo de novo,
como se nunca tivéssemos aprendido nada. Cometem-se os mesmo erros, e
alimentam-se as mesmas expectativas. Põe-se tudo a perder, novamente.
Conheci Clara na Marcha das
Vadias. Todo aquele bando de mulheres, umas pintadas, outras seminuas, fazendo
uma barulheira dos diabos, e eu só queria tomar meu chimarrão em paz na praça.
Ela veio e sentou-se ao meu lado no banco pra ajeitar a sandália que estava
escapando do pé. Viu que eu usava uma camiseta com a estampa da Amy Winehouse e
puxou assunto, com o corpo curvado, ainda debruçada sobre a sandália. Lamentou
a morte da Amy, mas disse que muito maior havia sido a perda de Mercedes Sosa,
e emendou alguma coisa sobre a força dos povos latino-americanos e mais alguma
coisa que eu não lembro bem, sobre opressão e resistência. Me pareceu que era
lésbica, mas não pude deixar de desejar ardentemente colocar todos os meus dez,
não!, meus vinte dedos e mais alguma coisa naquela carne latina e politizada.
Depois que ela afastou o cabelo do rosto eu pude perceber que, a despeito de
todos os prognósticos contrários, era possível que eu ficasse apaixonado por
aquela criatura de olhar tão vívido.
Ela liga a TV e senta toda
estirada no sofá com aquele livro que fala do tal sujeito pós-freudiano, lê uns
trechos em voz alta pra mim e fica me provocando com as questões que o autor
coloca, de fundamental importância para o curso de graduação dela, e também, conforme
ela me explica, para a compreensão do mundo atual. Às vezes eu presto mais
atenção na TV.
- A novidade na condição do
sujeito pós-freudiano é que ele não tá mais pautado pelos grandes valores da
autoridade, entende? Os grandes vetores verticais de autoridade foram
substituídos pelas relações horizontais.
- Para Dona Jucélia, a atividade de criação de borboletas em cativeiro
não é apenas uma fonte de renda, mas uma terapia.
- Estamos assistindo ao final da
situação orientada em torno da autoridade paterna, sabe como é, que pautou os
indivíduos até aqui. Não se trata mais de decifrar os recalques, entende, mas
de cifrar a sua individualidade. Assumir o seu próprio caos, como um poeta de
si mesmo, libertado pela rede de relações horizontais, livre para o gozo.
- Desde que eu passei a ter um borboletário em casa eu me sinto muito
melhor, acabou a depressão, acabou com meu nervoso. Quando tem algo pra cuidar
assim, com dedicação e atenção, o dia fica preenchido e não se tem nem tempo de
pensar em bobagem, né?
As duas sorriem ao mesmo tempo. Clara
e Dona Jucélia. Me dá uma vontade de dizer pra elas que eu me sinto uma diagonal
em pleno cruzamento. Levanto pra ir até a geladeira pensando que talvez ninguém
ainda tenha pensado em manter relações diagonais. Abrindo a garrafa, ainda
consigo ouvir a voz da Clara, mas a TV não. Já não sei se ela está lendo o
livro ou simplesmente despejando sobre mim tudo o que passa pela sua cabeça.
- Ao contrário do que se pensa –
continua Clara lá da sala – as pessoas atualmente não estão assim tão
desorientadas, tão perdidas, tão entregues ao acaso, como querem fazer crer
essas religiões todas e os discursos conservadores e os diagnósticos psiquiatrizantes.
Ainda na cozinha, por um instante
minha consciência é chamada a observar a cor esverdeada do vidro da garrafa; de
súbito, o verde insinua-se pela parte de trás dos meus olhos, invade meu
cérebro, percorrendo minha espinha e me deixando abandonado às minhas próprias reminiscências.
Quase uma epifania, vejo o verde do toldo, o verde das unhas, o verde da
garrafa, vejo tudo esverdeado e pressinto o fantasma daquele gesto de limpar o
canto da boca com a unha. Sinto a angustiante certeza de que está tudo para
acabar, muito em breve, agora mesmo.
- É só pensar nesses jovens que
se expressam com tanta intensidade através de esportes radicais, de música
eletrônica, de grafismos incríveis. No passado, na geração dos nossos pais, por
exemplo, a inconformidade da juventude era agressiva, botar fogo em prédio,
quebrar o pau com a polícia, destruir qualquer coisa. Concentravam seus esforços
de revolta contra o controle, enquanto o sujeito pós-freudiano centra-se no
autocontrole.
