08 fevereiro 2026

As minhas leituras (e releituras) preferidas em 2025

Oito leituras e quatro releituras que mais me encantaram, confrontaram, fascinaram, desafiaram, que mais me aumentaram e me diminuíram, que mais me salvaram e me desencaminharam em 2025 (sem ordem de preferência):

Alariko

A TRÉGUA, de Mario Benedetti

(trad. Joana Angelica D'Avila Melo, ed. Coleção Folha de São Paulo - Literatura Ibero-Americana)

Minhas notas de leitura atestam o quanto fui conquistado por essa singela novela em forma de diário, meu primeiro contato com a obra do autor uruguaio. Guardo com muito carinho a recordação das leituras no Parque da Redenção; não são muitos os livros que se mostram aptos a mim para uma proveitosa leitura em público, e aqui talvez haja uma conexão com o aspecto de observação urbana do protagonista e de vizinhança entre Montevidéu e Porto Alegre.


SOLENOIDE, de Mircea Cărtărescu

(trad. Fernando Klabin, ed. Mundaréu)

Um romance cósmico e visionário, que insufla um misterioso sopro de inspiração, de sombria danação e luminosa levitação. Onírico e existencial, não é por acaso que me tenha provocado várias sincronicidades durante a leitura. Registrei aqui minhas breves impressões sobre esse fascinante romance contemporâneo romeno.


OS MUJIQUES, de Anton Tchékhov

(trad. Rubens Figueiredo, ed. Todavia)

É o segundo volume dos contos e novelas da fase final da obra do meu contista favorito, excelente serviço prestado pela editora Todavia. É com sua consagrada sutileza que o autor narra reflexões terrivelmente francas dos personagens, e também as pequenas e preciosas alegrias que, entretanto, não resistem ao curso inevitável das desilusões. Aqui algumas notas de leitura.


A LONGA VIAGEM DE PRAZER, de Juan José Morosoli

(trad. Sergio Faraco, ed. Mercado Aberto / Metrópole / IEL)

Outro uruguaio na lista, bem menos lembrado do que Benedetti. O universo interiorano gaucho ganha, na prosa econômica dos contos de Morosoli, surpreendente força calada, cativante humor ingênuo e ternura sob camadas de aridez.


O CORAÇÃO PRONTO PARA O ROUBO, de Manuel António Pina

(ed. 34)

O que pode ser melhor do que descobrir um poeta contemporâneo (1943-2012) que fala contigo na tua língua nativa e no mesmo idioma da tua alma? 

Teoria das cordas

Não era isso que eu queria dizer, /

queria dizer que na alma /

(tu é que falaste da alma), /

no fundo da alma e no fundo /

da ideia de alma, há talvez /

alguma vibrante música física /

que só a Matemática ouve, /

a mesma música simétrica que dançam /

o quarto, o silêncio /

a memória, a minha voz acordada, /

a tua mão que deixou tombar o livro /

sobre a cama, o teu sonho, a coisa sonhada; /

e que o sentido que tudo isto possa ter /

é ser assim e não diferentemente, /

um vazio no vazio, vagamente ciente /

de si, não haver resposta /

nem segredo.


TESTEMUNHO TRANSIENTE, de Juliano Garcia Pessanha

(ed. Cosac Naify)

Não é menor a satisfação de descobrir um ensaísta contemporâneo na tua língua nativa, que ousa levar tua alma aos limites onde se encontram (e se perdem) o estudo filosófico, o aforismo, a ficção, a biografia, o poema em prosa, a confidência - um esforço corajosamente autêntico de estranhamento, desassossego e visão poética. O volume (fora de catálogo) reúne quatro livros do autor, publicados entre 1999 e 2009: Sabedoria do nunca, Ignorância do sempre, Certeza do agora Instabilidade perpétua.


A LITERATURA E OS DEUSES, de Roberto Calasso

(trad. Jônatas Batista Neto, ed. Companhia das Letras)

Parte de um ponto, chega em outro, atravessa e se detém e parte novamente, e o leitor vai junto, mais interessado na qualidade da prosa em si do que no produto final das reflexões - eis um livro magnificamente ensaístico, inspirado, culto, apaixonado pela arte literária e seduzido pelos seus mistérios. Fiz algumas notas de leitura.


O ÚLTIMO LEITOR, de Ricardo Piglia

(trad. Heloisa Jahn, ed. Companhia das Letras)

É da mesma categoria que o livro do Calasso - menos erudito e refinado, talvez, contudo mais claro e eloquente. O que importa é que é movido pelo mesmo fascínio que tanto absorve a nós, leitores que habitam esse "espaço entre o imaginário e o real, [que] desmonta a clássica oposição binária entre ilusão e realidade. Não existe nada simultaneamente mais real e mais ilusório do que o ato de ler."


MELHORES RELEITURAS:

Caspar David Friedrich

O PROCESSO, de Franz Kafka

(trad. Modesto Carone, ed. Companhia das Letras)

Motivado por uma situação pessoal que guarda alguma semelhança com a situação de Josef K., retornei a esse clássico depois de muitos anos. A verdade é que não é necessária qualquer justificativa para voltar a um narrativa tão poderosamente estranha, tão misteriosamente familiar, tão consoladoramente desesperançada.


O COMPLEXO DE PORTNOY, de Philip Roth

(trad. Cezar Tozzi, ed. Círculo do Livro)

Depois de anos, confirmei que trata-se de uma das narrativas mais hilárias e provocativas que conheço, embora isso de modo algum esgote as qualidades da verve da sua prosa, inclusive da sua insuspeitada ternura.


O ESTRANGEIRO, de Albert Camus

(trad. Valerie Rumjanek, ed. Record)

Outro retorno depois de vários anos, e dessa vez da melhor maneira possível: gostando muito mais do que da primeira vez. Conforme registrei nas minhas notas de leitura, o ápice do livro é, mais do que o seu cume dramático, também o seu magnífico ponto de inflexão estilístico.


CARPINTEIROS, LEVANTEM BEM ALTO A CUMEEIRA & SEYMOUR, UMA APRESENTAÇÃO, de J.D. Salinger

(trad. Jorio Dauster, ed. L&PM)

Não seria nenhum exagero se eu elegesse este como o meu livro preferido da vida, portanto demorei muito para finalmente conhecer a tradução do Jorio Dauster - havia lido e relido as do Alberto Alexandre Martins (ed. Brasiliense) e do Caetano Galindo (ed. Todavia) - e só lamentei que o simpático Kilroy (grafite cartunesco norte-americano) virou Biriba nesta tradução (troca ruim, pois o contexto em que o Kilroy é citado combina com o seu bordão, "Kilroy was here", além de remeter à 2ª Guerra Mundial, evento que é uma espécie de baixo-contínuo de toda a obra salingeriana). Mas o que importa é que cheguei à conclusão de que, se Proust é o meu prosador favorito da primeira metade do século XX, Salinger é o da segunda metade; sou completamente capturado pelos seus universos ficcionais, envolvido pelo humor e pela visão de mundo dos personagens/narradores e seduzido pelo estilo e pelo trabalho com a linguagem, a tal ponto que é um grande prazer acompanhá-los inclusive quando parecem deambular sem rumo em digressões prolixas e redundantes e copiosas. Tenho um ensaio sobre a obra do Salinger aqui.