24 fevereiro 2026

Um "detalhe" que passa despercebido em "Valor Sentimental"

Revendo o filme do Joachim Trier (no cinema, como tem que ser) encontrei a solução para uma dúvida colocada pela cena final: se a casa da família era tão importante para o diretor Gustav Borg (Stellan Skarsgård) como cenário e local de realização das filmagens, por quê, afinal de contas, o filme está sendo realizado num estúdio? É com a imagem aberta mostrando o estúdio que o filme termina, frustrando uma expectativa que estava colocada desde as cenas iniciais, que praticamente introduzem a casa como o personagem central da obra. Como se explica esse ciclo que não se completa?

O detalhe que tinha passado despercebido na primeira vez, e que começa a responder essa questão, está sentado ao lado do diretor na cena final, quando ele diz "Corta!" - é o seu velho amigo e fotógrafo dos seus filmes anteriores (Lars Väringer), que nesse momento sorri e dá uns tapinhas de contentamento e de reconhecimento no seu parceiro. Essa presença ao lado do diretor, além de dar continuidade a uma cena que parecia isolada e sem consequências - me refiro ao encontro entre os dois na casa do fotógrafo, onde fica evidente que o diretor vai descartá-lo diante da sua precária condição física - responde ao enigma; pois, naquela cena, o fotógrafo diz expressamente que vai filmar usando uma dolly (câmera acoplada a um carrinho sobre trilhos, que é o que efetivamente vemos no estúdio), ou seja, uma estrutura pesada e espaçosa que não é compatível com a filmagem no interior de uma casa, o que obviamente seria uma forma de contornar as suas limitações físicas, mas que estaria em franca oposição aos planos de Gustav. 

Portanto, a presença dos dois velhos parceiros lado a lado na cena final, mais do que reforçar o talvez exagerado happy ending (confesso que o desfecho me parece uma concessão ao público sentimentalista norte-americano), em que até o alquebrado amigo é incluído com sucesso nos planos de Gustav, coloca em evidência o movimento de afetuosa redenção do diretor, que prefere resgatar seu velho parceiro do ocaso do que concretizar a vocação da casa familiar como centro para onde tudo converge. Me parece uma escolha importantíssima do roteiro de Trier (em parceria com Eskil Vogt), mas que tende a passar batida. E penso, ainda, que mais do que uma redenção de Gustav, essa conclusão reforça outro aspecto temático do filme: a velhice, o fim da vida que se aproxima, o ato final, a sua solidão intrínseca (que está posta de forma contundente especialmente no que não é dito na cena do encontro entre o diretor e o fotógrafo, naquela formidável troca de olhares desolados). Não por acaso, desde o primeiro visionamento eu já pensava em Rei Lear e suas três filhas, que aqui seriam duas, mas formando um trio com o acréscimo de Rachel (Elle Fanning). E tudo isso dá pano pra muitas outras reflexões, como sói acontecer com ótimos filmes.

15 fevereiro 2026

parágrafo

[como se alegrar com a escrita de ficção e estranhar a realidade]

"Os dias bons, os dias gordos, página sobre página; dias prósperos, alguma coisa a dizer, a história de Vera Rivken, e as páginas se multiplicavam e eu estava feliz. Dias fabulosos, o aluguel pago, ainda cinquenta dólares na minha conta, nada pra fazer o dia todo e a noite toda a não ser escrever e pensar em escrever: ah, os dias doces, ver tudo crescer, me preocupar comigo mesmo, meu livro, muitas palavras, talvez importantes, talvez além do tempo, mas minhas, de qualquer maneira, o indomável Arturo Bandini, indo fundo em seu primeiro romance.

"Assim uma tarde chega, e que fazer com ela, minha alma fria depois do banho de palavras, meus pés firmes no chão, e que fazem os outros, as outras pessoas do mundo?"

"PERGUNTE AO PÓ", de John Fante, trad. Paulo Leminski, ed. Brasiliense, 1987, pág. 130.

Rein Tammik

08 fevereiro 2026

As minhas leituras (e releituras) preferidas em 2025

Oito leituras e quatro releituras que mais me encantaram, confrontaram, fascinaram, desafiaram, que mais me aumentaram e me diminuíram, que mais me salvaram e me desencaminharam em 2025 (sem ordem de preferência):

Alariko

A TRÉGUA, de Mario Benedetti

(trad. Joana Angelica D'Avila Melo, ed. Coleção Folha de São Paulo - Literatura Ibero-Americana)

Minhas notas de leitura atestam o quanto fui conquistado por essa singela novela em forma de diário, meu primeiro contato com a obra do autor uruguaio. Guardo com muito carinho a recordação das leituras no Parque da Redenção; não são muitos os livros que se mostram aptos a mim para uma proveitosa leitura em público, e aqui talvez haja uma conexão com o aspecto de observação urbana do protagonista e de vizinhança entre Montevidéu e Porto Alegre.


SOLENOIDE, de Mircea Cărtărescu

(trad. Fernando Klabin, ed. Mundaréu)

Um romance cósmico e visionário, que insufla uma misteriosa inspiração, de sombria danação e luminosa levitação. Onírico e existencial, não é por acaso que me tenha provocado várias sincronicidades durante a leitura. Registrei aqui minhas breves impressões sobre esse fascinante romance contemporâneo romeno.


OS MUJIQUES, de Anton Tchékhov

(trad. Rubens Figueiredo, ed. Todavia)

É o segundo volume dos contos e novelas da fase final da obra do meu contista favorito, excelente serviço prestado pela editora Todavia. É com sua consagrada sutileza que o autor narra reflexões terrivelmente francas dos personagens, e também as pequenas e preciosas alegrias que, entretanto, não resistem ao curso inevitável das desilusões. Aqui algumas notas de leitura.