Talvez Camila tivesse razão. É
possível que eu nunca tenha superado a morte trágica dos meus sonhos. Apanho a
garrafa e volto pra sala, decidido a finalmente dizer o que estava entalado há
meses:
- Escuta,
sabe o que eu acho? Sabe o que eu realmente penso? – ela ergue os olhos do
livro e me ouve – Pra mim Mercedes Sosa é igual à Amy Winehouse. Ou Billie
Holiday, ou quem sabe Janis, ou Elis. Não vejo diferença essencial. São
artistas fantásticas, insuperáveis, que nos levam o mais longe possível com sua
música. Não preciso entender o que elas cantam, não preciso me preocupar se uma
é ativista social, a outra uma junkie, ou maníaco-depressiva, ou suicida. Parem
de sempre associar Mercedes Sosa com ativismo latino-americano, como se ela
precisasse disso para se justificar! Basta sua voz e sua arte, não preciso de
nota de rodapé pra valorizar uma artista desse calibre! Graças a la vida, sei
viver a arte de Mercedes Sosa com a mesma entrega e a mesma energia com que
vivo Amy Winehouse! Será que os tais povos latino-americanos podem se permitir
ao menos essa alegria?! Hein?!
Talvez
eu tenha finalmente aprendido alguma coisa, com todos aqueles cacos verdes
espalhados pelo chão, como borboletas mortas, e os soluços de choro da Clara.
Eu apenas começo a me conhecer, recém vão desabrochando minhas facetas, principio
a me fascinar com as minhas metamorfoses, descobrindo que meu poder de ser eu
mesmo é múltiplo e fantástico – quando então sou forçado a perceber que é
preciso sufocar pelo menos uma das minhas facetas a fim de realizar qualquer
coisa duradoura. Tenho de admitir, resignado, que é necessário restringir a mim
mesmo para não ficar completamente entregue àquela espécie de tentação
desnorteadora que me leva à deriva pelos dias e noites. Fico pensando no que é
que a Dona Jucélia vai fazer da vida quando se cansar das borboletas.
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| Espanha, 1998 - Harry Gruyaert |
31 maio 2012
\.
ÉDIPO 2.1
Me olhou muito profundamente nos olhos, como se por fim tivesse compreendido toda a verdade, e me deu ainda um conselho:
"Carpe diem".
Foi a última coisa que me disse meu pai.
(Carpe diem, o senhor vivia me dizendo.
Mas não, pai, o dia não está mais dividido em 24 horas, e sim em 86.400
segundos. O senhor quer que eu aproveite o quê, exatamente? São 86.400
minúsculos e imprestáveis cacos, 86.400 fragmentos do que foi o século XX. O que é demais nunca é o bastante, isso está
mais que provado. Baseado não tem mais graça. Cocaína não deixa mais doidão
não, pelo contrário, serve pra acalmar um pouco.)
Fui intimado
a comparecer na delegacia para prestar depoimento. As circunstâncias da morte
não estavam muito claras e aparentemente eles esperavam que eu pudesse elucidar os
pontos nebulosos.
(Pai, o senhor precisava ver isto:
descobri os escombros da reputação da nossa família; vasculhei o mapa genético
do nosso nome, do nosso sangue: está em ruínas o senso de trabalho que moveu
nossa linhagem até aqui, o sentido de civilização, progresso, futuro e o
projeto pessoal ligado ao avanço da sociedade. Oitenta e seis mil e
quatrocentos segundos, isso é muito ou muito pouco? Pai, qual era o maior
número com que o teu pai convivia? Os 10.000 quilômetros entre o Brasil e a
Alemanha que o pai dele atravessou? Os 6 milhões de mortos nos campos de
concentração? (hábeis negociantes, não terão superfaturado esse número?) É duro
confessar isso, mas eu morro 86.400 vezes por dia. E eu espero que o senhor não
me leve a mal, mas eu acho a mortandade de animais silvestres nas estradas mais
triste que o holocausto judeu (não me importo com a mortandade de peixes nos
nossos rios podres; peixe dá em massa, morrem milhões mas têm muitos outros
milhões vivos). Tem muita gente nesse mundo, pai, gente demais, não dá pra todo
mundo sair carpe diem por aí.)
Enquanto o
escrivão tomava meu depoimento, eu observava através do vidro divisório uma
televisão ligada na sala ao fundo. Sem som, a imagem da Challenger decolando e
explodindo parecia ainda mais absurda. Ao lado, um homem calvo gesticulava ao telefone, num aparente jogo de
mímica sem sentido. Depois, Chernobyl em colapso, os guardas passando
detectores de radiação nas pessoas, nos cães, nas malas. Parecia que, por algum
motivo, a TV estava fazendo uma retrospectiva do ano em que nasci. Tirei os
olhos da televisão para responder à última pergunta: não, eu não tinha
conhecimento de nenhum motivo para que matassem meu pai.
(Mas eu não quero parecer pessimista,
não. Vamos olhar pra frente: daqui a 86.400 anos nada disso vai ter o menor
sentido – tudo isso aqui vai parecer tão absurdo e anacrônico quanto o teu carpe
diem de hoje, pai. Mas até lá, o que resta a mim? O que foi que herdei do
esforço de todos os nossos antepassados? Oitenta e seis mil e quatrocentos
segundos por dia para aproveitar a riqueza acumulada, as infinitas
potencialidades da possibilidade de comprar comida, serviços e prazer. Comida,
serviços e prazer. Comida, serviços e prazer. Comida, serviços e prazer,
oitenta e seis mil e quatrocentas vezes por dia. Trocaria tudo isso pela
convicção de que pelo menos sou digno de viver, de estar vivo de verdade. Eles
vivem bem sem mim, pai, a sociedade não precisa de mim, eles vão arranjar meios
de me sobrepujar ou mesmo de me eliminar.)
Senti que estavam prestes a abandonar de vez a hipótese de
homicídio e colocar tudo na conta da doença. Imaginei o corpo do meu pai
estendido no necrotério e lembrei daquela música que me criei ouvindo. Por que
a violência é tão fascinante? E nossas vidas tão normais? Eu menti quando eles
me perguntaram quais haviam sido as suas últimas palavras: disse que ele havia
pedido para que eu cuidasse da minha mãe.
(“Aproveite cada segundo” diz o chavão
da sabedoria transmitido pelo comercial da televisão. Oitenta e seis mil e quatrocentos
orgasmos por dia, aposto que o senhor não chegou a tanto numa vida inteira! É
um jogo, pai, é um jogo e a regra é: “intensificar os desejos até o
insuportável tornando ao mesmo tempo sua realização cada vez mais inacessível”
(conforme as palavras do novo profeta). Ninguém mais é inocente, já nascemos
todos culpados, corrompidos – e que fique claro, pai, isso não tem nada a ver
com o pecado original, com a expulsão do paraíso ou qualquer dessas
mistificações alegóricas ultrapassadas. Meu avô não dizia que a gente colhe o
que planta? Será que o velho não tinha sequer noção da confusão que reinaria
sobre as gerações seguintes? Que sementes são essas que tenho nas mãos?, eu
gostaria de perguntar ao meu avô. Quem pode saber que sementes estão sendo
jogadas? Primeiro acabou a certeza do meu avô, e agora acabou também o teu
otimismo, não é, pai? Eu fico pensando: que desejos insuportáveis vocês tiveram
em suas vidas, se é que os tiveram? Provavelmente não, provavelmente meu avô
quase não tinha desejos, provavelmente tu, meu pai, teve desejos que eram
perfeitamente suportáveis; provavelmente ambos realizaram seus desejos. Mas não
é mais assim. Agora somos todos criminosos, inclusive as vítimas. É o fim da
inocência. Não surpreende que estejamos todos atrás de grades; é muito justo,
pensando bem.)
Entendo-o
perfeitamente. Acho que eu faria o mesmo na sua situação. De que vale uma vida mortificada
não pelo medo do fim, mas pelo medo de continuar vivendo? Acordar com a
permanente angústia de lutar contra um tumor invisível, até que findem os dias
e as noites, cada vez mais pálidos? Eu o entendo, sim. Mas também gostaria que
alguém me entendesse. Não é fácil para um filho realizar um desejo tão decisivo
e irreversível quanto esse. Eu tinha de fazer aquilo, não por dever moral, mas
simplesmente porque há muito tempo meu pai não manifestava qualquer desejo, e
quando este surgiu, penoso e amadurecido, me pareceu natural que fosse
realizado. Pensando bem, sempre existem em nós mesmos coisas que devem morrer,
coisas que devemos matar.