A LONGA VIAGEM DE PRAZER, de Juan José Morosoli

(trad. Sergio Faraco, ed. Mercado Aberto / Metrópole / IEL)

Outro uruguaio na lista, bem menos lembrado do que Benedetti. O universo interiorano gaucho ganha, na prosa econômica dos contos de Morosoli, surpreendente força calada, cativante humor ingênuo e ternura sob camadas de aridez.


O CORAÇÃO PRONTO PARA O ROUBO, de Manuel António Pina

(ed. 34)

O que pode ser melhor do que descobrir um poeta contemporâneo (1943-2012) que fala contigo na tua língua nativa e no mesmo idioma da tua alma? 

Teoria das cordas

Não era isso que eu queria dizer, /

queria dizer que na alma /

(tu é que falaste da alma), /

no fundo da alma e no fundo /

da ideia de alma, há talvez /

alguma vibrante música física /

que só a Matemática ouve, /

a mesma música simétrica que dançam /

o quarto, o silêncio /

a memória, a minha voz acordada, /

a tua mão que deixou tombar o livro /

sobre a cama, o teu sonho, a coisa sonhada; /

e que o sentido que tudo isto possa ter /

é ser assim e não diferentemente, /

um vazio no vazio, vagamente ciente /

de si, não haver resposta /

nem segredo.


TESTEMUNHO TRANSIENTE, de Juliano Garcia Pessanha

(ed. Cosac Naify)

Não é menor a satisfação de descobrir um ensaísta contemporâneo na tua língua nativa, que ousa levar tua alma aos limites onde se encontram (e se perdem) o estudo filosófico, o aforismo, a ficção, a biografia, o poema em prosa, a confidência - um esforço corajosamente autêntico de estranhamento, desassossego e visão poética. O volume (fora de catálogo) reúne quatro livros do autor, publicados entre 1999 e 2009: Sabedoria do nunca, Ignorância do sempre, Certeza do agora Instabilidade perpétua.


A LITERATURA E OS DEUSES, de Roberto Calasso

(trad. Jônatas Batista Neto, ed. Companhia das Letras)

Parte de um ponto, chega em outro, atravessa e se detém e parte novamente, e o leitor vai junto, mais interessado na qualidade da prosa em si do que no produto final das reflexões - eis um livro magnificamente ensaístico, inspirado, culto, apaixonado pela arte literária e seduzido pelos seus mistérios. Fiz algumas notas de leitura.


O ÚLTIMO LEITOR, de Ricardo Piglia

(trad. Heloisa Jahn, ed. Companhia das Letras)

É da mesma categoria que o livro do Calasso - menos erudito e refinado, talvez, contudo mais claro e eloquente. O que importa é que é movido pelo mesmo fascínio que tanto absorve a nós, leitores que habitam esse "espaço entre o imaginário e o real, [que] desmonta a clássica oposição binária entre ilusão e realidade. Não existe nada simultaneamente mais real e mais ilusório do que o ato de ler."


MELHORES RELEITURAS:

Caspar David Friedrich

O PROCESSO, de Franz Kafka

(trad. Modesto Carone, ed. Companhia das Letras)

Motivado por uma situação pessoal que guarda alguma semelhança com a situação de Josef K., retornei a esse clássico depois de muitos anos. A verdade é que não é necessária qualquer justificativa para voltar a uma narrativa tão poderosamente estranha, tão misteriosamente familiar, tão consoladoramente desesperançada.


O COMPLEXO DE PORTNOY, de Philip Roth

(trad. Cezar Tozzi, ed. Círculo do Livro)

Depois de anos, confirmei que trata-se de uma das narrativas mais hilárias e provocativas que conheço, embora isso de modo algum esgote as qualidades da verve da sua prosa, inclusive da sua insuspeitada ternura.


O ESTRANGEIRO, de Albert Camus

(trad. Valerie Rumjanek, ed. Record)

Outro retorno depois de vários anos, e dessa vez da melhor maneira possível: gostando muito mais do que da primeira vez. Conforme registrei nas minhas notas de leitura, o ápice do livro é, mais do que o seu cume dramático, também o seu magnífico ponto de inflexão estilístico.


CARPINTEIROS, LEVANTEM BEM ALTO A CUMEEIRA & SEYMOUR, UMA APRESENTAÇÃO, de J.D. Salinger

(trad. Jorio Dauster, ed. L&PM)

Não seria nenhum exagero se eu elegesse este como o meu livro preferido da vida, portanto demorei muito para finalmente conhecer a tradução do Jorio Dauster - havia lido e relido as do Alberto Alexandre Martins (ed. Brasiliense) e do Caetano Galindo (ed. Todavia) - e só lamentei que o simpático Kilroy (grafite cartunesco norte-americano) virou Biriba nesta tradução (troca ruim, pois o contexto em que o Kilroy é citado combina com o seu bordão, "Kilroy was here", além de remeter à 2ª Guerra Mundial, evento que é uma espécie de baixo-contínuo de toda a obra salingeriana). Mas o que importa é que cheguei à conclusão de que, se Proust é o meu prosador favorito da primeira metade do século XX, Salinger é o da segunda metade; sou completamente capturado pelos seus universos ficcionais, envolvido pelo humor e pela visão de mundo dos personagens/narradores e seduzido pelo estilo e pelo trabalho com a linguagem, a tal ponto que é um grande prazer acompanhá-los inclusive quando parecem deambular sem rumo em digressões prolixas e redundantes e copiosas. Tenho um ensaio sobre a obra do Salinger aqui.