(Pai, escuta essa: ontem quando eu
voltava do trabalho, passando ali nos fundos daquele colégio, vi três meninas
no pátio, não podiam ter mais de doze anos de idade; uma delas, a que usava
minissaia e meia-arrastão, subiu naquela mesa de concreto, ficou ali de pé,
enquanto as outras ficaram sentadas em volta dela, espiando por baixo da saia e
estimulando-a com gritinhos; elas me viram e começaram a cantar repetidos refrãos
em coro, gritando, desvairadas, me chamando de gostoso, a de minissaia
rebolando. Carpe diem, pai, essas meninas já sabem como fazer, carpe diem. E
ainda dizem por aí que a nossa geração é apática? Só porque desistimos de ter
filhos? Porque desistimos de envelhecer? Juventude&beleza iLtda. Carpe diem,
oitenta e seis mil e quatrocentas vezes por dia. Ainda não desistimos do sexo,
pai; ainda não, mas é uma questão de tempo, de cansaço, de desistir do jogo,
entende? Tô ficando atoladinha, tô ficando atoladinha, tô ficando atoladinha,
oitenta e seis mil e quatrocentas vezes repete-se o refrão. E não me venha com
Freud, pai, ele era apenas um intelectual com medo de dizer (assim, com todas
as letras) que o prazer sexual é o único objetivo real da existência humana. O
mesmo vale para Lennon, para Gandhi, até para Einstein; todos vocês viviam num
dia de 24 horas (e todos vocês tinham medo de dizer o que todo mundo sabe).
Nenhum de vocês teve de contar até 86.400 para não agir precipitadamente.
Nenhum de vocês viu aquela menina de minissaia. Vocês não conhecem o novo
refrão. Tô atolado, pai, atolado num mar de comida, serviços e prazer. Assumo a
herança. Recuso a culpa. Desconsidero o holocausto. Se querem me eliminar,
terão de me pegar. Não vai ser assim tão fácil. Estou vivo, de verdade. Carpe diem
pro senhor também.)
Cego por
lágrimas, forcei um derradeiro olhar para a mancha escura e liquefeita em que
havia se transformado o caixão, antes que a terra por fim o cobrisse. “Seja
feita a tua vontade”, pensei comigo, enquanto tomava a decisão de nunca contar
a verdade a ninguém.
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| Índia, 2012: festividade hindu - by Kevin Frayer |
10 maio 2012
.¬.
DE VOLTA AO AGORA
Porque hoje é sábado, Camila está no meu carro, com as
pernas compridonas esticadas sobre o painel, onde se vê o sinal de FODA-SE
ligado, piscando ansiosamente. Não sei se por causa desse veranico de maio, se
por causa da potência do motor, ou simplesmente porque hoje é sábado, ela abre
as pernas, cada vez mais, desnudas sob o vestido curto, num convite cheio de
promessas de verão, de verões sem fim – convite que não me cabe aceitar no
momento, faz parte do jogo esse esticar a ação para um ponto futuro, que é
exatamente o que ela faz agora com suas pernas estendidas até o para-brisa.
- Isso não é uma
manhã, é uma pequena glória oferecida aos homens – ela diz, com aquele tom de
quem recita uma frase entre aspas. Seus tornozelos frescos parecem caroços de
fruta madura sobre o painel. Este é um daqueles momentos raros em que capto a
plena existência assombrosa da liberdade; por isso mesmo, não digo nada. As unhas
do pé pintadas de azul anil. Amy baixinho no rádio. Trepidação. O acelerador
vibrando sob meu pé. Faço um inacreditável esforço para não me perder por rotas
que não conheço. Me concentro em manter o controle sobre o carro.
Talvez eu estivesse amando-a ali, enquanto voávamos a mais
de 100 através do ar aquecido de maio. Amando a vida, amando tudo o que é vivo.
Perfeito demais.
- Eu não acredito nisso! – diz Clarissa metendo a cabeça
entre os bancos da frente e esfregando os olhos sonolentos. Todo esse tempo sem
olhar pelo retrovisor, já tinha me esquecido dela ali no banco de trás. – Por
que vocês não me acordaram antes? – ela quer saber.
- Tu parecia estar sonhando, profundamente – digo. – Sonho
bom?
- Vai, conta pra gente as novidades do mundo dos sonhos, o
que anda acontecendo por lá? – pergunta Camila, ainda com as pernas sobre o
painel, mas não tão abertas.
- Escuta, vocês tão me escondendo alguma coisa, hein? – Clarissa
tem um tom ríspido.
- Quem tá escondendo alguma coisa aqui é tu – responde Camila
–, por que não conta com o que sonhou?
- Olha, eu sei ver na cara de vocês quando tão aprontando
alguma. Qual é, hein? QUAL É?!! – Clarissa grita. – Pra onde a gente tá indo?
- A gente tá indo até onde dá pra chegar – digo. – Já
reparou que beleza de manhã?
- Onde a gente tá? – ela olha para todos os lados, confusa. –
Olha, não era isso que a gente tinha combinado ontem à noite. Eu quero entender
o que tá acontecendo aqui!
Isso ia acabar acontecendo mesmo, mais cedo ou mais tarde. Não
adianta procurar, Clarissa, o futuro sumiu da nossa paisagem. Já chegamos ao
nosso destino. Há um bom tempo esperávamos por isso, em segredo, sem o
confessar. Troco um olhar com Camila. Um olhar – suspenso no espaço entre os
nossos bancos –, um olhar apenas e ela já sabe o que tem que fazer. Em seguida
olho pelo retrovisor, encaro Clarissa. Lamento que a liberdade vá tão longe,
tão longe a ponto de chegar onde não devia, tão longe a ponto de chegarmos a
perdê-la.
Camila aumenta o volume do rádio, com o sorriso mais
perturbador que um homem já viu, um sorriso antiquíssimo que deve ter sido a
causa de toda a ventura de Adão.
We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to black
E então coloca no último volume, ensurdecedor, um inferno sensacional explodindo em nossas cabeças, e começamos a gritar, a gritar com nossas gargantas violentas, berrando desvairados, furor nos pulmões inchados de tanto amor, de tanto desejo, de tanto prazer, somos cães cantando, num potente uivo de liberdade, FODA-SE, FODA-SE, FODA-SE, piscando cada vez mais rápido no painel – viver é a única felicidade possível, deve estar tentando dizer Camila agora, recitando mais uma das frases que decora, mas não se ouve nada além da nossa gritaria desesperada. Parece que tudo vai arrebentar.
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to black
E então coloca no último volume, ensurdecedor, um inferno sensacional explodindo em nossas cabeças, e começamos a gritar, a gritar com nossas gargantas violentas, berrando desvairados, furor nos pulmões inchados de tanto amor, de tanto desejo, de tanto prazer, somos cães cantando, num potente uivo de liberdade, FODA-SE, FODA-SE, FODA-SE, piscando cada vez mais rápido no painel – viver é a única felicidade possível, deve estar tentando dizer Camila agora, recitando mais uma das frases que decora, mas não se ouve nada além da nossa gritaria desesperada. Parece que tudo vai arrebentar.
A trepidação aumenta. Camila tem os cabelos voando livres em
todas as direções; como numa câmera lenta, é possível distinguir cada fio negro
um do outro, as coisas ficam todas belas e trágicas, revelam-se detalhes que
nunca eram visíveis. Que tremenda boa ação teriam feito os homens aos deuses
para serem presenteados com esse sopro doce como um beijo, que nos envolve
nesse amanhecer de sábado? Avançamos, num ritmo distorcido, perdidos no tempo,
numa câmera lenta muito acelerada.
Daqui a pouco os
vidros vão estourar. O carro vai desaparecer numa nuvem de fumaça. A liberdade
vai se reduzir a um pó cintilante. Nós seremos ausências eufóricas, ecoando nas
estradas. Amy estará conosco. O sábado vai terminar. Perfeito demais.
25 abril 2012
¬.
PRINCIPALMENTE NADA
Tire a ilusão de um homem e ele é um tolo morto de tédio, e abaixo da frase uma imagem em que Fanny, Alexander e a mãe estão deitados numa cama, cada um deles em um plano, gradativamente mais desfocados.
Valentina tem umas montagens com imagens e frases que ela usa no seu perfil do facebook, são em geral cafonas e banais, mas às vezes ela acerta, às vezes ela mexe mesmo comigo, com as minhas emoções e lembranças. Não sei se é por causa disso, mas de uns tempos pra cá tenho tido um sonho recorrente, pode-se dizer que é um pesadelo, talvez: Valentina me observa através de um falso espelho.
Tem uma estranha sentada ao meu lado no ônibus, quero dizer uma desconhecida, com quem evidentemente eu não posso conversar, primeiro porque não há nada a ser dito e segundo porque qualquer coisa que eu dissesse provavelmente deixaria uma má impressão, do tipo que cara chato, ou que conversinha besta, ou mesmo que cara que se acha o tal - e isso se eu chegasse a me fazer compreender, superando a péssima dicção e a gagueira salivante que inevitavelmente se apossam da minha boca quando pretendo iniciar uma conversa, especialmente com estranhos - e então eu passaria a vê-la nas manhãs seguintes sorrateiramente evitando o banco ao meu lado, fingindo não ver que ei! há um lugar vago bem aqui do meu lado, tu não precisa ficar aí de pé nesse corredor atulhado, correndo o risco de ter a bunda assediada por uma mão indiscreta (de um operário, certamente), eu tenho superior completo e bons modos, mas talvez o assédio seja preferível a ter de suportar minha presença incomodamente lateral e tristemente esforçada por parecer simpática.
Alice ou Sara, porque ela tem cara de Alice ou Sara, provavelmente permanecerá sendo eternamente uma estranha para mim, apesar de estar neste ônibus todas as manhãs de todos os dias da semana. (Alice ou Sara ainda vai ao colégio, usa uniforme azul e uma mochila, enquanto eu me dirijo ao meu trabalho com a barba feita). Não há nada a ser dito (mas no plano-sequência 1 eu digo: oi, esse rímel fica muito bem nos teus olhões). Isso me faz lembrar da Valentina, quando a gente conversou pra valer pela primeira vez. Ela estava no fundo da sala de aula, durante o intervalo, lendo e rindo. Dom Quixote, então existe alguém que lê Dom Quixote, esse alguém é uma jovem com grandes olhos delineados por um fio negro, e parece que só eu estou percebendo que tremenda promessa de felicidade está bem ali ao alcance! (No plano-sequência 2 eu digo: sabia que quando tu prende o cabelo assim a manhã parece mais leve?) Ela me diz que Dom Quixote não é a coisa mais engraçada que ela já leu. Narra uma história meio maluca que diz ser um conto que leu na internet, em que um sujeito tenta copular (ela usou essa palavra) com a famosa estátua dinamarquesa da Pequena Sereia, dando origem a um novo complexo sexual, a tara por estátuas e monumentos. Tendo seu intento frustrado em função da ação de terceiros, em represália o maníaco decepa a cabeça de bronze da sereia, provocando comoção da comunidade internacional, caça às bruxas da perversão do mundo, vindo ao sol do conhecimento público inúmeras condutas fetichistas, taras, obsessões, como um sujeito milionário que tem uma coleção de estátuas femininas (Vênus de Milo, Santa Maria, Estátua da Liberdade, etc) com orifícios nas mãos e bocas e genitais, adaptados para perversões (ela repetia muito essa palavra) sexuais, o que não deixava de ser um avanço com relação às bonecas infláveis, que são mulheres sem personalidade. (No plano-sequência 3 eu ponho minha mão sobre a dela, com muito cuidado mas bastante decidido). Conta muito hoje em dia a personalidade da mulher, diz o tarado à reportagem após ser preso, e a Sereia Pervertida se torna um grande sucesso de vendas no mercado erótico masculino, provocando estrepitosa reação feminina: estátuas gregas com ereções! monumentais ereções! basta daqueles pingulins mirrados, isso sim é pau duro, não amolece nunca! diz uma mulher à reportagem, de qualquer forma o sêmen há muito deixou de ser fundamental, completa ela. (E tem outro plano-sequência em que passo a mão por dentro da cintura do uniforme azul dela, sem me preocupar se as pessoas no ônibus estão observando). Finalmente a humanidade alcança o estágio do sexo público, as praças se tornando locais privilegiados para todo o tipo de práticas fetichistas com estátuas, monumentos, bustos e até obeliscos! Isso era a coisa mais engraçada que ela já lera, e na época eu concordei.
E agora, tendo Alice ou Sara ao meu lado e refletindo sobre uma possível sequência à nossa história que nunca começou, relembro aqueles meses curtos e intensos ao lado de Valentina. Penso na entropia avassaladora da nossa relação, que não mais de quatro meses depois daquela divertida narração no fundo da sala levou-nos a uma monumental indiferença um para com o outro. Éramos atraídos por uma força termodinâmica que só poderia mesmo levar à desagregação, e talvez a estátua da sereia decapitada fosse o símbolo da nossa condição. Na verdade a depredação daquela magnífica sereia anunciava o início de uma era, de uma nova e angustiante era do mundo - ainda que jamais acontecesse tal depredação, que estivesse tudo dentro das nossas cabeças perdidas. Há algo de podre no reino das nossas fantasias.
Faz muito que não vejo Valentina, me limito a bisbilhotar em segredo no seu facebook e a sonhar com a sua inexplicável presença invisível por trás dos espelhos.
Música preferida: Yesterday.
Sobre mim: de uns tempos pra cá se tornou impossível sentir-me tranquila, em paz, confortavelmente instalada em mim mesma, leve – vocês sabem, sem tristeza nem culpa, mas também sem explosões doidas de alegria, arroubos de ousadia, agitações dissipadoras, enfim, parece que desaprendi, parece que me foi tirada, na verdade, a capacidade de não ficar submetida ora a um extremo, ora a outro. A vida parece estar sempre exigindo, impondo: o maldito céu ou a porra do inferno; o prazer ou o fracasso; a necessidade quase física da vitória ou o mergulho negro no abismo. Droga, não sou só eu, vocês sabem, droga, isso é assim mesmo.
Ok Valentina, acho que entendo. Yesterday faz parecer que não precisava ser assim, não é? faz parecer que não era assim, e então será que desde 1965 tornaram-se impossíveis as yesterdays e todos tivemos de nos contentar com ruídos ou silêncio, com o mais intenso dos prazeres (superando em muito o que sequer sonharam as gerações passadas) ou com a dor mais irremediável, e nunca mais soaram as notas tão despojadamente harmoniosas e tão despretensiosamente belas de Yesterday entre nós, como soavam antes? O que foi que aconteceu nesse meio tempo? Onde foi parar aquela calma contente? Por que a angústia tomou conta de tudo, inclusive do prazer, inclusive da alegria? Hoje explode-se de amor e de ódio, de romance, de vingança, mas a neutralidade sublime de Yesterday se perdeu, não é? Mas nossos pais e mães não estão mais conosco, Valentina, nós crescemos e ficamos sós, nós crescemos e não temos certeza se realmente aprendemos alguma coisa, vamos crescendo e os clichês se tornando profecias, vamos envelhecendo e ficando progressivamente mais desfocados, não é isso? (Quem é que vai te salvar, me pergunta Valentina através do espelho, em qual deles tu quer acreditar pra não entregar os pontos de uma vez? Beatles? Bergman? Dom Quixote?)
É melhor assim, Alice ou Sara, melhor que ninguém tome iniciativa, que nossa história não tenha sequência, que tu continue sendo essa aparição iluminada da manhã, essa pequena sereia dinamarquesa de uniforme e mochila e cabelo preso de um jeito diferente nos dias que tu decidir que assim deve ser, até porque, Alice ou Sara, eu não quero que percamos a cabeça, não quero te ver desbotando a cada exigência minha, não quero ver desvanecer o mistério diário da tua presença. Continue assim, apenas continue assim.
TUDO PODE ACONTECER NA VIDA, em grandes letras garrafais brancas sobre fundo preto (oh! mais uma das cafonices que acalentam a alma feminina?), mas logo abaixo em letras muito pequenas: Principalmente nada.
Às vezes Valentina acerta mesmo.
(No plano-sequencia final eu digo: prometo nunca morrer, Valentina - e Alice ou Sara deve pensar que sou um tolo.)
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| olhares - por Claudio L. Bender |
23 março 2012
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UMA VERDADE INCONVENIENTE
A filha do meu advogado interrompeu nossa conversa pra dizer que o urso polar na verdade não é branco, ele é pardo como um urso qualquer, mas o reflexo do sol no gelo faz com que seu pelo pareça branco a nossos olhos, sabia pai? Um pouco aborrecido com a intromissão olhei para o meu advogado, mas ele parecia simplesmente ignorar a vozinha insistente da filha. Vem cá Fonseca, tu não acha que ela tá olhando televisão demais, perguntei, que tipo de criança usa a palavra pardo em seu vocabulário, pensei comigo, sem coragem de admitir que crianças hiperativas me deixam em pânico, e pensando que talvez o mundo realmente acabe quando finalmente todos os jovens forem hiperativos. Ele pousou o copo sobre a mesa e disse que esse tipo de coisa ela aprende na internet. A internet é um tédio só, na minha opinião, e seria bom que a gurizada arranjasse coisa melhor pra fazer; mas eu não disse isso, me limitei a lançar um olhar esfaimado para a garçonete, tentando imaginar qual a idade dela e se ela acessaria a internet, talvez tivesse um caso virtual. O urso polar pode farejar uma foca a trinta e dois quilômetros de distância, sabia pai?
É impressionante a força do instinto de sobrevivência, e a capacidade de adaptação que a vida encontra.
Está completando três semanas desde o dia em que bisbilhotei o lixo da minha vizinha. Foi num impulso, difícil explicar, saí do elevador e me deparei com aquela sacola cheia de lixo na soleira da porta dela. Peguei em silêncio e entrei logo na minha porta, estimulado por uma ânsia incompreensível e sorrateira. Agora eu percebo, era apenas uma forma lúdica e segura de perversão. Nem tão segura, na verdade.
Lixo seco. A única coisa interessante que encontrei foi um batom, um toco de batom vermelho. Girei a base, cheirei, aroma adocicado, passei na boca, tava excitado mesmo, passei nas bochechas, na testa, difícil explicar. Minha vizinha é solteira, tem um corpo esguio e pernas longas, deve ter pouco mais do que metade da minha idade. Bis, Doritos, Heineken, Activia. Eu esperava uma embalagem de Ritalina, mas só tinha de clareador dental e sabonete líquido. Nenhuma pista sobre a vida sexual, afetiva ou profissional dela. O que ela fazia nessa vida, além de ouvir Amy Winehouse no último volume, fumar os seus baseadinhos fedorentos e sair no sábado à noite batendo a porta com estrondo? O que ela estaria fazendo nesse exato momento para não ser consumida pelo tédio, em casa?
Eu volto a explicar pro Fonseca que não sei mentir direito, que eles vão perceber meus sinais de nervosismo, que é melhor ele pensar em outra estratégia, talvez seja melhor dizer a verdade. A filha dele já desistiu de atrair nossa atenção e agora fala sozinha, trepada na cadeira, passando o dedo na parede como se fizesse desenhos imaginários. Ele me diz que todos os fatos podem ser explicados, basta encontrar uma sequencia lógica coerente, e usa a evolução dos ursos polares como exemplo. Cara de pau, será que ele tá falando sério? Será que ele não percebe que a filha hiperativa dele vai virar uma acadêmica bem sucedida na carreira mas cheia de compulsões destrutivas? Ele não percebe que a falta de imaginação vai acabar nos derrotando, a todos nós?
Alguém bateu na minha porta quando eu acabava de verificar o último item da sacola. Escondi tudo rapidamente embaixo da mesa e abri. Era ela. Lembro bem da expressão confusa no seu rosto. Ela deu uma vacilada, depois os olhos brilharam, isso é batom na tua cara?
É impressionante como o nosso instinto de sobrevivência fraqueja às vezes, contrariando toda teoria. Talvez a história da humanidade não seja mais do que a crônica da inadaptação, do crescente constrangimento ao longo do tempo, do processo gradual de sair da caverna sem realmente abandonar o útero.
Eu não sei mentir direito, fiquei nervoso, ela só queria saber se eu podia emprestar o controle remoto do portão da garagem, nem se lembrava do lixo, mas contei a verdade, confessei envergonhado, confiando na compreensão dela, afinal era só um lixo.
Faz três semanas que ela deu queixa na delegacia, danos morais ou invasão de privacidade ou coisa assim, fui intimado, contatei meu advogado, etc.
Eu sinto que, apesar de tudo, devo dizer a verdade, mas, por artimanhas da vida, não sei ao certo qual é a verdade. Ursos polares, aquecimento global, evolução biológica, justiça. A sistemática insistência dos cientistas e acadêmicos em afirmar que a ciência opera com provas e não com crenças é, evidentemente, uma prova de que essa é a crença deles.
A filha do Fonseca me dá uma última olhada, zombeteira, quando eles se levantam para ir embora. A garçonete vem recolher os copos, passa o pano na mesa, o senhor deseja mais alguma coisa? Sim, eu desejo, desejo muito, desejo de verdade, desejo a tua boca cheia de batom vermelho, a tua boca aberta e quente; mas eu não disse isso, embora fosse verdade. Escrevi no guardanapo uma frase do Fonseca que deixei à mostra sobre a mesa, esperando por uma reação dela: "O que importa não é a realidade, é a verdade, e a verdade é aquilo em que se acredita".
Difícil explicar, difícil acreditar na explicação. Todas elas - a filha do Fonseca, a minha vizinha, a garçonete, todas - me olham com essa cara de quem sabe a resposta, e eu respondo com o olhar de quem já desistiu do jogo, de quem não separa o lixo, de quem não tem perfil nas redes sociais.
Talvez a raça humana termine por pura falta de imaginação.
Já imaginou?
Talvez a raça humana termine por pura falta de imaginação.
Já imaginou?
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| O diretor de cinema Abbas Kiarostami procurando a verdade nos arredores de Teerã |
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